Algumas ideias para uma prática mais criativa

nas aulas de Língua Portuguesa

 

 

VÍTOR MANUEL TAVARES MARTINS *

 

O conceito de criatividade não se tem prestado, na comunidade científica, a uma definição aceite incondicionalmente por todos. Conforme os autores e as correntes de pensamento que perfilham e dada a complexidade do fenómeno (é um construto extremamente complexo e difuso que envolve muitas dimensões), assim ganha o conceito de criatividade esta ou aquela significância. No entanto, poderemos dizer que as variadíssimas definições propostas se enquadram, grosso modo, com aspectos que se interligam, nos seguintes espaços de perspectivação:

-- focagem centrada na pessoa;

-- focagem centrada no processo/meio/acto;

-- focagem centrada no produto/objecto/fim;

-- focagem centrada no ambiente.

Mas a falta de uma definição unânime não significa uma imprecisão total do conceito de criatividade. Há contornos que já são claros e vistos por todos. Assim, entendemos a criatividade como um dom ou capacidade que todas as pessoas têm, embora possa estar mais ou menos adormecido(a), o(a) qual é possível ser desenvolvido(a) e estimulado(a), tal como pode ser, mais ou menos severamente, inibido(a) por forças de natureza emocional ou social. Corresponde à capacidade de captar toda a classe de estímulos e de transformá-los em expressões ou ideias com novos significados, materializando-as com "marcas pessoais". Entre outras, há três capacidades mentais intimamente ligadas à criatividade - a fluência, a flexibilidade e a originalidade. A fluência diz respeito à "abundância ou quantidade de ideias diferentes sobre um mesmo assunto ou respostas a uma questão" (Alencar, 1996) ou, segundo Torrance, "a capacidade de pensar num grande número de ideias ou possíveis soluções para um problema". A flexibilidade refere-se à "capacidade de alterar o curso de pensamento ou conceber diferentes categorias de respostas" (Alencar, 1996) ou, na perspectiva de Torrance, "a capacidade de pensar em diferentes métodos ou estratégias". A marca mais forte e comum da originalidade é, segundo este autor, "a capacidade de pensar em possibilidades únicas ou não usuais" ou "a presença de respostas raras, infrequentes ou incomuns", mas possíveis (Alencar, 1996).

Em Língua Portuguesa (como em outras disciplinas) é importante que se possibilite ao aluno o livre fluir de mais e melhores ideias (dimensões da fluência, flexibilidade e originalidade) e o professor, para chegar a esse desiderato, deve, por um lado, não inibir uma responsável prática irrequieta de pensamento em acção e, por outro lado, deve promover conscientemente iniciativas de activação do desenvolvimento psicológico.

A Criatividade não se manifesta apenas no campo das chamadas produções artísticas e científicas e temos já testemunhado, em incontáveis momentos, o enorme potencial criativo dos nossos alunos. Saibamos nós dar-lhes campo fértil para florirem.

Sinopticamente,

aqui se apresentam algumas ideias (resultantes de leituras, de pesquisas, da nossa própria prática e experiência pedagógicas) que, a nosso ver, poderão ajudar a estimular o potencial criativo dos alunos nas aulas de Língua Portuguesa.

 

 

SUGESTÕES

 

 

  1. A apresentação do professor no início do ano.

 

 

 

2) A postura do professor ao longo do ano.

É fundamental que a apresentação do professor (e dos alunos) seja criativa, alegre e coerente. Parece-me ser uma actividade pouco valorizada pelos professores.

 

O professor deve ter o espírito aberto ao fluir da criatividade e ser, ele próprio, criativo. A criatividade trabalha-se.

3) Uso de Mapas de Histórias como forma de dinamizar a expressão escrita (texto narrativo).

 

 

 

4) Uso de suportes pedagógicos variados – cassetes vídeo e audio por exemplo.

