TENHO SEDE *

 

ARMINDO VAZ D’ALMEIDA **

 

 

Quanto gostaria de poder dizer

de poder gritar

clamar

e inclusive bradar aos céus

tocar à porta dos deuses em cólera

inacessíveis como um mendigo

- Tenho sede!...

 

 

Tenho sede

sede de som

de luz

de calor

de vida

e de ar puro

para as minhas veias entumecidas

 

 

Tenho sede dos dias verticais da canícula

tenho sede

tenho sede do caminho que se interrompeu

tenho sede das palavras

que ninguém mais quis pronunciar

tenho sede enfim

do enunciado dos meus primeiros passos

 

 

Tenho sede

tenho sede de gotas

que caiam como petardos sobre o lodaçal

amachucando a aleivosia indolente da tarde

tenho sede dos dias contados um a um

pela crença imaculada dos dedos duma criança

na fé viva de ver despontar o seu amanhã

Entretanto o suor

mirrando gota a gota

secou finalmente desnutrido

queimado na febre oblíqua da minha pele

quando o caminho não foi já até ao fim

e as palavras prostraram-se como árvores desfolhadas

e adormecidas sob a frigidez cinzenta da gravana

 

 

Desperta mulher

De pés descalços e seios viris de montanha

escarpada nos vastos campos do Sahel

regada e viçosa no caminho longo do Nilo

profética no tumultuoso Cabo da Esperança

ou eternamente encanecida

No cimo indómito do Quilimanjaro

 

 

Por incrível que pareça

fui denunciado na minha sede

e por isso mulher

não me cansarei de dizer

gritar e bradar aos céus

que se oiça para além das estrelas

- TENHO SEDE.

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* In NOCTURNO EM LAIVOS DE AMOR, Herança Cultural, Livros do ISPV, Série A, nº 1. pp. 93/95.

** Poeta de São Tomé e Príncipe.

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