"BATONEIROS", LAMBAREIROS E LÍNGUAS DE TRAPO...

 

MARIA DA CONCEIÇÃO DUARTE PEREIRA *

 

PREÂMBULO

Estávamos em Lisboa, na véspera de mais uma passeata. Como tínhamos a tarde livre, aproveitámos para ir até à outra banda, para visitar o Santuário do Cristo Rei. Depois do almoço, fomos para o Cais do Sodré. Ao lado da estação dos comboios, no ancoradouro dos cacilheiros, comprámos o bilhete de ida. Enquanto aguardávamos a embarcação, na espécie de sala de espera para passageiros, uma voz ao altifalante anuncia que há um atraso devido a distúrbios no barco.

Afinal, quando este chegou, tudo estava na mais perfeita calma e nada de transcendente se nos afigurou. Entrámos e lá atravessámos o Tejo, numa curta viagem de cerca de 15 minutos. Uma vez chegados, fomos perguntar como se chegava ao Santuário, pois queríamos ir a pé. É muito longe! Foi logo a resposta de uma velhota que por ali vendia sucedâneos de chocolate. Também não nos soube dizer se havia transportes públicos até lá. Indicou-nos, antes, um taxi. Havia ali por perto uma série de autocarros parados e lá nos disseram o que deveríamos tomar.

Pouco tempo depois, já estávamos defronte da grandiosa estátua do Todo Poderoso. O elevador de serviço levou-nos ao topo. A vista sobre Lisboa é magnífica. Tirámos fotografias e descemos. Também visitámos a pequena capela na base da estátua. De novo nos vimos no autocarro que nos levou ao cais para tomar a embarcação de volta. Depois deambulámos por Lisboa, passeámos no Eléctrico das Colinas que nos levou a visitar os monumentos mais emblemáticos da capital, por entre ruelas e vielas. À noite, uma vez mais, fomos às pastas para as Amoreiras. Entre lasanhas, canelones e outros afins, voltámos a empanturrar-nos. Deitámo-nos cedo. O dia seguinte prometia ser longo...

 

PARTE I

BRETÕES E NORMANDOS

 

De volta à estrada, é mais um ano e mais uma tour. Cheia de peripécias, como as demais. Ou não fôramos nós tão propensos a elas! A bem dizer, nem seria coisa nossa se assim não fosse...

Este ano de novo rumámos à França. Já começa a ser um hábito!... Desta vez foi à Bretanha e à Normandia, para fazer um circuito de 4.580 quilómetros. Para ver o que, no pretérito ano, nos fora negado por falta de vagas. Como o dinheiro até abundava, para além da pátria do Astérix, decidimos rumar, depois, à Andaluzia. Isto, por entre um par de diazitos de intervalo na capital, para mais umas passeatas e uma valentes comezainas...

No dia da partida, ao raiar da manhã, lá estávamos nós de mala e cuia. Ainda à porta da agência, como sempre, começámos por analisar, detalhadamente, a fauna que nos iria acompanhar nos dias mais próximos. Havia de tudo um pouco! Com surpresa, verificámos que nos fazia companhia um casal e a respectiva filha, já espigadota, que já connosco viajou no ano anterior. Vamos agora aos demais. Como sempre, a geriatria imperava. A brigada do reumático estava, uma vez mais, em força. Balofos, avantajados, esfaimados e línguas de trapo... Pelo menos a esmagadora maioria deles. Daí o nome desta crónica. Também só eles - pelo menos alguns - têm cacau para estas coisas. Vamos lá conhecê-los: A senhora de blusa vermelha, cujo penteado era uma obra de arte. Uma série de carrapitos e torcidos, geometricamente entrelaçados no alto da cabeça. Durante toda a viagem manteve, no pé esquerdo, uma meia elástica. Também o polegar direito era sustentado por uma espécie de tala plástica, cor da pele. O marido, para o aloirado, barba rala, era o expoente máximo da antipatia. Ainda uma outra mulher, de avantajadas e adiposas carnes, para quem a genética capilar fora madrasta. A senhora era desprovida de pilosidades no cimo da cabeça, o que a levava a fazer verdadeiros penteados acrobáticos para esconder a calvície. Penteava-se dos lados para o cimo e, sabe Deus como, lá ficava a pouca guedelha segura. Pelo menos durante algum tempo. Mas, para o fim do dia já estava todo melado e com o cocuruto à mostra. A maquilhagem, berrante e exagerada, dava-lhe um certo ar burlesco, o que nos levou a apelidá-la de Castafiori. Antes, ainda nos lembrou Ionesco e a sua Cantora Careca. Também havia a Nazi. Assim por nós apelidada, face ao seu brusco e ditatorial comportamento. Viúva, autoritária, parecia um vendaval por onde passava. Ai de quem tivesse o azar de cruzar os seus caminhos! Uma outra criaturita, de protuberantes lombos e trato pouco agradável, a quem apelidámos de sapa. Movia-se com dificuldade, na certa por via da sua balofice. Por isso mesmo, ainda lhe pusemos o rótulo de desengonçada... A melhor ficou para o fim. Solitária, não sabemos se viúva ou divorciada, na casa dos sessenta, fogosa, loira emprestada, durante toda a viagem teve o desplante de se fazer ao piso a quase todos os espécimes masculinos. Ele eram vestidos colantes, astronómicos decotes e uma sempre imprescindível pochette. Abaixadelas estratégicas. Boquinhas. Esticadelas rumo ao porta bagagens do autocarro. Enfim, tudo servia de estratégia de ataque. Mas, nada!... Teve azar! Ninguém lhe ligou patavina... Os machos não estavam para aí virados e não morderam o já bolorento isco...

Quanto aos homens, também lá iam algumas aves raras... O médico folião, engatatão, bachareleiro e de vernáculo escorrido, bom garfo e ainda melhor copo, mas com bom íntimo e coração de manteiga. O também médico, mas brasileiro, de quem nunca chegámos a saber o nome, mas que era um cara muito legal. O bicharoco - um aparvalhado e mal educado indivíduo, que, por diversas vezes, teve o condão de nos irritar a até provocar mal estar entre o grupo. Era do tipo pseudo macho latino a quem a mulher - entenda-se esposa – estava total e completamente subjugada. Do género de estar sentado e chamar a subordinada fêmea, que até estava bem longe, para esta lhe ir buscar ou fazer qualquer coisa. Enfim, um fóssil, daqueles para quem a tradição ainda é, e será sempre, o que era... Cabelos besuntados de restaurador olex, ou qualquer outra mistela que, mal e porcamente, lhe mascarava os já brancos cabelos. Assim sempre tinha um ar mais garanhão... E quando resolvia abrir a camisa até meio e desnudar o já encarquilhado torso? Era um papelinho!...

Para o fim, deixei o mais castiço. Pouco mais de metro e meio, sorriso rasgado, era aquilo que se chama de perfeito boçal. Senhor de uma ingenuidade a roçar o pueril e de uma fervor religioso impressionante. Fazia-se acompanhar de um rosário e uma coroinha do Menino Jesus de Praga, que orgulhosamente nos mostrou. Todos os dias vou à missa e todos os dias tomo Nosso Senhor, confessou-nos! O seu hobby era atracar-se à presumida guia - de quem falarei mais adiante - para lhe colocar as mais estapafúrdias e ingénuas questões. Mas não tinha sorte! A madame fazia questão de o enxotar - como se afasta uma aborrecida mosca - pelas razões que adiante direi. De tal maneira era simples e inocente o homenzinho que, a um de nós que levava óculos escuros, perguntou, com a maior das naturalidades, se era cego... Confidenciou-me, numa das muitas conversas que mantivemos, que tinha arranjado um velho pau de vassoura para, imagine-se, lá colocar uma bandeira nacional e oferecer à guia para que ela, ao levantá-lo bem no ar, nos servisse de ponto de orientação. Mas ficou muito pesaroso quando, num dos dias de futebol nas Antas, lhe pediram cinco euros por uma bandeira. Não teve outro remédio senão desistir da compra. Contrariado e triste, é certo. Mas cinco euros... Era um despudor...

Vamos agora à guia! Fato de calça e casaco cinza, blusa branca, cabelo pelos ombros, fazia-se acompanhar, em permanência, por uma mochila capuccino. Logo desde os primeiros instantes nos apercebemos do seu temperamento. Não dava confiança a qualquer um. Principalmente se não tivesse pergaminhos... Fez a sua escolha e, durante toda a viagem, só acompanhou e partilhou sorrisos e atenções com gente bem...Os Nelenses devem estar-lhe agradecidas, porquanto, quanto passámos por esta vila beirã, identificou-a como cidade(?).

