O bug do milénio e alguns bugs do século

Maria da Conceição Duarte Pereira *

Uma coisa é mostrar a um homem que ele errou e outra é

dar-lhe a conhecer a verdade.

John Locke

Ensaio sobre o entendimento humano

 

Júbilo! Muito festim e folguedo! Para todos os gostos e, sobretudo, bolsas. Afinal, não é todos os dias que se entra no ano 2000. Ou se muda de século e milénio, segundo alguns...

Defendendo esta última perspectiva em 31 de Dezembro de 1999, a humanidade não se poupou a esforços para entrar condignamente neste novo ciclo. Por exemplo, em Jerusalém, fez-se uma monumental escultura com dez mil peças de vidro, mesmo em frente à fortaleza do Rei David. Em Washington, no Lincoln Memorial, o fogo de artifício fez corar, não o sol, pois era noite, mas a lua. Tal a sua amplitude e magnificência. Em Sidney, metrópole olímpica do país que, por via da diferença horária foi o primeiro a saudar o novo ano, assistiu-se a um deslumbrante e magnífico desfile de lanternas mágicas no porto da cidade. Em Nova York, na celebérrima Times Square, dois milhões de convivas aclamaram o novo ano esparramando doses industriais de confetis. Diz quem viu, que, uma vez mais, o show pirotécnico foi demolidor. Já em Paris, noblesse oblige, o requinte foi a nota dominante. No Ritz, o repasto do reveillon custou a módica quantia de 400 contos per capita! Também, à base de espadarte e trufas, outra coisa não seria de esperar! Para já não falar na carta de vinhos!... Em Berlim, a festa foi de arromba! Foram quatro dias que quase abalaram o mundo. A porta de Brandenburg nunca vira nada igual. Se calhar, nem quando caiu o muro. O tal da vergonha! Quem a ela se quisesse associar, tinha que desembolsar a módica quantia de 200 marcos. A cerveja, essa correu a jorros pelas sequiosas gargantas. Dois milhões de litros da dita, foram os números avançados. Em Londres, na margem esquerda do Thames, em Greenwich, foi a célebre bolha com picos - a que deram o pedante nome de Millennium Dome - e que, volvido menos de um ano, viria a redundar num colossal fiasco. Também a roda gigante - o London Eye - de fazer inveja ao vienense Pratter, que era suposto ter proporcionado as mais fantásticas imagens da city banhada pela luz dos fogos de artifício. Afinal, não! À última da hora, a roda roeu a corda. Por questões de segurança, não fez as delícias dos que já haviam adquirido um ingresso. Ou dos que, bafejados pela sorte, haviam ganho um bilhete num concurso entretanto levado a efeito. No Egipto, sob o olhar atento das pirâmides de Gizé, o concerto de Jean-Michel Jarre de título genérico Os 12 Sonhos do Sol, quase fez reerguer Ramsés de tão faraónico que foi. Em Monte Carlo, no minúsculo principado do Mónaco, a festa de luz e cor foi no Palácio, no Casino e no afamado Hotel de Paris. Em França, berço do champanhe, a quem já chamaram o néctar dos deuses, duas novidades houve, dignas de nota. A primeira diz respeito, precisamente, ao champanhe. Nada mais nada menos do que uma garrafa do dito, que, por força do publicitariamente correcto e para que a todos aguçasse o apetite, propalou-se aos quatros ventos que continha o espírito do século! Nem mais, nem menos! E o que era, então? Sabedora do ofício, a casa Moët et Chandon procedeu a uma mistura de aromas e garrafas do precioso líquido, religiosamente guardadas ao longo dos anos de melhor produção, entre 1900 e 1995. Para o preparar, foi necessário calcorrear os 28 quilómetros de galerias subterrâneas, atulhadas com mais de 100 milhões de garrafas cuidadosamente acondicionadas. Quem sabe, sabe!... A segunda novidade refere que, por via das novas tecnologias de ponta, nomeadamente o laser, a uma vetusta catedral gótica foram dadas, ainda que por breves e fugazes instantes, as primitivas tonalidades da fachada.

Já em 2000, depois de esconjurada a ameaça do abominável bug, agora sim, em fim de século e milénio - pelo menos na minha modesta opinião - curiosamente, os festejos não foram nada por aí além. Não se viu nada de grandioso ou espampanante que se comparasse ao pretérito ano.

Mas, ainda assim, alguns houve. Como em Kuala Lampur, aqueles saltos radicais de parapente que intrépidos desportistas ousaram ensaiar do Petronas Twin Tower. Apenas o mais alto edifício do mundo, do alto dos seus 452 metros, que já serviu de cenário a Entrapement, a película protagonizada por Sean Connery e Catherine Zeta-Jones. Ou ainda, em Paris, com a velhinha Torre Eiffel toda cravejada de cintilantes luzes azuis. Já em Moscovo, o fogo de artifício rasgou a noite e ecoou pelos céus da Praça Vermelha. Ao som dos acordes do recém recuperado hino Estalinista, agora com outras palavras, ajustadas às novas realidades nacionais. Na Praça de São Pedro, no Vaticano, João Paulo II só pediu paz para o Mundo. Sob o olhar atento da gigantesca árvore de Natal, este ano proveniente da austríaca província da Caríntia. Essa mesma, a governada pelo senhor Haider. Ironias do destino!... Mas houve mais. Londres, Berlim, até Varsóvia se deu ao luxo de inaugurar um monumental relógio, com dezenas de metros de diâmetro, visível ao longe pelo mais pitosga dos míopes. Na Big Apple, a bola de miríades lâmpadas voltou a reerguer-se, ao compasso do matraquear das badaladas do relógio. Na capital da Lusitânia, as vivas ao novo milénio foram dadas no Parque das Nações e na Torre de Belém. Mais a norte, os tripeiros vingaram-se e fizeram esquecer a bronca do ano transacto. Houve champanhe, ao som de retumbante fogo de artifício e presenciou-se a passagem de testemunho dos mensageiros de Santiago de Compostela, Capital Europeia da Cultura 2000. Em total e perfeito contraste, por terras além Tejo, as monjas do Carmelo do Beato Nuno, no Crato, entraram no novo ano com cânticos e orações. Como o fazem, aliás, de há 50 anos a esta parte.

Enfim, estas foram algumas festanças que o homem levou a cabo para comemorar a entrada nesta nova Era, século e milénio, que se espera e, sobretudo, deseja melhor. Substancialmente melhor!

Mas será que temos motivos para tão grande algazarra e alarido? É assim tanta a felicidade que vai pelo planeta que nos leva a exultar desta maneira? Ou não será antes uma aflitiva e subconsciente vontade de exorcizar os fantasmas que infernaram a época que ora se encerra?

Sem grandes pretensões, até porque não tenho arcaboiço para tanto, procurarei abordar, de forma simples e sem grandes maneirismos, alguns dos cancros - a que dei o nome de bugs – que, no meu tímido parecer, envenenaram e conspurcaram o mundo. Muitos ainda persistem, teimosos!... Mas outros haveria. Capitalismo, Fascismo, Imperialismo, Colonialismo e tantos outros ismos que povoam as enciclopédias e os dicionários. Mas escolhi apenas três – Nazismo, Comunismo e Racismo. Afinal, o caminho percorrido do australopithecus ao homo sapiens – passando pelo homo habilis e pelo homo erectus -, apesar de se contar por milhões de anos, parece ainda mal ter começado. Sinceramente, às vezes penso que estamos ainda na idade da pedra da razão e do entendimento. Quanto mais se progride em tecnologia e inovação(?), mais se regride em civilidade, educação e, sobretudo, altruísmo!...

