NO TEMPO EM QUE NÃO HAVIA ERASMUS... IV

O MURO DE BERLIM – A APRENDIZAGEM DE UM RACIOCÍNIO DESCOMPROMETIDO

 

VASCO OLIVEIRA E CUNHA*

 

Nos anos 50 e 60 não havia Erasmus. Nem Leonardo. Não havia Sócrates. Para o estudante universitário, o estrangeiro era a aventura por conta própria. Em campos de trabalho, com todo o rigor da organização, da programação, dos custos e dos ganhos. Experimentei Londres em 58, num mercado abastecedor de frutas e de legumes do East End, bem próximo de Liverpool Street. Não gostei. Privilegiei, depois, o assumir de todos os riscos, eu mesmo definindo em cada momento o que queria ou não queria, criando a possibilidade de me deixar guiar pela minha própria anarquia.

Em 61, foi Düsseldorf. Foi Dortmund.

 

1. Sucessivamente referida em documentos como Throtmanni (880), Thrutmanni, um século depois, Tremonia, no século XII, e Dortmunde, a partir de 1222, a Cidade Imperial Livre (Reichstadt) tornou-se um dos maiores burgos da Liga Hanseática1. Graças a uma agricultura pujante e às grandes rotas comerciais que a cruzavam – o Hallweg e a Hansalinie – elos de ligação com o resto da Europa, Dortmund evoluiu, no século XIX, de centro agrícola para cidade industrial avançada, com investimentos fortes no carvão e no ferro, o aço tornando-se a maior fonte de rendimento, logo seguido da produção de cerveja. A abertura, em 1899, do porto interior e do Canal Dortmund-Ems2, uma via de 280 kms de extensão ligando o Ruhr, a área mais industrializada da Alemanha, ao Mar do Norte, transformou Dortmund no maior centro urbano da região3.

No século XX, Dortmund partilhou do horror e da devastação de todas as cidades alemãs. Números e momentos mais trágicos, a morte de mais de 8000 cidadãos no conflito de 14-18; as perseguições aos judeus, em 38; a redução a escombros de dois terços da área metropolitana e da quase totalidade do centro histórico, em 43-45; o assassínio, pela Gestapo4 de Hitler, de centenas de trabalhadores rurais, de prisioneiros de guerra e de combatentes da Resistência quase no termo do conflito; a necessidade imperiosa, para não morrer, de vasculhar nas ruínas em busca da roupa dos mortos e dos vivos que fugiam aos bombardeamentos; o racionamento do pão e da gordura; o mercado negro; a vida em bairros de chapa ondulada erguidos sobre pavimentos de betão.

Depois foi a reconstrução e o crescimento vertiginoso da cidade5. Rápida e eficaz, em 57 todo o património religioso se encontrava já restaurado.

Um apontamento final dedicado a uma das jóias, uma das relíquias de Dortmund – o seu BVB, o seu Ballspiel Verein Borussia 1909. Muitas vezes campeão nacional e, em duas ocasiões, campeão europeu de clubes, o BVB foi uma criação da pureza e da ingenuidade de cerca de cinquenta jovens membros da paróquia católica da Trindade; de uma rebelião contra a difamação permanente do desporto conduzida pelo capelão; contra as suas tentativas de impedir a fundação do clube. Uma rebelião vencedora, o BVB nascendo de camisola de riscas azuis e brancas verticais, com uma faixa vermelha cortando diagonalmente o peito, calção preto, subindo à segunda divisão três anos depois, mudando as cores para o amarelo-limão, mas mantendo o negro dos calções. Em 14-15, finalmente, o topo do futebol alemão – a primeira divisão.

Duas regras muito estritas em vigor desde a fundação do clube e que hoje nos fazem sorrir – a proibição de os jogadores fumarem durante os jogos, e o sistema de penalizações impostas aos atletas: um Reichsmark pela falta aos jogos; dois, por abandono do campo sem a autorização do seu capitão. Infelizmente, lamentavam-se na época os dirigentes do BVB, estas penalizações não podiam aplicar-se aos árbitros, useiros e vezeiros do fumo enquanto dirigiam as partidas.

 

2. O senhor Weber, Herr Wilfred Weber (Wewe, Vêvê, para a esposa e para um círculo muito restrito de amigos) era cidadão de Dortmund. Por opção.