Já me esquecia do peculiar casal de meia idade, simpático, práfrentex, cuja mulher ostentava uma curta cabeleira carmim, que, por acaso, até lhe ficava muito bem.

Mas vamos ao que interessa - à passeata. Saímos de Lisboa manhã cedo. A primeira paragem foi em Santarém, para a tradicional cafeína e satisfazer necessidades fisiológicas. Mais adiante, para as bandas de Coimbra, recolhemos os outros elementos do grupo que haviam partido do Porto. Estrada fora, rumámos à Guarda para o almoço ainda em terras lusas. Primeiro, uma sopinha de legumes para agasalhar os estômagos. Depois, à laia de entrada, uma salada de tomate e alface. Como prato principal, perna de porco assada no forno com batatas fritas aos gomos. A sobremesa foi salada de frutas e, para rematar, o indispensável café. Depois do repasto, seguimos viagem. Lá para o meio da tarde, nova paragem técnica! Aproveitámos para comprar madalenas e oreos - as deliciosas bolachas recheadas de creme branco e cobertas de chocolate. Dali seguimos para Burgos, primeiro local de pernoita. Depois do reconfortante banho, veio a janta. Pela primeira vez nas nossas vidas provámos uma canja com fiambre. Diferente, mas muito boa. A seguir, batatas fritas acompanhavam umas costeletas de porco cobertas com molho de ervas aromáticas. Para sobremesa, uma caixa de massa folhada onde se aninhava uma bola de gelado. Para desgastar, fomos passear pela cidade até as nossas pernas e pés gritarem por socorro.

No dia seguinte, depois do pequeno-almoço, deixámos Burgos e rumámos à fronteira com França. O nosso próximo destino era Biarritz, em pleno país basco francês. Em tempos, esta cosmopolita estância balnear foi residência da Imperatriz Eugénia, consorte de Napoleão. Ainda hoje lá está o seu palacete, agora transformado num luxuoso hotel de nome Le Palais, em cujo interior existem dois casinos. Depois da panorâmica da cidade e das fotografias da ordem, fomos almoçar. Nas mesas, em cestinhos ovais, pequenas baguetes de aspecto convidativo aguçavam-nos o apetite. Como entrada, foi-nos servida uma fatia de patê de salmão prensado, regada com molho de tomate. Foi aqui que o bicharoco teve a sua primeira tirada de mestre. Ao chamar o empregado, como quem chama um cão tresmalhado e ainda por cima em português! Eh, Eh, pssst, pssst, quero pão!... Não ficou sem resposta. O empregado, diplomaticamente, acedeu ao pedido, não sem antes lhe perguntar se, em Portugal, era hábito chamar as pessoas por pssst, pssst... Claro que o massa bruta não percebeu. Até porque o rapaz se expressou na sua língua materna, da qual, o energúmeno, não percebia rigorosamente nada. Adiante!... Como prato principal foi-nos servida uma perna de frango corada coberta com um molho de legumes, onde se viam cenouras, pimentos e variadíssimas ervas. Tudo acompanhado por talharim al dente. Para sobremesa, mousse de chocolate. Após o almoço, prosseguimos por Bayonne, capital do país basco francês, e chegámos a Bordeaux ao fim da tarde. Deparámo-nos com uma cidade toda de pantanas, em profundas obras de remodelação do pavimento e das linhas do eléctrico. Atravessámos a ponte sobre o Garonne, com a catedral de Santo André, à nossa frente, e dirigimo-nos ao hotel. Por sinal, bem engraçado, todo alusivo ao cinema. Cada quarto está dedicado a um filme. O nosso era ao Drácula, do mestre Coppolla.

Antes do jantar, questionámos dois empregados do hotel no sentido de nos ser indicado onde ficava o jardim da cidade que ostenta um busto de Aristides de Sousa Mendes. Estranhamente, nenhum deles sabia. Nem onde ficava, nem, tão pouco, quem fora Sousa Mendes. Já havíamos feito a mesma pergunta ao nosso motorista e também ele não nos soube elucidar. Conformados, lá fomos comer. De entrada serviram-nos uma tartelette com carne fumada, enfeitada com folhinhas de alface. Como prato principal uma vitela com pimenta acompanhada de batata frita, cenouras bebé e meio tomate assado no forno, tudo polvilhado de ervas aromáticas. Para sobremesa, uma generosa fatia de tarte de limão merengada. Depois do jantar fomos passear. Descemos até à Praça Gambeta, observámos o arco que leva à rua de Santa Catarina - zona comercial por excelência - visitámos o monumento erigido aos jacobinos, tirámos fotografias na belíssima fonte ornada de possantes cavalos, observámos as esculturas modernas que se encontravam ao longo do rio e fomos até ao velho cruzador que se encontra ancorado no cais - o Colbert – agora transformado em restaurante. De volta ao hotel, numa gelataria da praça Gambeta, comemos fatias de tarte de pécans e bebemos coca-cola light. Em quase todos os cinemas, estava em exibição a sequela de Man in Black. Fomos dormir. No dia seguinte a viagem era longa e o primeiro destino prometia – La Rochelle.

Ao fim de duas horas de caminho e após a chegada a esta cidade, portuária, dirigimo-nos ao posto de turismo. Aguardava-nos o nosso guia local, o Didier. Simpático, alto, louro, vestia sexy calça beije, camisa xadrez azul e branca, ténis e óculos escuros. No dedo médio da mão esquerda ostentava um enorme anel prateado. Expressava-se num castelhano perfeitamente perceptível. Percorremos a cidade sob um sol escaldante até à hora do almoço, embevecidos com as explicações do Didier que, de forma simpática e divertida, nos contou a história da cidade. Mostrou-nos as suas casas medievais, de madeira e pedra, com belíssimas fachadas esculpidas datadas dos séculos XVI e XVII. Ficámos a saber que, a partir do século XII, La Rochelle tornou-se um importante porto e a cidade prosperou graças ao comércio de vinho e de sal. Independente, e de certo modo liberal, acolheu bem as ideias da Reforma. Tornada capital do Protestanismo Francês, ousou afrontar a política de unificação empreendida por Richelieu. Posteriormente, já no século XVII e apesar da resistência dos seus habitantes, personificada no seu alcaide, perde os privilégios comerciais que detinha. Foi preciso esperar pelo século seguinte e pelo açúcar proveniente das Antilhas, para retomar o seu esplendor comercial. Este renascer verificou-se também a nível intelectual e artístico. Enriquecida por um passado glorioso, La Rochelle é hoje um importante porto de pesca e desportivo, dotado de infra-estruturas ultra modernas. Para já não falar do excelente e aprazível lugar turístico. De tudo o que vimos, chamou-nos particular atenção o Hôtel de Ville - a Câmara Municipal - com uma belíssima fachada.

Também os corredores em jeito de claustros, no rés-do-chão, ornados com trabalhadas e grossas colunas e os tectos profusamente elaborados com brasões e monogramas reais.

Com a alma mais rica, mas com a barriga a dar horas, fomos almoçar. Como entrada, fatias de presunto, folhas de tenra alface, tomate e pepinos em conserva. Como prato principal, um filete de peixe cozido ao vapor, regado com um molho de natas acidulado com limão, onde não faltavam as finíssimas ervas aromáticas. Tudo acompanhado por um soltinho arroz selvagem. Para sobremesa, tarte de maçã e café. Dali, fomos para Nantes.

À chegada, começamos por visitar a Catedral de São Pedro e São Paulo, acompanhados pela nossa guia local, a Servanne. Simpática, alegre, mas muito mal vestida. Ou melhor, mal calçada. Isto porque, com uma saia e camisa de ganga, calçava umas sandálias lilazes que nada tinham a ver com o conjunto. Depois da catedral, bem perto da antiga sede da famigerada Gestapo, iniciámos a visita panorâmica da cidade, com especial destaque para o castelo da duquesa Ana da Bretanha. Neste, durante a II Guerra Mundial, foi-nos dito que os alemães construíram um bunker. Ficámos por nossa conta até à hora do jantar, para visitas e compras. Depois do retemperador banho, um alívio face ao sufocante calor que se fazia sentir, fomos jantar. Como entrada, massa folhada recheada de frutos do mar – mexilhões, camarões, lulas e amêijoas – cobertos com um molho de uma tonalidade alaranjada. Como prato principal, um curioso filete de dois peixes entrelaçados – salmão e um outro de textura branca que não soubemos identificar – afogados num molho branco e acompanhado de batata cozida e uma miscelânea de legumes aferventados ao vapor. Para sobremesa, duas bolas de gelado, de limão e framboesa. Depois fomos passear pela cidade. Para recordação, tirámos fotografias junto ao memorial em honra de 50 prisioneiros fuzilados pelos nazis como retaliação pelo assassinato de um general alemão perpetrado por um jovem elemento da resistência francesa.

