NO TEMPO EM QUE NÃO HAVIA ERASMUS... V

MEFISTO & C.ia

 

VASCO OLIVEIRA E CUNHA *

 

Com esta memória de Frankfurt e do Mefisto chega ao fim uma série de documentos que baptizei de "No Tempo em que não havia Erasmus...". Experiências que deliberadamente busquei; fendas que procurei abrir na muralha espessa, obscena, que "protegia" o meu país, a minha língua, de todas as "impurezas" e de todos os "vírus" que grassavam na Europa que fizera a guerra para se libertar. Para criar uma dimensão nova da vida. Recuperação de rostos e de vozes, de instantâneos de loucura e de serenidade austera religiosamente selados na minha mente durante longuíssimos anos. Fonte substancial do sal da minha vida, ajuda decisiva no fortalecimento da convicção de que quem não tem passado está literalmente morto. Não um passado permeado de rotinas infindáveis, empobrecedoras, esterilizadoras do espírito, antes da vida que nasce e renasce dos desafios que nos impomos. Na esperança de nos transformarmos. De crescermos como pessoas e como cidadãos. Trilhando ruas de linguagens distintas, de geografias múltiplas de mentalidades, de fome e de abundância, de ódio e de amor, de dor e de alegria por se estar (ainda) vivo.

Como professor que fui, durante quarenta anos, senti que devia partilhar memórias de uma fracção de uma vida plena de experiências incomuns. Sobretudo com os estudantes. Na esperança de poder agitar o charco de modorra e de infecção em que algumas sociedades parecem continuar a querer agrilhoar os mais jovens.

É tempo e lugar de recordar nesta minha terceira memória da Alemanha uma eminente professora da Universidade de Coimbra - Maria Luísa Amorim. Foi ela quem alimentou a órbita das minhas ilusões de viandante, enriquecendo os meus projectos de corremundos com dois nomes então mágicos para mim - Heidelberg, cidade onde, na mais antiga universidade alemã1, concluía o seu doutoramento, e Frankfurt. A terra de Goethe. Tornei-as realidades no Verão de 1962.

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Permitam-me que vos fale hoje de dois filões imensos, inesgotáveis, da cultura. Que vos conte histórias sem conto de idades distintas do Homem, algumas delas velhíssimas como o mundo. Perspectivas, sempre provisórias, de degradação da inteligência e de exaltação da vida. Que vos apresente Frankfurt-am-Main2 e o Mefisto3. Uma cidade e um "espírito maligno", símbolos, ambos, de capacidade criativa e de energia. De poder. Para o bem e para o mal. Nascidos, os dois também, do Homem4.

Com uma narrativa inicial (crónica, se o leitor assim decidir chamá-la) das virtudes e dos pecados de Frankfurt, mas mantendo dela afastado o Mefisto. Até ao último parágrafo. Partindo, depois, em busca do Fi de Puta Ruim, como Gil Vicente lhe chamou, para vos falar um pouco da sua teia labiríntica. Das suas artes de sedução e de tentação. Da sua relação íntima, profunda, com a grande cidade alemã. Com a vida. Convidando, finalmente, o leitor a fazer comigo uma viagem ao admirável mundo do nosso tempo e às sempre renovadas estratégias de tirania absoluta e universal. Mistura de fabulação do meu pensamento, da realidade vivida pelos meus sentidos (por todos eles), de reflexões alheias colhidas em leituras passadas e presentes.

 

1. VIRTUDES E PECADOS DE UMA GRANDE CIDADE

 

Cidade famosa na grande política dos reinos e dos impérios, Franconofurd, a sua mais antiga identidade escrita conhecida (794), foi sede de uma assembleia imperial e de um sínodo romano5, presididos ambos por Carlos Magno na promíscua relação medieval entre o Estado e a Igreja; local de eleições reais6 e de coroações7, centro estratégico do poder dos Hohensfaufen e do seu Sacro-Império Romano-Germânico8; sede de incontáveis Dietas imperiais9; da promulgação de uma Bula Dourada10 confirmando a metodologia de eleição do Imperador por um colégio de sete príncipes, simultaneamente reconhecendo-os como governantes independentes; da Deutsche Bund, da Confederação (ou Liga) Germânica, substituta do Sacro-Império11.

Um eixo de prestígio e de poder soberano, mas que não entorpeceu nunca os cidadãos de Frankfurt. Que os não impediu de esbracejar na luta pelas suas liberdades, no combate permanente contra o poder absoluto da monarquia, do Império e das classes dominantes. Talhando-a para um grande destino.

Guiados pelo velho princípio alemão de que se não cozinha apenas com água (nicht nur mit Wasser kocht man), pela convicção forte da fundamentalidade do trabalho e da acção e não do espavento, da ostentação, do clamor das fanfarras de cortejos imperiais e dos cânticos de procissões, da volatilidade fátua, efémera, do poder, os Frankfurter12 conquistaram o direito de representação popular no Conselho Municipal, lado a lado com os vereadores nomeados pelo rei (1266); o direito, também, de, gradualmente, assumirem a capacidade de auto-governação por dois presidentes de Câmara, em substituição do representante real (1311); da supressão da oligarquia patrícia dos conselheiros do rei através da sublevação das corporações de artes e ofícios (1366). Lutas que fizeram de Frankfurt cidade livre do Império, em 1372, que lhe concederam a soberania e a autonomia financeira, com liberdade de administração, directamente responsável apenas perante o Império; combates que transformariam a cidade num centro de coexistência religiosa, no séc. XVI a Catedral13 sendo partilhada, momentaneamente embora, em 1533, por católicos e por protestantes14; que fizeram dela uma ilha de liberdade para protestantes espanhóis, holandeses e ingleses na sequência da Paz de Augsburg, de 1555, o Império abrindo-se à coexistência do catolicismo e do luteranismo; centro, ainda, de esperança e de futuro para refugiados huguenotes, na sequência da revogação do Édito de Nantes15.

Direitos e liberdades que desde muito cedo alicerçaram e potenciaram o desenvolvimento vigoroso da cidade. Da sua vida económica e financeira. Exemplos múltiplos deste crescimento, a Feira de Outono, a feira dos cereais, criada a partir de um mercado local16, oferecendo a vendedores e a mercadores o direito à protecção do Império17; a Feira da Primavera, iniciada em 1329, para as transações de lãs e de vinhos18, logo no ano seguinte adquirindo fama e dimensão para além das fronteiras regionais; a instalação do primeiro banco (1402) e de uma bolsa de valores, a partir do final do século XV, a solução encontrada para obviar às dificuldades criadas pela circulação de um número elevado de moedas estrangeiras e para a fixação de valores cambiais. Um soberano francês classificou então Frankfurt como "a maior cidade comercial do mundo".

O crescimento constante da vida económica e financeira veio a ser determinante, séculos mais tarde, mais concretamente em 1947, na escolha de Frankfurt para sede do Conselho Económico da Vereinigte Wirtschaftsgebiet, da Zona Económica Unificada, a administração supra-regional dos Länder (Estados) alemães das zonas ocupadas por americanos, ingleses e franceses19. Um ano depois, o Banco dos Estados Alemães, igualmente instalado na cidade, e que em 1957 se transformaria em Banco Central Alemão (Deutsche Bundesbank), organiza e supervisiona a reforma monetária da República Federal da Alemanha. O velho Reichsmark, sem qualquer valor de troca, é substituído pelo novíssimo Deutsche Mark20. Ainda no plano financeiro, em 1995, o Instituto Monetário Europeu tornar-se-ia Banco Central Europeu, com sede em Frankfurt, na primeira fase da introdução do Euro.

Curriculum riquíssimo de êxitos pluridisciplinares com uma integração quase isenta de pecado. Insuficiente, contudo, para evitar, em 1949, uma grande derrota política da cidade. Três anos após o início da reconstrução alemã.

Orgulhosa da sua capacidade de criação e de realização, com uma história palpável de triunfos políticos, sociais, económicos e financeiros, e com uma vida cultural ímpar no contexto da nação alemã, Frankfurt apresentou uma candidatura forte para suceder a Berlim como capital do novo Estado saído dos escombros da II Guerra Mundial. A cidade, defendiam os Frankfurter, era senhora de um capital inestimável e de uma experiência capaz de conduzir a nova República Federal na obra complexa, duríssima, gigantesca, de fazer reintegrar a nação nos novos contextos europeus e mundiais - os sociais, os políticos, os económicos, os financeiros e os culturais. Mas foi preterida por Bonn. O peso político de Konrad Adenauer21, natural da vizinha Köln, poderá ter sido, segundo muitos, o argumento decisivo na derrota da candidatura de Frankfurt. Determinante, para outros, a calma tranquilidade e a pacatez da cidadezinha do Reno.

Não creio no peso de argumentações tão fluidas, tão sem substância, quando estava em causa a tarefa imensa de gestão do equilíbrio terrivelmente instável do mundo. No passado, Frankfurt falhara em questões fundamentais da vida. Quando esteve em causa a urgência do esmagamento do inadmissível; quando a Humanidade se sentia à deriva num mundo amorfo e caótico parido da catástrofe incomensurável que quase sepultou a vida. Que quase exterminou a cultura. Quando o mundo reiniciou uma nova era de barbárie. A cidade perdeu aí a maior das suas batalhas. A história não lhe perdoou pecados capitais.

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A vida das cidades, mesmo quando experiência milenar, não é nunca uma narrativa feita apenas de epopeias e de virtudes, de combates pela liberdade, pela paz e pela justiça. Pelo direito à vida. Na rede densíssima de interesses materiais e políticos que a labiríntica Europa teceu ao longo dos séculos o estatuto de cidade liberta e livre, culta, tolerante e pacífica foi frequentemente violado. Pela gula alheia e por intemperança própria.

Frankfurt sofreu a ocupação de poderes estrangeiros. De Gustavo Adolfo, da Suécia, entre 1631 e 1635, durante a Guerra dos Trinta Anos - 1618-164822; dos franceses, que a capturaram em 1759, durante a Guerra dos Sete Anos23; dos exércitos da revolução Francesa, em 1796 e em 1800, a cidade ficando subordinada, com a dissolução do Velho Império (1806), a Napoleão e à Confederação do Reno, tornando-se um Grão-Ducado, um Großherzogtum, quatro anos depois, os interesses das corporações da cidade profundamente feridos. E a perda da independência política voltaria a repetir-se quando a Prússia a anexou, em 1866, depois da derrota da Áustria. Em 1945, com a hecatombe nazi, Frankfurt foi ocupada pelo exército americano.

Estatuto violentado, também, pela erupção de fundamentalismos religiosos, os judeus sofrendo perseguições de pesadelo e de morte como nos piores momentos da vida da Europa: nos pogroms, nos levantamentos populares de 1241, contra os próprios cidadãos de Frankfurt, destruindo a comunidade judaica, exilando-a, só a autorizando a regressar quinze anos após; em 1349, mantendo os judeus afastados da cidade durante mais de duas décadas; em 1462, enclausurando-os na Judengasse, no beco dos judeus, na periferia da cidade, como se um culto distinto pudesse contaminar as "boas" almas e os "bons" costumes; na destruição do gheto pelo fogo, em 1711 e em 1719, as chamas matando também o núcleo histórico de Frankfurt; na noite dos pogroms24, quando num dos incontáveis picos de barbárie e de loucura nazis todas as sinagogas e demais instituições judaicas foram incendiadas; na deportação, em 41, de mais de nove mil judeus, enviando-os para a violentação brutal, infra-humana, dos campos de concentração. Para a exterminação fatal, dando-lhes a respirar, nas antecâmaras dos fornos crematórios, o Ziklon B da IG Farben, indústria militar estratégica sediada em Frankfurt.

