Quadrante Sul *

Armindo Vaz D’Almeida **

Éramos por fim chegados

ao dia de amanhã

sim

ao célebre dia de amanhã

a esse dia por todos tão querido

e tão intimamente ansiado

na pausa fugaz

e intáctil da cada suspiro

 

Finalmente o dia de amanhã

o tal de todos nós

longamente aninhado

no fragor silenciado de cada peito

para germinar no epicentro da tormenta

octaedros finos de luz sem fim

e sob a humidade última da terra

incendiar o fôlego mais remoto dos corações

 

Foi então momento de se ouvir

Toma camarada e respira

meus pulmões se quiseres

minhas unhas e meus dentes também

meu peito varado de tibiezas

o meu todo

o meu corpo inteiro

e tudo se necessário meu irmão...

Mas de repente

qual malefício de noites mesmo sem noite

o dia começou a perder a cor

estarrecido frente ao turbilhão

de deuses titubeantes e sem altar

de astros desorbitados

de estrelas navegando sem rumo

e vozes reclamando graça aos amanheceres

 

Hoje no ar entretanto

sob a cor ímpia e vertical das trevas

persiste monótono e igual

o mesmo choro miúdo das crianças

e com ele apenas o sopro gentil do vento sul

diluindo-se impotente e já sem resposta

para alimentar e dar fé ao dia

incrédulo quanto á profecia do amanhã.

 

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* In Noctuno em Laivos de Amor, Herança Cultural, Livros do ISPV, Série A, nº 1, p.53.

* * São Tomé e Príncipe

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