Alto e entroncado, cabelo curto e eriçado a tombar para o ruivo, rosto anguloso de uma palidez bem marcada, permanente, o sinal mais visível de uma doença respiratória contraída no trabalho duríssimo das minas de potassa e de sal-gema na sua Saxonia-Anhalt natal6, mais precisamente, em Stassfurt, uma cidade pequena a sul de Magdeburg, a capital do Estado, onde nasceu, nariz alemão, forte, olhos azuis, encovados, inquietos. Tristes. Andava pelos cinquenta quando o conheci.

Aparecia diariamente no Biergarten, na cervejaria onde eu trabalhava num part-time de quatro horas, entre as duas e as seis da tarde. Na Kirchplatz, na Praça da Igreja, mesmo em frente da Reinoldkirche, um templo do século XIII já completamente restituído à sua beleza inicial.

Era uma homem solitário. Como cliente, escapava ao padrão comum do cidadão alemão, consumidor sem medida de álcool, Bismarck, o chanceler de ferro, estando possivelmente certo quando afirmava necessitar o alemão de uma garrafa de champanhe para alcançar o nível médio das suas capacidades, reconhecendo, porém, que ele é talentoso, embora lerdo, suficientemente talentoso para se irritar com a sua lerdice e para a superar a todo o transe pela iluminação. Herr Weber limitava-se a pedir uma caneca pequena de cerveja (nunca bebia sidra), pagando-a logo que lha servia. Depois, bebia pausadamente, assentava os cotovelos no tampo da mesa, entrecruzava os dedos fartos e curtos e ficava imóvel tempo infinito a contemplar Deus sabe o quê!

No dia do Muro7 o senhor Weber entrou na cervejaria, como sempre fazia. Aparentemente tranquilo, parecia longe do frenesim generalizado e irado que se apoderara da cidade, da Alemanha inteira, do mundo, logo que a notícia da Abgrenzung, do corte material total das duas Alemanhas com uma fronteira de arame farpado, logo seguido de um muro muro, alto e feio, erguido entre os sectores Ocidental e Oriental de Berlim8; alheado dos discursos inflamados, dos "Abaixo o Muro da Vergonha" (o grito mais ouvido), "Abaixo a Muralha da China ao contrário" (porque destinado à própria população da R.D.A.), "Morte à invenção satânica", baptismos que o tempo ia enferrujando (excepto o primeiro, que permaneceu ao longo dos anos), sempre substituídos por outros, mais incisivos e mais ou menos inteligentes, uns, menos corrosivos, outros, obscenos, alguns: "Prisão do povo", "Biombo da miséria", "Princípio do monólogo", "Ruído do entendimento", "Corte brutal do cordão umbilical", "Merda de assassinos". Conforme os círculos e os lugares, conforme a cultura das gentes. Explosões violentas de cólera, com frequência acompanhadas de gestos indignos. Sempre, sempre, vestindo preocupações, temores. Ódios. Para além do imaginável.

E havia ainda as grandes e as pequenas sentenças dos políticos dos dois lados. Adenauer, o chanceler alemão-ocidental, foi cauteloso na forma como defendeu na TV a "família" alemã: "Sentimo-nos, como de costume", disse, "intimamente ligados aos alemães na Zona Soviética e em Berlim Oriental. Eles são e serão nossos irmãos". Já Ulbricht, o dirigente da R.D.A., cindiu a Alemanha e os alemães quando baptizou a nova fronteira sólida de "Muro de Protecção Antifascista", dirigida para o isolamento espiritual. Na resposta a Adenauer, afirmou: "Se alguém esclarece que os alemães do Ocidente são nossos irmãos e irmãs, isso é verdade um pouco. Porque existem alemães e alemães". A linguagem dos políticos sempre serviu, como escreveu Orwell, "apenas para tornar verosímeis as mentiras, e para dar uma aparência de solidez ao que não é senão vento". Ou, como um dia disse Flaubert: "As sonoridades dessa gente vem-lhes de serem vazios".

Depois de beber a sua caneca, Herr Weber chamou-me. Olhou-me fixamente e disse numa voz embargada pela comoção: Mein Freund, diese Mauer ist eine Schändlichkeit, ein unerträgliches Verbrechen, Amigo, este muro é uma infâmia, um crime insuportável. Duas lágrimas escorriam-lhe pelo rosto. Não as enxugou. Comovido, apenas consegui articular um Ja, um sim, quase só balbuciado.