Os bombardeamentos massivos de 43 e de 44, reduzindo a cidade a uma montanha gigantesca de escombros e de ruínas25, foram o custo altíssimo que Frankfurt pagou por todos estes crimes. A cidade terminava mal a primeira metade de um século desordeiro, rixoso, litigioso e mortífero, como o qualificou Günter Grass26, as acções, mesmo as mais tenebrosas, tendo nascido no seu próprio país27.

Os anos que se seguiram ao termo da guerra foram tempos de miséria, de sofrimento e de desespero. De um caos sem medida. Com as cidades destruídas, arrasadas, procurava-se refúgio nas ruínas dos bombardeamentos, nas caves dos edifícios destruídos, na ocupação, potencialmente explosiva, por múltiplas famílias, de apartamentos que tinham sobrevivido ao massacre aéreo; o valor de troca do velhíssimo Reichsmark, reduzido a nada, fez expandir um mercado negro obsceno, assumindo o cigarro americano o papel de moeda de troca. Imprescindível, quando era urgente ter briquetes para matar o frio ou um ovo para enganar a fome.

Inventavam-se, contudo, formas honestas de conseguir comida. Rumava-se ao campo em demanda das pequenas povoações menos castigadas pela guerra, apinhando-se os haveres parcos numa velha bicicleta - tachos, panelas, carpetes, cobertores, molduras de fotografias de família - e trocavam-se por alimentos. Muitos conseguiram sobreviver, assim, ao ano terrível de 46 e ao inverno glacial de 47. Os sinais de uma esperança real só se tornaram visíveis em 48 com a reforma monetária. Com a criação do Deutsche Mark (DM), do marco alemão, e a adopção do modelo de economia social de mercado. Nesse mesmo ano foi posto em marcha o Plano Marshall28. Em 1949, cria-se a República Federal da Alemanha. O velho Reich fragmentara-se com a partilha que as potências vencedoras do conflito impuseram em Ialta29. Acontecimentos sucessivos, intensos, que conduziram de imediato à reconstrução do país, tenuamente iniciada logo em 1946. E com a reconstrução criaram-se milhões de empregos, gerando-se no leste uma imensa onda de refugiados para quem a R.F.A. constituía um novo El- dorado, uma solução para a sua fome. Para a sua miséria. Mas com as vagas de gente veio, também, o aprofundamento da violência, do crime, da degradação, transformado-se as grandes cidades em gigantescos barris de pólvora. Frankfurt não escapou a esta regra. A cidade tornou-se mesmo o segundo centro urbano mais violento da R.F.A., logo a seguir a Hamburgo. Por algum tempo ficou ingovernável.

E havia outras dificuldades. Não negligenciáveis. Velhíssimas contradições que urgia resolver. Frankfurt não soube lidar com elas, adensando a crise e o crime. Na década de 50, mais precisamente, em 1955, o governo conservador da cidade declarou-se favorável ao rearmamento do país redespertando a ira dos sindicatos social-democratas e comunistas. Mas nenhum diálogo foi estabelecido. Nos anos sessenta e setenta, os governos do SPD (Sozialistische Partei Deutschlands) revelar-se-iam incapazes de dar respostas reais à violência e à prostituição. Ao crime.

A minha vivência da cidade, em 62, ensinou-me que zonas havia em que a rua poderia ser letal a partir da uma da madrugada. Uma delas era Sachsenhausen, na dribb de Bach, na outra margem do rio Main. A esquerda. A zona dos pubs, dos Biergärten, das cervejarias. Dos restaurantes e dos clubes nocturnos das suas ruas estreitíssimas.

Era o mundo da ebbelwoi, da sidra, entre o entardecer e o amanhecer; a catedral das costeletas grelhadas e dos Handkäs em mussig, do queijo fresco em marinada de azeite, vinagre, cebola e sementes adocicadas; a zona dos Hardekuche, dos bolinhos secos, muito populares porque imprescindíveis para contrabalançar o potencial explosivo da ebbelwoi30, absorvendo-lhe, como mata-borrão, o ácido no estômago. Noites difíceis, estas de Sachsenhausen. Sobretudo quando a sidra, depois da meia-noite, começava a fermentar no topo das cabeças. Quando os olhos se toldavam, só entrevendo a opacidade dos vultos das gentes e dos edifícios.

Mais tarde, em 68 e 69, ressurgiram nas grandes cidades, com violência bruta, as batalhas campais entre polícia e estudantes. Queriam estes a criação de uma geração livre de trabalhadores e estabelecer uma sociedade socialista na R.F.A.. A "Escola de Frankfurt", de Marcuse, de Adorno e de Horkheimer, era a sua base de fundamentação teórica. Berlim e Frankfurt foram baluartes maiores destas tentativas revolucionárias31.

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Para as muitas dezenas de milhões de viajantes que todos os anos utilizam o aeroporto da cidade como escala para destinos sem fim32, Frankfurt é apenas uma das grandes metrópoles do mundo económico e financeiro. Da sua jóia mais preciosa, da cultura pacientemente edificada ao longo dos séculos, dessa, a maior parte desses viajantes talvez nunca tenha ouvido falar.

É neste mundo de criação que mergulharemos agora, roçando ao de leve, aqui e além, o horizonte mais vasto da actividade artística e literária da Alemanha nos anos difíceis que se seguiram a 1945. Fazendo opções. Discutíveis, mas inevitáveis quando se fala da cidade europeia com o orçamento cultural mais elevado e com uma actividade editorial secular. Riquíssima. Da cidade com a Feira do Livro mais antiga do mundo. Quando se fala da terra de Goethe.

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No assentar da poeira e no diluir dos fumos espessos dos bombardeamentos e do troar dos canhões, e sobretudo após o início da reconstrução, a Alemanha assistiu a uma verdadeira erupção editorial. Fundamentalmente, de autores preocupados em manter vivas a culpa da nação na catástrofe e a crítica ao silêncio dos pais relativamente aos crimes do Nacional-Socialismo; em denunciar as tentativas de desresponsabilização da barbárie nazi através do "milagre económico" post-conflito; em buscar, permanentemente, as causas mais remotas da origem da tragédia - as históricas, as políticas, as psicológicas e as morais. E tentar fazer a avaliação das consequências.

Holthusen33 ajuda-nos a reconstituir o quadro dessa atmosfera mental e cultural:

a) proliferação de revistas literárias/políticas, de relevância e de tendências distintas, algumas ressurgidas do silêncio imposto pelo nazismo - o democratismo liberal de Wandlung; o catolicismo de Hochland, fundada em 1903 mas proibida nos últimos anos da guerra; a tentativa (nem sempre bem sucedida) de conciliação do catolicismo e do socialismo dos Frankfurter Hefte, dos Cadernos de Frankfurt34; o posicionamento duro da Merkur, editada em Baden-Baden, contra todas as formas de ideologismo político, científico e religioso na procura da verdade35;

b) entrada franca no vácuo político e espiritual (in das politische und geistige Vakuum)36, numa Alemanha que sempre tivera as fronteiras fechadas ao exterior, de uma torrente de ideias e de produções literárias alheias. As boas e as más, as sólidas e as efémeras, as conhecidas e as desconhecidas. Tudo aceite sem critério - a lírica inglesa e o teatro francês. A prosa americana. A propaganda do Leste. Uma situação irónica - die Situation war nicht ohne Ironie, como escreve Holthusen37, já que da Alemanha haviam partido muitas das ideias agora importadas com outras designações: a filosofia da existência "invadia" o país sob o nome de Existencialismo, depois de, na Alemanha, nos anos vinte e trinta, haver sido trabalhada por elites intelectuais. Do mesmo modo, a psicanálise de Freud, as parábolas de Kafka, conhecidas na Alemanha logo a seguir ao termo do primeiro conflito mundial do século;

c) regresso de emigrados, de exilados do mundo das letras. De parte da sua obra. De Thomas Mann e do seu Doktor Faustus38, um romance que despertou um coro enorme de protestos pela sincronização da biografia imaginária de Adrian Leverkühn, um músico genial alemão, e da ruína, do crepúsculo da Alemanha, e considerado por Holthusen como uma tentativa de calúnia das melhores tradições da nação. Como diabolização da história e da alma alemãs (eine Verleumdung vieler unserer besten Überlieferungen... eine Verteufelung der deutschen Geschichte und der deutschen Seele)39. De Carl Zuckmayer e da sua peça Des Teufels General, O General do Diabo40, um debate sobre a culpabilidade colectiva.

Entre muitos outros regressados;

d) maré-cheia de literatura documental, de memórias, de realizações e de lamentos. De medos. De terrores dos campos de concentração. De nomes que a literatura faria grandes: Ernst Jünger41, Gottfried Benn, interditado de publicar desde 1936, pelo regime nazi, o pensamento de que a história parou e de que a objectividade das coisas só é real se contribuir para a realização da perfeição formal; a convicção de que a utilização da inteligência na análise das ideias políticas ajuda a humanidade a não despenhar-se nos sistemas totalitários e no empobrecimento material; Rudolf Schröder, lírico e ensaísta. Felix Hartlaub. De Von Unten Gesehen e de Tagebuch aus dem Kriege, o melhor que se escreveu sobre a guerra, ainda na perspectiva de Holthusen42.

e) o retomar de edições dos clássicos alemães, interrompidas pela guerra: dos dramas sociais, das lendas, dos mitos dramatizados, da prosa narrativa de Gerhart Hauptmann (1862 - 1946); da obra de Bertolt Brecht (1898 - 1956), plena de crítica satírica dos conceitos e das práticas morais do capitalismo da burguesia em todas as suas faces, e da apologia das concepções e dos métodos do marxismo comunista, segundo Beau;43 da poesia e dos dramas líricos de Hugo von Hoffmannsthal (1874 - 1929); das obras completas de Rainer Maria Rilke (1875 - 1926), de George Trakl (1887 - 1914). De Rudolf Borchardt (1887 - 1945); de ...

Para citar apenas um punhado de autores.

Frankfurt assumiu um papel de relevo nesta intensíssima actividade editorial. Havia raízes bem profundas da imprensa na cidade. Implantada a partir de 1530, ela fizera de Frankfurt o maior centro de impressão e de comércio de livros da Europa.

Localizada, hoje, na sua grande maioria, na parte oeste da cidade, nas proximidades do Campus Universitário Johann Wolfgang Goethe, os seus nomes mais conhecidos são a Suhrkamp e a Samuel Fisher, esta última tendo trocado Berlim por Frankfurt depois da guerra.

Na sequência das revoltas estudantis de 68, surgiu a Verlag der Autoren, a Editora dos Autores, empresa propriedade dos próprios escritores, ainda hoje bem viva e mantendo a sua matriz ideológica.

Um outro exemplo de destaque é a Luchterband, a primeira a publicar autores da R.D.A. e escritores polémicos. Como Günter Grass. Na gestão inteligente do conflito entre o capital e a pesquisa intelectual.

Um outro nome, ainda, de entre os muitos que, pela natureza deste documento, teremos de deixar silenciados - a Eichhorn, orientada para a literatura exigente. Uma empresa viável pela canalização do produto da venda de banda desenhada para as suas edições menos procuradas.