Recuando no tempo, ao primeiro quartel do século vinte, encontramos a humanidade dilacerada por uma cruel e sanguinolenta guerra, que havia dizimado largos milhares de seres. Esmagados, trucidados, sem dó nem piedade, em bolorentas trincheiras um pouco por essa Europa fora. Verdum foi uma amostra. Era urgente a criação de uma entidade, ou organização, vocacionada para sanar os conflitos que iam surgindo naqueles conturbados tempos. Assim nasce, em 1920, a Sociedade das Nações. Foi o embrião da ONU, que veria a luz do dia vinte e cinco anos mais tarde. Prometia muito! Aliás, tudo prometia. Auxílio em caso de catástrofes - naturais ou não -, protecção das minorias e todo um sem número de solidariedades. O chavão dos direitos humanos foi usado e abusado. Até à exaustão! Criam-se agências especializadas, sob os auspícios da recém criada organização, para acudir a tudo e a todos. A Unesco, a Fao, a Unicef, o Banco Mundial... São apenas alguns nomes. Todavia, não consta que a humanidade estivesse - ou esteja - mais unida, coesa, solidária ou cooperante. Eram, e são, todos muito amigos. Contudo, sempre há uns mais amigos do que outros!... Criam-se forças de paz para todas as eventualidades. Concebe-se um Conselho de Segurança, responsável pela manutenção dessa mesma paz, mas onde apenas alguns aí têm direito de veto. Claro que são os bons, os patrões do mundo, os que sabem do mister. Tantos exemplos de intervenções para manutenção(?) ou restauração(?) da paz poderiam aqui ser abordados, apenas a título de exemplo e meramente comparativos. Ao Kuweit e à ex-Jugoslávia, por exemplo, foram a correr. E o que fizeram pelos Mauberes? Ou pelos Tchetchenos? Ou, ainda, pelos martirizados Africanos? Aqui, não faz mal, pensam eles. São pretos!... Abstenho-me de mais comentários sarcásticos, até porque já estou a avançar no tempo. Mas, com amigos destes, quem precisa de inimigos?...

Volvendo aos anos vinte, eis que surge (...) nas montanhas da Áustria, perto do Reno (...) uma fera selvagem e furibunda (...) parafraseando Nostradamus - ostentando um ridículo bigode, pespegado numa ainda mais ridícula carranca, sustentáculo de um execrável emaranhado de rançosa massa cinzenta, que muitos teimam em chamar cérebro(?). Em 1920 adopta a suástica como símbolo do seu regime e, em 1921, assume a liderança do National Sozialistische Deutsche Arbeiterpartei - Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães. Novo nome do Partido dos Trabalhadores Alemães, criado em 1919 por Anton Drexler, um serralheiro de Munique. Adolph de nome e Hitler de apelido, curiosamente, este a quem o profético médico antevira como Hister, não nasceu alemão mas sim austríaco. Pintor frustrado - por duas vezes falhou a entrada na Academia de Belas Artes - serviu nas trincheiras do primeiro grande conflito e foi espião. É preso em Novembro de 1923, após o abortado golpe de Munique. No cárcere, dita ao leal secretário - Rudolf Hess - aquele que seria o seu manifesto político - Mein Kampf - a minha luta. Ein Reich, ein Volk, ein Führer - um império, um povo, um líder - começou por ser a sua pérfida e abjecta senha. Com a democracia debilitada, foi-lhe fácil chegar onde quis. Em 1933, os Nazis eram já uma esmagadora e incontrolável maioria e Hitler o seu incontestado e carismático líder. Outros, fidelíssimos, ajudaram a consolidar a barbárie. Neste autêntico esgoto humano(?), Goebbels, Himler, Rommel, Goering, Eichmann ou Hess, são apenas luciféricos apelidos que se escrevem a sangue no quadro de honra da malvadez! Ao último, deve-se a famosa saudação de braço estendido, acompanhada de um sonoro e gutural Heil Hitler!... Longe, muito longe, vão os tempos de Herodes. Mas outra matança de inocentes se perpetrava.

Quiçá de forma fria e calculista planeada em Obersalzberg - Berchtesgaden - O Ninho da Águia - covil alpino mandado construir e oferecido pelos devotos servidores do partido ao não menos dedicado Führer, aquando do seu 50º aniversário. Holocausto foi o vocábulo que a identificou. Era preciso eliminar os impuros, os imperfeitos. Enquanto as pessoas permanecerem racialmente puras e conscientes do tesouro que representa o seu sangue (...) foi um slogan, entre tantos, que destas mentes iluminadas surgiram e que alimentaram o ódio pelo outro. Chegou-se ao ponto de criar campos de extermínio, reino de terror das maléficas Schutzstaffel - as SS.

 

De forma rápida e limpa, suprimiram-se os indesejáveis. Milhões deles. Entre judeus, homossexuais, ciganos, católicos, protestantes, sindicalistas, comunistas e tantos outros que para lá eram levados em vagões. Como se de gado se tratassem. Deles, disse Goebbels em Agosto de 1934, então titular da pasta da propaganda, ser necessário tornar os membros anti-sociais da sociedade em membros úteis pelos meios mais humanos possíveis!!... Precisamente nos campos que haviam criado. Era a Solução Final - concebida pelo odioso Adolph Eichmann - posta em marcha. O primeiro dos muitos matadouros - Dachau - a uma escassa trintena de quilómetros de Munique, vê a luz do dia em 1933, cogitado pelo fiel Heinrich Himmler. Talvez pelos bons serviços prestados à causa, é nomeado, três anos mais tarde, chefe de todos os serviços policiais. Incluindo a famigerada Geheime Staatspolizei - Polícia Secreta do Estado – a temível Gestapo, fundada por Hermann Goering.

Afastados os opositores e feita a purga dos menos fiéis, dos alegados opositores dentro do partido, na operação que ficou conhecida como die Nacht der langen Messer - a noite das facas longas - levada a cabo entre os dias 29 e 30 de Junho de 1934, um tétrico fim-de-semana, estava aberta a época de caça. Era preciso exterminar os considerados menos bons, os polutos. O tiro de partida foi dado na noite de 9 para 10 de Novembro de 1938, na tristemente célebre Kristallnacht - a noite de cristal - idealizada e instigada por Josef Goebbels, o diligente ministro da propaganda. Por toda a Alemanha e territórios sob ocupação Nazi, a coberto das sombras, milhares de judeus foram presos e encaminhados para campos de concentração. Lojas, lares judaicos e sinagogas foram pasto das chamas. Não foi ninguém, nem ninguém viu. Era noite!... Daqui para a frente, foi o horror, a carnificina e tudo o que se lhe seguiu e que não encontro adjectivos para qualificar. Tudo apoiado por uma sólida e bem oleada máquina de propaganda. Grandes paradas, grandes comícios, monumentais desfiles e colossais encenações. O bom e fiel Goebbels chama a si o controle da rádio, da imprensa e de todas as manifestações culturais. Grandes estádios para grandes multidões. Betão, muito betão e edificações gigantescas. O estádio de Nuremberga, concebido por Albert Speer, o grande arquitecto do regime e posterior Ministro da Guerra, é apenas um exemplo. Os inflamados discursos do Führer, cuidadosamente encenados e brilhantemente captados pela magistral objectiva de Leni Riefenstahl, levaram ao rubro milhões de seguidores em êxtase demoníaco.