Durante três dias não se viu. Quando reiniciou o seu ritual da cerveja e da contemplação parecia ter recuperado a serenidade de (quase) sempre. Nessa tarde, depois de terminado o meu trabalho, surpreendeu-me vê-lo junto à Igreja Reinold. Acenou-me, e veio ter comigo ao centro da praça. Pediu desculpa por aquilo que qualificou de "rudeza de um desabafo", "explosão de uma angústia". Não encontrei nenhuma palavra para lhe oferecer, para lhe dizer que não havia razão para se sentir culpado.

Depois veio a grande surpresa. Herr Weber, contou-me, havia abandonado a R.D.A. em 52. Com a esposa. A mãe, viúva, idosa, ficara voluntariamente em Magdeburg, do lado de lá. Velha militante, queria ficar sepultada ao lado do marido. Para Herr Weber, o Muro vinha tornar tudo mais difícil, diferir para data incerta a reunificação necessária. Rever a mãe, agora, seria muito improvável. Diria mesmo, impossível.

Weber estava certo. Nos primeiros dias ainda se pôde viajar com um simples passaporte alemão-ocidental, mas no final de Agosto recorria-se já à falsificação de passes de livre trânsito. Logo depois, no início de Setembro, os passes tinham de ser entregues ao atravessar-se para o sector leste. Passar a fronteira tornou-se risco iminente, condenação provável à morte.

A linguagem de Herr Weber era a de um homem de grande cultura. A análise que me fez do Muro e da divisão da Alemanha em dois Estados, naquele fim de tarde de meados de Agosto de 61, mostrou-me também que era um cidadão bem informado. Faltaria apenas uma experiência intensamente vivida para fazer dele um homem de corpo inteiro que valia a pena conhecer. Weber tinha-a. De sobra. Deixo-lhes aqui o seu pensamento. A sua análise. Reconstituídos pela memória e pelas notas que, por método e por princípio, lançava para o papel todas as noites, antes de adormecer. Aqui e além, com recurso também à informação específica de Duby9, sempre que estava em causa o rigor da historicidade.

 

3. O Muro era apenas mais uma fronteira. A história da Alemanha, nos últimos 800 anos, estava sobrecarregada de fragmentações territoriais e humanas. O povo estivera sempre dissolvido.

Nos séculos XII e XIII, no Sacro-Império, a divisão teve origem na rivalidade de duas famílias – os guelfos (Welf) e os gibelinos (Staufen, ou Waiblingen) -, adversários tenazes da Santa Sé, a quem disputavam o domínio do mundo no quadro de uma querela entre o sacerdócio e o Império. A dispersão territorial da enormíssima riqueza dos seus patrimónios, porém, foi responsável pela incapacidade de os reis germânicos alicerçarem o seu poder, uma debilidade que originou a pulverização do Império num número elevadíssimo de pequenos estados, independentes do imperador, o território da Alemanha retalhando-se numa rede complexa e infindável de linhas de fronteira.

 

Foi também este o padrão no século XVI, fundamentalmente pela acção da Reforma, tal como Lutero a concebia. Ao proclamar que a propriedade da Igreja era de todos, Lutero impulsionava a secularização da riqueza fundiária do clero e minava o poder centralizado. E as fronteiras permaneceram na nova geografia de fragmentação.

No século XVIII o Sacro-Império era apenas uma instituição prestigiosa, mas sem conteúdo real. Estava estilhaçado em mais de quatrocentos pedaços – em estados principescos e urbanos. Mesmo então, no alvorecer do Iluminismo, do despotismo iluminado, que favorecia o desenvolvimento de um sentimento nacional, a nação alemã oferecia um cenário de anarquia do poder e de particularismos.

No princípio do século XIX, o Congresso de Viena (1815) fomentou a criação de uma Confederação Germânica, substituta do Sacro-Império. Esta fórmula nova não solucionou a questão da fragmentação interna. Na defesa dos Habsburgos e dos pequenos Estados, a Confederação não foi mais do que uma ficção obsoleta, apesar da tentativa da política de união económica (Zollverein) iniciada em 1834. Esta união económica, contudo, acabaria por ser a primeira pedra de uma política de reforço da Prússia, no norte da Alemanha, a da estratégia de unificação conduzida por Bismarck, concretizada em 1871 após a força acrescida adquirida com a anexação da Alsácia-Lorena, consequência da guerra franco-prussiana do ano anterior10. O segundo Reich, o segundo Império alemão, foi a herança territorial de Hitler.

A derrota alemã em 45 reinstituiu o pesadelo da fronteira. O país foi dividido em quatro sectores – o francês, o britânico e o americano, a oeste (60% do território nacional), e o soviético, a leste (40%). Berlim, igualmente fragmentada noutros tantos sectores, perdeu a qualidade e o estatuto de cidade capital que tivera com Bismarck e com Hitler, passando a metade leste a cabeça do novo Estado. A R.D.A.11. Berlim ocidental transformou-se num espaço insularizado rodeado de R.D.A. por todos os lados.