Uma referência final, no âmbito editorial, para os mais de sessenta títulos de jornais e de revistas. Para os mais conhecidos: o Frankfurter Allgemeine Zeitung, editado pela primeira vez em 1949, a leitura do mundo da finança. Conservador. Diria mesmo, reaccionário; o Frankfurter Rundschau, o primeiro diário a emergir depois da guerra. Logo em 45; o Neue Rundschau, editado pela Suhrkamp.

Uma perspectiva sectorial, necessariamente breve, de uma cidade com uma oferta cultural riquíssima. De uma cidade de debate intelectual na Kultur, fórum político e cultural; no Café Voltaire, ponto de encontro para a discussão comunal; na Römerberg, o centro cívico de Frankfurt. Desde há séculos. De uma cidade mais de patrões do que de museus, mas de patrões que investiram na arte, a margem esquerda coalhada de exposições permanentes de artes e de ofícios. De ciência. De escultura e de arquitectura. De pintura e do filme. De etnologia e de história. De arte moderna e de dinossauros. Cidade, ainda, de duas óperas44; do melhor do teatro avant-garde; de uma das companhias de topo do ballet europeu.

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Goethe é um nome maior de Frankfurt. Um nome muito grande da cultura europeia e universal. Autor de uma obra imperecível, de uma Theologie der Schöpfung, de uma Teologia da Criação, como escreve Holthusen.45 A interacção entre Eros e o Amor divino.

Ele é o homem da medida justa e da verdade completa. O espírito da ordem e do equilíbrio, sístole e diástole, como o próprio autor dizia, da sua vida, transformadas em ritmo de vida universal. Isto é, a fusão da alma com a natureza, a síntese da totalidade. Na pujança dos anos da juventude; no fervor e no ardor dos anos de Frankfurt. Do seu Götz von Berlichingen, o protesto contra a ordem estabelecida e a exigência da liberdade intelectual; da paixão sem freio e sem esperança de Die Leiden des jungen Werthers, O sofrimento do jovem Werther; do seu Urfaust46, o Fausto original, semente primeira de Faust, eine Tragödie; da força dos seus tempos romanos; da reflexão das Wahlverwandschaften, das Afinidades Electivas47.

Um homem e uma obra de uma actualidade substantiva. Seminal, fertilíssima. De leitura urgente no caos material e mental da guerra. Num tempo de tragédia infinita e de crepúsculo da cultura. Porque Goethe é poeta do Ser, da Educação. Da Sociedade. Liberto de sistemas filosóficos e doutrinários. De metafísicas. Porque ele é, apenas, um Humanista.

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Uma referência ainda, imperativa, inadiável, para a Feira do Livro da cidade.

Incorporada na Feira de Outono, quando alguns (poucos) negociantes de livros fizeram a sua primeira aparição, em 1478, acontecimento notável numa cidade que contava então apenas dez mil habitantes, as condições precárias da sua instalação em breve a secundarizaram relativamente a Leipzig, só em 1949, depois da guerra, conseguindo restabelecer a sua supremacia, tornando-se a maior feira de livros do mundo48.

Fórum de compra e de venda de editoras e de direitos de tradução à escala planetária; de negócios gigantescos de distribuição; local privilegiado para dar a conhecer ao mundo o que de melhor se publica em África, na Ásia e na América do Sul, a Feira do Livro de Frankfurt tornou-se recentemente uma feira política. Depois da Guerra do Golfo, de 1991, a literatura iraniana foi dela banida. Contudo, e apesar das ameaças constantes contra a vida de Salmon Rushdie, o Irão foi, pouco tempo após, convidado a regressar.

Foi nesta Feira que, em 1587, o livreiro Spiesz vendeu uma crónica anónima editada na cidade nesse mesmo ano. O seu título completo, Volksbuch, die Geschichte von D. Johann Faustus, dem weitbeschreyten Zauberer und Schwarzkünstler, (A história do Doutor Fausto, mui afamado mágico nigromante). Nela se conta a lenda e a tragédia de um certo doutor Fausto49, filho de camponeses, que se distinguira na Universidade de Wittenberg, onde estudou durante mais de trinta anos, que não hesitou em vender a sua alma ao Mefisto, ao Diabo, em troca da iniciação às ciências do oculto, e de uma vida de prazer e de emoções fortíssimas durante vinte e quatro anos.

Arrependido, procurou a consolação numa viagem ao céu e às estrelas. Em mágicas travessuras. Mefisto evoca Helena, a de Tróia, fazendo-a subir do mundo inferior, do mundo das trevas, para viver com Fausto. O Inferno é o destino final deste homem sedento de conhecimento. De acordo com o pacto que estabeleceu com Mefisto. Olhemos mais de perto, em pormenor, este espírito do Mal.

 

2. "DO CÉU PARA A TERRA E DESTA PARA O INFERNO"

(Goethe, Fausto - Uma Tragédia)

Mefisto é um príncipe das trevas. Um, apenas um da legião infinita de espíritos malignos que andam pelo mundo para tentar as almas, como reza a memória da minha primeira catequese.

Os gregos arquitectaram-lhe uma linhagem nobre, antiquíssima. Ele é o Hermes Trismegisto, o Hermes Três Vezes Grande, fantástico deus lunar dos egípcios, inventor de todas as artes e de todas as ciências, autor profuso de obras secretas de magia, de astrologia e de alquimia, a todas estas capacidades adicionando as de ladrão de gado, de tocador de lira e de mediador especializado em pactos celebrados entre as divindades do Mal e o Homem.

O Testamento Antigo descobriu a sua génese numa simples e apetitosa maçã, na desobediência de Eva e de Adão, na inclinação eterna do Homem para o Mal, na perda da amizade divina e da felicidade que a acompanha. Na condenação ao sofrimento e à morte. Uma tradição expressa num quadro literário particular, o entrelaçar estreitíssimo da história, da poesia e da educação.

No teatro religioso medieval inglês o Mefisto é filho da vaidade e do narcisismo, pecados que o levam à perda da dignidade, da nobreza, da inteligência, da fonte de irradiação de felicidade para que fora criado por Deus. À sua semelhança50.

No nosso tempo, Vargas Llosa51 dá-lhe vida na pregação do Conselheiro de Canudos, a sublime personagem da sua Guerra do Fim do Mundo52, recuando-lhe a origem à criação de tudo quanto existe, quando Deus se retirou em si mesmo para construir o vazio, a ausência da divindade originando, em sete dias, o universo, a lua, a água e a vida. O Homem. E ao ser criada a Terra pela privação da divina substância, cumpriam-se as condições para o nascimento do pecado. E o mundo nasceu maldito como Terra do Diabo, sendo o Filho de Deus enviado aos homens para reconquistar o espaço terreal, fortaleza do Demónio.

Tarefa difícil, contudo, esta de vencer a universalidade do Mal, que Santo Agostinho acentuara, todos os homens sendo por ele atingidos e transformados em pecadores, só a misericórdia divina podendo operar a sua salvação depois da morte, excluindo aqueles que em vida foram maus para além de qualquer medida. Difícil, também, porque complexas e insondáveis são as estratégias do Mefisto.

A liturgia hispânica atribui aos espíritos malignos o papel de construtores de ciladas aos mortos, às suas almas em trânsito por regiões inóspitas, perigosas, por cárceres de funestas penas vingadoras, como Santo Isidoro as designou, os justos, em vida, e os arrependidos fazendo a travessia para o Além sob a protecção dos anjos, a misericórdia do Supremo salvando-lhes as almas das insídias do Maligno, das tentações do inimigo astuto e ardiloso, das potestades aéreas, poderes intermediários do Céu e da Terra.

Entre nós, com Gil Vicente, o Mefisto é senhor de múltiplos ofícios. De vendedor da sua quintalada, da sua mercadoria - artes de enganar, mentiras, vinte e três mil, enganos infindos. Para senhoras, senhores e amores53; de namorador da vaidade das almas, do seu cansaço e do seu desespero. Sempre com a promessa de um mundo de prazer, de espelhos, de jóias e brocados. De chapins de Valência. Nas muitas horas que há nos annos que lá vem54; de acusador (como na origem bíblica) das almas que viveram na corrupção: da usura do judeu e do onzeneiro, da fornicação do frade, da mediação do sexo pelas alcoviteiras, criando meninas para os cónegos da Sé; de descobridor e de fulminador das faltas terríveis e ocultas da nobreza. Da luxúria do Papa e dos desvarios do Imperador. Grotesco, sempre, e de uma ingenuidade de constranger, de pasmar, porque sempre o Mefisto acaba ludibriado, poucas almas ganhando para conduzir à Ilha Perdida, à infernal comarca, ao porto do "grande" Lúcifer, o Mefisto de Gil Vicente (e o do Calderón de la Barca - 1600 - 1681 -, que seguiu o nosso homem de teatro nos autos sacramentales, em especial em La Vida es Sueño e El Gran Teatro del Mundo) é uma personagem de comédia, não de tragédia; um ser perturbador do mundo dos vivos mais do que verdugo das almas no dos mortos55.

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Ao recuperar para o Mefisto do Volksbuch vendido em 1587 na feira de Frankfurt as capacidades de tabelião, de especialista na elaboração e mediação de contratos, de pactos, pelouro que os egípcios antigos atribuíam ao seu Hermes Trismegisto, o autor anónimo da crónica alemã metamorfoseou parcialmente a vida do espírito maligno. Retirou-o do mundo dos mortos e do ridículo do seu ofício de acusador de defuntos, de barqueiro do lago Estígio56 e do Tártaro57; minimizou-lhe a sina de perdedor frequente da mercadoria de almas que aliciava para a margem sem regresso da memória. Para as trevas do sofrimento infinito. Pela intervenção misericordiosa de Deus. Não lhe alterou, contudo, porque parte indivisível do miolo do seu ser, as antiquíssimas práticas de vendedor de promessas e de contador de mentiras. De pobre diabo. De charlatão. Trouxe-o para o mundo do Homem, simbolizado por Fausto. Para lhe dar a conhecer o saber autêntico e verdadeiro. Para lhe oferecer uma vida pejada de emoções fortíssimas. Saborosíssimas. Para lhe encher a vida com um tempo grandioso e louco58. Como o seu, na saturnal das bruxas da noite de Walpurgis59 entre pios de corujas, o sibilar dos ventos e sussurros e gemidos do arvoredo. Vinte e quatro anos, medidos, instante a instante, pela areia vermelha, finíssima, escorregadia, de uma ampulheta, presente essencial60. Até se esgotar. Para viver à farta que nem os velhos imperadores; para mandar às favas a lentidão, a timidez, os castos escrúpulos e as dúvidas61; para vencer as dificuldades estorvadoras dos tempos; para ter a audácia de uma barbárie duplamente bárbara, que levará Fausto até ao cume da vertiginosa admiração, realizando façanhas que lhe causarão o mais sublime terror62. Porque o Diabo, ao contrário de Deus, que abandona demasiado tempo ao intelecto, é o verdadeiro senhor do entusiasmo63. Ou, como escreverá Goethe, no seu Faust, para abarcar alturas, profundezas64, para encher o peito de alegrias, tristezas65. Para se considerar um deus em certos momentos arrebatados66. Para dominar o mundo, reis e imperadores; para impor limites aos oceanos; para ser amado por mulheres mais castas que Penélope, inteligentes como a rainha do Sabá, belas como Lúcifer, arch-regent and commander of all spirits67, arqui-regente e comandante de todos os espíritos, que é como que um imperador augusto, um general de mil estrelas. Um capataz de fazenda. Para lhe dar Helena como amante, unindo-o à formosíssima e mui devassa grega em matrimónio simbólico, na Arcádia68. Para lhes dar Eufórion, espírito da Poesia e da Liberdade, filho de ambos. Tudo, em troca da aceitação, por Fausto, da gestão integral, e por toda a eternidade, de todos os seus haveres - corpo, alma, carne, sangue, bens materiais. Pela abjuração das escrituras sagradas. Em palavras chãs, em troca da entrega da sua alma ao Inferno, lugar de barulho estrondoso e desmedido, de sarcasmo e de extrema desonra, que se une à tortura69, combinação monstruosa de sofrimentos insuportáveis70, os seus habitantes podendo somente fazer a escolha entre o frio mais extremo e um calor tão intenso que até poderia derreter granito71. Em documento escrito em alemão, o seu idioma preferido72, selado, firmado com um pingo de sangue de Fausto. Tudo direitinho. Tudo conforme com a lei. Uma metodologia de rigor do homem de acção que o Mefisto é. Que o autoriza a afirmar que pastam nos prados da ignorância todos quantos o alcunham de Senhor Dicis et non Facis73. De fala-barato. Uma prática de trabalho assente em sólidos princípios de honestidade, orgulhando-se o espírito de cumprir à risca tudo o que promete. Tintim por tintim. À maneira dos judeus, que são os negociantes de maior confiança74.