 

Veja-se Triumph Des Willens – O Triunfo da Vontade - de 1935. Filme de glorificação do partido nacional-socialista, é consagrado aos célebres comícios de Nuremberga. Exalta o cerimonial Nazi, o culto do chefe e os mitos nacionalistas da doutrina do III Reich. Posteriormente, em 1936, Olympia Teil 1 – Fest der VÖlker (Ídolos do Estádio – 1ª Parte) e Olympia Teil 2 – Fest deR Schönheit (Ídolos do Estádio – 2ª Parte – Vencedores Olímpicos), duas longa-metragens sobre os Jogos Olímpicos de Berlim de 1936. Filmados em sequência de reportagem, têm uma visão estética muito própria, a que não são alheias, certamente, as convicções políticas da autora. Sem dúvida, um génio maldito!...

 

Arbeit Macht Frei - o trabalho liberta - podia ler-se nos portões dos campos da morte. Nomeadamente em Auschwitz/Birkenau, onde, por dia, 12.000 pessoas eram pulverizadas.

 

Primeiro nas câmaras de gás, depois nos fornos crematórios...

Depois de gaseadas com o poderosíssimo Zyklon B, pessoalmente recomendado por Eichmann, homónimo do líder. Sempre ele! Matthausen, Theresienstadt, Majdanek, Bergen-Belsen (onde Anne Frank morreu, vitimada pelo tifo), Buchenwald, Treblinka, Dachau, foram só alguns dos locais onde a demência de alguns levada ao extremo infligiu a tantos os mais atrozes sofrimentos, suplícios, torturas e sevícias.

 

Fizeram-se todo o tipo de aberrantes experiências e cobaias humanas foram sujeitas às mais horríficas experimentações. Ditas médicas(?). Sobretudo mulheres e crianças, a quem, por exemplo, coziam pelas mãos ou pelas costas. A sangue frio!... As feridas, entretanto infectas e purulentas, causavam as mais inimagináveis dores. Joseph Mengele, psicólogo austríaco, mentor e obreiro destes monstruosos ensaios, passou à história como o anjo da morte. A sua grande obsessão eram as mulheres e as crianças. Sobretudo os gémeos. Nestes acreditava que estava a chave do enigma da pureza ariana. Levava a cabo as suas nobres tarefas, em nome da ciência(?), com requintes de malvadez. Como amputação de órgãos e injecções de vírus e outras substâncias letais. Nomeadamente radioactivas. Pseudo melado, à falsa fé ganhava a confiança das cadavéricas crianças distribuindo guloseimas. Como ratos famélicos, eram encaminhados para os seus macabros e soturnos laboratórios. Da boca de dois sobreviventes ouvi, num documentário televisivo, relatos satânicos dignos de Belzebu. Certo dia, de Auschwitz volatilizaram-se dezenas de petizes. Dias mais tarde, aos malogrados prisioneiros foi distribuído sabão. Uma preciosidade! Um luxo, naqueles tempos de total miséria. De onde viria esta súbita benesse? Das crianças, comentava-se em surdina! Das crianças, entretanto liquefeitas nos fornos crematórios! As mulheres, em total histeria e desespero, beijavam e comiam as barras de sabão, crendo estar em presença dos seus filhos. A um outro garoto foi injectado um estranho e desconhecido líquido na laringe, que lhe tornou a garganta mole. Os acessos de febre que experimentou foram extraordinariamente violentos, acompanhados de dilacerantes náuseas e vómitos. Ainda neste campo, alguns dos seus guardas tinham especial predilecção por tiro ao alvo. Sobre mães com bebés de colo, por exemplo.

Um deles, mãozinhas hábeis e esmerada pontaria, conseguia a proeza de abater dois bebés desperdiçando uma só bala. Mas não chegava! Era preciso ir mais longe. Três pequerruchos de uma assentada, e ainda com um só projéctil, eram a sua macabra meta. Contudo, nem sempre era bem sucedido. Por vezes, um terceiro infeliz era deixado a agonizar com uma bala na cabeça.

Que seria do universo se, a estas mefistofélicas criaturas, tivessem sido facultadas as novas tecnologias que levam o homem a querer substituir a Divina Providência? E que dizer se, nos dicionários de então, já pudessem ler-se palavras como genoma humano, clonagem, transgénicos ou manipulação genética? Como foi possível chegar tão longe? Como foi possível calar? Foram precisos dois anos, após a apresentação das provas do genocídio, para, finalmente, se condenarem estes crimes. Mas, pasme-se, nada se fez para os evitar. Ou sequer impedir. Segundo recentes investigações, os Aliados sabiam o que se passava em Auschwitz, Bergen-Belsen, Belzec, Birkenau, Chelmno, Dachau, Majdanek, Mauthausen, Oranienburg, Sobibor, ou Treblinka. Contudo, nada fizeram ou, a dúvida persiste, nada puderam fazer. Isto porque as prioridades(?!) de guerra eram outras. Foram sistematicamente negados todos os pedidos de bombardeamento a Auschwitz e às linhas de caminho de ferro que levavam ao interior do campo. Como desculpa foi alegado que, tal procedimento, afastaria a aviação de campanhas decisivas noutros lugares do conflito. No entanto, de forma cínica e hipócrita, vários raides foram feitos pela aviação americana a escassos quilómetros do campo. Inclusive, por duas vezes, as bombas atingiram alvos industriais no complexo de Auschwitz, próximos das câmaras de gás. Os próprios serviços secretos britânicos conseguiram descodificar, com a ajuda de uma réplica da celebérrima Enigma, muitas mensagens da polícia alemã e das SS, que já indiciavam estas atrocidades. Resumindo e concluindo, os ingleses sabiam da limpeza mas guardaram segredo!... Ainda hoje, tantos anos passados e quando tanto se fala do ouro nazi roubado aos judeus e do pagamento das indemnizações compensatórias devidas a quem foi sugado até ao tutano em prol do progresso de alguns, ainda hoje, dizia, falta coragem para pôr o dedo na ferida. Para acusar os verdadeiros culpados. Os cúmplices!... Afinal, quem o é, verdadeiramente? Os algozes, ou os coniventes? Os neutrais(?), foram-no, efectivamente? Falta coragem para chamar os bois pelos nomes! A verdadeira justiça está, ainda, por fazer. E, a haver justiça, estou certa não será neste mundo de cobardias e, sobretudo, cinismos. Tudo isto, e muito mais, ficou impune!... Apesar de Nuremberga. Apesar de alguns cachaços suspensos. Apesar da passagem de alguns pelas celas de Spandau, o aljube berlinense... Ferido de morte, o mundo tenta recompor-se da hecatombe que acabava de testemunhar.

 

Mas, o silêncio dos cadáveres empilhados na sub-cave da omissão e da indiferença, é ensurdecedor... Estorva o sono dos justos(?!)...

Ainda não foi desta que a humanidade encontrou o rumo certo. Espartilhada entre filosofias antagónicas - ou talvez não - divide-se em duas, gravitando em torno de cada uma delas. Em 1949, surge a Nato. Em 1955, o Pacto de Varsóvia. Cada lado gere o seu rebanho a contento e, como convém, fomenta guerras e conflitos onde mais lhe interessa. É dividir para reinar! Coreia, 1950. Vietname, 1965. Do frio leste, outra ideologia recrudesce. Fala no povo! Luta pelo povo! Para que tenha pão e liberdade! Foi imenso o apoio que granjeou entre as massas, à data da sua génese, em pleno regime czarista. Não obstante, triunfou pois não admitia qualquer oposição ou, sequer, debate de ideias. Impõe a ditadura do proletariado, institui o regime de partido único e cria a Tcheka, polícia secreta destinada à aniquilação dos opositores. Impõe o controlo dos meios de comunicação, os campos de trabalhos forçados - os gulag - quase sempre na inóspita Sibéria e o ateísmo compulsivo. A título de exemplo, refira-se que, só na Rússia europeia, depois da revolução de 1917 e da limpeza anti-religiosa que se lhe seguiu, das 150 igrejas católicas existentes, permanecerem apenas 2. Uma em Moscovo e outra em S. Petersburgo, entretanto baptizada Leninegrado. Para já não falar dos mosteiros e conventos encerrados, das ordens religiosas extintas e dos santuários profanados e destruídos. Em 1929, a Basílica de Kasan, em S. Petersburgo, é devassada e adaptada(?!) para museu anti-religioso. A sua mais preciosa relíquia, o ícone de Nossa Senhora de Kasan, foi saqueado e posteriormente vendido, a par de outros tesouros religiosos nacionais, com o intuito de obter fundos para o governo!...