 

 

 

 

 

5) Uso de textos e grafismos apelativos retirados da comunicação social como forma de dinamizar actividades de expressão oral e de expressão escrita.

Os Mapas de Histórias não pretendem limitar o livre fluir das ideias dos alunos, mas tão só espicaçá-los para os incontáveis caminhos que podemos percorrer ao escrever uma história.

 

Tenho usado com grande êxito, por exemplo, gravações de diversíssimos sons (humanos e da natureza) para, por um lado, os alunos identificarem e, por outro, expandirem a sua oralidade e a sua expressão escrita (reconto, narração, descrição, etc.).

 

São normalmente um bom incentivo motivacional para o aluno. A presença da tesoura, da régua e da cola são, neste domínio, fundamentais.

6) Uso e treino de jogos de palavras.

Exemplos:

-- caligrama

-- colagem

-- frase dada

-- invenções

-- tautograma (letra imposta)

-- lipograma (letra proibida)

-- mancha de tinta

-- texto fenda

-- acrósticos

-- títulos (...)

7) Julgamentos - uma forma de desenvolver o espírito crítico, a capacidade de argumentação e a expressão da oralidade.

Por vezes, na leitura de uma obra completa, deparamos com situações polémicas, em que as personagens tomam atitudes discutíveis. Proponho, por vezes, o julgamento de uma dessas personagens, criando um "tribunal" para o efeito.

8) Dramatizações.

 

 

9) Os 5 minutos antes da Ordem do Dia.

 

 

 

 

 

 

10) Recolhas do património oral.

(Presença permanente de dossier na sala da aula para guardar as recolhas que vão sendo feitas pelos alunos e professor).

 

 

11) Incentivo à escrita autobiográfica.

Têm sido, por vezes, uma forma excelente de alguns alunos se revelarem.

 

Por vezes, com certas turmas, torna-se necessário acordar e concretizar os"5 minutos antes da Ordem do Dia". Momento de expressão das emoções e tensões dos alunos, ajuda a estruturar a sua responsabilidade e a alicerçar a sua cooperação para o resto da aula.

 

Promove-se a recolha de textos do património oral, enfatiza-se o esforço e empenho dos alunos que fizeram a recolha e, posteriormente, promove-se uma forma de organizar e/ou divulgar esse material.

 

A ideia é os alunos organizarem um dossier sobre si próprios chamado "EU" (narração breve de recordações, avaliação actual de si, projectos, sonhos e divagações, encarar a opinião dos outros).

 

O "Abre-te Sésamo" fundamental para a emergência e prática da criatividade não são estas ideias (embora possam ajudar). O fundamental será a atitude criativa e informada do professor. Para que não aconteça como o relatado no seguinte texto (BALANCHO, 1992):

 

"Era uma vez uma galinha branca que punha ovos azuis...

- Ovos azuis? - reclamou a professora, indignada, interrompendo a leitura da minha redacção, enquanto a turma se agitava em risinhos de troça e segredinhos maliciosos.

- Ovos azuis, sim, senhora professora - respondi eu. - A minha galinha põe ovos azuis.

- A menina está a brincar comigo? Já viu alguma galinha pôr ovos azuis? Sente-se imediatamente e faça já outra redacção.

Voltei para o meu lugar, de cabeça erguida, enfrentando a galhofa da turma.

Não baixei os olhos. Apenas os senti escurecer, num desafio.

Durante o recreio fiquei na aula, de castigo. Mas não fiz outra redacção.

Quando, depois do "toque", a professora me chamou para que lesse em voz alta a segunda versão, comecei:

- Era uma vez uma galinha branca que punha ovos brancos, só porque não a deixavam pôr ovos azuis..."

 

 

(BALANCHO. Mª José (1992). "A Criatividade no Ensino do Português".Lisboa: Texto Editora.

____________________

* Professor Efectivo da Escola Básica do 2º e 3º Ciclo de Valongo do Vouga, Águeda.

sumário