A metamorfose operada pelo Volksbuch alemão fez do Mefisto personagem do mundo da criação artística e literária. Durante séculos. Materializou o espírito maligno num rosto. Num corpo, ainda que pequeno. Criou-lhe uma identidade.

Goethe arquitectou-lhe a substância primitiva. Fê-lo filho do Caos75, /Da força uma parcela /Que sempre quer o Mal e o Bem faz nascer dela76, /O Espírito que só sabe negar77, /Uma parte que a princípio tudo era /Uma parte da treva que a luz gera78; aparenta-o com Érebo, as trevas primitivas, originadas no Caos no início do tempo, espaço tenebroso e sinistro do mundo dos mortos; acasalou-o com a Noite, sua irmã, gerando ambos a velhice, a morte, a discórdia e a miséria; chamou-lhe Fórcide, aproximando-o, assim, de Fórcis, seu pai, velho do mar, pai de três mulheres velhíssimas (as Fórcides, ou Greias), que personificam a idade e a fealdade, e que habitam um lugar que o Sol e a Lua não alcançam. Um parentesco genético que Mefisto não aceita, argumentando que para estas mulheres nem no inferno, nem no limiar79 poderá haver lugar. Tão feias são, com um só dente e um só olho, usados em alternância.

Thomas Mann não é tão severo para com o Mefisto. No topo do seu corpo pequeno faz-lhe crescer uma cabeleira ruiva por cima da têmpora80, a mesmíssima tonalidade da barbicha que lhe cobre parcialmente o rosto lívido, um pouco macilento81, pinta-lhe os olhos, avermelhados, cingidos por pálpebras igualmente arruivadas82, a ponta do nariz um pouco enviesada83.

Vestem-no ambos, depois. Como fez Marlowe. O dramaturgo inglês, de forma austera. Com vestes simples de frade franciscano. Goethe, no primeiro encontro de Fausto com o espírito maligno, com o hábito de estudioso medieval, vagante, errante, mas autoriza o Mefisto a falar orgulhosamente do seu gibão vermelho, de orla dourada,/A capa de seda engomada,/A pluma de galo no chapéu84. Sem esquecer, claro está, a sua longa espada85, que sempre mantém pronta quando viaja pelo mundo. Thomas Mann é quem mais minuciosamente fala dos gostos e das modas predilectas do Mefisto. Cobre-lhe o cabelo arruivado da têmpora com um boné de desporto puxado para cima de uma orelha86, veste-o com uma camisa de malha às riscas horizontais sob um casaco de xadrez, de mangas demasiado curtas. Esconde-lhe, mal, as vergonhas com calças indecentemente apertadas87.

Os pés são o grande calcanhar de ... Mefisto. Em Goethe, Empusa, espectro nocturno da mitologia grega, aparentada com o "nosso" espírito maligno, fala do seu "pé" de cavalo88. Mann, contudo, calça-lhe sapatos comuns. Amarelos e puídos, que já não valia a pena engraxar89.

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Chamaram-lhe mil nomes. Tantos, que o espírito maligno sente quase não ter outro a não ser esses engraçados apodos com os quais, por assim dizer, lhe acariciam o queixo com dois dedos90. A sua origem reside, segundo o Mefisto, na sua popularidade genuinamente germânica91.

Pelos títulos vos conhece quem queira, diz o Fausto de Goethe92. Que o mesmo é dizer que os nomes incontáveis, sempre desprestigiadores, sempre maliciosos, injustos, sempre redutores das capacidades do Mefisto, nos ajudam nas pinceladas, nos retoques finais da sua figura, do seu pensamento. Do seu mundo das trevas.

Gil Vicente, como vimos já, foi extremamente criativo e nada generoso. Acrescentemos aqui alguns nomes mais da sua listagem longa: Chifrudo, Anjo da Peçonha, Rachador de Alverca, Entrecosto de Carrapato, Filho da Grande Aleivosa, Perna de Cigarra Velha, Mestre Capirota, Sabujo Pelado. Berzebu. E se mais inventariássemos, mais sobejariam para encher uma gordíssima nota de rodapé. Fiquemo-nos por aqui.

Marlowe, pelo contrário, foi comedidíssimo. Limitou-se a chamar-lhe Old Iniquity93. E Goethe não foi muito além. O Mefisto refere-o apenas por Deus das Moscas, do Mal. Por Pai das Mentiras94. Por Dom Satanás, ainda95. Alcunha que o espírito maligno recusa. Porque na sua origem hebraica Satanás é o antagonista, o inimigo, qualificação que não convém à sua metamorfose moderna. Ele reivindica mesmo a sua qualidade de fidalgo como outros o são96, nas veias correndo-lhe genuíno sangue azul97. Mann foi, igualmente, parco. Descobrimos nele pouco mais de meia-dúzia: Grão-Tinhoso, Anjo da Peçonha (como Gil Vicente), Pé-de-Cabra, Mal Encarado, Anjo do Veneno, Tentador. Cão-miúdo.

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Reconstroem-lhe, todos (Marlowe, Goethe, Mann), o quadro esmagador que o Mefisto tem do saber científico e da arte. Um sistema assente na crença fortíssima, infinita, que devota ao oculto e às suas ciências. À magia, à necromancia. À astrologia. Porque cinzenta é toda a teoria98, e verde a árvore do ouro de vida99. Porque divinas são as metafísicas dos magos e dos nigromantes. Um mundo de desejo, de poder e de honra. De omnipotência. O estudo verdadeiro deverá começar aí. Nelas, nas metafísicas, captam-se os arcanos, o oculto, o impenetrável, os segredos e os mistérios mais profundos. Que não cabem em cérebros humanos100. Aquele que agarra o instante, diz o Mefisto101, esse é um homem a valer102. Um conselho que deixa a todos os homens sedentos do saber que o invoquem, que o convoquem para com ele celebrarem pactos para todo o sempre. Pactos que permitirão aos sentidos ganhar Mais numa hora que em todo o ramerrão/Daquilo que no ano fizerem103. Crença fortalecida, por outro lado, na decadência que Fausto esboça do espectro do mundo científico que o rodeia. Da Física, diz, em Marlowe, ser própria de espíritos pequenos, medíocres. A Filosofia, obscena e odiosa. A Escolástica, a Teologia e a Medicina são, para Goethe, para o seu Fausto, verdadeiras letras mortas. Tudo vã sabedoria, o conhecimento do Homem igual a nada, não aproveitando à humanidade. Quanto à Arte, ela não passa de uma romaria sobre ervilhas104, encontrando a composição musical dificuldades insuperáveis.

Por isso, por tudo isso, Fausto quer largar as palavras indigentes105, a livralhada babilónica106. Quer libertar-se das névoas do saber107, das pilhas de livros108, que são apenas papel que os fumos corroem109, pergaminhos mofentos, bafientos, quinquilharias ancestrais110 cercando o homem com a podridão mais escura111, bichos mortos e humanas ossadas112, retortas, alavancas, trastes velhos, escórias deletérias113. Coisas inúteis de que apetece fugir.

Fausto perdeu toda a fé nesta ciência. Nesta filosofia. O seu desejo maior é passar além do Verbo e do Pensamento. Ultrapassar as concepções antigas de afirmações eternais do tipo: Ao princípio era o Verbo114; Ao princípio era o Pensamento115. Substituí-las pela convicção profunda do absolutismo da Acção. E passar a afirmar: Ao princípio era a Acção116.

Este, o Mefisto, semente generosa da cultura europeia, perspectiva imensa que reconstruí a partir do mosaico complexo gerado por nomes grandes da literatura do mundo e com fragmentos de contributos que não poderei deixar de inventariar. Um detalhe, aqui; acolá, o trilho de um projecto de ideia que a areia densa varrida pelo vento subitamente apagou, reencontrado mais além; no horizonte, sempre forte, a esperança de poder cortar o nó górdio do drama jogado entre o Mefisto, Fausto e o Senhor: a iconografia de Rembrandt; litografias de Delacroix117; o Fragmento de Lessing118, criando um Fausto mais lúcido que o Mefisto; a Damnation de Faust, cantata de Berlioz, de 1837, reflexo da alma atormentada do compositor; a ópera de Gounod, que reaparece em todas as obras inspiradas na personagem de Fausto, depois de Goethe; a Valsa do Mefisto, de Liszt, influência do Faust de von Lenau, de que se falará mais adiante119; composições de Wagner, dedicadas ao Faust, de Goethe, entre 1831 e 1832; o Conto de Lynceu, de Schumann, a partir de três lieder, de três canções de Goethe; o Mon Faust, de Paul Valery, de 1946; Faust, o poema épido-dramático de von Lenau120, preocupado, na sua essência, pela busca incessante de Fausto dos segredos da criação, em nenhuma parte os encontrando. Nem no anfiteatro de Anatomia, nem nos laboratórios de Química. Nem nas profundezas dos mistérios da floresta; a Fausts Leben, Taten und Höllenfahrt, de Klinger, romancista de Frankfurt121, que apresenta Fausto como inventor da imprensa. Confrontado com problemas de Moral e de Teologia, convoca o Mefisto na tentativa de os resolver. Quem responde ao chamamento, porém, é Leviathan122. Concluído o pacto, Fausto constata que, na Europa, nem as mulheres, nem os sacerdotes, os juízes e os príncipes resistem à sedução do ouro e da volúpia. Desgostoso, Fausto regressa à Alemanha, mas os seus vivem rodeados de miséria, pedindo então a Leviathan para o fazer descer aos infernos. Finalmente, os Faustos românticos de Chamisso123, de Heine (Heinrich Heine - 1797 - 1856) e de Grabbe (Christian Dietrich Grabbe - 1801 - 1836), dramaturgo alemão. No seu Don Juan und Faust, de 1827, contrastam-se o desespero impotente de Fausto e a inesgotável alegria de viver de Don Juan.

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Mefisto é um inimigo poderoso de Fausto, símbolo da Humanidade inteira e da sua aspiração à emancipação total. Porque Fausto busca o conhecimento fecundo, a vontade de superação dos limites do saber e do prazer, os segredos da criação e da alegria de viver. Em conflito permanente, em ruptura com os pilares vigorosos do saber definitivo, absoluto. Da intolerância, da obediência passiva e do conformismo. Do domínio do sobrenatural e do misterioso.

