O papel da escola e do ensino da Língua Portuguesa no processo de inserção de adultos migrantes nas grandes cidades

 

Nilce da Silva*

 

Este artigo apresenta alguns questionamentos a respeito da importância da escola e do ensino do Português para adultos migrantes em situação de pouca escolarização1. Temos como contra-ponto da nossa reflexão: pesquisa realizada com brasileiros supra-escolarizados em Paris e, em situação de pouca escolarização em Gotemburgo.

O material produzido pela Previdência Social e UNICEF fala da situação do trabalho infantil em partes do nordeste brasileiro. Mostra-nos como nossa sociedade tolera a exploração das crianças, abreviando o tempo do brincar e do estudar das mesmas, comprometendo os seus futuros. Alguns dos sujeitos desta pesquisa tinham poucas possibilidades de vida digna em seus locais de origem. Partir para São Paulo, torna-se uma possibilidade.

Para os migrantes nesta megalópole e para as brasileiras nordestinas casadas com suecos -para obterem a permissão de emigrarem- o fator econômico, a luta pela sobevivência no cotidiano, expulsou estas pessoas de suas terras. Com os brasileiros em Paris, o fator econômico não foi o motivo principal que os levou a deixarem o Brasil. Destacamos : a ditadura militar e a possibilidade de estudos no exterior.

Nascem assim dois fenômenos parecidos: A criação de uma fábrica de iletrismo na França, e outra, de analfabetismo, aqui.

Lahire afirma que a partir dos anos 70, a descoberta do iletrismo ganhou visibilidade. Na França, criou-se o Grupo Permanente de Luta contra o Iletrismo sendo considerado o legítimo produtor deste discurso, definindo o iletrado como: pessoas com mais de dezesseis anos que não dominam suficientemente bem a escrita em face das exigências mínimas requeridas por sua vida profissional, social, cultural e pessoal. As pessoas que são alfabetizadas dentro das escolas, e que saem do sistema escolar sem adquirir os saberes escolares primeiros por razões sociais, familiares ou funcionais .

No Brasil, a definição predominante é analfabetismo funcional:  Pessoa incapaz de exercer todas as atividades para as quais a alfabetização é necessária e para o bom funcionamento da pessoa em seu grupo e na sociedade a qual pertence.

Segundo Lahire, iletrismo é declinado na França da seguinte maneira: iletrismo, pobreza, precariedade, exclusão, jovens em dificuldade, fracasso escolar. Aqui, acrescentamos, analfabetismo é : nordestino, negro, marginal, excluído.

Biarnés entende que os conceitos analfabetismo/iletrismo são maculados pois indicam falhas das pessoas. Constrói o conceito de letrismo a-funcional, isto porque, para ele, ninguém está totalmente fora da letra ou dentro da letra. O autor procura compreender a(s) funcionalidade(s) que construímos na relação com a letra; funcionalidades externas, na comunicação com os outros; e funcionalidades internas, na nossa economia psíquica.

Cabe salientar a plausibilidade do chamado analfabetismo de resistência. Isto ocorre quando a letra passa a ser um perigo muito grande de perda da identidade, sua a-funcionalidade torna-se uma arma eficaz contra essa perda fundamental.

Um dos maiores problemas do ser humano é aceitar a realidade interior, concebê-la e relacioná-la com o mundo exterior. Para que esta tensão do viver não chegue a extremos, precisamos jogar. Assim, tentamos controlar o que está fora de nós, passando por um processo de desilusão onde separamos o eu da realidade exterior.

Muitos dos nossos sujeitos aprendiam algo relacionado à língua, ou seja, atuavam vivamente: procuravam reforçar sua identidade; buscavam sua alteridade; o trabalho assim exigia; "amavam" uma pessoa que pertencia ao novo mundo; possuíam projeto de vida; sabiam das suas competências; conseguiam gerenciar tempo e energia, e, tinham condições de estabilidade econômica, emocional e física.

Concluímos que ser considerado letrado a-funcional ou analfabeto de resistência, pode ser entendido como um sofrimento para uma pessoa, porque passar da língua oral, para a escrita é uma tarefa difícil.

Bourdieu faz interessantes afirmações sobre o universo da linguagem, descortinando-o. Ele nos apresenta a riqueza das interlocuções no cotidiano, captando a relação entre os agentes sociais, afirmando que a estrutura social é representada dentro de cada um destes momentos, percebendo-se a hierarquia social no ato da interlocução, no qual há pessoas autorizadas a falarem. O estilo do falante é a característica que aponta sua identidade no grupo. Instaura-se uma situação na qual há uma fala menos legítima, ordinária, trivial, vulgar, corrente, livre e popular e, uma fala distinta, correta e publicável. O espaço de encontro entre o eu e o outro é caracterizado como multi-cultural e tenso. Nossos sujeitos viviam em situação de angústia, sobre tudo quando sabiam que a escrita ou a fala padrão lhes seriam exigidas.