Na Rússia, então proclamada União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, em 1930, e ainda antes do segundo grande conflito que iria eclodir, já as terras eram tiradas aos camponeses, convidados ao exílio forçado e à adesão às novas propriedades colectivas de produção.

Estaline, nome escolhido por Iossif Vissarionovitch Djugatchvilli, primeiro director do Pravda, órgão oficial do Partido Comunista, temendo o reacender do nacionalismo na Polónia, ordena à sua polícia secreta que execute centenas de oficiais polacos e os enterre em valas comuns, na floresta de Katyn. É imposto o terror e a fome. Os mortos, contam-se por mais de 14 milhões. A economia floresce, é certo, mas à custa de sangue inocente. Com o epílogo da II Guerra Mundial, na Conferência de Ialta, consegue uma vantajosa repartição das zonas de influência. Desta forma, a partir de 1945, trespassa para o leste - à época sob a sua alçada - a revolução socialista. Já antes, a 23 de Agosto de 1939, havia assinado com a Alemanha Nazi de Hitler um pacto de não-agressão. É caso para dizer quando não puderes vencer os teus inimigos, junta-te a eles!... Entretanto, o exército vermelho, criado por Leon Trotsky, férreo, estabelece o comunismo. Sufoca e esmaga vozes que clamam liberdade e ousam levantar-se a leste. Dos Húngaros, em 1956. Dos então Checoslovacos, em 1968. Contudo e apesar de falarem no povo, estabelecem uma elite de balofos ideólogos e gordos burocratas. Um séquito de privilegiados da nomenclatura do partido, onde as mordomias abundam...

Retrocedendo um pouco no tempo, verificamos que o primeiro estado comunista foi fundado por um homem cujo nome de baptismo não dirá muito à maioria das pessoas. No entanto, se pronunciarmos o cognome pelo qual ficou conhecido, de imediato é identificado - Lenine - nascido Vladimir Ilytch Ulyanov. O seu cadáver, ambalsamado, ainda hoje se encontra exposto num mausoléu construído para o efeito no coração da Praça Vermelha em Moscovo. Todos quantos ousavam fazer frente a esta onda que varria o leste - os reticentes, os dissidentes - eram encaminhados para a frente de combate, para os trabalhos forçados, para a prisão. Os bens eram-lhe confiscados e, em última instância, eram fuzilados. Guardiã e salvaguarda destes ideais, a instituição fundada por Dzerzhinski, o Komitet Gosudarstvennoi Bezopasnosti - KGB - Comité de Segurança do Estado, que recentemente voltou às bocas do mundo, quando um dos seus dilectos filhos, Vladimir Putin, ascendeu ao mais alto patamar da magistratura Russa. A esta polícia ultra-secreta, é confiada a informação e a contra-informação, a vigilância e a escuta aos opositores, sem esquecer a censura. Infiltou toupeiras nos serviços de inteligência por esse mundo fora, para melhor alcançar os seus objectivos. Controlou tudo e todos.

 

Que o diga Alexander Isayevich Solzhenitsyn, escritor e dissidente russo, exilado na Sibéria nos anos 40 e 50 por se ter atrevido a levantar a voz contra Estaline. Um Dia na Vida de Ivan Denisovich e O Arquipélago de Gulag são duas das suas obras que espelham esta vivência. Expulso da União Soviética, só nos anos 90 lhe foi restituída a cidadania e permitido regressar.

Ou, ainda, Andrey Dmitriyevich Sakharov, físico nuclear que teve a ousadia de criticar, entre outras coisas, a política de Direitos(?) Humanos na União Soviética. Valeu-lhe o exílio em Gorki, de onde só foi libertado no período pós Perestroika. Para filtrar os ventos que sopravam do ocidente e controlar os fugitivos que debandavam da Alemanha de Leste - mais de dois milhões entre 1945 e 1961 - erige-se uma vergonhosa edificação com 3,60 metros de altura – o Berliner MauerMuro de Berlim - cuja construção é supervisionada, a par e passo, pelo ideólogo do regime alemão oriental Erich Honecker. Dilacerava Berlim, esta autêntica cortina de ferro. O prenúncio da sua construção deu-se em Agosto de 1961, quando foram encerrados todos os locais de passagem, seladas as fronteiras e edificadas barreiras de arame farpado. Mais tarde, veio o dito cujo. As bem treinadas tropas que o guardavam, tinham ordens expressas para disparar a matar sobre todo aquele que tentasse galgá-lo. Emanadas directamente de Honecker.

Foram mais de cinco centenas os cobardemente assassinados, entre 1961 e 1989. Resistiu, esta parede da ignomínia, vinte e oito anos. Até que, um punhado de homens de boa vontade, propiciou a sua demolição. A golpes de picareta.

O calendário marcava o dia 9 de Novembro de 1989. Ainda na ex-RDA, denominada República Democrática(?) Alemã, ficou há pouco a saber-se, através do estudo de um perito de segurança em radiações, que a STASI - sórdida polícia política - entre 1970 e 1980 pulverizou com partículas radioactivas vários indivíduos, suspeitos de serem dissidentes do regime comunista instalado. Desta forma e através de contadores Geiger que os agentes possuíam ocultos num dos braços e alarmes vibradores no outro, controlavam todos os movimentos dos suspeitos. Sem que estes soubessem ou, sequer, suspeitassem. Também nos cárceres destinados aos presos políticos da RDA e segundo o mesmo especialista, existiam estranhos aparelhos de raios X que não eram para uso médico. Presume-se que seriam utilizados para marcar os dissidentes. Muitos deles morreram de cancro, vitimados, ao que tudo indica, pelas mortíferas doses de radiações a que foram sujeitos. Nem Le Carré se lembraria de tal artimanha para as suas fictícias e rocambolescas personagens...

Entretanto, não muito longe dali, um outro mau, ou Mao, se preferirem, fazia vingar a sua ideologia. Mais selecto, fê-la preceder de uma auto proclamada revolução cultural.

A sua cartilha, o famoso pequeno livro vermelho, oferecia orientação aos jovens "soldados", antibióticos indispensáveis e imprescindíveis à supressão de intelectuais, e outros que tais, opositores da sua política. Morto em 1976 aquele que foi considerado o Grande Timoneiro - Mao Zedong de nome completo - a sua política ainda sobrevive, graças a fiéis e abnegados servidores. Sumptuosamente instalados em Zhongnanhai - o condomínio privado dos dirigentes comunistas chineses e suas famílias, em Beijing, mesmo à beira da Cidade Proibida, no espaço antigamente reservado aos imperadores e totalmente vedado à ralé.

Uma vez mais o mundo, dito civilizado, cala a verdade quando falam mais alto chorudas transacções comerciais. Voltou a silenciar, quando, em Junho de 1989, em Tiananmen, mais de 2000 pacíficos e desarmados manifestantes foram trucidados pelas lagartas da caterva de tanques que irrompeu pela praça. Sob a passividade de todos os que assistiram de camarote. Mas há mais!

