O ERRO DE DAMÁSIO

SOBRE "O ERRO DE DESCARTES" *

 

MARIA DE JESUS FONSECA

 

" Pensam os sábios, com razão, que os homens de todas as épocas imaginavam saber o que era bom ou mau, louvável ou condenável. Mas é um preconceito dos sábios acreditar que hoje o sabem melhor que em qualquer outra época."

 

NIETZSCHE

 

1. - ALGUMAS CONSIDERAÇÕES INTRODUTÓRIAS

 

Comemora-se este ano o 4 centenário do nascimento de Descartes (nasceu em 1596). Ora, 400 anos é muito tempo. Muito tempo para a história, para a ciência, para a técnica. Muito tempo para a vida. Mas muito pouco tempo para o pensamento filosófico(1). Isto porque aquilo de que trata a filosofia, aquelas que são as grandes questões filosóficas, permanecem através do tempo (neste sentido se pode falar de uma philosophia perennis) e são, nesse sentido, intemporais. Porque são questões simples (pelo menos na aparência) mas profundamente humanas. Humanas, demasiado humanas, para glosar Nietzsche. Questões que o homem põe, que todo o homem se põe, e que dizem respeito e interessam a todos os homens (neste sentido, não há homem que não seja filósofo) porque têm a ver com a própria condição humana, com a sua própria condição de homem, com o que é ser homem. E a este propósito não resisto a citar as belas palavras de José Barata-Moura "Certamente que muitos continuam sem entender "para que serve" a filosofia - como, aliás, também não entendem verdadeiramente "para que serve" ser homem."(2) Por isso é que as grandes questões da filosofia não estão sujeitas à moda nem passam de moda. Permanecem, não são questões de ontem mas continuam questões hoje e de hoje. Mantêm a sua plena actualidade. E esta é uma das razões porque Descartes, nascido há tanto tempo, há 400 anos, ainda hoje nos fala e ainda hoje com ele dialogamos. Aliás, no dizer de alguns especialistas, "talvez não haja hoje pensamento filosófico mais actual que o de Descartes"(3). Estas conferências em que hoje todos participamos são bem o sinal disso: da actualidade de Descartes e, por isso, decorrem "sob o signo de Descartes". E, aqui e agora, não fazemos outra coisa senão dialogar sobre Descartes e dialogar com Descartes.

Pareceu-me, por isso, oportuno estabelecer um diálogo sobre Descartes e com Descartes através de um terceiro interlocutor que, naturalmente, também entra neste diálogo. Esse interlocutor é António Damásio, autor de uma obra muito conhecida entre nós intitulada precisamente O Erro de Descartes.

Algumas razões pesaram na escolha deste interlocutor:

1 - O facto de esta obra ter sido recentemente traduzida e publicada em língua portuguesa. A 1 edição é de Maio de 1995.

2 - A evidente notoriedade da obra, tendo em conta o número de edições e reedições da mesma num curto espaço de tempo. Entre Maio de 1995 e Agosto do mesmo ano passou-se da 1 para a 12 edição. E, entretanto, já outras reedições vieram a lume.

3 - O facto de o seu autor ser um cientista português que trabalha, investiga e produz no estrangeiro, com reconhecido mérito internacional.

4 - Em Portugal, quer a obra quer o seu autor foram profusamente publicitados em todos os meios de comunicação social, conhecendo, desse modo, a divulgação célere que se conhece.

5 - Acresce que o seu autor foi galardoado, em Portugal, com o Prémio Pessoa 95, precisamente pela produção e publicação desta obra.

6 - Esta última razão vou buscá-la ao próprio texto de Damásio : "Escrevi este livro como a minha versão de uma conversa com um amigo imaginário (...). Fizemos um acordo: a conversa tinha de ter benefícios mútuos. Para o meu amigo, esses benefícios consistiam em aprender coisas novas acerca do cérebro e daquelas misteriosas coisas mentais; para mim, consistia em esclarecer as minhas próprias ideias à medida que explicava a minha concepção do que são o corpo, o cérebro e a mente. (...)

O meu amigo sugeriu que a conversa decorresse sob o signo de Descartes, visto não haver forma de tratar tais temas sem evocar a figura emblemática que moldou a abordagem mais difundida respeitante à relação mente-corpo."(4) Também Damásio escreveu esta sua obra como uma conversa e essa conversa decorreu sob o signo de Descartes, como ele próprio afirma. Ora é sob o signo de Descartes que aqui nos reunimos nestas conferências.