Porque Fausto é contra-poder, o Volksbuch de Frankfurt nega-lhe a salvação pelo arrependimento, condenando-o ao sofrimento eterno, eliminando, assim, o vírus da insurreição. A crónica representa a ameaça da nova ciência e também o espírito herético de um sensualismo que vai contra a ética do trabalho e da ascese do protestantismo luterano124.

Destino igual tem o Fausto de Marlowe. Porque violou a ortodoxia do pensamento teológico, estéril, de origem escolástica. Porque contestou perigosamente o poder instituído da burguesia. Porque Fausto é uma figura de uma Nova Idade que ultrapassara as antiquíssimas restrições da Igreja e os limites do saber. Um tempo novo em que os barcos sulcavam os mares que conduziam às conquistas de novas terras, à acumulação da fortuna, ao nascimento de novos agressores. Um tempo que se cria ser de gestação de um espírito de libertação humana, de poder e de empreendimento ilimitados do Homem. A sua alma penará, em consequência, até ao fim do tempo entre cobras e serpentes. Na dor insuportável do fogo absoluto. Sem que lhe seja permitida a dissolução nos elementos. Como é facultado às bestas brutas. Nas palavras do dramaturgo: all beasts are happy/For, when they die,/Their souls are soon dissolv'd in elements125.

Lessing é o primeiro a salvar Fausto da condenação infinita. Espírito livre, independente de sistemas, opositor vigoroso da ortodoxia luterana e do conformismo académico, entusiasta das ciências e das suas aplicações práticas, a busca do saber não podendo conduzir à perdição, ele é um defensor da tolerância iluminista. Dos seus princípios fundamentais de felicidade, uma ideia nova na Europa, ligada ao afrouxar das disciplinas católicas, como escreve Touchard126, de razão, entendida esta como conhecimento das verdades úteis a uma vida feliz, de virtude e de amor pela natureza. De progresso.

Também o Fausto de Goethe salva a sua alma. Pelo arrependimento. Já quando a areia se esgotava na ampulheta e o Mefisto lhe anunciava como certa a sua perdição. Porque, segundo o espírito do Mal, conjurados se encontravam todos os elementos destruidores.

Num alento último, no limiar das penas infernais, antes de às trevas se dar, Fausto lança-se na obra imensa de salvação do charco, do pântano que empesta o mundo. Partindo de uma fórmula simples. Cristalina. Que reza assim: Só quem dia após dia a conquistar/Merece a vida e a sua liberdade127. E na conquista da verdade, da suprema verdade, reside a tarefa quase sobre-humana da busca do saber. Em cada instante da vida.

Um trajecto complexo que Adrian Leverkühn (o Fausto de Thomas Mann), o músico alemão imaginário e genial de quem se falou mais acima, não escolheu percorrer quando compreendeu que na sua época já não era possível realizar uma obra de modo piedoso, correcto, com recursos decentes. Quando a Arte deixou de ser exequível sem a ajuda do Diabo e sem fogos infernais sob a panela128. Um caminho que a Alemanha nazi também encerrou. A condenação por Thomas Mann é individual e colectiva.

 

3. ENQUANTO O "REBANHO TOLO" SE MANTIVER ENTRETIDO...

 

Graças a uma experiência milenar, à plasticidade da inteligência, à capacidade de adaptação aos solavancos do mundo, aos altos e aos baixos da vida, o Mefisto continua aí. Entre nós. Bem vivo. Não já epifenómeno, figura acessória filha da superstição e de medos ancestrais; não já impante, inchado de embófia, truão, ridículo advogado de acusação, solicitador traficante de almas; não já prometendo ao Homem um tempo louco de lânguidas e dulcíssimas emoções. Antes preparado para assumir um papel principal no grande teatro do mundo, oferecendo uma arquitectura global para a vida. Pronto para conquistar o domínio total do universo ao Ser Supremo que o expulsou do Paraíso. A literatura e as artes bem alertaram para este desígnio último do espírito maligno. O mais profundo do príncipe das trevas. Mas ninguém lhes deu grande crédito.

Tem agora uma identidade nova. Um corpo alto e espadaúdo. Uma filosofia vestida das linguagens do nosso tempo. Atentemos primeiramente na sua metamorfose física.

A medicina e a cirurgia libertaram-no do tutano primitivo maldito. Das excrescências ósseas, uma em cada extremidade da testa. Do sobe e desce cambaleante do andar a que o pé equídeo, o direito, o condenava. Do rabo simiesco. Endireitaram-lhe a ponta enviesada do nariz; substituíram-lhe a cor ruiva do cabelo por um grisalho austero e discreto, inspirador de confiança; eliminaram-lhe o frio cortante e o cheiro, ainda que quase imperceptível, a enxofre, que sempre transportava consigo129, marcas de infernalidade que desencorajavam qualquer tentativa de convívio social, cívico.

É uma figura imponente, majestática, o novíssimo Mefisto saído desta metamorfose tecnológica, tecnocrática, vestindo fatos de tons de cinzento-escuro ou do azul escocês da realeza desenhados pelos melhores costureiros das grandes capitais, camisas sedosas, gravatas de estilização discreta. Elegantes. Calçando sapatos pretos. Sempre. Sempre feitos por medida.

Do isolamento, da solidão em que sempre viveu não resta um único vestígio. Mergulhou profundamente nos ambientes frementes, palpitantes de vida, das grandes festas da melhor sociedade, tornou-se frequentador inveterado da ópera e de concertos, do teatro, do ballet. Da atmosfera trepidante, louca, das bolsas de valores. Com êxito incomum.

Radical foi, também, a mudança do seu pensamento. Da sua geometria da vida. Para trás deixou os "milagres" de todas as "ciências" do oculto, a vida de vertigem e de gozo infinito que oferecia em troca de almas para o seu mundo subterrâneo. Milénios e milénios de uma estratégia que hoje considera ter sido profundamente errada. Que se revelou insuficiente para desequilibrar a balança do mundo a favor das forças do Mal. É certo que os pactos individuais que firmou com Fausto o tornaram famoso e conhecido da sociedade culta. A sua rentabilidade, em termos de lucro amealhado, foi, porém, baixíssima. Verdade é, também, que a experiência que acumulou na construção e na tirania dos impérios, nos massacres que precipitou, nas destruições que gizou, nos genocídios e nas orgias de sangue que instigou, renderam maquias grossas ao Tártaro, ao mundo da sombra perpétua. Da destruição bárbara da Tebas egípcia130 por Assurbanípal131, imperador assírio, às armas de destruição massiva que sepultaram Hiroshima e Nagasaqui quando o Japão já estava derrotado na guerra; da violência inaudita dos cruzados, em Bizâncio132, ao massacre sérvio, no Kosovo133, pelo exército otomano; da tortura e da morte sem perdão das vítimas do fanatismo inquisitorial às carnificinas de Verdun e de Estalinegrado nas duas guerras mundiais. Registos ínfimos da bestialidade permanente da guerra e da avareza.

Faltava-lhe, contudo, uma estratégia global, integrada, capaz de ultrapassar a inteligência e a força do Ser Supremo. Para a arquitectar, para construir um corpus de doutrina sólido, coeso e coerente, o novíssimo Mefisto "converteu-se" à ciência dos homens, frequentou as universidades mais sólidas, vasculhou bibliotecas, esquadrinhou todo o pensamento moderno e contemporâneo. Na política, na economia, nas finanças. Na comunicação. Anos e anos de noites de um trabalho insano, solitário, nos silêncios do seu gabinete; de uma vida intensa de contactos com cientistas, com investigadores de primeiríssima ordem, reveladores de uma força interior que nunca imaginara possuir. E do cadinho imenso, complexo, onde combinou, onde misturou dois séculos do saber do mundo fez emergir a sua própria síntese. A sua filosofia. A sua Engenharia Global, currículo labiríntico, mas integrador, capaz de conquistar o Tempo e o Espaço. E de neles edificar um mundo admirável. O nosso.

Iniciou, depois, a centrifugação da sua obra. Em conferências, nas televisões e nas rádios. Na imprensa. Em publicações especializadas. Falou do marasmo do mundo de sempre, inepto nas decisões fundamentais para a vida de uma humanidade entorpecida e anestesiada pela pirâmide atávica do poder, plasmado durante milénios pela divindade e pela sociedade civil e militar que se tornou sua herdeira. Mascarando infinitamente a realidade do predomínio da miséria, da fome e do subdesenvolvimento em que esse poder sempre submergiu mais de metade do planeta, sobrepondo-se aos verdadeiros arquitectos da riqueza e do bem estar - o comércio, a indústria. O dinheiro.

Insurgiu-se contra a insegurança incontida do nosso tempo - a individual e a colectiva. Contra a superstição crescente, filha da ignorância. Vícios, males sem conto com origem na indulgência perene do Estado. Na sua inércia. No seu torpor.

Traçou os eixos fundamentais da sua Engenharia Global para a mudança consequente: a construção de uma filosofia nova. De um edifício teórico, eficaz no plano prático, alicerce decisivo para multiplicar o pulsar económico e social, para desimpedir o caminho para a riqueza e para a tranquilidade; a criação de um mercado mundial único, auto-regulado, des-intermediado, desregulamentado, descompartimentado, com mecanismos intrínsecos de auto-afinação e correcção; de um mercado livre e liberto de fronteiras nacionais e regionais. Para o investimento, para o dinheiro e para o comércio; o desenvolvimento de uma comunicação planetária capaz de criar uma visão coerente e coesa da vida, capaz de estancar o ruído insuportável, estreito e medíocre, disperso e superficial, demagógico (palavras do próprio Mefisto) do audiovisual antiquado. Condições essenciais para a globalização da vida.

Nos debates live para o planeta inteiro desenvolvia metodologias de implementação, asfixiava os mas inevitáveis de descrentes e de opositores, desimpedia trilhos entupidos pela tradição, pela cultura; aplanava cumes de montanhas, nivelava os vales mais profundos. Sempre manifestando um entusiasmo vivo, um carinho imenso pela ciência e pela investigação e um desprezo ácido pelo oculto. Pirueta total do seu passado. Como bem sabemos. Dava mesmo exemplos vivos, actuais, de um novo crescimento do obscurantismo. Da falsa ciência dos astrólogos e das astrólogas de hoje, antecipando ilusões de futuros de amor e de fortuna. Nas televisões, ao vivo, rodeados de tecnologias de ponta. Por telefone de linhas de valor acrescentado. Negócio desprezível. Nada comparável, afirmava o Mefisto, com a ingenuidade da antiquíssima sina das ciganas, do seu discurso são e chão, da sua ladainha do "reza-lhe aqui na palma da sua mão", visionando viagens por mar para os brasis e para as áfricas; ganhar a sorte da lotaria; ter um rancho de meia-dúzia de rebentos lindos. Apenas em troca do que lhe quisessem dar - uma côdea de milho branco ou meia dúzia de patacos.

E estas incursões no humano, ora condenando, ora comovendo-o, esta estratégia de sedução, inchavam a curiosidade pela sua Engenharia Global, logo transformada em interesse profundo, em paixão verdadeira, explodindo, finalmente, no aplauso exuberante, frenético, pletórico. De políticos de quase todas as colorações, de gestores das grandes corporações económicas e financeiras, de dirigentes das instituições globais ao serviço das suas causas. De gente anónima, cansada de fome e de desesperança.