Na escola ocorrem diversos rituais: obter um diploma, a colação de grau; tão mágicos como possuir um amuleto. Ou seja, os ritos e cerimônias têm o poder de criar diferenças que anteriormente não existiam, ou reforçar as que já existiam. Ter um diploma age sobre o real no momento de se obter um emprego como age também sobre a representação deste real. Cria-se uma fronteira entre os excluídos e os incluídos.

Neste sentido, três afirmações devem ser feitas: 1 O aumento do número de adultos matriculados no ensino supletivo não aumenta a possibilidade de inserção social de fato, desse mesmo número de adultos; 2 As diferentes discriminações, quando relacionadas com os falares, acompanham o indivíduo por todos os lugares do planeta. Coletamos depoimento de nordestinos em Paris que foram discriminados por alguns sulistas brasileiros, embora, no momento, estejam na mesma situação de vida: excluídos pela sociedade francesa. 3 Aprender a ler e a escrever bem o Português não garante a cidadania para os brasileiros no Brasil, e no mundo.

O conhecimento da língua oficial é feito de maneira desigual, sobretudo, pela escola. Por isso, modificações estratégicas são postas em prática pelo falante menos favorecido, no sentido de corrigir o seu discurso e torná-lo mais aceitável. Alguns dos sujeitos desta pesquisa encontravam dificuldades para aprender a ler ou a escrever sendo que tal resistência pode ser considerada como um sintoma- manifestação do seu inconsciente.

Sabemos que há obstáculos para a aquisição da língua escrita e também, há facilitadores. Questionamos: O que favoreceu a passagem de uma língua à outra? De uma identidade à outra ? O que ajuda a pessoa nesta travessia?

Na medida em que muitos sujeitos não conseguiam mudar de mundo, da oralidade para a escrita, com facilidade, e acabaram ainda por encontrar-se com professores que, por diversos motivos, procuram auxiliá-los nesta passagem de modo equivocado, toda uma imagem de negatividade, de insucesso, de incapacidade formou-se e cristalizou-se para eles. A passagem do mundo oral para o escrito pode provocar problemas intransponíveis, pois significa mudar de mundo. A angústia gerada é tão forte que a fuga torna-se uma saída possível. Para conhecermos a extensão e como se dá esta mudança de mundo, faz-se necessário o conhecimento da história de vida de cada um dos nossos sujeitos. Faz-se necessário um trabalho pedagógico de renarcisisação da pessoa. Aquele que se acreditava incapaz, descobre suas reais capacidades, substituindo uma antiga identidade do ser incapaz, pela, de ser capaz. O professor e a escola podem se tornar excelentes instrumentos para atravessar o pior.

"Como pode o professor trabalhar com a pluralidade lingüística em sala de aula?" Ele precisa saber e admitir a sua existência nas salas de aula paulistanas, nas quais o Português tem alto grau de diversidade. Faz-se mister a existência de um contínuo processo interior e exterior de luta contra os diversos tipos de preconceitos.

Em suma, a escola e o professor de alfabetização de adultos não pode ignorar a linguagem como um instrumento de ocultação da verdade, da manipulação do outro, de controle, de intimidação, de opressão, de silêncio.

 

Referências Bibliográficas

 

BIARNÈS, Jean. O ser e as letras: da voz à letra, um caminho que construímos todos. Revista da Faculdade de Educação. São Paulo, Jul./ dez. 1998.

BOURDIEU, Pierre. Ce que parler veut dire- L’ economie des échanges linguistiques. Paris: Librairie Arthème Fayard, 1982.

CAMPOS, Marta Silva et al. Trabalho infantil, desafio a sociedade. Análise do Programa de Erradicação do Trabalho Infantil no período de 1996-1997. São Paulo: S.P., IEE/PUC- São Paulo; Brasília: Secretaria de Estado da Assitência Social, MPAS, 1999.

LAHIRE, Bernard. L’invention de l’illettrisme: rethorique publique, éthnique et stigmates. Paris: La Découvert, 1999.

___________________

* Professora Doutora da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo da área de Linguagem.

Este artigo é fruto da nossa pesquisa de doutorado : Falar, ler, escrever : um estudo sobre o processo de formação de jovens e adultos em situação de pouca escolarização ». FEUSP-2002, com estágio de um ano na Universidade Paris 13, 1999-2000.

sumário