 

4. O Muro de Berlim não era tema fácil de abordar de forma séria e honrada, segundo o senhor Weber. Era necessário, imperioso, que todos os alemães, os de oeste e os de leste, todos sem excepção, tivessem a honestidade e a coragem de assumir a sua quota-parte de responsabilidade no drama. E na tragédia que a Abgrenzung, a separação total, prenunciava. E não só os alemães. Todo o mundo. Em especial, os vencedores da guerra.

Por mais obsceno que o Muro fosse, e era obsceno, era uma infâmia, uma nódoa difícil de apagar pelo que representava de perda de ética, de simbologia inaceitável para a humanidade, no plano político haviam sido cometidos erros sem conta. Quase todos muito graves. E Herr Weber enunciou alguns.

O Ocidente mantivera, só em Berlim, algumas dezenas de milhares de homens armados. Cerca de 35000; mais de uma centena de organizações de espionagem, de terrorismo, de propaganda, de sabotagem, e até de rapto de cidadãos, tinham assentado arraiais na antiga capital do Reich. A par de mais de trezentas estações de rádio e de televisão ao longo de toda a linha divisória, promovendo os valores do "Mundo Livre". Era assim que o Ocidente era designado. Para não mencionar aquilo que Frau Weber qualificou de abscheuliche Unverschämtheit, de impudor execrável, a instalação de prostíbulos em edifícios com fachadas voltadas para leste e a exibição constante do nu pornográfico nas janelas e nas varandas.

Da parte da Alemanha Oriental, salientou Weber a definição de um modelo económico estrangeiro que, de forma mal planeada, procedeu a nacionalizações apressadas, a colectivizações desastrosas, sobretudo na terra. Nos campos. A realidade estava ali para demonstrar os erros cometidos. Até ao erguer do Muro, disse Weber, mais de 2,5 milhões de cidadãos da R.D.A. tinham trocado o seu país pela República Federal12.

Eram, sobretudo, razões de natureza económica que os levavam a deixar a nova pátria. Ele próprio, e Frau Weber, tinham saído do leste exactamente por motivos desse tipo. Herr Weber não deixou de salientar que este movimento, este impulso para o oeste, este Drang nach Westen, era um fenómeno demográfico muito anterior, podendo ser situado no século XIX. E sempre pelas mesmas causas. Concretamente, pelo desenvolvimento desigual dentro da nação. Os dirigentes da zona soviética não tinham sabido arquitectar políticas que pudessem estancar este êxodo, e isso teria de ser assumido pelos responsáveis. Muito grave era, para Herr Weber, o facto de muitos dos que iam para ocidente serem técnicos especializados, engenheiros, médicos, intelectuais que deixavam mais pobre o seu país atraídos por salários mais elevados. A República Federal gostava de recebê-los, de empregar uma mão-de-obra altamente qualificada cuja formação nada lhe custara. A R.D.A. não tinha condições para continuar a assumir indefinidamente os custos de uma preparação avançada para a vida sem dela tirar proveito.

Outro erro soviético na Alemanha Oriental fora o bloqueio de 48 ao abastecimento de Berlim oeste, na tentativa, aliás falhada, de alargar o domínio à metade ocupada por franceses, britânicos e americanos. A ponte aérea criada, que durou mais de um ano, teve como consequência não desprezível o facto de as potências ocidentais deixarem de ser vistas como "ocupantes" e começarem a ser consideradas "forças de protecção".

Numa perspectiva estritamente humanista, não havia, para Herr Weber, qualquer possibilidade de aceitação de um muro, de uma fronteira desta natureza, que rasgava as carnes e a inteligência. Os alemães eram livres de viajar pelo mundo inteiro, mas era-lhes agora vedada a movimentação no interior da própria pátria. Encerrados, encurralados, perdiam a liberdade de fazer escolhas para a vida. A todos os níveis.

O Muro era, assim, uma violentação da razão, uma impermeabilização do pensamento. Não podia haver perdão para quem provocara e para quem ordenara a sua construção.