No dia seguinte fomos para Vannes. Começámos por andar no comboizinho turístico, que percorreu as ruas e vielas típicas, dando-nos uma excelente panorâmica do burgo. Depois das compras, sentámo-nos num pequeno cafezito e comemos um delicioso bolo de chocolate trufado, que nos soube pelas almas! Mais uma passeata e, pelo roncar dos nossos estômagos, apercebemo-nos que era hora de almoço. Como entrada, tirinhas de bacon frito com alface ripada em juliana e, por cima, um ovo escalfado. A seguir serviram-nos um bife de peru com cogumelos e molho de natas, acompanhado de uma exótica tortilha de batata, aromatizada com canela e gratinada com queijo. Para sobremesa, novamente tarte de maçã, o que não é de estranhar por terras Bretãs. Depois do almoço, saímos para Quimper. Começámos por visitar a catedral de Saint Correntin e depois fizemos compras pelas lojinhas encavalitadas nas estreitas ruelas. Deliciámo-nos, ainda, a observar e fotografar as ancestrais casinhas. Dali fomos para o barco que nos levou pelo rio l’Oret, num calmo e repousante cruzeiro, desde Bénodet até novamente Quimper. Foi aqui que se passou uma situação assaz caricata e que não resisto a contar. Então não é que, numa das nossas idas à casa-de-banho, a tal loira sessentona e assanhada vai de se pôr à porta dos lavabos masculinos, mirando todo o macho que entrava? Só visto, porque contado ninguém acredita! Aonde chegou o descaramento e a lata da figurinha!... Depois deste atrevimento, passámos a chamá-la de Cicciolina... Dali fomos para Brest, onde passámos mais uma noite do nosso já apimentado circuito. Antes, ainda nos deliciámos com um jantarinho simpático. Um puré de legumes, uma costeleta de porco com batatinhas fritas inteiras e feijão verde cozido. Para sobremesa, um salivante brownie, coberto com creme de pasteleiro e polvilhado de amêndoa filada.

No dia seguinte, saímos para Rennes. Começámos por visitar a catedral de Saint-Pierre e depois percorremos as ruelas estreitas bordejadas de casinhas medievais. Tanta passeata abriu-nos o apetite. Fomos comer uma tarte de chocolate com banana e continuámos o périplo pela cidade, até à hora do almoço. Aguardava-nos uma fatia de patê com dois sabores – salmão e foie gras – um quarto de tomate, uma rodela de limão, alface ripada e um tufo de queijo cremoso com ervas. Isto como entrada. Como prato principal, deram-nos um bife de peru de fricassé, com batatas fritas às rodelas. Para sobremesa, um cocktail de salada de frutas com uma bola de gelado de baunilha, tudo regado com molho de frambosesa. Depois do repasto, rumámos a Saint-Malô. Começámos logo pelo trem turístico, que nos levou a visitar a cidade intramuros. Depois, a pé, percorremos as vielas e aliviámos as carteiras nas lojinhas típicas. Como não podia deixar de ser, provámos as iguarias locais, melhor dizendo, as lambareirices, sob a forma de um estonteante pavê de chocolate. Dali fomos para o hotel, muito castiço, muito original, mas isolado num pequeno amontoado de casas. Para lá chegar tivemos que percorrer uma estrada que atravessa uma barragem e que, por sinal, até estava encerrada ao trânsito. Uma das pontes estava suspensa, para deixar passar um navio de recreio de porte considerável.

Depois do banho e de um merecido repouso, fomos jantar. Primeiro, um bem apaladado creme de cogumelos, depois um peixinho coberto com um molho espesso e acompanhado de arroz branco e legumes salteados – cenoura e repolho. Para sobremesa, surpreenderam-nos com uma salivante tarte bicolor, de morangos e frambosesas. De um lado, regada com molho de framboesa, do outro, salpicada de crème anglais. Supimpo! Depois do jantar, à laia de ajuda à digestão, passeámos pelo lugarejo que nos circundava e fomos apreciar as bonitas vivendas que por lá se viam. Como ainda era cedo, fomos tomar um café ao bar do hotel. Eis senão quando, junta-se a nós o tal cara muito legal, o médico brasileiro. Contou-nos que descera até à barragem e tinha apreciado o movimento dos iates que por lá passaram. Conversador nato, contou-nos histórias engraçadíssimas da sua vivência profissional, e não só. Fez-nos rir com a Maria Fumaça, uma velha e desengonçada locomotiva, que, gemendo e contorcendo-se sobre os velhos carris, ainda levava passageiros até, imagine-se, um lugarejo de nome Tiradentes... Certamente uma vilória perdida no vasto sertão... O serão, apesar de magnífico, teve que ser dado por encerrado. O dia seguinte era longo, mas aliciante. Íamos visitar o Mont Saint-Michel.

Manhã cedo, depois do pequeno-almoço, lá seguimos para aquela maravilha, uma das principais atracções turísticas da França. Sui generis e deslumbrante, é uma ilhota rochosa de oitenta metros de altura e aproximadamente um quilómetro de perímetro, coroado por uma lindíssima abadia, de onde sobressai uma torre construída em 1525. As suas origens remontam ao século VIII e a primeira impressão que se tem quando se chega a este lugar místico é de que se trata de uma fortaleza e não de um mosteiro.

Uma das partes mais magníficas deste edifício é o fabuloso claustro. Antes, para lá chegarmos, tivemos que subir umas valentes dezenas de degraus. Mas valeu a pena! Se o exterior era belo, o interior não ficava atrás. Vimos tudo.

Desde o gigantesco refeitório dos monges.

À grandiosa e imponente estátua do Arcanjo Miguel.

Ainda uma monumental roda de madeira, que desafiou a nossa imaginação. Mais não era do que uma máquina de construção, no tempo em que os motores e as gruas não passavam de miragens. Funcionava pelo sistema de alavanca. No seu interior eram introduzidos alguns homens que, caminhando dentro da roda, permitiam que uma corda se desenrolasse sobre um eixo e fizesse subir os materiais destinados à construção. Pode dizer-se que foi a antepassada ou precursora das modernas gruas.

Depois perdemo-nos pelas estreitas vielas até às muralhas, para nos estarrecermos com a vista da baía, parcial e progressivamente inundada por uma das mais fortes marés da Europa. Cansados, mas felizes e mais ricos intelectualmente, rumámos a Bayeux, já em plena Normandia. Foi a primeira cidade a ser libertada pelos aliados após a invasão. Dali dirigimo-nos para Arromanches. Antes das visitas, ainda fomos almoçar. Num restaurante cujo dono era um grande safado, advertiu-nos a guia. Isto porque, tinha por hábito colocar nas mesas garrafas de vinho, já abertas, que as pessoas intuíam estar incluído na refeição. Mentira! No final, os incautos, eram levados à certa e tinham que desembolsar umas dezenas de euros a mais... O almoço, sem ser nada de especial, até nem foi mau. Ou, então, a fome é que era negra... Como entrada, um tomate recheado com atum e ervas aromáticas, acompanhado de batatas e beterrabas, cozidas aos cubinhos, rodeadas por alface e cenoura ralada. Pena estarem encharcadas de vinagre. Depois vieram dois filetes, de salmão e pescada, regados com molho de natas e acompanhados com arroz de cenoura e feijão verde polvilhado com cebolinho. Para sobremesa, fruta em calda. Antes de sairmos, o mafioso voltou a fazer das dele. Transportando uma bandeja com chávenas, vai perguntando quem quer café. Como a guia só nos falou do truque do vinho, vai de aceitarmos o bendito café. Depois das chávenas colocadas defronte dos incautos, aparece com um enorme bule de fumegante café que vai distribuindo e, acto contínuo, vai dizendo que são dois euros. Com a maior das latas, fazendo a conta aos cafés, pasme-se, na toalha de papel... Instalou-se de imediato a confusão e a berraria e protestou-se contra a rasteira... A maioria recusou o café. Nós, muito caladinhos, tomámos o dito, que, afinal, revelou-se uma reles e remelosa água choca. Como se costuma dizer, pagámos e não bufámos. Talvez até tenhamos bufado, mas não tivemos outro remédio senão pagar...