Outro consegue impor a sua doutrina e apagar do mapa, sem remorsos, para cima de 2 milhões de almas. Assassinadas, umas. Mortas à míngua, outras. Foi responsável por uma das piores campanhas orquestradas de extermínio e assassínio em massa de que há memória. Entregou a alma ao Criador há pouco.

Pol Pot era a sua graça, líder dos Khmers Vermelhos a sua profissão. Sanguinário é apenas um dos inúmeros adjectivos que me vêm à cabeça para o catalogar... E que dizer de um certo barbudo, comandante de uma paradisíaca ilha caribenha onde, só de há seis anos a esta parte, é permitido(?!) celebrar o Natal? E da dinastia Ceausescu que, na Roménia, pôs, dispôs e impôs o seu ditame? E de Kim Il Sung, régulo da Coreia? Estes últimos, dois típicos exemplos do estalinista culto da personalidade. E de tantos outros, principescamente nutridos, lombudos, senhores de flácidas e untuosas carnes, bem arreados, de palavra fácil e escorreita, que pululam pela estraçalhada África?...

A mente, dita humana(?), não tem limites!... Nomeadamente no que toca à sandice e à pulhice. Na avidez de todos controlar, a tudo recorre. Tudo é válido. Pelo menos para alguns, quando se trata de subjugar os fisicamente semelhantes. O poder branco é a meta de muitos. Defendem até que, as capacidades intelectuais, são determinadas pela raça ou grupo étnico. Se os nazis levaram ao extremo o racismo, preconizando a supremacia dos povos germânicos louros, os arianos, os Sul-Africanos não o fizeram por menos, ao instituir, como princípio do seu regime, a separação das etnias. Foi esta a base do sistema de Apartheid. Iniciado em 1948, não só implementou leis segregacionistas como, inclusive, institucionalizou a discriminação racial e proibiu os casamentos entre brancos e não-brancos(?). Para já não falar dos empregos só para brancos e da proibição de representação parlamentar dos não-brancos.

Nas casas de banho públicas para homens, por exemplo, os letreiros não deixavam qualquer dúvida. Nas dos brancos, public conveniences for european men - openbare toiletgeriewe vir blanke-mans . Nas dos negros, non europeannie-blankeamadoda-banna.

Ou nos autocarros para negros, onde se lia non-white only - slegs nie-blankes. A classificação racial passou a ser feita por categorias distintas de indivíduos, segundo a sua aparência física. Os brancos - descendentes dos Boers; os pretos – bantus; os de cor – mestiços; os asiáticos – emigrantes indianos e paquistaneses. Era considerado não-branco todo aquele que tivesse um dos progenitores de cor. Os negros, a esmagadora maioria da população do país, eram obrigados a fazer-se acompanhar de um passe, com fotografia, impressões digitais e todo o tipo de informações alusivas ao acesso às áreas que lhe estavam destinadas – só para não-brancos. Um ano mais tarde, são instituídos governos negros em reservas africanas – os Bantustões, estados com uma independência fictícia e onde os indivíduos eram classificados segundo o registo de origem. Os direitos de que gozavam eram restritos a esses territórios, incluindo o direito de voto. A ideia era confinar as pessoas a esses espaços, considerando-as, apenas, cidadãs locais. Perdiam, desta forma, a cidadania sul-africana. Para se poderem deslocar no restante território nacional careciam, pasme-se, de um passaporte. Em suma, eram perfeitos estrangeiros na própria terra. Era a supremacia branca feita lei. Incontestada e incontestável! Mas logo corajosas vozes se levantam em tenaz protesto.

Steve Biko foi apenas uma delas.

Para já não falar de Mandela.

Em 1960, no bairro negro de Sharpeville, um grande número de habitantes diz não ao uso dos passes instituídos. O governo decreta, de imediato, o estado de emergência. A 21 de Março desse mesmo ano, numa manifestação convocada pelo ANC e pelo Congresso Pan-Africano, ilegal porque não autorizada, mas pacífica, a polícia abriu fogo sobre os desarmados manifestantes. Feriu perto de duas centenas e deixou prostrados quase sete dezenas de cadáveres. Severas punições são aplicadas aos infractores que levam a cabo protestos políticos. Mesmo os não violentos. Durante os sucessivos estados de emergência, mantidos de forma intermitente até 1989, qualquer pessoa podia ser detida sem culpa formada por períodos até seis meses. Milhares morreram nas prisões, frequentemente vitimados pelas brutais torturas a que eram sujeitos. Foi este o trágico destino do supra mencionado Steve Biko, em 1977, quando se encontrava sob custódia policial. Antes, em 1976, havia já liderado protestos que conduziram ao assassinato de 600 estudantes no Soweto e em Sharpeville. Os reincidentes eram sentenciados à pena capital, banidos ou, como Mandela, condenados a prisão perpétua. Para já não falar do envenenamento com toxinas e germes patológicos, levado a cabo por agentes do regime, que adulteravam os alimentos e os cursos de água com poderosos venenos criados em laboratório. Como, por exemplo, misturar açúcar com salmonelas, cigarros com antrax, chocolates com botulismo ou whisky com herbicida. Como se isto não bastasse, ainda ataram negros despidos a árvores, depois de besuntados com um gel venenoso. Deste modo eram deixados durante toda a noite, à espera que morressem. Caso sobrevivessem, eram posteriormente mortos com injecções de relaxantes musculares. A partir de 1984, as leis discriminatórias são suavizadas, com a criação de câmaras parlamentares para indianos e mestiços. Finalmente, em 1990, o presidente Fredrik Willem De Clerk revoga toda a legislação do Apartheid, legaliza o ANC e liberta Nelson Mandela.

Longe, muito longe dali, similar ideologia havia já granjeado, há alguns decénios, fervorosos adeptos. Em 1866, no novo continente, difundida pelos soldados confederados do Tennessee, no período subsequente à Guerra de Secessão dos Estados Unidos. Opunha-se, total e frontalmente, à política de reconstrução que concedia aos negros o direito de votar e ascender ao poder. Para o efeito, os seus seguidores criaram uma milícia, se assim se pode chamar, de combate ao negro. Cobardemente embuçados, dizem-se defensores da superioridade(?) branca.

Vomitam atoardas, à luz de incandescentes cruzes. À noite, como convém! Nos anos 60, espalharam o terror e a morte junto dos movimentos de defesa dos direitos civis. Os crimes por si perpetrados quase sempre ficavam impunes. Graças à conivência das autoridades, muitas delas simpatizantes, quando não membros efectivos da comandita. Não satisfeitos, posteriormente alargam o seu leque de ódios ao anti-semitismo, ao anti-catolicismo, ao anti-comunismo. Oficialmente, não existem. Pero que los hay... Identificam-se pela décima primeira letra do alfabeto. Três vezes repetida. Contudo, hoje, é diferente o seu modus faciende. Preferem as fardas, os camuflados militares. É vê-los pelas suas coutadas, em belicosos e encarniçados treinos. Armados até aos dentes!...