 

5. Foi um jantar agradabilíssimo e um serão de enriquecimento que os Weber me ofereceram alguns dias depois. O casal falou do seu país. Do natal e do de opção. Da sua própria vida. Frau Weber, do cultivo de flores nas pequeníssimas propriedades da família, e da sua comercialização numa loja própria da sua terra – Erfurt; de como conhecera Wilfred, uma coincidência felicíssima (ein ziemlich glücklicher Zufall, nas suas palavras) a realização simultânea, em Halle13, de um congresso sobre tecnologias de exploração e de extracção de potassa e de sal-gema e de uma grande exposição de floricultura; do casamento, em 32, na sua cidade natal, a capital do Estado Livre da Turíngia14; da necessidade de a República Federal aprender três coisas fundamentais que a R.D.A. já desenvolvera: materializar uma separação estrita entre a Igreja e o Estado; dar à mulher o direito de decisão livre sobre a gravidez; promover a sua independência económica real.

Herr Weber privilegiou a recordação de figuras históricas da sua Saxónia, já que não gostava de regressar, mesmo que só em pensamento, à condição de escarafunchador, de toupeira das minas de Stassfurt. Falou de Martinho Lutero e das noventa e cinco teses afixadas nas portas da igreja do palácio de Wittenberg15; de Bismarck, chanceler do Reich entre 1871 e 1890, natural de Schönhausen16; de Haendel e de Kurt Weill, um dos compositores com maior expressividade artística do século XX.

Derivou depois para a cultura alemã nascida na Saxónia, e falou das Sentenças Mágicas de Merseburg17, das Merseburger Zaubersprüche, do século X, mas com origem em tempos pagãos; do código de leis mais importante da Idade Média – o Sachsenspiegel, de Elke von Repgow, do século XIII, monumento linguístico do médio alto-alemão18. Eu conhecia as Sentenças. A Primeira e a Segunda. Recordo a cara de espanto do senhor Weber quando lho disse. A explicação era simples: contactara com elas no âmbito da cadeira de Linguística Alemã da minha (quase concluída) licenciatura. Na versão original, indecifrável para o comum dos alemães e, naturalmente, para mim. E na versão em alemão actual.

A cultura de Wilfred Weber não parava de me impressionar profundamente. A esposa adiantou as origens desse conhecimento histórico, cultural e político. Na verdade, disse Frau Weber, a escola tinha sido muito breve para o marido. Demasiado breve. Aprendera quase tudo com os pais. A mãe fora professora primária, mas interessava-se tanto por questões pedagógicas como pelas políticas; o pai, mineiro e activista político (politischer Aktivist), fora um frequentador inveterado de tudo o que tinha sabor a ideologia e a cultura. Grande admirador de Liebknecht19, o ponto mais alto da sua vida, a julgar pela frequência com que dele falava, tinha sido o instante em que o ideólogo comunista lhe apertara a mão num comício em Spandau, junto de Berlim, em 1906, ou 1907. Se fosse vivo no momento da leitura da sentença do Julgamento de Nürnberg20, de Nuremberga, teria comemorado as penas de prisão para alguns criminosos nazis importantes (Doenitz e von Neurath, por exemplo), a serem cumpridas precisamente na prisão de Spandau.

Falaram ambos na divisão da Alemanha depois da guerra; da sua esperança e da sua adaptação inicial fácil ao novo regime da R.D.A.; da degradação progressiva da ilusão pela gestão frágil das minas e pela perda do poder de compra da população, que afectou o pequeno negócio de florista que Frau Weber geria em Stassfurt; da germinação da ideia da vinda para a República Federal; da adaptação lenta e complexa aos novos ritmos de um sistema distinto, de novas mentalidades, de novas concepções da vida e da existência. De novos rostos.

Wilfred confessou então, com os protestos da esposa, que para ele a integração se revelara mais complicada e que não estava ainda concluída. Falaram ainda do seu relativo bem-estar, quase dez anos decorridos, com duas lojas de comércio de flores, afinal coisa bem ao gosto e ajustada à experiência anterior de Frau Ulrike Weber.

Pela minha parte, dei-lhes as notícias dramáticas de uma crise colonial profunda; da inevitabilidade da perda do Império; da agitação estudantil crescente em Coimbra; das minhas peregrinações de verão pelo mundo da germanidade; dos meus projectos de dissertação de licenciatura no âmbito da literatura alemã.

 

Encontrámo-nos mais vezes depois desta noite que nunca esqueci. Herr Weber continuou a marcar presença diária no meu local de trabalho e, depois das seis da tarde, como companheiro de conversas animadas pelas ruas de Dortmund. Em meados de Setembro, viajei para Düsseldorf, onde fiquei até Outubro. Também a trabalhar. Também numa cervejaria. Despedi-me dos Weber com o até sempre dos amigos transparentes. Dos amigos com quem aprendemos aquilo a que a vida (felizmente) nos poupou, mas que podemos ter de enfrentar algum dia; dos amigos com quem se aprende a juntar os pedaços de um raciocínio descomprometido.