Estamos agora na praia de Arromanches, local de desembarque na Normandia das tropas britânicas, aquando da II Guerra Mundial. Aqui se construiu, em tempo recorde e de forma espantosa, um porto do tamanho do de Dover e com a capacidade de tonelagem do de Gibraltar, que não resisto a descrever. Para isso, começaram por ser afundados nas rochas subterrâneas de Calvados, 18 antigos navios mercantes e um cruzador. Desta forma, formou-se um primeiro refúgio. Imediatamente depois, os primeiros pontões, conhecidos como Fénix, começaram a chegar, à razão de 15 por dia. Eram feitos de cimento armado e pesavam entre 3.000 a 6.000 toneladas.

Mediam 220 pés de largura, 60 de altura e 51 de profundidade. Atravessaram o canal a uma velocidade de 4 milhas por hora, arrastados por três rebocadores. Uma vez colocados no local pretendido, foram afundados nos recifes de Calvados.

Dos 115 originalmente lá colocados restam hoje, ao largo da praia e na areia, apenas 40 e já em muito mau estado. Tirámos fotografias e apreciámos demoradamente aqueles silenciosos gigantes de pedra que, sem dúvida, ajudaram a suster o totalitarismo. Resistiram a todo o tipo de intempéries durante muitos anos, quando, na realidade, foram colocados para servir apenas durante dezoito meses. Dali fomos visitar o Museu do Desembarque. Começámos por ver dois pequenos filmes elucidativos do esforço de construção do porto e percebemos a sua utilidade aquando da invasão pelas tropas aliadas. Depois da visita do museu, passeamos um pouco ao longo da praia, tentando, de algum modo, visualizar, ainda que de forma virtual, todo o horror que aquelas águas e areias testemunharam. Num pequeno café, deparámo-nos com um veterano de guerra, trajando calça branca e blaser azul, com o peito pejado de medalha. Certamente ganhas mercê de heróicos actos praticados por aquelas paragens. Dali fomos para Omaha Beach, local de desembarque das tropas americanas. Perto, na localidade de Colleville-sur-mer, visitámos o cemitério yankee. O silêncio é sepulcral.

A relva, aparada ao milímetro, exibe uma saudável tonalidade verde. De repente, o coração salta-nos no peito. À nossa frente, milhares de cruzes brancas, todas talhadas em mármore de Carrara, formam um macabro jardim de pedra.

Mas não só cruzes por lá existem. Nos sepulcros dos mortos de convicção judaica, o topo da cruz foi substituída por uma estrela de David. Foi-nos dito que ali repousam 9.356 almas.

Em memória das que nunca apareceram foi construído um memorial. Sobre uma espécie de lápide de mármore negro com veios brancos, ladeada por bandeiras americanas, francesas, britânicas e canadianas e onde, ao cimo, foram colocadas duas grandes baionetas, pode ler-se a frase I give unto them eternal life and they shall never perish. As cruzes que estão identificadas têm, para além dos nomes, das datas de nascimento e morte, o local de proveniência dos defuntos. As que assinalam túmulos de soldados cuja identidade nunca se apurou, ostentam uma singela frase onde se diz que, apesar de ser desconhecido para os homens, não o é para Deus.

Ali ficámos a saber que, afinal, a história do Soldado Ryan, que Spielberg magistralmente levou à tela, não é de todo ficção.

Isto porque, neste mesmo cemitério, estão sepultados, lado a lado, dois irmãos - Robert J. e Preston T. Niland - mortos durante a invasão. Eram quatro os jovens irmãos americanos que decidiram alistar-se no exército quando a guerra rebentou. Preston, Robert e Francis foram destacados para a Normandia em diferentes unidades do exército. O quatro irmão, Edward, foi enviado para o Pacífico, como aviador. Robert foi morto a 6 de Junho, na localidade de Saint-Mère-Eglise, e Preston, no dia seguinte, na praia de Utah. Lá longe, Edward foi dado como desaparecido nessa mesma semana. As autoridades decidiram, então, ir em sua busca. O capelão foi encarregado de dar a notícia ao irmão mais novo, Francis, depois de ser evacuado para a Inglaterra. Só com o fim da guerra Edward, o que fora dado como desaparecido, foi finalmente localizado. Fora feito prisioneiro pelos japoneses.

Ao saber desta história, a prolífica mente de Steven desde logo concebeu uma história que, como só ele sabe fazer, foi transposta para o cinema com o resultado que todos sabemos. Porque foi pouco o tempo que nos foi dado, não tivemos oportunidade de descer à praia de Omaha. Apenas a pudemos apreciar de longe. De olhos fechados, tentámos - se isso alguma vez é possível - imaginar o som sibilante das balas, o cheiro acre do sangue quente a jorrar das entranhas dos militares e o azul daquelas águas que, num ápice, se tornaram escarlate. Por tudo isto, e muito mais, esta praia ficou tristemente conhecida como bloody Omaha Beach...

Sabe Deus quantas vidas foram ceifadas à medida que desembarcaram, chacinadas pela metralha nazi, oculta nos bunkers cavados na muralha construída ao longo da costa. Alguns, talvez a maioria deles, nem tiveram tempo para se aperceberem do que verdadeiramente estava a acontecer. Abriram o peito às balas e, de forma heróica, começaram por devolver a liberdade à Europa e ao mundo.

Ao longo de parte da praia ainda se observam restos da dita muralha, com os bunkers ou esconderijos, de onde as tropas de Hitler tentaram, em vão, abortar o ataque aliado.

Também vimos uma lápide com um mapa, onde se assinalam as movimentações dos aliados para levar a cabo a bem sucedida invasão por praias normandas. Depois de tão emocionantes, porém chocantes visitas, fomos para Caen.

À chegada, depois da visita panorâmica da cidade, fomos tirar fotografias para o fabuloso jardim da Câmara Municipal, pejado de flores de miríades cores. O edifício, belíssimo, lembra um castelo dos contos de fadas. Dali fomos para o hotel onde, depois de um retemperante duche, nos foi servido um jantarinho à maneira. Para entrada, um crepe enrolado com recheio de molho béchamel e fiambre. Depois, uma fatia de presunto passado pelas brasas e acompanhado de batatinhas fritas aos cubos. Para desenjoar, havia legumes cozidos - Bróculos, pimentos, feijão verde e cogumelos. Para sobremesa, struedel de maçã. Durante o repasto, tivemos mais uma daquelas longas e aliciantes conversas com o nosso médico brasileiro. Depois, fomos passear pela cidade até à meia-noite. Como o sono tardava em chegar e o corpo ainda pedia mais borga, fomos para o bar do hotel. Bebemos uma deliciosa cerveja preta, de nome Chimay, feita pelos monges trapistas da Abadia belga de Scourmont. Fantástica. Até no preço. Apenas 5 euros... O que vale é que era fraca – só tinha 7º - e escorria mansa pelas sequiosas gargantas.

No dia seguinte, a caminho de Poitiers, almoçámos em Le Mans. No caminho para o restaurante, fomos vendo a cidade que, na parte mais antiga, serviu de cenário a Cyrano de Bergerac, protagonizado por Gérard Depardieu. Começámos logo com um prato de charcutarias – salame, paio, presunto, patês, tudo acompanhado de pão com manteiga. Não estava mal! Depois, uma mousse de peixe com molho de mexilhões, que vou tentar descrever à minha maneira. Era uma espécie de cúpula, formada por dois tipos de peixe. Por baixo, um de textura branca e, por cima, era salmão. No meio, um recheio esponjoso de um tom amarelado, feito com legumes, tudo assente em arroz de vegetais. Por cima, estava enfeitado com espargos bravos. Para sobremesa, uma salada de fruta com uma bola de gelado de baunilha, afogados num molho temperado com licor de amêndoas. Prosseguimos depois para Tour. A nossa marcha foi, contudo, interrompida de forma abrupta. Uma grande fila de automóveis impedia o nosso avanço. Alguém mais curioso saiu do autocarro para ver o que se passava e voltou com uma trágica notícia. Um comboio tinha apanhado e desfeito um automóvel. Não havia registo de vítimas, mas o aparato era medonho. Até um helicóptero se encontrava estacionado na estrada. Face à demora previsível, invertemos a marcha e tomámos uma estrada alternativa até à capital do Vale do Loire. Dali fomos para Poitiers, local de pernoita e cidade onde Charles Martel derrotou os muçulmanos. O jantar não foi no hotel. Foi num restaurante contíguo - La Taverne de Maître Kanter. Como entrada e uma vez mais, não podia faltar o inevitável patê. Este era de salmão e ovas, com molho branco, ervas aromáticas e umas folhinhas de alface para contrastar. Depois veio um frango estufado coberto com um acastanhado molho que fazia companhia a umas batatas fritas. Para sobremesa, a imprescindível tarte de maçã. Partimos, depois, à conquista da cidade. Mas a meteorologia traiu-nos e, ao fim de uns tempos, S. Pedro vai de abrir as torneiras a jorros. Mesmo assim, ainda tivemos tempo para ir a um pequeno pub, perto do hotel, beber uma estranha mas deliciosa cerveja. Curiosa, porque era avermelhada e com um delicioso sabor a cereja. De facto, chamava-se St Louis Cerise. Foi mais barata do que a outra. A dos monges trapistas. Foram só quatro euros. Já era tarde e a chuva teimava em cair. Não tivemos alternativa aos lençóis.