Guerras, conflitos, hostilidades, parece ser o destino e triste sina do Homem! Sempre assim foi e, se nada fizermos para alterar este estado de coisas, sempre assim será. Quantas guerras já houve depois dos grandes conflitos da primeira metade do século vinte? Hoje, contudo, são mais requintadas. Mais distintas! Entram-nos pela casa dentro. Disputam audiências! Quem não se lembra de ter visto, em Janeiro de 1991, as câmaras da CNN estrategicamente colocadas no telhado de um hotel levar ao mundo as imagens de Bagdad em chamas? Sob o matizado estampido das bombas inteligentes, construídas por homens ainda mais inteligentes, que só pensam na segurança e na coexistência pacífica(?)... Ou de ouvir o Peter Arnett, de telemóvel em riste (na altura era, ainda, uma praga pouco disseminada e chamava-se, solenemente, telefone celular) relatar, tintim por tintim, o desenrolar das ocorrências? Isto porque Saddam havia invadido o Kuwait a 2 de Agosto de 1990. Porque era urgente restabelecer a legalidade e a legitimidade, logo os aliados se agitam e parem uma coligação. São 29 os países que se juntam, capitaneados pelos Norte-Americanos. Quem mais, senão eles, para defender os direitos(?) do homem e a paz(?!) mundial? Outra coisa não seria de esperar!... De imediato se arrebanhou um magote de valentes mancebos. Qualquer coisa como 700.000, dizem. Preparados para o ataque, a que deram o nome de Tempestade no Deserto... No entanto, quando em 1979 rebentara a guerra Iraque-Irão, por este último, alegadamente, apoiar a luta dos Curdos do Iraque, o ocidente foi em defesa de Saddam. Contra o Grande Iman, considerado, então, como a fonte de todos os males!... Deu-lhe tudo o que ele pediu. Até os pózinhos com que se fazem as afamadas armas biológicas de destruição massiva, despejadas, sem clemência, sobre os Curdos. Não é fácil apagar da memória a imagem daquela mãe, agarrada a um filho de tenra idade, de olhos semi-cerrados que jaziam por terra. Entre tantos e tantos... Finda a ofensiva, vieram as sanções. Os embargos. Às catadupas, como sempre!. Seja aqui ou na distante Cuba, onde, há décadas, se mantêm de forma cruel, impiedosa e injustificada!... Mas, afinal, quem as sente verdadeiramente no costado? Quem paga a factura? É o povo, claro! É sempre esse. Os outros, os caudilhos, não consta que sofram de astenia, anemia ou, sequer, que morram de inanição!...

Depois, nestas coisas da guerra, há sempre os chamados danos colaterais. Os mortos que o são por engano. Por lamentável mal-entendido! Porque resolvem estorvar a trajectória dos projécteis!...

Foi assim em Junho de 1972, em Trang Bang, no remoto Vietname, quando o napalm caiu, por equívoco... Ou em Maio de 1999, no Kosovo, quando aquele malvado míssil atingiu um comboio de indefesos passageiros. O safado do comboio logo havia de aparecer naquele instante!... Quando nem sequer estava na mira do piloto do avião que o lançou!... Afinal, descobriu-se que não foi bem assim como nos contaram... Para calar os papalvos, ao palonços, os que não pescam patavina do assunto, as imagens, mostradas vezes sem conta nos briefings da Nato, foram adulteradas. Manipuladas. Hollywoodescamente aceleradas... Nem o Oliver Stone, homem dado a bruscos e repentinos movimentos de câmara, se lembraria de tal argúcia!... Mas não nos quedamos por aqui. Então e a embaixada da China em Belgrado, que foi, também por lapso, bombardeada em 1999, aquando dos ataques da Nato aos redutos de Slobodan Milosevic? Para já não falar do urânio empobrecido. Ou do plutónio. Mas isso é polémica para o século XXI. Ou talvez não! A ver vamos!...

Mas nem tudo é mau, caramba! Afinal, o homem até conquistou o indómito espaço. Começou, timidamente, a 4 de Outubro de 1947, com o lançamento do primeiro satélite artificial - o Sputnik I - do tamanho de uma bola de futebol.

Depois, a 12 de Abril de 1961, Yuri Gararin a bordo da Vostok I, foi o primeiro homem a ser lançado no espaço.

Os Americanos, que não são de levar desaforos para casa, ripostam. A 27 de Julho de 1969, só para chatear os russos, lançam a Apolo XI com três cosmonautas a bordo - Edwin Aldrin, Michael Collins e Neil Armstrong. Este último, o primeiro homem a pisar o satélite da terra. Mais tarde, a 14 de Maio de 1974, é lançado o Skylab, a primeira estação espacial. Entre os passeios dos soviéticos pelo espaço, em Março de 1965 e o americano space shuttle, que descola pela primeira vez em 1981, milhões de dólares e rublos são torrados. Pela ganância da supremacia! No entanto, cá em baixo, as carências e penúrias são mais que muitas. Dá-se tudo pela Salyut. Pela Mir.

Pela Mars Path Finder. Pela Mars Polar Land. Como diz José Saramago, e muito bem, chega-se mais depressa a Marte do que ao nosso semelhante!...

E também descobriu o genoma humano. O código do Criador, como ouvi da boca de um jornalista, anunciado ao mundo a 26 de Junho de 2000, em simultâneo por William Jefferson Clinton e Anthony Charles Lynton Blair, os supra-sumos, a nata dos racionais(!?). Vai permitir, diz-se, a produção de seres perfeitos(?!), isentos de iniquidade. Só virtuosismo! É como ir ao hipermercado e escolher o que mais nos convier. À vontade do cliente!...

E clonou a Dolly, descoberta científica propalada aos quatro ventos. E sabe Deus quantas mais aberrações se lhe seguiram e que, a bem da humanidade, ficaram no segredo dos tubos de ensaio e lúgubres corredores dos laboratórios... Mas já se fala no primeiro clone humano para finais de 2002!... Será o mesmo o primeiro?

E, ainda, separou as siamesas Mary e Jodie, em Novembro de 2000, que o infortúnio do destino ditou nascerem unidas. Contra a vontade dos progenitores mas com o assentimento dos senhores juízes do supremo tribunal, uma foi sacrificada para que a outra pudesse viver. Ou vegetar. Mas sempre a bem da ciência(?) e da espécie.

 

Em jeito de epílogo, escolhi cinco personalidades que, longe de serem perfeitas, a meu ver, deveriam servir-nos de exemplo. Principalmente àqueles que, legitimados ou não por sufrágio universal ou plebiscito, têm nas mãos os destinos de todos nós.

Agnes Gonxha Bojaxhiu, para o mundo Madre Teresa de Calcutá, nasceu em 1910, na pequena localidade de Skopje. Actualmente território macedónio, era, à data, solo albanês. Até aos 12 anos leva uma vida normal, comum às demais crianças do lugarejo, até descobrir que, cada um, na vida, tem que seguir o seu próprio caminho. Era seu desejo dedicar-se aos outros. Queria, acima de tudo, dar-se aos outros. Em 1928, faz-se noviça na congregação irlandesa das Irmãs de Nossa Senhora do Loreto e adopta o nome de Teresa, em honra de Santa Teresa de Lisieux, padroeira das Missionárias. Após um ano de permanência na Irlanda, onde aprende a língua inglesa, parte para a Índia. Era nos bairros miseráveis que queria estar. Junto dos moribundos, dos abandonados, das crianças suplicantes de carinho e afecto. Para isso, carecia do aval da superiora da sua congregação e do Vaticano, o que acontece em 1948, no papado de Pio XII. Chega a Calcutá na véspera de Natal. No primeiro dia de trabalho de rua recolhe cinco crianças que encontrara ao abandono. Na noite de Natal eram já 25 e, no final do ano, 41. Vai reunindo à sua volta jovens desejosas de lhe seguir o exemplo e, em 1950, funda a sua Ordem - As Missionárias da Caridade. Como hábito, escolhe o sari, traje comum à maioria das mulheres indianas. Sentir-se-iam, desta forma, apenas pobres entre os pobres. Mas ainda não chegava. Pretendia criar um lugar, no meio de tanta indigência e sordidez, onde, no mínimo, aos moribundos, fosse facultada a possibilidade de morrer como seres humanos, já que tinham vivido como reles animais de esgoto. Não só o consegue como vai multiplicando casas de acolhimento por esse mundo fora. Para bebés, cujas famílias não podiam criar ou, simplesmente, não queriam - Shishu Bavan. Para leprosos - Shanti Nagar. Para moribundos - Nirmal Hriday. Para já não falar das casas para apoio a doentes com SIDA. Ou, ainda, do trabalho de reabilitação, levado a cabo nas prisões indianas.