Antes ainda de entrar no tema, permitam-me mais algumas considerações:

Cabe-me, como o próprio tema indica, proceder a uma análise que se quer crítica - ou não seria sequer verdadeiramente análise e muito menos filosófica - desta obra de António Damásio "O Erro de Descartes".(5) Mas cabe-me mais: que essa análise seja feita do ponto de vista filosófico e que seja, ela própria, filosófica - tarefa difícil para um eterno aprendiz de filósofo - mas, por outro lado, tarefa que aceitei com gosto pois a filosofia é a área da minha formação académica e profissional e também a área da minha opção e da minha vocação.

Centrar-me-ei, portanto, nos aspectos em que a obra de Damásio toca os domínios da filosofia e os alvos privilegiados serão,obviamente, as referências que ele faz à filosofia ou a uma filosofia em particular, neste caso, a de Descartes. A começar pelo título.

Mais um esclarecimento: situar-me-ei a partir do ponto de vista de Descartes, ou melhor, daquela que é a interpretação consensual da filosofia cartesiana e considero-me, portanto, advogada de defesa de Descartes. Daqui não deve inferir-se, como é óbvio, que me coloco simultaneamente como advogada de acusação de Damásio - o que, aliás, é manifestamente impossível no âmbito dos códigos legais, processuais e ético-deontológicos. O que se pretende é analisar criticamenmte a obra, como já foi dito. O que está, pois, em julgamento é a obra, e sob este específico ângulo filosófico, e não o autor. Embora deva confessar que esta distinção é, por vezes, algo artificial e difícil de manter porque se, como obra escrita que é, ela possui uma autonomia - está aí, independente do autor que não está aí - e pode ser analisada como tal. Mas, por outro lado, o autor espelha-se a si e ao seu mundo, diz-se a si e ao seu mundo na obra, fala-nos através do texto e somos, irremediavelmente, seus interlocutores. Em verdade, trata-se de um diálogo a três: o autor, o texto, o leitor. E o texto interpela-nos e nós interpelamos o texto e, às vezes, interpelar o texto é também simultânea e necessariamente interpelar o seu autor.

Mas comecemos então e pelo título, como não podia deixar de ser.

2. - O TÍTULO

Este livro "...não se debruçou sobre Descartes nem sobre a filosofia" embora "...a conversa decorresse sob o signo de Descartes (...) figura (...) que moldou a abordagem mais difundida respeitante à relação mente-corpo." Apercebi-me que "...o livro seria acerca do Erro de Descartes."(6)

Curioso o título para um livro que, confessadamente, não trata de Descartes nem sequer de filosofia! O livro não é "sobre Descartes nem sobre a filosofia (...) embora tenha sido por certo acerca da mente, do cérebro e do corpo."(7) Trata-se, isso sim, de neurobiologia, neuroanatomia, neurofisiologia, neuropatologia, numa palavra, neurociência, para utilizar os próprios termos do autor.

Mas, se assim é, porque é que o autor não pôs o sub-título (em letras pequenas na capa) como título principal (e, portanto, em letras bem grandes) e o título principal como sub-título? Pareceria mais adequado! "EMOÇÃO, RAZÃO E CÉREBRO HUMANO. O Erro de Descartes".

E porquê "o erro de Descartes" e não o erro de Platão ou de Kant, por exemplo? Autores que são ou mesmo referidos ou, pelo menos, aludidos. Embora sem citar o nome de Kant, afirma "...que a razão não é de modo algum pura."(8) Quanto a Platão, refere-se-lhe directamente. "Mas há quem possa perguntar por que motivo incomodar Descartes e não Platão, cujas ideias sobre o corpo e a mente são muito mais exasperantes, como podemos verificar no Fédon."(9) Infelizmente, o autor não responde à sua própria pergunta! Não lhe responde agora, quando a faz, nem lhe responde nunca ao longo de todo o texto. A única explicação que encontramos é uma explicação indirecta e é aquela que o autor dá para justificar o título e a escolha de Descartes. É que Descartes é, segundo Damásio, "...a figura emblemática que moldou a abordagem mais difundida respeitante à relação mente-corpo."(10) Ora, desta opinião não é um consagrado especialista em Platão: "Platão inventou a filosofia: definiu o que a cultura entenderá doravante por razão. Deste modo, desenhou o quadro no interior do qual o pensamento "mediterrânico-ocidental" construirá os seus valores e desenvolverá o seu progresso."(11) A ser assim, foi Platão que moldou o que a cultura ocidental entenderá por razão, o que o próprio Descartes e nós hoje ainda entendemos por razão.(12) E é também de razão que Damásio trata. É uma das palavras constantes do título.