E choveram as condecorações, os títulos universitários, as solicitações para a presença constante nas televisões globais, construtoras de factos, de imagens e de ideias que depois o mundo inteiro ecoa capilarmente. Com reverência servil. Multiplicaram-se os convites gordos para preparar o desenho de um império global para mil anos, as ressonâncias hitlerianas do número logo precipitando a mudança para uma marca ainda mais redonda - a eternidade. Clandestinamente, o novíssimo Mefisto era agora vértice, pico último de montanha, bezerro de ouro, divindade. O Absoluto. Para uma parte da humanidade.

Permitam-me que saia aqui, por breves instantes, do trilho da nossa história, já que o Maligno falou de ciganos. Para descansarmos. Para respirarmos um pouco de ar puro, fora das sombras desta infernalidade. Para ir ao encontro da ternura da minha memória da senhora Dolores, cigana gordíssima de cheiros espessos, acres, de suores nunca lavados, de cabelo preto como piche, riço, sebento, traçando a sina nas linhas da mão direita dos adolescentes da minha aldeia, destinos previstos, preditos, lineares, os meus sentidos, todos, pendurados da ladainha de odores de uma boca que tresandava a couve fermentada num estômago cansado de pobreza.

Do silêncio que parecia perpetuar-se quando chegava a vez da linha do amor. Fosse porque a memória era o único perfume da sua viuvez eterna; fosse porque gostava de alimentar o crescendo de expectativa do(a) adolescente e da garotada que se acotovelava em volta, a voz da cigana emudecia, os olhos rasavam-se-lhe de lágrimas. Soluçava. Soltava ais prolongados, pungentes. Era para mim, e para os meus camaradas, o momento mais ansiado da função. Este entremez. Este entreacto. A cortina abria-se de par em par e o palco era agora todo da senhora Dolores e das tintas carregadas com que pintava a morte matada do seu defunto. Na feira de Trancoso, pelo São Bartolomeu, quando, depois de muito regatear, vendera a um homem da raia um belo cavalo cor de canela, sedoso, um garanhão, por uma verdadeira pechincha. Pena fora que a chuva, forte e densa, trazida pela trovoada de Agosto, começasse a lavar a canela com que o defunto pintara o pêlo do animal, a pouco e pouco o alazão tornando-se cavalicoque enfezado, pileca desprezível de pêlo churro, tisnado, azémola sem préstimo. Coitadinho do meu Garcia! Pobrezinho! Com um facalhão, o homem verteu-lhe as tripinhas todas ali mesmo ao pé da portinha da capelinha onde o nosso rei casou com a rainha santa das flores.

A senhora Dolores enxugava então as lágrimas com a mão, assoava o ranho ao avental, cuspia o escarro que lhe mordia a garganta. A garotada debandava, desinteressada já do romance de amor que a cigana ainda teria de anunciar a(o) adolescente, de mão sempre estendida, para reunir mais adiante, transformada agora em júri de tribunal. Para comunicar a sentença a que chegara - vinte e oito anos de cadeia para o matador, a pena máxima. A avalanche de inhos e de inhas na apoteose da narrativa ditava o castigo. Eliminava atenuantes.

Regressemos então ao "nosso" Mefisto. A este inimigo poderoso da humanidade, como o qualificámos mais acima, que agora trocou a treva infernal e a semi-obscuridade dos gabinetes de Fausto pelos projectores potentes dos palcos do mundo; que se transformou em teorizador da felicidade eterna; em arquitecto de uma engenharia de desenvolvimento para a eliminação da miséria e da fome e para o erigir da riqueza.

Regressemos a ele, então. Para passar a sua doutrina pelo crivo da nossa reflexão. Pela peneira, ainda mais apertada, dos especialistas que vão ao imo, ao ovo das questões, a realidade viva do mundo sempre como fundo de referência e de avaliação. Recusando sempre o blá blá fácil, ensurdecedor, dos que aplaudem o bem e o mal, a guerra e a paz, o terror e o contra-terror. A verdade e a mentira. Na mira, na contabilização do deve e do haver deste baloiçar infinito.

As liberdades do Mefisto e da prole imensa que procriou invertem a hierarquização lógica do mundo. Matam a primazia da razão na organização e na reorganização constante da vida da polis. Encolhendo o Estado. Avantajando uma certa materialidade da existência.

Fazendo da globalização, da mundialização, uma utopia messiânica, um método de salvação para a humanidade134, uma religião plena de ideias sacralizadas que visam transformar o planeta em balcão permanente de troca, os negócios, em horizonte de todos os horizontes135, o lucro, em único valor humano136. Expulsando camponeses da terra e assalariados dos seus empregos, espremendo os salários dos sobreviventes, dilatando o seu tempo de trabalho, submergindo-os num oceano, num credo de vertigem alucinante de recuperação do atraso, de negociação, de consenso, de adaptação permanente, de mudança perpétua, de reestruturação, de eficácia, de produtividade, de rentabilização, de uniformização, tornando-os átomos consumidores e instrumentos de produção obedientes137, privando-os da construção da memória, sem tempo para moldar o seu "eu" interior, íntimo. Único. Gente anónima, robotizada, normalizada, descartável, como diz Chomsky. Tumores e excrescências da cultura, como os burgueses de Hauptmann138. Uma humanidade que, como a do poeta asturiano Ángel González139, é un escombro tenaz, que se resiste/a su ruina, que lucha contra el viento/que avanza por caminos que no llevan/a ningún sitio140.

Esventrando os solos, a terra e o mar; esgotando-os, sugando-lhe os sais, os minerais e os metais. O ouro, o diamante, a platina. O petróleo. Legando-os, já mortos, às gerações que aí vêm.

Especulando com a moeda, uma forma de enriquecer a dormir, como afirmou um dia François Mitterrand141; acelerando a mobilidade geográfica dos capitais e o acesso directo aos mercados financeiros, abolindo fronteiras142, provocando crises artificiais em países em vias de desenvolvimento sempre que isso sirva interesses dos mais poderosos. E um mar imenso de outras moléstias e enfermidades.

Encolhendo a democracia, formalizando-a à medida do gosto das corporações e dos impérios. Dos já consolidados e dos emergentes - da droga, das armas, do crime; concebendo-a sem força e sem povo, sem Kratos e sem Demos143, na linguagem de Taguieff, o Povo e a Nação entendidos como entidades inúteis que atravancam a circulação planetária de fluxos de toda a ordem144. Supérfluas e origem de todos os males.

Encurtando o Estado-Nação (e fragmentando alguns deles), apregoando aos sete ventos direitos duvidosos de minorias quase nunca democráticas; fortalecendo regimes despóticos, acções terroristas, fanatismos religiosos, tribalismos sanguinários, redes mafiosas145; reduzindo-o à condição de colector inquinado de impostos, de educador e de formador (cada vez menos rigoroso e competente) da inteligência, de pagador de serviços, de equipamentos sociais (nem sempre socializados), de infra-estruturas quase sempre dessincronizadas com a vida, de legislador de proteccionismos para empresas nacionais; de subsidiador (com dinheiros públicos) de empresas gigantes em apuros, ou mesmo em falência, violação fundamental do princípio do mercado livre e da sua auto-regulação.

Recorrendo aos meios mais torpes que o Inferno criou para desimpedir todos os caminhos para a vitória final.

À guerra preventiva, eufemisticamente baptizada de dissuasão avançada146, ferida profunda nos princípios da paz e da moral dos povos, implosão dos valores ocidentais147, loucura imperial, como lhe chama Ramonet148, alimentada pela crença obscena na capacidade de as bombas remediarem os males do mundo e pelo cacarejar de sectarismos fanáticos, de dogmatismos sem fissuras, violadores da consciência de toda a cidadania e de todos (e de cada um) os critérios que a humanidade vem amassando há mais de 2000 anos (na verdade, desde Aristóteles) para a definição de guerra justa149, mecanismo inquisitorial de purificação dos párias e reposição da "verdade" dos poderosos; violência desmedida, infinita, global, privilegiando zonas do planeta prenhes de recursos preciosos. Para a predação. Para uma aceleração da pilhagem planetária e da sobreexploração dos bens comuns da humanidade150. Para a alimentação de indústrias de destruição e de reconstrução. Para a militarização do planeta.

À brutalidade inaudita, arbitrária, do terror, expoente de selvajaria. Tanto de terrorismo a retalho151, fanático, individual ou de grupos extremistas, como o de Estado, eufemisticamente baptizado de conflito (ou guerra) de baixa intensidade152, de retaliação153, integrado no contexto das filosofias de domínio imperial e da sua perpetuação. Para a destruição de movimentos de resistência e da sua tendência democrática radical, servindo os interesses opostos da democracia de mercado. Em todas as épocas da vida da humanidade.

Recuperando do século XX a ideia da engenharia do acordo, de uma comunicação global modeladora da mente, visando a fabricação do consentimento154, a instalação de um pensamento único e obrigatório na sociedade de consumo manipulado155. Para o controlo do estado de espírito público. Para a arregimentação da consciência dos povos.

Tão velho como o mundo, o desenho dessa "engenharia", dessa "manufactura", como também lhe chamou Walter Lippmannn, bonzo maior do jornalismo americano nos meados do século passado, voz bem-vinda do poder político, económico e financeiro nos E.U.A. e no chamado "mundo ocidental", tornou-se indispensável numa sociedade livre baseada no princípio da decisão das elites e ratificação ou passividade pública156.

Dividia Lippmann os cidadãos em duas classes distintas. Uma, a especializada, dotada de razão para desempenhar tarefas e papéis activos. De decisão aos níveis mais elevados da vida ideológica, política e económica; a outra, a dos marginais ignorantes e intrometidos157, a maioria do povo do seu país. Capaz, apenas, de ser espectadora. Rebanho tolo158 que deverá ser mantido no seu redil. Sossegado e domesticado. Assustado. Impedido de pensar159. Para defesa do mundo e da inteligência.

A Engenharia Global do Mefisto e dos seus incondicionalíssimos associados e admiradores está a dilatar a fractura já profunda do mundo. A estreitar o tempo e o espaço da vida. Envenenando os ares, esgotando recursos ao ritmo da gula do ouro, colocando em risco a própria sobrevivência das espécies. Industrializando a miséria, macerando o cérebro do Homem, condicionando-o. Normalizando-o. Impondo-lhe o pensamento único. Uniformizando culturas, moldando linguagens, gestos, roupagens. Globalizando as armas, a guerra e o terror. Perfumes, cheiros e sabores. A verdade e a mentira. Sem qualquer respeito pelos ritmos culturais dos povos, pela sua fonte primeira de riqueza, de criação e de emoção - a diversidade. Isto é, a diferença. Reduzindo o Homem a um minúsculo conjunto de carbono e água a rastejar, impotentemente, sobre um pequeno planeta sem importância160.

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Emanação do fogo primitivo, projecção das insuficiências da mente, fantasma de medos ancestrais, o Mefisto está no trilho do poder absoluto. Tentar riscá-lo, apagá-lo da vida, é tarefa há muito anunciada como impossível, só no momento do Julgamento Final, do Juízo Universal, se esgotando o seu tempo de vitória. Segundo as Escrituras. Tarde demais para a Vida.

A Humanidade pode, porém, reduzir a dimensão e o peso da sua geometria. Dos seus cálculos. Da sua globalização maligna. Da sua barbárie planificada, condicionada, climatizada161. Porque, diferentemente de qualquer coisa orgânica ou inorgânica do Universo, o homem cresce para além do seu trabalho, galga os degraus das suas próprias ideias, emerge acima das próprias realizações. Disse-o Steinbeck162.