Em 1979, é agraciada com o Nobel da Paz. Aceita a distinção e comparece à cerimónia trajada apenas com o seu sari branco, debruado a azul. Contudo, recusa o banquete subsequente. Pede que, o dinheiro do repasto, seja distribuído pelos que nada têm. Não me parece que tenha sido feliz nesta sua pretensão. Em 1982, aquando do cerco de Beirute - na guerra civil do Líbano - surpreende o mundo ao conseguir que os beligerantes - israelitas e palestinianos - cessem fogo. Ainda que temporariamente. Tempo suficiente para resgatar 37 crianças de um hospital próximo, apanhadas no fogo cruzado. Mas o seu imenso coração começa a dar mostras de profunda debilidade. Em 1990, quase sucumbe a um gravíssimo ataque cardíaco. Graceja dizendo que sonhou que tinha morrido e, uma vez às portas do Céu, S. Pedro a mandou regressar à Terra dizendo-lhe que ali não havia bairros de pobres... Amada por milhões, é também criticada e odiada por muitos, por via das suas frontais posições contra o aborto e o divórcio.

 

Parte para o além aos 87 anos de idade, a 5 de Setembro de 1997, já a noite ia longa. Em odor de santidade, dizem...

Mohandas Karamchand Gandhi, ou simplesmente Mahatma - O Grande Espírito. Nasceu no estado indiano do Gujarat a 2 de Outubro de 1869, à data território britânico. Estuda direito em Londres e torna-se advogado. Após o regresso à Índia, vai para a África do Sul exercer advocacia. Aqui, os indianos não eram vistos com bons olhos pelos colonos brancos. Certo dia, é expulso do comboio onde viajava por se ter recusado a ceder o seu lugar a um branco. Para que situações como esta jamais se repetissem, começa uma luta pelos direitos das minorias. Nomeadamente dos imigrantes indianos. Assumiu como compromisso da sua luta - que, aliás, o acompanhou pela vida fora - o recurso à não violência. Muito pelo contrário! Foi a resistência passiva contra a injustiça – satyagraha - que sempre o caracterizou. Aqui iniciou um projecto – ashram – que preconizava uma vida de paz e liberdade entre pessoas de diferentes credos religiosos. De regresso à Índia, é aclamado por uma multidão que o aguardava no porto. Começa a viajar pelo país, sempre em vagões de terceira classe, para se inteirar das condições de vida do seu povo. Cedo se torna no líder dos indianos. Homem de vida simples e frugal, até nas parcas vestes com que se cobria, foi defensor dos direitos dos mais fracos e das mulheres. Acreditando e, sobretudo, fomentando relações cordiais entre hindus e muçulmanos, congrega em seu redor uma forte movimentação de massas contra a ocupação britânica, que culmina com a independência da Índia. Preso várias vezes, apela à desobediência civil. Entre muitas iniciativas, lidera uma marcha de cerca de 200 quilómetros até ao mar, como forma de protesto contra uma taxa instituída pelos britânico sobre o sal, que até era extraído localmente. À violência, respondia sempre com a passividade. A tal ponto que, quando a ele se dirigiam os populares clamando vingança olho por olho, respondia que, com esse procedimento, tornariam o mundo cego... Contra o que sempre pugnou, o país fragmenta-se em Índia e Pasquistão. A primeira, maioritariamente hindu. O segundo, quase integralmente muçulmano. Tomba a 30 de Janeiro de 1948, aos 79 anos de idade, vergado pela bala assassina de Nathuram Godsey, um extremista hindu. Caminhava, calmamente, por entre uma multidão num jardim de Nova Deli. Para as oração da tarde.

Martin Luther King, pastor da Igreja Baptista de Montgomery, no Alabama, foi dirigente do movimento dos direitos civis nos Estados Unidos. Começa por apelar, em 1956, a um boicote que pôs termo à segregação racial dos negros nos autocarros de Montgomery. Segue-se a organização de uma conferência de líderes cristãos sulistas, aproveitada para lançar uma campanha paralela de defesa dos direitos civis. Já no início dos anos sessenta, lança a ideia da campanha sit-in, que organizou pela primeira vez em Atlanta. Esta, desafiava a interdição da entrada de negros em cafés e bares. De forma corajosa, militantes negros entravam nos referidos estabelecimentos, sentavam-se e exigiam ser servidos. As consequências dos seus actos eram imprevisíveis. Exímio orador, vai a Gandhi beber grande parte dos ensinamentos. Também ele luta, de forma não violenta, por um vasto programa de reformas. Por diversas vezes é preso. Consegue a proeza de organizar, em Agosto de 1963, uma marcha pacífica sobre Washington. Integram a caminhada para cima de 200.000 pessoas, entre as quais 60.000 brancos, até ao Lincoln Memorial. Não esqueçamos que corriam os alvoroçados anos 60. Aí, proferiu a sua mais célebre frase: I have a dream!... (...) Tenho um sonho. É um sonho profundamente enraizado no sonho americano. Sonho que, um dia, nas montanhas vermelhas da Geórgia, os filhos dos antigos escravos e os filhos dos antigos proprietários de escravos, se sentarão juntos à mesma mesa de fraternidade (...). Apenas e tão somente pedia uma América livre de preconceitos. A sua luta, inicialmente virada para a defesa dos direitos civis dos negros norte-americanos, depressa se estendeu à condenação da Guerra do Vietname. Nobel da Paz em 1964, também ele tombou, a 4 de Abril de 1968, assassinado em Mênfis, no Tennessee. Quando se não podem amordaçar incómodas vozes, só resta calá-las... Dele retenho uma afirmação que, desgraçadamente, tantos anos volvidos, ainda dá que pensar: não receio as palavras dos violentos, mas o silêncio dos honestos...

Nelson Rolihlahla Mandela, Sul-Africano, filho de um chefe da tribo dos Tembus. Quando poucos negros avançam na escolaridade, Mandela cursa Direito. Em 1944 adere ao ANC, organização que lutava pelo direito de cidadania dos negros, pelo direito à propriedade, pela revogação da legislação segregadora. Estes actos conduzem-no à prisão, em 1952 e 1956, sob a acusação de alta traição. Após o massacre de Sharpeville, em 1960, não vê outra alternativa senão o recurso à luta armada. Contrariamente aos dois líderes anteriormente referidos (Gandhi e King), faz um apelo à violência como única solução. Na clandestinidade é apelidado de Pimpinela Negro, por via da sua habilidade e destreza na fuga às autoridades. Condenado a prisão perpétua em 1964, naquele que ficou conhecido como o Julgamento de Rivonia, é encarcerado em Robben Island. Longe de ser esquecido, torna-se na bandeira da luta dos negros Sul-Africanos. Por todo o mundo se organizam campanhas e manifestações pela sua libertação imediata e incondicional. Finalmente, a 11 de Fevereiro de 1990, sai em liberdade perante as câmaras de televisão dos quatros cantos do mundo. Em Maio de 1994, no seguimento de eleições livres e democráticas, assume os destinos do seu país como o primeiro presidente negro da história Sul-Africana. Este homem, que se vira privado do mais precioso bem - a liberdade - acabava de dar ao mundo uma lição de hombridade e envergadura moral. Aquele que, se calhar, tinha todos os motivos para odiar e vingar, estende a mão aos carrascos de outrora e une a nação em torno de um ideal. É o que mais admiro em Mandela. A sua capacidade de perdoar. De dar a outra face...