No dia seguinte, após o pequeno almoço, ainda tivemos tempo para ensaiar um pequeno passeio pedestre, por via do tempo livre que nos foi proporcionado antes da partida. Não pudemos ir longe, porque a chuva continuou a importunar-nos. Mesmo assim, ainda fizemos algumas compritas. Nomeadamente uma deliciosa tartine au chocolat et bananes... Ao fim da manhã retornámos a Bordeaux para o almoço. Logo que entrámos na cidade e depois de voltarmos a atravessar uma das suas pontes sobre o rio Garonne, pudemos constatar que tudo continuava virado do avesso. Fizemos uma pequena visita panorâmica à cidade, apreciámos o Palácio da Bolsa e, pela Praça Gambeta, fomos para o hotel. Os estômagos já reclamavam. Como entrada, uma coisa exótica. Porém, simplérrima. Nada mais nada menos do que fígados de aves estufados, assentes numa cama de alface e rodelas de tomate. Depois, um bife de peru à napolitana, nome pomposo para um simples escalope panado, enfeitado de tagliatelle cozido. Para sobremesa um créme brulé aux fruits rouges, que é como quem diz, um leite creme queimado com alguns frutos do bosque a boiar... Enfim, caganças gaulesas...

Depois do almoço e já em viagem de regresso à pátria, rumámos a Espanha. Via Bayonne, entrámos no país basco espanhol e chegámos a Donostia. Que é como quem diz, San Sebastian, em castelhano. Na visita panorâmica desta belíssima cidade, fomos apreciando a toponímia e os engraçados nomes bascos tão díspares da tradução castelhada. Itxita em basco - cerrado (fechado), em castelhano. Bilbo em basco - Bilbao em castelhano. 0ngi Joan em basco - buon viaje (boa viagem) em castelhano. Gasteiz em basco, Vitória em castelhano. Kontuz em basco - atención (atenção) em castelhano. E por aí fora... Começámos por subir ao Monte Igueldo, de onde desfrutámos uma magnífica vista sobre a deslumbrante cidade. A baía em forma de concha, que dá nome à homónima praia e a praia da Ondarreta, separadas pelo Palácio Miramar. Descemos à cidade e, como nota curiosa, observámos inúmeros blocos de apartamentos com panos distendidos pelas varandas, com frases em basco que não soubemos identificar. Provavalmente alguma reivindicação ou contestação. Vimos depois a Catedral (Katedral) do Bom Pastor, o Hotel Maria Cristina, só acessível a carteiras recheadas, a Praça Centenário, o Rio Urumea, o Parque Araba e o Hotel Papa Pio XII. Depois da visita da cidade, desta vez nem tivemos tempo para o reconfortante banho, seguiu-se o jantar. Para entrada, legumes estufados com tirinhas de presunto, onde se viam ervilhas, cenouras-bebé, feijão-verde, couve-flor, bróculos e courgetes. Depois, umas fatias de rosbife, ainda ligeiramente sanguinolento, regadas com um alcoólico molho e acompanhadas de puré de batata enfeitado com salsa picada. Para sobremesa, uma malguinha de arroz doce. Depois, um tanto a medo, aventurámo-nos pela cidade. Fomos até à beira-mar, à praia da concha. Durante o périplo, fomos depois alertados pelo som de uma sacudida e apimbalhada música, que nos entrava pelos tímpanos adentro. Decidimos investigar. Qual não foi o nosso espanto ao vermos que o som provinha de um simples restaurante, de nome Irvaritz. De uma pequena discoteca improvisada a um canto da casa, com miríades luzes a piscar. Apelidámo-la de discoteca da terceira idade, face aos espécimes que por lá sacudiam as pulgas. Mas ficámos uns instantes a apreciar o espectáculo! Tomámos um café e fartámo-mos de rir. Continuámos depois a passeata, não raras vezes fustigados pela chuva. Chegámos ao hotel por volta da uma e meia da manhã. Depois do banho, acabámos, ou melhor, começámos o dia a comer tarte de chocolate e banana e a beber coca cola light. Só depois fomos para o vale de lençóis...

Após o pequeno almoço, saímos para Santander. Passámos à esquerda de Guernica e atravessámos Bilbao. Pena que não vimos o Guggenheim. Chegámos por fim a Santander, a capital da Cantábria. Fomos à catedral gótica, muito bonita, apreciámos a chique estância balnear de El Sardinero e depois fomos almoçar. Começámos por comer uma sopa de marisco, com camarões, amêijoas e delícias do mar. Depois uma salada de atum com alface, rebentos de soja, espargos, tomates e azeitonas. Ainda uma suculenta paella. Para sobremesa, uma generosa fatia de pudim de ovos. Depois do almoço continuámos a viagem, que nos levou até Valladolid, capital da comunidade autónoma de Castilla y León. À chegada atravessámos a ponte sobre o rio Pisuerga e fomos para o hotel, não sem antes passarmos pela Plaza de San Pablo e apreciarmos a Igreja em honra deste santo, com a sua belíssima fachada.

O jantar começou com uma salada de alface, tomate, cebola, milho, pimentos e azeitonas. Depois veio uma costeleta de porco com batatas fritas e, para sobremesa, um pudim de ovos. Fomos depois explorar a cidade. Começámos pela Plaza Mayor pululante de gente, percorremos pubs e bares e, antes de dar descanso ao corpo, ainda tivemos tempo para comer tarte de maçã e beber coca-cola light. No dia seguinte, após o pequeno almoço, fomos para Salamanca, Capital Europeia da Cultura 2002.

Visitámos a Plaza Mayor, tirámos fotografias nos touros que por lá proliferavam e fizemos compras. Antes de ir embora, ainda apreciámos as catedrais, a velha e a nova. A entrada para a catedral velha faz-se, inclusive, pela catedral nova. Seguimos depois para Fuentes de Oñoro, onde alguns aliviaram as já depauperadas carteiras. Depois a Guarda, e, por Celorico da Beira, chegámos a Carrapichana, o lugarejo onde foi servido o almoço de despedida. Num restaurante típico, com um nome não menos castiço – Escorrupicha’Ana. Foi uma fartazana. Começaram por apresentar-nos umas entradas com um aspecto magnífico. Pudemos constatar, depois, que o sabor era ainda mais fabuloso. Míscaros de conserva, salada de cogumelos, feijão frade e feijão vermelho, carapaus de escabeche, salada da atum e salada de orelha de porco. Depois, umas migas de bacalhau com couves, servidas numa telha de beiral. A seguir veio cabrito da Beira, assado em forno de lenha, que se nos desfazia na boca, tudo acompanhado de batatas assadas e arroz de forno confeccionado com os miúdos do bicho. Tudo servido nas ditas telhas. As sobremesas, foram outra alarvice! Toucinho do céu, arroz doce, leite creme, bavaroise de natas com palitos la reine e fios de ovos, bolo e mousse de chocolate, tarte de laranja, tarte de amêndoa e sei lá que mais!... Ao fim, cafés e digestivos para quem quis. Ainda antes do fim do almoço, o bicharoco teve que dar o ar da sua graça!... Quando um dos empregados lhe atafulhava o prato, numa das muitas vezes que o fez, teve o infortúnio de entornar uns pingos de molho nas calças do traste. Foi o bom e o bonito! Como que possuído por um espírito maligno, desata aos berros com o pobre do rapaz, que, muito atrapalhado, se desfazia em desculpas. Roncava, dizendo que as calças tinham que ser pagas e outras atoardas do género. Há gente que nunca deveria sair de casa! Ou, se o fizesse, deveria vir munida de açaime. E bem apertado!...