Porquê então este título?

Porquê então Descartes?

Poderia propor algumas explicações, entre outras:

Para chamar a atenção? Por chamariz publicitário? Por marketing? Por moda?

Detenhamo-nos, por momentos, na análise desta última hipótese. Não deixa de ser curioso e de dar que pensar que títulos deste género, que directa ou indirectamente evocam Descartes, tenham vindo a lume ultimamente e que alguns nada tenham a ver com a filosofia. Igualmente curioso que, estes últimos vão já em largas reimpressões.(13)

Até a banda desenhada o glosa.(14)

Indubitavelmente, Descartes está hoje na ordem do dia. Isso mesmo afirma um especialista em Descartes. "A actualidade filosófica vem de tão longe como a própria filosofia. E talvez não haja hoje pensamento mais actual que o de Descartes. Se não for o de Platão."(15)

E "toda a gente conhece o Discurso : todos o lemos."(16)

De facto, quem não conhece Descartes e o seu famoso "penso, logo existo"? Indubitavelmente que o homem comum, com uma cultura média, conhece mais e melhor Descartes que Platão ou Kant ou Hegel. Quem não sabe que o "penso, logo existo" é uma afirmação de Descartes? Quem não ouviu já falar da dúvida metódica ou das ideias claras e distintas? Quanto a Platão, Kant ou Hegel, que afirmações famosas lhe pode atribuir o homem comum?.

Damásio confessa isto mesmo quando afirma "...comecemos, então, pelo "penso, logo existo". Esta afirmação, talvez a mais famosa da história da filosofia..."(17)

Tiremos a ilação, que parece óbvia. O título, na óptica de Damásio, não podia ser outro senão "O Erro de Descartes", porque Descartes é conhecido mais que qualquer outro filósofo e isso, aliado ao facto de que Descartes, afinal, a crer em Damásio, errou, é garantia de sucesso ou, pelo menos, desperta a nossa atenção e curiosidade.

Igualmente não deixa de ser extraordinário e de dar que pensar que, tendo a obra este título, o nome de Descartes apenas apareça citado muito poucas vezes.(18) Muito pouco para um livro que se intitula "O Erro de Descartes"! E, se tivermos em conta, que o seu autor confessa, logo na introdução, e como já foi referido, que, afinal, o livro "não se debruça sobre Descartes"(19), convenhamos que isto dá que pensar e que o título, no mínimo, parece desajustado.

3. - O ERRO DE DESCARTES

Até aqui, a nossa discussão centrou-se apenas na razão ou desrazão do título. Passemos agora à análise do próprio conteúdo da afirmação que constitui o título principal. Como já foi salientado, a obra não é sobre Descartes. Daí que, apesar das raras referências, aqui e além, a Descartes, apenas o último capítulo, o capítulo onze para ser mais exacta, que curiosa e intencionalmente se intitula "Uma Paixão pela Razão"(20), trate, no seu primeiro sub-título, intitulado precisamente "O Erro de Descartes", desta questão que é, afinal a questão que deu sentido e nome à obra. E perdoem-me, desde já, a profusão de citações de que me vou servir mas só assim poderão avaliar da justeza ou não da minha interpretação.

