Aurora Garrido

Maria Elisa Pinheiro*

 

Assentava-lhe mal o sobrenome. Não era uma aurora garrida, alegre, rutilante e colorida. Era uma Aurorinha tristonha, escurinha, cabisbaixa. Sete aninhos apagados, parados no tempo...

Repetia uma primeira classe que se adivinhou difícil. Algum receio. Nenhuma animação. Nenhum interesse. Existia e permanecia inactiva, deitando de vez em quando, apaticamente, a cabeça na carteira; dormitando às vezes.

A família numerosa, transmigrada de Trás-os-Montes para o Colonato no Limpopo - Moçambique, cultivava arroz. Gente rude. Gente de trabalho, sem disponibilidade para amimar um de entre muitos filhos.

Esgotados os recursos habituais colocou-se no meio da sala, deixando crer que fora esquecida. Mas de cada vez que por ali passava afagava - lhe a cabeça e prometia:

- Se aprenderes a ler levo-te comigo para a segunda classe...

Parecia ser uma promessa vã; ela não conseguiria...

Avançavam os programas. A turma progredia. Por volta da Páscoa, quando já toda a gente lia e se trabalhava um texto no quadro, chamei - a a ler, como de costume, não esperando nada. Porém dessa vez uma vozinha trémula mas audível começou hesitante... e terminou mais segura, para receber os aplausos...

Porque palavra de Rei não volta atrás, a promessa tinha de ser cumprida. Seguiram-se dois meses de recuperação intensa, para que fossem atingidos os mínimos.

É verdade que continuou muito fraquinha.

É verdade que só aprendeu a somar.

É verdade que os seus olhos ganharam outro brilho.

É verdade que ressuscitou para a Vida.

Foi para a segunda classe.

 

Que me perdoe a colega que a recebeu. Eu tive de partir. Mas não podia defraudar aquela criança.

 

99 Abril

Viseu

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* Professora do Ensino Primário, reformada.

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