Findo o algo atribulado almoço, rumámos a Coimbra. Aqui, os viajantes provenientes do Porto tinham já à espera um autocarro para a Invicta. Nós, prosseguimos para Lisboa. Não sem antes pararmos na Área de Serviço de Pombal para uma bebida fresca. Chegámos à capital por volta das 19 horas. Terminava a primeira parte da desbunda. Mas havia mais!...

 

PARTE II

LUSITANOS

 

Já no hotel, e depois de um banho reconfortante, saímos para jantar. Pela Avenida 5 de Outubro abaixo chegámos ao Saldanha e continuámos rumo à Avenida da Liberdade. A fome já apertava e, numa churrascaria, pedimos grelhada mista para três. Íamos tendo um treco quando o empregado se nos apresenta com uma bandeja que, seguramente, teria meio metro. Vinha atulhada de carnes grelhadas: febras, costeletas, entrecosto, salsichas. O cardápio dizia que era para três mas, seguramente, outros tantos comiam e ainda sobrava. Rimo-nos com a situação e, apesar de termos enfardado, muita carne retornou à cozinha. Nem houve espaço para sobremesa. Numa tentativa desesperada para acelerar a digestão, passeámos até não poder mais pelas ruas de Lisboa antes de irmos dormir.

No dia seguinte, manhã cedo, após o pequeno almoço, descemos de novo a 5 de Outubro, o Saldanha, a Avenida da Liberdade, os Restauradores, o Rossio, a Rua Augusta e o Campo das Cebolas. Fomos até ao Cais do Sodré e apanhámos o comboio para Cascais. Depois de passear pela vila, fomos comer lulas grelhadas com batatas cozidas e melão de sobremesa. Dali, fomos para o Estoril. Passeámos pelos jardins do Casino, pela vila, e voltámos para a capital. Pela Rua Augusta espreitámos os fazedores de caricaturas e resistimos a um deles que queria, à viva força, fazer-nos uma artística tatuagem em qualquer parte do corpo à nossa escolha. Observámos os supostos pedintes, que em tudo nos pareciam falsos e péssimos fingidores, até que fomos para o Chiado. Na FNAC comprámos CDs e, para o lanche, descobrimos uma casinha com um nome giríssimo, qualquer coisa como 100% vitaminas. Comemos salada de fruta e bebemos sumo de laranja natural. Era preciso limpar o organismo de tanta comezaina por terras da Gália. Continuámos pela baixa, novamente pelo Marquês, pelo Saldanha, depois o Campo Pequeno e finalmente o hotel. Tomámos um banho e lá fomos jantar. Uma suculenta posta de espadarte grelhado, com batatas cozidas e grelos. Antes, à laia de aperitivo, comemos uma chamussa. A sobremesa foi delícia de ananás. O dia fora longo e o corpo pedia descanso. Regressámos à base para o descanso dos guerreiros...

Manhã cedo, após o pequeno-almoço, fomos para o Campo Grande. Lá iríamos apanhar o autocarro para Mafra. Queríamos ir ver o Convento e, se possível, a Tapada. Ao fim de uma hora de viagem, por entre lugarejos e serpenteantes estradas, lá chegámos à vila. A confusão estava mais do que instalada. As gentes, aos magotes, enchiam tudo quanto é sítio. Nas escadarias do monumento estava montado um cenário de politiquice. Que pontaria a nossa! Passadeira vermelha, cadeiras para vips e até um parlatório. Era o Dia do Exército, ou coisa do género. Por via do aparato, não pudemos entrar pela porta principal. Fizemo-lo por uma entrada lateral. Lá dentro, uma engraçadíssima senhora, em jeito de guia, mostrou-nos o fantástico monumento. Desde a fabulosa biblioteca à enfermaria dos monges, únicas na Europa, tudo nos surpreendeu. Depois de tão demorada visita e porque a cerimónia já havia terminado, lá nos foi facultado o acesso à Basílica. Um espanto. Saímos do Mosteiro e, como a fome já apertava, fomos almoçar. Por ser rápido, comemos bitoque e salada de frutas. Ainda faltava a Tapada. Toda a gente nos dizia que era longíssimo e que não podíamos ir a pé. Junto do posto de turismo local indicaram-nos o caminho e disseram-nos que a visita à Tapada era feita num pequeno comboio turístico que partia às três e meia. Mas tínhamos que fazer a reserva. Decidimos arriscar e ir a pé. Ao fim de meia hora de caminho, desistimos. Não porque estivéssemos cansados, apenas porque vimos que, manifestamente, não chegaríamos a tempo da partida do tal comboio que percorria a Tapada. Também não tínhamos reserva feita e corríamos o risco de não ter lugar. Assim sendo, teríamos feito a viagem em vão. Fomos então até à Ericeira. Depois de passearmos por esta vila piscatória, fomos comer um espectacular gelado, que nos custou a módica quantia de 5 euros. Perdoámos o mal que nos fez à bolsa pelo prazer que nos proporcionou às papilas gustativas... O regresso a Lisboa foi penoso. Quase duas horas de autocarro, com paragem em tudo quanto é terriola. Aproveitámos para pôr o sono em dia...

Já em Lisboa, decidimos ir jantar ao Bairro Alto. Um luxo! O restaurante, de nome Sabor e Arte, era engraçadíssimo. O que era suposto ser um pequeno cubículo, estava agora transformado num simpatiquíssimo e acolhedor local de repasto. Comemos bife de atum com batata cozida e salada. Para sobremesa, mousse mista de manga e goiaba. O café encerrou com chave de ouro este jantarinho. Passeámos depois pelo bairro, apreciámos os típicos restaurantes – O Faia, A Adega do Machado, O Luso, A Severa, A Adega do Ribatejo e por aí fora. Também os divertidos nomes das ruas e vielas – Rua da Atalaia, Travessa das Mercês, Rua da Rosa, Travessa da Espera, Rua da Barroca, Rua do Norte, Rua das Salgadeiras!... Para acabar, demos uma espreitadela à sumptuosa loja da Fátima Lopes, com um animado e concorrido bar acoplado. Como ainda era cedo, fomos até ao bar do hotel tomar um cafézito. Não nos alongámos muito nas conversas porque o dia seguinte prometia ser longo. Íamos para terras andaluzas, para mais uma digressão das nossas!...

 

PARTE III

ANDALUZES

 

Depois do pequeno-almoço, arrastámos as malas pela João XXI acima. Íamos apanhar o autocarro às 8 da manhã. Recebeu-nos a nossa simpática guia, a Daphne, de ascendência holandesa. Cabelo alourado, a roçar o pescoço, trajava calça beije e blusa branca. Saindo pela ponte Vasco da Gama, demos início a mais uma viagem. Começámos por apreciar a fauna que nos acompanhava. A recepção não podia ser melhor! Duas farruscas, irmãs, ao que supomos, de uma atroz má educação. Quando a uma delas nos dirigimos, perguntando se determinado lugar no autocarro estava livre, antes de nos fuzilar com o olhar, disparou-nos, com quatro pedras na mão, como se costuma dizer, um sibilante e ruidoso não sei... Se o olhar matasse, naquele momento, teríamos sido crivados de balas. Felizmente, em termos de má educação, eram espécimes únicos. Obviamente que, daí em diante, passámos a ignorar tais espécimes. Mas havia ainda um casal e duas pré adolescentes filhas, que tinha a particularidade de, o marido e a filha mais velha serem uma simpatia e a mãe e a filha mais nova não nos passarem cartão. Vinham da Madeira e, ao fim de pouco tempo, eram unha com carne com as farruscas. A tal ponto que, à mais velha, à tal mal educada, já chamavam de avó... Enfim, o ser humano surpreende-nos a cada passo. Ou talvez não!... É o que dá considerar-se todo o ser humano como racional(?)!...