Ora, Descartes, segundo Damásio, errou. Mas afinal "qual foi, então, o erro de Descartes?" (21)Para dizer a verdade, foram vários os erros de Descartes. Primeiro e o mais fundamental na perspectiva de Damásio, o grande ERRO, (daí falar em erro e não em erros de Descartes) é o erro do dualismo. Formulado de forma breve, Damásio expressa-o assim "Descartes separa a mente do cérebro e do corpo."(22) E este erro é o mais fundamental e decisivo porque Descartes é o símbolo "de um conjunto de ideias acerca do corpo, do cérebro e da mente que, de uma maneira ou de outra, continua a influenciar as ciências e as humanidades no mundo ocidental". (23) E uma das variantes mais actuais desse erro consiste em considerar a mente como "o programa de software que corre numa parte do hardware chamado cérebro."(24) Portanto, e cito "É este o erro de Descartes: a separação abissal entre o corpo e a mente, entre a substância corporal, infinitamente divisível, com volume, com dimensões e com um funcionamento mecânico, por um lado, e a substância mental, indivisível, sem volume, sem dimensões, intangível."(25)

Mas Descartes cometeu outros erros. E, antes de mais, o erro do mecanicismo já que, até hoje, e por influência de Descartes, os biólogos e os médicos, entre outros, adoptaram "uma mecânica de relojoeiro como modelo dos processos vitais".(26) Contudo Damásio parece não dar muita importância a este erro que ele próprio enuncia, apesar de tal erro se repercutir e perdurar até hoje, porque, afinal, "talvez isso não fosse muito justo."(27)

Mas Descartes cometeu ainda mais erros e "bem mais espectaculares"(28) que aquele que Damásio considera ser o "erro específico de descartes", a saber, o erro do dualismo. Por exemplo, os erros que cometeu na explicação que dá para a circulação do sangue - o calor é que faz circular o sangue - ou para a explicação do movimento dos músculos (através dos "espíritos animais").(29)

No entanto, Damásio desvaloriza todos estes erros e "a razão é simples: há muito tempo que sabemos que ele [Descartes] estava errado nestes aspectos concretos."(30) Portanto, o único erro de Descartes que ainda não foi desfeito (e que Damásio, pelos vistos, é o primeiro a desfazer), o único erro de Descartes que "continua a prevalecer"(31), a estar presente e a influenciar o modo como ainda hoje vemos as relações mente, cérebro e corpo, é o erro do dualismo.Por isso é que este é o erro fundamental e decisivo, o erro específico que Descartes cometeu e o único que preocupa Damásio.(32)

Apresentados e enunciados os erros de Descartes cumpre, agora, apreciá-los, isto é, saber e decidir se Descartes efectivamente errou e se Damásio tem ou não tem razão. Comecemos então pela análise do único erro autêntico, na perspectiva de Damásio, o erro do dualismo.

3.1. - O ERRO DO DUALISMO

Em que consiste este erro? Na radical separação entre corpo e alma, entre res cogitans e res extensa, entre matéria e espírito.

Ora esse erro está patente, desde logo, e segundo Damásio, no "Penso, logo existo", (" Je pense, donc je suis"), segundo a formulação do Discurso do Método (1637), obra escrita em francês e primeira obra publicada em França em francês, ou, segundo a formulação dos Princípios da Filosofia (1644), obra publicada em latim, "Cogito, ergo sum", ou ainda, numa das formulações das Meditações Metafísicas (1642), obra igualmente publicada em latim, "sum res cogitans". Apesar de diferentes, as formulações esclarecem-se umas às outras e significam, substantivamente, a mesma coisa: sou, existo. Mas sou o quê? Sou uma coisa que pensa, existo como pensamento, existo porque penso e enquanto penso. Se deixar de pensar deixo de existir,(33) porque deixo de ter a garantia, a certeza e a consciência da minha existência. Por isso, pensar e existir são, no fundo, uma só coisa e, por isso, Descartes pode defender que a apreensão desta verdade é uma intuição. Existo como pensamento. O pensar é o modo de ser do meu existir, dito em linguagem mais actual. Ora, segundo Damásio, "a afirmação sugere que pensar e ter consciência são os verdadeiros substractos de existir."(34)

E não são?, perguntamos nós, como primeira objecção que colocamos a Damásio. O que é uma existência sem consciência de si própria, da sua própria existência?! É nada, é vazio, é a existência de uma pedra. É uma existência que se desconhece a si mesma como existência, que não existe portanto! Não é, pois, com toda a certeza, existência humana!