Pode, por exemplo, cortar o caminho aos cruzados sem rosto do globalismo, multiplicando as zonas de democracia forte163. Enrijando o poder do Estado-Nação. Das suas leis e da vigilância apertada, rigorosa, do seu cumprimento; promovendo a coesão e a coerência de populações apáticas, segmentadas por formalismos "democráticos" insípidos, insossos, estéreis, de hoje, ou espremidas na prensa inquisitorial de todas as ditaduras; derrubando as vedações do aprisco, do redil, libertando o tropel e o fragor do "rebanho tolo" de Lippmann (e de tantos outros mais). Fazendo ouvir o seu balir cristalino. Que o mesmo é dizer - lavando, como disse alguém cujo nome a minha memória imperdoavelmente perdeu, a fuligem acumulada dos séculos. Para, em seu lugar, mundializar a paz como una industria que sea más rentable y creativa que qualquier negocio de armas164. Ou de outra mercadoria qualquer.

 

OUTRA BIBLIOGRAFIA DE SUPORTE

 

GIEBEL, W. Frankfurt & Surroundings, Apa Publications Ltd, 1995.

GOETHE, J.W., Die Leiden des Jungen Werthers, Stuttgart: Reclam, 1963.

GRASS, G., O Meu Século, Lisboa: Editorial Notícias, 2001.

KAYSER, W., QUINTELA. P. e BEAU, A. E., Antologia de Poesia Alemã, Lisboa: Livraria Clássica Editora, 1944.

Viseu, Setembro/Outubro 2003

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NOTAS:

* * Docente do ISPV, aposentado.

1 Criada em 1386.

2 Frankfurt do Meno, ou Frankfurt nas margens do rio Meno. No leste da Alemanha, na fronteira com a Polónia, ergue-se uma outra Frankfurt. Seu nome completo, Frankfurt--an-der-Oder.

3 Designação abreviada de Mephistopheles, nome com origem provável em megistophiel. Ophiel, do grego ophis, serpente, sendo o sobrenome de Hermes Trismegisto, patrono dos feiticeiros, estigmatizado pela igreja como diabo, ressuscitado na literatura do séc. XVI e classificado entre os sete príncipes infernais. No Volksbuch de 1587, de que se falará mais adiante, o nome Mephistophiles tem origem na junção de duas palavras hebraicas: mephir (destruidor) e tophel (mentiroso). Neste documento, Mefisto é utilizado como um símbolo de todos os "espíritos malignos". Do topo, do "grande" Lúcifer, arqui-regente e comandante de todos os espíritos "arch-regent and commander of all spirits", como escreve Marlowe, à base da hierarquia, aos mais insignificantes diabretes do mundo das trevas.

4 Na Introdução à tradução de Faust, Eine Tragödie, de Johann Wolfgang Goethe, João Barrento escreve que, na relação com Fausto, Mefisto é uma força activa que emana do próprio Homem e alimenta a sua ambição ilimitada. Lisboa, Círculo de Leitores, 1999, p. 9.

5 Sínodo convocado para debater o iconoclasmo, a iconoclastia, movimento que em Bizâncio, nos séc. VIII e IX, se opunha à existência e à veneração de imagens sagradas, considerando-as idolatria, e defendendo a sua destruição. Proclamada como doutrina oficial em 730, suscitou a resistência ortodoxa. A querela só terminaria em 843, com a vitória dos ortodoxos.

6 A partir de 855.

7 Depois de 1356, Frankfurt viria a perder esta prerrogativa, recuperando-a no séc. XVI, mais concretamente, em 1562, quando a cidade suplantou Aachen, a velhíssima Aix-la-Chapelle. A última coroação imperial ocorreu em Frankfurt em 1792.

8 Frederico Barbarrossa, o mais célebre dos Hohensfaufen, foi proclamado, perante príncipes e bispos, como primeiro imperador do Sacro Império Romano-Germânico.

9 Assembleias Magnas dos monarcas do Sacro Império, abertas a vassalos leigos e eclesiásticos. Nelas se ratificavam as decisões da superestrutura do Império. Worms, Ratisbona (hoje Regensburg) e Augsburg foram outros locais de reunião de Dietas.

10 Documento de primeiríssima importância, autenticado com o selo imperial.

11 Ver o meu artigo "O Muro de Berlim - a Aprendizagem de um Raciocínio Descomprometido". In Polistécnica, n 6, Julho 2003, pp 16-19.

12 Os cidadãos de Frankfurt.

13 A primeira pedra do monumento foi lançada em 1405, no dia 6 de Junho. Presentes à cerimónia, doadores, o Concelho Municipal, pedreiros e o construtor, Meister (Mestre) Madem Gertener.

14 Posteriormente, num curto espaço de tempo que terminou em 1548, o templo foi exclusivamente utilizado por protestantes.

15 O Édito de Nantes, assinado por Henrique IV, rei de França, em 1598, dava aos hugenotes, seguidores do Calvinismo e minoria protestante no país, liberdade de consciência e de culto; a possibilidade do exercício de cargos públicos e o direito à propriedade privada. Em 1685, e na sequência de anos de perseguições (apesar da lei), Luís XIV revogou o Édito, obrigando dezenas de milhares de homens e de mulheres a emigrar para Inglaterra, Prússia e Holanda. Muitos destes homens e destas mulheres eram operários especializados.

16 Criada em 1150, a Feira de Outono foi pela primeira vez mencionada em fontes judaicas, e referida em documento real de 1227.

17 Privilégio concedido por Frederico II, neto de Frederico Barbarrossa.

18 Por concessão do Imperador Luís da Baviera.

19 Onze estados: Schleswig-Holstein, Baixa Saxónia, Renânia do Norte-Westfalia, Hessen, Renânia-Palatinado; Sarre, Baviera, Baden-Württemberg, Berlim (parte ocidental), Cidade Hanseática Livre de Bremen, Cidade Livre e Hanseática de Hamburgo.

20 A partir de 20 de Junho. Em "O meu Século", - Günter Grass refere que cada pessoa recebia 40 DM, marcos dos novos, e um mês depois, mais vinte.

21 Chanceler, a partir de 1949.

22 Último conflito religioso da Europa, esta foi também uma guerra política, opondo o Imperador do Sacro-Império aos príncipes alemães, por um lado, e os Habsburgos aos Bourbon, pelo outro.

23 Conflito desencadeado, entre 1759 e 1768, pela rivalidade económica e colonial na América do Norte e na Índia entre a França e a Inglaterra, por um lado, e pela determinação de Maria Teresa de Áustria de recuperar a Silésia, furtando-a ao domínio de Frederico II, rei da Prússia.

24 9 de Novembro de 1938.

25 Na noite de 22 de Março de 1944, a cidade foi atacada por 816 bombardeiros da R.A.F., da Royal Air Force britânica.

26 Prémio Nobel da Literatura (1999).

27 Entrevista dada a INFORMAL, Publicação da Embaixada da República Federal da Alemanha em Portugal, Ano VI, Dez. 1999, pp. 4/5.

28 Entre 1948 e 1952, a Alemanha Federal recebeu dos E.U.A. 1,4 biliões de dólares para a obra de reconstrução do país.

29 Em Fevereiro de 1945, Churchill, Estaline e Roosevelt decidem a divisão da Alemanha (e da Áustria) em quatro zonas de ocupação cada uma. A França, que, de acordo com o Protocolo de Londres, de 1944, ficaria de fora desta partilha, é agora recebida no círculo dos Três Grandes como quarta potência controladora.

30 Também designada por Äppler, Äppelwoi, Stöffchen. Ou, simplesmente, Äpfelwein, vinho de maçã.

31 Cohn-Bendit era um dos "agitadores". Tal como Josckha Fischer.

32 Em 1949, o aeroporto de Frankfurt recomeçou a operar para a aviação civil. Um ano depois registava um movimento de 200.000 passageiros. Este número subiu para cerca de 33 milhões em 1993.

33 Die Überwindung des Nullpunkts - Aspekte der deutschen Literatur seit 1945. In Hans Egon Holthusen, Der Unbehauste Mensch - Motive und Probleme der Modernen Literatur. München: R. Piper & Co. Verlag, 1951, p. 137-158.

34 Editados por Egan Kogan, um homem que passara vários anos preso em Buchenwald.

35 A revista era definida como eine deutsche Zeitschrift für europäisches Denken - uma Revista alemã para o pensamento europeu.

36 Hans Egon Holthusen, op. cit. p. 141.

37 Idem, ibidem, p. 141.

38 Escrita nos E.U.A., a obra foi publicada em 1947, em Frankfurt, pela S. Fisher Verlag Gmbh.

39 Hans Egon Holthusen, op. cit., p. 142.

40 Escrito nas noites longas de inverno, na paisagem crua de Vermont, no NE dos E.U.A., a peça estreou em Zurique, em 1946. Um ano depois foi autorizada na Alemanha.

41 Ver o meu artigo "Felix Hartlaub e Ernst Jünger em Paris, cidade ocupada". Millenium - Revista do Instituto Superior Politécnico de Viseu, Ano 5, n 20, Outubro, 2000, pp. 308 - 317.

42 Hans Egon Holthusen, op. cit., p. 157. Ver também os meus artigos: "Os Diários de Guerra de Felix Hartlaub como documentos do ambiente humano da situação histórica (política e mental) que reflectem". Millenium - Revista do Instituto Superior Politécnico de Viseu. Ano 2, n 8, Outubro, 1997, pp. 185 - 191; "Felix Hartlaub e Ernst Jünger em Paris, cidade ocupada". Millenium - Revista do Instituto Superior Politécnico de Viseu, Ano 5, n 20, Outubro, 2000, pp. 308 - 317.

43 Albin Eduard Beau, A Literatura Contemporânea Alemã Através da Actividade Editorial, Lisboa: Publicações do Instituto Alemão, 1960, p. 11).

44 A Opernhaus e a Alte Oper, construída esta, em 1880, com donativos de cidadãos endinheirados.

45 Hang Egon Holthusen, op. cit., p. 214.

46 As cenas escritas em 1773 - 74 são conhecidas pelo nome de Urfaut, de Fausto Original, publicado em 1787. Em 1790 é editado Faust, ein Fragment, cerca de metade da primeira parte de Faust, eine Tragödie, publicada em 1808.

47 Obra de 1809.

48 Com sete países estrangeiros representados em 1950, cinquenta e nove, em 1971, e mais de 90, em 1993, Frankfurt recebe hoje, na semana da Feira, em Outubro, mais de 200.000 visitantes. Saliente-se que a sua população residente não ultrapassa os 700.000 habitantes.

49 Pouco se sabe deste homem. Deste Johann Faustus. Alguns investigadores situam-lhe o nascimento em Knittlingen, por volta de 1480, e a morte em Staufen-Bergen, cerca de 1540. O seu modo de vida terá sido uma mistura de charlatão, de astrólogo e de adivinho. Afirmam outros que ele nunca existiu. Alexander Roob, Alquimia e Misticismo, Köln: Taschen, 1996, p. 596., escreve: "A despeito dos testemunhos dos seus contemporâneos do séc. XVI, nunca foi possível provar historicamente a existência real do mágico Johann Faust, celebrado por Marlowe e por Goethe".

50 Ver, entre outros pageants, "The Creation and the Fall of Lucifer" (The York Pageant of the Bakers), pp. 1 - 9; "The Fall of Man" (The York Pageant of the Coopers), pp. 17 - 24; "The Harrowing of Hell" (The Chester Pageant of the Cooks and Innkeepers), pp. 157 - 169; "The Judgement" (The York Pageant of the Mercers), pp. 189 - 203. In: A. C. Cawley (ed.), Everyman and Medieval Miracle Plays, London: J.M. Dent & Sons, Ltd., 1958 reprint.