Continuando a nossa viagem, parámos na área de serviço de Estremoz e comemos um delicioso bolinho de chila e doce de ovos, artisticamente arrumados numa caixa de massa folhada, acompanhado de um café. Depois da fronteira seguimos por Badajoz, atravessámos a ponte sobre o Guadiana e rumámos a Zafra, também conhecida como a Sevilha Pequena. Mais adiante, parámos para almoçar numa terriola chamada Monasterio. Comemos um bocadillo de lomo en plancha, que é como quem diz uma sanduíche com uma febra, bebemos coca-cola light e, à laia de postre, comemos uma fatia de tarte de la abuela - da avózinha, melhor dizendo. Continuámos pelos pueblos andaluces, lugarejos no alto de colinas, abeirámo-nos de Sevilha e, por entre olivais a perder de vista – não esqueçamos que a Espanha é o maior produtor mundial de azeite – íamo-nos aproximando de Granada, o nosso primeiro local de poiso por terras de Lorca. A menos de uma trintena de quilómetros, rimos a bom rir com a tabuleta de uma fábrica que, imagine-se, produzia vibradores pendulares... Claro que levámos logo a coisa para a malandrice e, por entre apimentados comentários que fariam corar as pedras da calçada, deitámo-nos a adivinhar o que seriam os ditos...

Depois do sempre reconfortante banho, não esqueçamos que estamos em plena Andaluzia e o sol é inclemente, fomos jantar. Era buffet. Havia uma grande panóplia de saladas, rosbife, pernas de frango coradas, canelones, macarrão com molho de tomate, couve salteada com presunto e um sem número de combinações gastronómicas que não pudemos identificar. Para sobremesa, também buffet, havia doces, fatias de fresca melancia e pêssego e ananás em calda.

Depois de comer, fomos descobrir a cidade e tomar o pulso à sua pululante vida nocturna, plena de alegria. Os aromas, ora adocicados, ora apimentados que provinham das cozinhas dos inúmeros restaurantes, assaltavam-nos as narinas. A mescla de raças e indumentárias dava à cidade um encanto muito espacial. A arquitectura árabe deixou-nos fascinados.

Parecia que estávamos numa história das Mil e Uma Noites e que, a qualquer momento, a Sherazade ou Aladin iriam aparecer-nos pela frente. Sem quase darmos por isso, à nossa direita e encavalitado no cimo de um declive, eis que nos surge o deslumbrante Alhambra, todo iluminado por holofotes.

Magnífico! A mistura de raças que invadia a cidade transformavam-na numa autêntica paleta de um qualquer pintor surrealista...

De volta ao hotel, depois de horas de passeio, uma fabulosa pastelaria exerceu sobre nós um misterioso chamamento. Lá tivemos que entrar. Deliciámo-nos com um suculento bolo de massa mista, folhada e esponjosa, todo coberto de chocolate derretido. Depois de mais um pecado de gula, fomos dormir.

O dia seguinte, era para visitarmos o Alhambra, a Capela Real, a Catedral e tudo mais que as nossas pernas permitissem.

Após o pequeno almoço, fomos ao encontro do guia local - o Luís - que nos daria a conhecer esta magnífica jóia da arquitectura hispano-árabe, situada na vermelhusca colina de Sabika, sobranceira a Granada.

Logo que entrámos vimos, à nossa esquerda, a Porta do Vinho, que dava antigamente acesso à Medina de Alhambra.

Já lá dentro, deslumbrámo-nos com a arquitectura maometana. A Sala de Mexuar, os tectos maravilhosamente decorados, o Palácio dos Comares - cuja fachada é uma das jóias arquitectónicas do Alhambra e da Arte Islâmica – ou, ainda, o pátio de Arrayanes. A torre de Comares, a maior do Alhambra, com os seus 45 metros, alberga, no seu interior, um homónimo salão, também conhecido como dos Embaixadores, ou do Trono.

Vimos a belíssima fonte dos leões, existente no pátio com o mesmo nome, construída em mármore branco, que contrastava com outras cores, nomeadamente dourados.

Vimos tantas e tantas maravilhas que é impossível, aqui, ressuscitar todos os nomes e impressões que nos ficaram no espírito. Contudo, é imprescindível uma última palavra para os tectos, as cúpulas que reflectem o excelso esplendor desta obra. Dentro do recinto existe um pequeno teatro que, à data da nossa visita, exibia um bailado inspirado nas Bodas de Sangue, de Lorca. Não esqueçamos que foi aqui, em Granada, que este insigne poeta da cultura espanhola e mundial tombou assassinado. Passámos a seguir aos esplendorosos Jardins de Generalife, ricamente decorados com flores de todas as cores e feitios.

Finda a visita, fomos até Albaicín, para, do alto, apreciarmos a beleza de Granada. Aqui existe, desde tempos imemoriais, um subúrbio mouro que, ainda hoje, mantém as suas característica. Fomos depois observar Sacromonte. Grande parte das casas deste bairro popular, maioritariamente habitado por ciganos, estão escavadas no monte, numa demonstração clara de arquitectura popular – as cuevas. Em algumas destas covas fazem-se concorridos espectáculos de canto e dança flamenca, conhecidos como zambras.

Maravilhados com tão fascinante visita, era hora de reconfortar o estômago. Comemos uma suculenta paella e depois fomos até ao El Corte Inglés só para arregalar o olho, tais os preços praticados.

Dali fomos para visitar a Catedral e a Capela Real, onde se encontram sepultados os reis católicos Fernando e Isabel.

Construída entre 1518 e 1704, inicialmente em estilo gótico e depois renascentista, alberga, no seu interior, a Capela Maior, uma das mais esplendorosas de Espanha. Percorremos demoradamente o interior da catedral e saímos depois parta ir para ver a Capela Real, última morada de Fernando e Isabel.

As suas tumbas, ricamente decorados, são de mármore de Carrara. Posteriormente, foram transladados para a capela os restos mortais de Joana, a louca, e seu marido, D. Fernando o Formoso, respectivamente filha e genro dos reis católicos. Os sepulcros estão rodeados por cercas de ferro forjado, ricamente elaboradas. A sacristia, é um autêntico museu de pintura flamenga. Também por lá podem observar-se magníficos paramentos e cálices de outras eras.

Estas visitas ocuparam-nos a tarde inteira. O sol, abrasador, quase nos fazia derreter as entranhas. Estavam 380. Fomos para o hotel. Depois de um tonificante banho, descansámos até à hora do jantar. Este era novamente buffet. Legumes salteados, saladas, toda uma variedade de carnes e a incontornável paella. Claro que voltámos a comê-la. Estava bem mais apaladada do que a do almoço. À sobremesa, comemos fruta. Melão, melancia e ananás. Depois da janta, já com uma temperatura mais amena, fomos passear pela cidade. Na véspera, havíamos visto uns vendedores ambulantes que tinham uma imitação quase perfeita de mochilas Louis Vuitton, e a preços substancialmente mais rasteiros. Tivemos azar! Era fim-de-semana e a polícia montara o cerco aos falsários, impedindo-os de fazer negócio. Lá ficámos sem as nossas carteirinhas... Sem nos deixar abater, continuámos a nossa passeata. Tomámos um café no bar Lisboa e, antes de recolher ao hotel, por volta da meia noite, ainda fomos comer um delicioso bolo coberto com carradas de chocolate. Só depois fomos dormir. O dia seguinte levar-nos-ia até Sevilha, não sem antes visitarmos Córdoba.

Saímos após o pequeno almoço. Parámos depois num lugarejo, no meio de nada, mas cuja principal atracção era o azeite. Melhor dizendo, produtos para todos os fins e usos, à base deste condimento. Desde cremes, sabonetes, champôos, doces, etc. A fórmula mágica produtos naturais pôs o mulherio, e não só, em perfeita histeria! Todas queriam comprar e experimentar, como se do elixir da juventude se tratasse. Fizeram bicha, estrebucharam, esgadanharam-se e desunharam-se para poderem levar para casa uma das mezinhas da loja. Preferimos tomar um café, nas calmas, e observar de longe aquela matilha esfaimada... Ainda nos rimos com o vendedor, um atarracado andaluz, que se viu negro para controlar as assanhadas damas. Só dizia, com voz de bagaço, chiquitita, pó fábó (por favor), chiquitita... Fomos para pagar o nosso café e não pudemos deixar de nos rir com o pobre homem. Transpirado dos pés à cabeça, com a tal voz de bagaço pediu-nos dó éuro... Entreolhámo-nos e de novo perguntámos quanto era. Só ao fim de uns tempos percebemos que queria dizer dois euros... Já cá fora, reparámos que a loja mais não era do que uma velha estação de caminhos de ferro desactivada. Numa terriola chamada Luque, muito engraçada. No chão, ainda se viam restos de ferrugentos carris.