Aliás, este é hoje um tema consensual e que se costuma habitualmente definir desta forma: uma consciência só o é se for consciência de alguma coisa. É a famosa intencionalidade da fenomenologia husserliana, que é hoje dado adquirido: uma consciência é sempre consciência de alguma coisa. Uma consciência que não seja consciência de ... não é consciência - não tem conteúdo. Por isso, Sartre define a consciência como abertura, a consciência não é uma caixa de fósforos, a consciência não tem dentro nem fora como a caixa de fósforos, interior e exterior.(35) A consciência não é alguma coisa fechada em si mesma, supostamente dentro de uma qualquer caixa de fósforos (e, por isso, o corpo não é a caixa de fósforos, invólucro que contivesse dentro a consciência) mas a consciência é abertura ao mundo e a si - o que é a própria definição de intencionalidade. E o próprio corpo é abertura ao mundo e, portanto, intencionalidade (CF.Merleau-Ponty).

Logo, se penso ou tenho consciência de, penso alguma coisa. Pensar exige complemento directo. O pensamento ou a consciência, para o ser, tem forçosamente um conteúdo, nem que esse conteúdo seja o próprio pensamento. Penso pensamentos. E não é outra a sequência de Descartes quando pretende passar do cogito para Deus e para o Mundo. A única diferença, e fundamental diga-se, é que Descartes não pratica a epochê husserliana, isto é, a suspensão do juízo relativamente à existência, e, portanto, afirma, num mesmo ápice, a existência do pensamento.

Mas o grande problema, para Damásio, reside no facto de "como sabemos que Descartes via o acto de pensar como uma actividade separada do corpo, esta aproximação celebra a separação da mente, a "coisa pensante" (res cogitans), do corpo não pensante, o qual tem extensão e partes mecânicas (res extensa)."(36)

E se isto é, de algum modo, pelo menos na aparência, verdade, tenho, contudo, algumas objecções a propor.

1 objecção: o dualismo, patente na acusação de Damásio a Descartes, é uma consequência do sistema, não é uma opção primeira do sistema cartesiano. Isto é, Descartes não parte do dualismo, o dualismo não é um ponto de partida mas um ponto de chegada. E como ponto de chegada que é ou como consequência da forma como Descartes pôs os problemas, o dualismo nunca satisfez o próprio Descartes e, por isso, tentou ultrapassá-lo; até porque como explicar que, no homem, a res cogitans (o pensamento) se relaciona com a res extensa (o corpo)? Porque, por um lado, eu tenho consciência de sensações que me vêm do corpo e através do corpo e porque, por outro lado, o meu corpo é influenciado pela minha mente. Por exemplo, quando quero levantar o meu braço e o meu braço se levanta.

Daí o recurso cartesiano à glândula pineal, actual hipófise, a que Damásio alude algumas vezes(37) (e por vezes de forma jocosa), (Cf. Damásio (1995):39) como forma de explicar a intersecção e a relação entre a mente e o corpo.

E se a explicação pela glândula pineal merece algum louvor, e o próprio Damásio o atesta quando afirma que, de facto, "curiosamente, essa interligação [do corpo com a mente, a razão, o sentimento e a emoção] ocorre de forma intensa não muito longe da glândula pineal"(38), contudo, também é verdade que tal explicação não satisfaz ninguém e nem sequer o próprio Descartes. E isso é bem visível nesta afirmação cartesiana: "é necessário saber que a alma está verdadeiramente unida a todo o corpo, e que em rigor não se pode dizer que exista numa das suas partes, com exclusão das outras, pois o corpo é uno e dum certo modo indivisível..."(39).

2 objecção: Damásio engana-se na interpretação que faz de Descartes.

Primeiro erro de interpretação: de facto, Descartes procurava uma resposta para uma questão metafísica e não para uma questão de origem, como Damásio afirma. A famosa afirmação "penso, logo existo" ilustra exactamente o oposto daquilo que creio ser verdade acerca das origens da mente."(40)

Ora Descartes não se questiona de onde vem ou provem a mente. Interroga-se pelo ser. O que é que existe?, se é que existe alguma coisa. E de tudo o que existe ou possa existir considera que, antes de mais nada, porque primeira verdade fora de toda a dúvida, existe o pensamento, depois, fora também de toda a dúvida, existe Deus (segunda existência e segunda verdade do sistema) e, finalmente, existe o mundo (terceira existência e terceira verdade do sistema).