Porém, a vida, madrasta, não voltaria a reunir-nos.

 

Viseu, Janeiro de 2003

 

OUTRA BIBLIOGRAFIA DE APOIO

 

A Outra Alemanha. Cadernos D. Quixote, 48. Lisboa: Publicações D. Quixote, s/ data.

Babo, A República Democrática Alemã - Sociedade Socialista Avançada. Lisboa: Prelo, 1975

Berlin in Brief. 1995, Presse – und Informationsamt Berlin.

Duby, G. Atlas Histórico Mundial. Madrid: Editorial Debate, S.A., s/ data.

Grass, G. O Meu Século. Lisboa: Editorial Notícias, 2001.

Kayser, W., Quintela, P., Beau, A. E. Antologia de Poesia Alemã. Lisboa, Livraria Clássica Editora, 1944.

Perfil da Alemanha. Publicação do Departamento de Imprensa e Informação do Governo federal. Braunschweig: Westermann, 2000.

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NOTAS:

* Docente do ISPV, aposentado.

1 Associação comercial de cidades alemãs, holandesas e flamengas, criada no século XIII, atingindo o ponto mais alto do seu poderio nos dois séculos seguintes.

2 Inaugurado pelo Imperador Guilherme II.

3 Dortmund tinha então uma população de 140.000 almas.

4 Gestapo, abreviatura de Geheime Staats Polizei, polícia secreta do partido nacional-socialista de Hitler e, a partir de 1933, do Terceiro Reich.

5 Em 1955, a população atingia o número de 600.000.

6 Estado situado no coração da Alemanha, integrado na zona soviética de ocupação depois de 1945.

7 O Muro de Berlim surgiu da noite para o dia (12-13 de Agosto de 1961).

8 A fronteira material estabelecida em 1961 tinha uma extensão de 43 Km entre as duas metades de Berlim. Nos quarteirões urbanizados a separação foi feita ao longo de 14,5 Kms.

9 Duby, G. Atlas Histórico Mundial. Madrid: Editorial Debate, s/ data, pp. 98-107. (Tradução do original francês "Atlas Historique", Librairie Larousse, 1987).

10 Em 1918, no termo da 1ͺ Guerra Mundial, a Alsácia regressa à posse da França. Mas em 1940, depois da derrota francesa na região, Hitler considera-a de novo terra alemã. E a partir de 42 os jovens alsacianos foram incorporados no exército alemão. A Alsácia-Lorena será libertada de novo em 44-45.

11 A República Democrática Alemã foi fundada em 7 de Outubro de 1949.

12 2.609.321 é o número de refugiados para o período 1950-1961. In Blanc, A. et al., Les Républiques Socialistes d’Europe Centrale. Paris : Presses Universitaires de France, 1967, p. 167. A reforma monetária de 1948, que operou a substituição do velhíssimo Reichsmark pelo Deutsche-Mark, deu um forte impulso a este movimento.

13 Antiga cidade da Liga Hanseática, Halle possui um valiosíssimo património arquitectónico religioso. É hoje um centro universitário e administrativo.

14 Estado da R.D.A., a sul da Saxónia-Anhalt.

15 Em Wittenberg situa-se também a casa de Lutero, e a sua cela no convento dos Agostinhos. O texto latino das teses encontra-se gravado nas novas portas de bronze, que substituíram as que arderam no incêndio de 1760.

16 Pequena localidade, a norte de Magdeburg, no vale do Elba.

17 Merseburg é uma cidade antiga, fortificada, que mantém a fisionomia da Idade Média. Situa-se no distrito de Halle.

18 Um dos estádios de desenvolvimento da língua alemã (séculos XIII e XIV, um tempo de ascensão e de ultrapassagem, em quantidade e em qualidade, da literatura profana relativamente à religiosa).

19 Karl Liebknecht (Leipzig 1871-Berlim 1919) foi membro da extrema esquerda do partido social-democrata; fundador da Spartakusband, Liga de Espártaco, que defendia a resistência activa, e que constituiu o núcelo do partido comunista alemão. Na sequência da insurreição spartaquista de Janeiro de 1919, foi detido e assassinado na prisão.

20 1 de Agosto de 1946.

sumário