Por montes e vales, pejados de oliveiras, seguimos para Córdoba onde chegámos com uma temperatura de 420. Fomos logo visitar a fabulosa e estonteante Mesquita, agora transformada em Catedral. A arquitectura árabe aliada à penumbra do interior, fez-nos suster a respiração e deixou-nos embatucados. Para lá entrarmos atravessámos um grandioso pátio, denominado pátio das laranjas por via das inúmeras árvores deste citrino que por lá abundam. À nossa esquerda, ficava uma elaboradíssima torre, outrora um minarente, certamente, pois tratava-se de um local de culto árabe e que serviria para chamar os fiéis para as orações, cinco vezes ao dia, como mandam os cânones. Mas voltemos ao interior.

Ainda que à média luz, pudemos descortinar corredores e corredores de colunas árabes, encimadas por arcos de meia volta de uma cor avermelhada.

Crucifixos e imagens católicas coabitam em perfeita harmonia lado a lado com inscrições e pedras, supostamente tumulares, de grafia muçulmana. Depois de apreciarmos os magníficos e elaboradíssimos tectos, fomos ver o tesouro da catedral onde se exibem, para além de paramentos, relicários e cálices.

Depois da visita, fomos almoçar. Coisa pouca e rápida, pois ainda tínhamos muito que ver. Apenas uma bocata de jamón e queso, que é como quem diz uma sanduíche de fiambre e queijo, uma Pepsi light bem fresca e um gelado de chocolate e menta com pedacinhos de chocolate. Continuámos a nossa visita à cidade, na medida do possível, pois o calor era sufocante. Fomos à judiaria, visitámos as casinhas térreas, a ponte que nos pareceu romana e depois fomos às compras. Queríamos comprar uma t’shirt para uma amiga especial. Quando vimos uma que nos agradou, vai de entrarmos na loja que a exibia. Não sonhávamos, sequer, o que nos esperava... Quando entrei, com a mala da câmara de vídeo dei um valente encontrão num expositor que exibia réplicas de armas com ornamentos de cariz mouro. Com grande estardalhaço deitei abaixo uma série de artefactos, entre os quais um lindíssimo punhal, com um invólucro bordeaux cravejado de peças metálicas tipo bronze. Com o trambolhão, a pega do punhal abriu-se. Ficámos lívidos pois, o nosso primeiro pensamento, (pelo menos o meu) foi que estava partido e que, consequentemente, teríamos que pagar o prejuízo. Vem a empregada, de igual modo atrapalhada e tenta juntar a pega que, afinal, era de encaixe. Mas a coisa não ficou por ali. Era de encaixe, sim, mas não estava nas melhores condições. Aflita e sem pinga de sangue, dei-me como culpada e assumi o pagamento do prejuízo. Ao que a empregada insinuou que era caro, dizendo pero senhora, san 75 euros... Que remédio teria eu senão pagá-lo... Composto o punhal, aparece uma senhora, que ao que supomos seria a dona. Ao pegar no dito, começou a dizer que estava flojo e, por conseguinte, estragado. Teríamos que pagá-lo! Lá desembolsei a importância e comprei uma coisa que não queria. Sob os protestos dos meus companheiros, que diziam que tinha sido aldrabada, que a sujeita tinha feito um grande negócio comigo. Depois disto, claro que a t’shirt continuou no expositor. Mais tarde, tirámos a prova de que, de facto, fui enganada. Numa outra loja que vendia punhais iguais, alguns deles não só tinham os cabos flácidos como estavam envoltos em fita-cola. Não quis pedir explicações e não voltei à loja. Não fiquei mais pobre por isso, nem a burlona ficou mais rica. No fundo, tive culpa pois tombei o expositor. De agora em diante era preciso ter mais atenção!...

Saímos de Córdoba atravessando a Ponte Romana e, à nossa esquerda, apreciámos o que restava de uma nora árabe, a apodrecer num riacho. Fomos para Sevilha, onde chegámos ao fim da tarde. De imediato dirigimo-nos para o porto, para, próximo da Torre do Ouro, embarcarmos para o nosso Cruzeiro no Guadalquivir. À entrada do barco, uma simpática fotógrafa registava, para a posteridade, este momento solene. Durante uma hora passeámos pelo rio e pudemos constatar a desolação e abandono que vai pelo local onde se realizou a Expo 92. Vimos o que resta de alguns pavilhões e a ponte projectada por Santiago Calatrava. Findo o cruzeiro, pelo Passeio das Delícias e pelo Parque Maria Luísa, fomos para o hotel. Felizmente íamos dentro do autocarro, com o ar condicionado no máximo. Lá fora, estavam apenas 420. Depois de um descanso e um banho gelado que nos devolveu a pica, fomos jantar. Aguardava-nos um colorido buffet de saladas de miríades cores, canelones, frango assado, filetes e hamburgueres. Para sobremesa, gelado de morango e fruta em calda.

Depois do jantar, fomos passear pela cidade. Fomos em busca da Praça de Espanha e da Catedral. Orientados pelo mapa que nos foi dado no hotel - que, de facto, atrapalhou mais do que ajudou - só ao fim de três horas de labirínticas caminhadas chegámos à Catedral. E isto graças ao som que nos pareceu próximo do sino da Giralda, que anunciava as 23 horas e 45 minutos. Tanta caminhada só nos abriu o apetite! Uma monumental gelataria satisfez os nossos intentos. Lá foi mais um gelado de chocolate e menta. Mas não ficou por aqui. Antes de irmos dormir, ainda houve barriga para deglutir um bolo atulhado de creme e, para escorregar melhor, coca-cola light... O dia seguinte era para visitar a cidade e empreender a viagem de regresso a Lisboa.

Depois do pequeno almoço fomos para a Praça de Espanha, tirar fotografias e comprar algumas bugigangas aos vendedores ambulantes que pululam pela praça - leques, t’shirts e magnets. A Praça, muito bonita, está quase votada ao abandono, suja e desmazelada. Aqui se instalaram os pavilhões para a Grande Feira Iberoamericana de 1929. Na sua construção foram empregues os elementos mais tradicionais, tais como vistosos ladrilhos e coloridos azulejos. Por lá se observam lindíssimos bancos revestidos de painéis de azulejo, representando alegorias alusivas às 58 províncias espanholas. Fomos depois para a Catedral que, por ser domingo e estarem a decorrer serviços religiosos contínuos, estava fechada ao público. Só pudemos visitar as partes laterais. Também não nos foi facultado o acesso à Capela Maior, para podermos ver o gigantesco retábulo gótico, o maior do mundo com os seus 220 metros quadrados, profusamente preenchidos com figuras religiosas. Igualmente não vimos o suposto túmulo de Cristóvão Colombo, nem pudemos subir à Giralda, o minarete muçulmano agora convertido em símbolo da fé mariana. É o ex-libris de Sevilha e uma das torres mais belas do mundo, com os seus quase cem metros de altura. Nada vimos pois, para efeitos de visitas turísticas, só a partir das duas e meia da tarde. Infelizmente, a nossa hora de partida estava marcada para as duas horas. Antes de almoço, ainda tivemos tempo de ir visitar a judiaria. Almoçámos uma baguete de atum com alface, uma coca-cola light, uma fatia de tarte de chocolate e uma terrina de gelado de chocolate e menta.

À hora marcada, lá embarcámos rumo à capital da nossa Lusitânia. Antes de atravessar a fronteira, ainda houve tempo para uma paragem técnica, por muitos aproveitada para comprar caramelos e outras guloseimas. Continuámos, já por terras lusas e com o branco casario de Beja à nossa esquerda. À chegada a Lisboa, arrastámos literalmente as malas, tal era o nosso cansaço. Mas estávamos satisfeitos. E, sobretudo, mais ricos com o que vimos e experimentámos. À noite, fomos outra vez até ao Bairro Alto. Jantámos num algo aristocrático restaurante, de nome O Império dos Sentidos. Comemos bem e pagámos ainda melhor. Tudo vale a pena se a alma não é pequena, já dizia o poeta... A nossa, uma vez por ano, cresce e faz-nos flutuar... Comemos então um suculento spaghetti com gambas e alho e, para sobremesa, panna cotta, o famoso e salivante doce transalpino. De volta ao hotel, para as bandas dos Restauradores, ainda houve barriga para um gelado de 4 bolas, na gelataria Veneza. Só depois fomos dormir.

No dia seguinte regressámos à deslavada e insossa terrinha. Mas era bom estar de volta pr’o aconchego, como diria a nordestina Elba e sonhar com novas paragens e aventuras.

Afinal, sonhar é fácil, enxagua a alma e, por enquanto, e até que algum iluminado se lembre, é grátis e livre de impostos...

 

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* Assistente Administrativa Especialista do Instituto Superior Politécnico de Viseu.

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