51 Mário Vargas Llosa, escritor peruano.

52 Tradução do original castelhano La Guerra del Fin del Mundo, de 1982. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2001, p. 76.

53 Gil Vicente, "Auto da Feira", Obras Completas, Lisboa: Livraria Sá da Costa - Editora, Vol. I, 1951, pp. 195 - 245.

54 Gil Vicente, "Auto da Alma", Obras Completas, Lisboa: Livraria Sá da Costa - Editora, Vol. II, 1951, pp. 1 - 37.

55 José Mattoso, Obras Completas - Poderes Invisíveis - o imaginário medieval, Lisboa: Círculo de Leitores, s/data, Vol. IV, p. 246.

56 Pequena corrente da Arcádia, das suas águas dizendo-se estarem mortalmente envenenadas. Mitógrafos tardios localizam-na no Tártaro.

57 O Inferno.

58 Thomas Mann, Doutor Fausto, Lisboa/Porto: Publicações Dom Quixote, 1999, p. 270.

59 A noite de 30 de Abril para 1 de Maio, na tradição popular nórdica, é o tempo das celebrações de orgias pelas bruxas. No Brocken, o monte mais alto das montanhas do Harz, no centro da Alemanha. No poema de Goethe o Brocken é designado por Blocksberg.

60 Thomas Mann, op. cit., p. 270.

61 Idem, Ibidem, op. cit., p. 277.

62 Idem, Ibidem, op. cit., p. 283.

63 Idem, Ibidem, op. cit., p. 278.

64 Johann Wolfgang Goethe, Fausto, Lisboa: Círculo de Leitores, 1999, verso(v.) 1772, p. 107.

65 Idem, Ibidem, op. cit., v. 1773, p. 107.

66 Thomas Mann, op. cit., p. 270.

67 Christopher Marlowe, "Doctor Faustus", In M.R. Ridley (ed.), Marlowe's Plays and Poems, London: J.M. Dent & Sons Ltd, 1958 reprint, p. 128.

68 No centro da península do Peloponeso, região associada a concepções antigas da Idade do Ouro e bíblicas da Terra Prometida.

69 Thomas Mann, op. cit., p. 286.

70 Idem, Ibidem, op. cit., p. 287.

71 Idem, Ibidem, op. cit., p. 288.

72 Idem, Ibidem, op. cit., p. 263.

73 Idem, Ibidem, op. cit., p. 266.

74 Idem, Ibidem, op. cit., p. 266.

75 Johann Wolfgang Goethe, op. cit., v. 1384, p. 91.

76 Idem, Ibidem, op. cit., versos (vv.) 1336/7, p. 89.

77 Idem, Ibidem, op. cit., v. 1338, p. 89.

78 Idem, Ibidem, op. cit., versos vv. 1349/1350, p. 90.

79 Idem, ibidem, op. cit., v. 7977, p. 391.

80 Thomas Mann, op. cit., p. 264.

81 Idem, ibidem, p. 264.

82 Idem, ibidem, p. 264.

83 Idem, ibidem, p. 264.

84 Johann Wolfgang Goethe, op. cit., vv. 1536/8, p. 98.

85 Idem, ibidem, v. 1539, p. 98.

86 Thomas Mann, op. cit., p. 264

87 Idem, ibidem, p. 264.

88 Johann Wolfgang Goethe, op. cit., v. 7738, p. 381.

89 Thomas Mann, op. cit., p. 264.

90 Idem, ibidem. op. cit., p. 266.

91 Idem, ibidem, p. 266.

92 Johann Wolfgang Goethe, op. cit., v. 1333, p. 89.

93 Goethe refere este apodo no seu Fausto, v. 7123, p. 359.

94 Johann Wolfgang Goethe, op. cit., v. 1334, p. 89.

95 Idem, ibidem, v. 2504, p. 143.

96 Idem, ibidem, v. 2511, p. 143.

97 Idem, ibidem, v. 2512, p. 144.

98 Johann Wolfgang Goethe, op. cit., v. 2038, p. 115.

99 Idem, ibidem, v. 2039, p. 115.

100 Idem, ibidem, v. 1951, p. 113.

101 Idem, ibidem, v. 2017, p. 114.

102 Idem, ibidem, v. 2018, p. 114.

103 Idem, ibidem, vv. 1437/8, p. 93.

104 Thomas Mann, op. cit., p. 279.

105 Johann Wolfgang Goethe, op. cit., v. 385, p. 49.

106 Idem, ibidem, v. 390, p. 51.

107 Idem, ibidem, v. 396, p. 51.

108 Idem, ibidem, v. 402, p. 51.

109 Idem, ibidem, v. 405, p. 51.

110 Idem, ibidem, v. 408, p. 51.

111 Idem, ibidem, v. 416, p. 51.

112 Idem, ibidem, v. 417, p. 51.

113 Idem, ibidem, v. 582, p. 58.

114 Idem, ibidem, op. cit., v. 1224, p. 84.

115 Idem, ibidem, v. 1229, p. 84

116 Idem, ibidem, op. cit., v. 1237, p. 84.

117 O pintor dedicou dezassete litografias à história do Doutor Fausto. Todas em 1828.

118 Gotthold Ephraim Lessing, 1729 - 1781.

119 Liszt concebeu, em 1854, a ideia de uma Sinfonia de Fausto em três partes - Fausto, Margarida, Mefistófeles), adicionando-lhe, posteriormente, um coro final, em 1857.

120 Nicolaus Niembsch von Strehlenau, poeta austríaco, viveu entre 1802 e 1850. De índole melancólica, incapaz de dar um rumo à vida e às paixões, von Lenau morreu louco. Nos E.U.A., para onde emigrara.

121 Friedrich Maximilian von Klinger - 1752 - 1831.

122 Monstro da mitologia fenícia, sobretudo conhecido pela Bíblia. O Livro de Job descreve-o de tal forma que ele é identificado como sendo o crocodilo. No Apocalipse de Isaías, Leviathan representa o poder pagão, que se submeterá a Jeová.

123 Adelbert von Chamisso, 1781 - 1838, poeta alemão, de origem francesa. O seu Faust tem a data de 1803.

124 João Barrento, "Introdução". In Johann Wolfgang Goethe, op. cit., p. 9.

125 Christopher Marlowe, op. cit., p. 157.

126 Jean Touchard, História das Ideias Políticas, Lisboa: Publicações Europa-América, 1970, n 4, p. 50.

127 Johann Wolfgang Goethe, op. cit., vv. 11575/6, p. 543.

128 Thomas Mann, op. cit., p. 573.

129 Ver Thomas Mann, op. cit., Cap. XXV, pp. 261 - 291.

130 Ano 663 A.C..

131 Assurbanípal viveu entre 669 e 626 A.C..

132 Em 1204.

133 Em 1389.

134 Pierre-André Taguieff, Resistir ao para-a-frentismo, Lisboa: Campo da Comunicação, 2002, p. 57.

135 Idem, ibidem, p. 69.

136 Noam Chomsky, A democracia e os mercados na nova ordem mundial, Lisboa: Antígona, 2000, p. 75.

137 Idem, ibidem, p. 85.

138 Gerhart Hauptmann, O Apóstolo, Instituto Alemão da Universidade de Coimbra, 1945, p. 17.

139 Ángel González nasceu em Oviedo, em 1945. De entre a sua obra, salientamos: Áspero Mundo (1956), Sin Esperanza, com Convencimiento (1961), Tratado de Urbanismo (1967).

140 In: Luz, o Fuego, o Vida, Salamanca: Ediciones Universidad de Salamanca, 1996, p. 68.

141 In Barnard Casser, et al. (Coord.) ATTAC - Contra a Ditadura dos Mercados, Lisboa: Campo da Comunicação, 2000, p. 51.

142 Dominique Pithon, "Tirania da Globalização". In ATTC - Contra a Ditadura dos Mercados, op. cit., pp. 17, 18 - 23.

143 Pierre-André Taguieff, op. cit., p. 44.

144 Idem, ibidem, p. 73.

145 Idem, ibidem, p. 90.

146 Por James Woolsey, antigo director da CIA. In: Ignacio Ramonet, "A Era da Guerra Perpétua". In Le Monde Diplomatique, edição em língua portuguesa, n 48, Ano 4, Março de 2003.

147 Abel Posse, "La temida implosión espiritual". In El País, 28/04/2003.

148 Ignacio Ramonet, artigo citado acima.

149 Xavier Vidal-Folch, "Esta guerra es inmoral". In El País, 20/03/2003. Neste artigo, Vidal-Folch inventaria seis critérios considerados necessários para o desencadear de uma guerra: 1) que ela seja declarada por uma autoridade legal apropriada; 2) que exista uma causa justa; 3) que haja recta intenção, sem objectivos de posse, de vingança, de crueldade, sem interesses pessoais ou dos grupos que a desencadeiam; 4) que tenha possibilidade de êxito, não gerando situações piores do que aquelas que quer remediar ou resolver; 5) que constitua o último recurso; 6) que haja proporcionalidade de forças.

150 Pierre-André Taguieff, op. cit. p. 89.

151 Noam Chomsky, Piratas e Imperadores - Velhos e Novos, Lisboa: Publicações Europa-América, 2003, p. 7.

152 Noam Chomsky, A Manipulação dos Media - Os Efeitos Extraordinários da Propaganda, Lisboa: Editorial Inquérito, 2003, p. 87.

153 Noam Chomsky, Piratas e Imperadores - Velhos e Novos, op. cit., p. 48.

154 Noam Chomsky, A Manipulação dos Media - Os Efeitos Extraordinários da Propaganda, op. cit., p. 19.

155 Pierre-André Taguieff, op. cit. p. 75.

156 Noam Chomsky, Piratas e Imperadores - Velhos e Novos, op. cit., p. 61.

157 Noam Chomsky, A Manipulação dos Media - Os Efeitos Extraordinários da Propaganda, op. cit., p. 17.

158 A qualificação é de Lippmann. In Noam Chomsky, A Manipulação dos Media - Os Efeitos Extraordinários da Propaganda, op. cit., p. 17.

159 A tese de Lippmann não era novidade para o povo americano. Quase duas décadas antes, em 1928, um outro cidadão dos E.U.A., Edward L. Bernays, expressara-a muito claramente em Propaganda - edição de H. Liveright, em New York City. Por outras palavras, Goebbels, o ministro da propaganda de Hitler, afirmara exactamente o mesmo. Ouçamo-lo: "Não seria impossível provar, através de repetições suficientes e uma compreensão psicológica das pessoas implicadas, que um quadrado é de facto um círculo. São meras palavras, e as palavras podem ser moldadas até revestirem as ideias sob disfarce". (Citado por Noam Chomsky, Propaganda e Opinião Pública, Lisboa: Campo da Comunicação, 2002, p. 172).

160 Bertrand Russell, História da Filosofia Ocidental, São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1957, Vol. I, p. II.

161 Pierre-André Taguieff, op. cit., p. 120.

162 For man, unlike any other thing organic or inorganic in the universe, grows beyond his work, walks up the stairs of his concepts, emerges ahead of his accomplishments. John Steinbeck, Tha Grapes of Wrath, Harmondsworth: Penguin Books, 1987 reprint, p. 164.

163 Pierre-André Taguieff, op. cit., p. 120.

164 Manuel Vincent, "Ardores Belicistas". In El País, 27/03/1999.

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