Aristides de Sousa Mendes do Amaral e Abranches, português, nascido na pequena localidade de Aido, Cabanas de Viriato, distrito de Viseu. Licencia-se em Direito em Coimbra e, ao invés de seu pai que era juiz, envereda pela carreira diplomática. Passa por variadíssimos países, nomeadamente Guiana, Espanha, Brasil e Estados Unidos, onde, na Califórnia, nascem dois dos elementos da sua numerosa prole. A pulso ascende na carreira diplomática, pejada de inúmeros obstáculos e contrariedades face às suas monárquicas convicções. Em plena II Guerra Mundial, quando Hitler invade a França, é Cônsul Geral de Portugal em Bordéus. Os refugiados, aos milhares, oriundos dos países que, à semelhança da França haviam sido invadidos pelos Nazis em busca de Lebensraum1– espaço vital - como a Polónia, a Áustria ou a Checoslováquia, deambulam pelas ruas à procura de salvação. Sob as suas cabeças paira o negro espectro da morte! Seguidor de Salazar, Sousa Mendes não hesita em socorrer aqueles que, desesperadamente, dele necessitam. Para o efeito, corajosamente desobedeceu às ordens que havia recebido de, em circunstância alguma, emitir vistos a refugiados. Assim estipulava a famigerada Circular nº 14, emanada do Ministério dos Negócios Estrangeiros em 11 de Novembro de 1939. A coberto desta, o regime português vedava as suas fronteiras aos refugiados, sobretudo aos de origem semita. Ainda por cima em flagrante violação da constituição portuguesa de 1933, que proibia a discriminação por motivos religiosos. Suprema ironia! Multidões de desesperados acorrem ao consulado português, sito ao número 14 da Quai Louis XVIII, em busca de um visto. Almejado passaporte para a liberdade e, acima de tudo, para a vida. Até 18 de Junho de 1940, Aristides atribuiu 30.000 vistos. A judeus, polacos, membros da resistência francesa e demais refugiados. Nomeadamente a portadores de passaporte Nansen – documentos especiais de identidade emitidos pelo Alto Comissário para os Refugiados da Liga das Nações, o norueguês Fridtjof Nansen. Consta que, só de uma vez e durante alucinantes 72 horas, concedeu vistos a uma chusma de refugiados que se apinhava à porta do consulado. Detido, quando regressava a Portugal sob custódia da polícia portuguesa, ainda fez passar, pela janela da casa de banho da carruagem do comboio onde vinha, mais 500 vistos. (...) Era realmente meu objectivo salvar toda aquela gente, cuja aflição era indescritível (...). Homem de coragem, ousa enfrentar não um, mas três ditadores. Ordena que, de imediato, se concedam vistos a quem deles necessitar. Para tornar o processo ainda mais célere, determina que, os mesmos, sejam outorgados sem a cobrança de emolumentos. Perante tamanha audácia, o governo decreta a nulidade dos vistos já emitidos. Não se deixando abater, ou sequer vergar, desloca-se a Hendaye, junto à fronteira espanhola, para, pessoalmente, fazer passar os milhares de refugidos e emitir mais vistos, à chuva, sob o capot do carro. Pagou caro o arrojo. Muito caro! Proscrito e votado ao ostracismo, este último extensivo à sua família, é destituído do cargo. Como se isso não bastasse, é proibido de exercer advocacia e vê-se privado da reforma a que tinha direito. Para sustentar a família e liquidar as dívidas que, entretanto, contraíra, vê-se obrigado a desbaratar os seus bens. Entre eles a Casa do Passal, em Cabanas de Viriato, vendida em hasta pública. Crente fervoroso, a expensas suas mandara erigir, em 1933, um monumento a Cristo Rei. Ainda hoje se pode admirar, junto ao que da sua casa resta. É único no país. Na mais completa miséria, recorre à Cozinha Económica – cantina gerida pela comunidade judaica. Inclusive vê-se obrigado a aceitar uma pequena subvenção desta mesma comunidade, que, aliás, já o ajudava a pagar a renda de um pequeno imóvel que se vira obrigado a alugar em Lisboa. Sozinho, morre a 3 de Abril de 1954. Assim desaparece aquele que disse, um dia, preferir ficar com Deus contra os homens do que com os homens contra Deus. Aquele que, de livre e espontânea vontade e consciente dos riscos que corria, pessoais e familiares, não hesitou em salvar da morte 30.000 pessoas. Os seus descendentes, para sobreviver, viram-se obrigados a emigrar. Alguns, ajudados e apoiados por aqueles a quem Sousa Mendes havia salvo. Assim deixava este mundo aquele que, para tantos milhares, foi o anjo de Bordéus.

Portugal não soube, ou não quis, prestar-lhe a homenagem devida. Contudo, Israel já homenageou Sousa Mendes, plantando, em sua memória, na Floresta dos Mártires junto ao Yad Vashem - o Museu do Holocausto - uma árvore por cada uma das vidas judaicas que salvou. Também lhe atribuiu, a título póstumo, uma medalha, em cujo reverso pode ler-se a citação do Talmude quem salva uma vida humana, é como se salvasse um mundo inteiro.

Que dizer deste HOMEM que, segundo o historiador Yehuda Bauer, perito da História do Holocausto, sozinho, contra tudo e contra todos, realizou a maior operação de salvamento da História do Holocausto?

Responda quem quiser. E souber.

Pessoalmente, confino-me ao mais respeitoso silêncio!...

 

 

FONTES

Aristides de Sousa Mendes – Um Herói Português Coordenação: Júlio Cruz – Secretário-Geral da AVIS

Aristides de Sousa Mendes, o Cônsul Injustiçado, documentário de Diana Andringa

Correio da Manhã

Diário de Notícias

Dicionário Ilustrado do Conhecimento Essencial, Selecções do Reader’s Digest. 1ª Edição, Lisboa, Março de 1996.

Enciclopédia da História Universal – Acontecimentos e personalidades que moldaram o mundo, Selecções do Reader’s Digest. 1ª Edição, Lisboa, Setembro de 1999.

http://www.anc.org.za/people/mandela.html

http://www.cnn.com

http://www.dn.pt

http://www.eagles-nest-tours.com

http://www.engagedpage.com/ghandi.html

http://www.engelfire.com/tx/filial/mendes.html

http://www.geocities.com/capitolhill/Lobby/8522/gand_eng.html

http://www.haruth.com/jewsportugal/aristidesmendes.html

http://www.northstar.k12.ak.us/schools/nph/twt/apart/timeline.htm

http://www.shef.ac.uk/pss/aristide.html

http://www.skalman.nu/soviet/kgb-org.htm

http://www.tisv.be/mt/life.htm

http://www-es-students.stanford.edu/cale/es201/apartheid.hist.html

Madre Teresa – Dos pobres mais pobres. José Luíz González Balado. 1991. Edições Paulistas

O Segredo que Conduz o Papa – A Experiência de Fátima no Pontificado de João Paulo II. Aura Miguel. 1ª Edição, Maio de 2000.

Os Grandes Mistérios do Passado, Selecções do Reader’s Digest. 1ª Edição, Lisboa, Agosto de 1992.

Público

__________________________

* Assistente Administrativa Especialista do ISPV.

Génese do Drang nach Osten – ímpeto em direcção a leste – que levou a Alemanha a invadir a Checoslováquia e a Polónia e que foi o prólogo da II Guerra Mundial. In Enciclopédia da História Universal – Acontecimentos e personalidades que moldaram o mundo, Selecções do Reader’s Digest. 1ª Edição, Lisboa, Setembro de 1999, pág. 374.

sumário