Mas estes primeiro, segundo e terceiro não aparecem por ordem de importância ou por ordem de origem. Correspondem meramente à ordem da fundamentação do sistema. E por isso a uma só questão (a metafísica): "O que é que existe? Se é que existe alguma coisa" uma só resposta: Sim! Existe alguma coisa! Existe o pensamento, Deus e o Mundo. Existem três coisas, três substâncias(41).

Segundo erro de interpretação: "Descartes procurava uma fundação lógica para a filosofia".(42)

Ora, na verdade, Descartes não procurava uma fundação lógica para a filosofia. Procurava, quando muito, uma fundação lógico-metodológica e gnoseológica - e isto só é verdade ao nível do Discurso do Método.(43) Mas a autêntica fundamentação que Descartes procurava é uma fundamentação ontológica e metafísica que só ela garante a outra fundamentação lógico-gnoseológica, porquanto se quero conhecer, quero conhecer coisas que realmente existam, caso contrário, o meu conhecimento seria ilusão, falsidade, mentira, porque conhecimento de nada, de algo que não existia.

Mas mais. Quando se procura um primeiro princípio fundante - como é o caso de Descartes - é evidente que esse princípio, como qualquer princípio, é indemonstrável (ou não seria princípio), não é verdadeiro nem falso em si mesmo, ou melhor, consideramo-lo como verdadeiro sem nunca poder provar a sua verdade ou a sua falsidade, dada a impossibilidade dessa demonstração. É que o princípio funda mas não é fundado. É o caso dos princípios filosóficos ou dos princípios científicos, é o caso dos axiomas na matemática, por exemplo.

Os princípios, portanto, não se provam, aceitam-se ou não. São fruto, em última análise, de uma opção, de uma crença.

Ora, como pode Damásio considerar errado o primeiro princípio cartesiano se, como princípio que é, não se pode demonstrar a sua verdade ou falsidade?

O que acontece na realidade é que Damásio faz a mesma coisa que Descartes, aparentemente sem se aperceber disso, radicando a confusão no sentido indiscriminado que Damásio dá ao termo "origem". Considera-o como sinónimo de princípio. Ora, na terminologia filosófica, tais termos não são, de modo nenhum, sinónimos. Princípio é fundamento e origem é causa.

E de facto, Damásio não se pergunta apenas pela origem (causa) da mente, pergunta também, antes de mais, pelo princípio: o que existiu primeiro? e, isso sim, na resposta que dá, na qual está bem patente essa confusão, coloca-se nos antípodas de Descartes. "Para nós, portanto, no princípio foi a existência e só mais tarde chegou o pensamento. E para nós, no presente, quando vimos ao mundo e nos desenvolvemos, começamos ainda por existir e só mais tarde pensamos na medida em que existimos, visto o pensamento ser, na verdade, causado por estruturas e operações do ser."(44)

Portanto, parece que a questão central é também para Damásio, embora de forma aparentemente inconsciente, a questão metafísica, de modo que formula o seu princípio metafísico: Primeiro, a existência. No princípio era a existência e é a existência, no seu próprio desenvolvimento e complexificação, que permite o surgimento do pensamento - isto numa perspectiva filogenética - mas também o mesmo acontece numa perspectiva ontogenética. Portanto, primeiro existimos. Primeiro existimos sem pensar, depois, mais tarde, pensamos, existimos e pensamos.

Mais tarde, à existência acrescentou-se o pensamento. E, tal como é posta, a afirmação é também uma afirmação dualista. Porque primeiro existe uma coisa e depois outra diferente da primeira. Parece, portanto, que Damásio sofre do mesmo mal de que acusa Descartes: uma doença chamada dualismo, uma súbita crise de dualismo agudo ...ou crónico, dependendo da perspectiva.

Ora, o que parece estar aqui em discussão é um velho problema que se pode formular de muitos modos: No princípio era a Matéria ou o Espírito? No princípio era Deus ou o Mundo?

Materialismo ou Espiritualismo? O que é que existe primeiro, a matéria ou o espírito? O espírito ou a matéria? São, afinal, as duas grandes respostas à questão metafísica dadas na tradição ocidental. Qual delas é a verdadeira? Indecidível, porque são princípios. Podemos aceitar ou crer mais numa que noutra. Nada mais. Face a materialismo e a espiritualismo optamos. Ou decidimos pela matéria ou decidimos pelo espírito. E é sabido que a tradição científica é uma tradição que decide pelo materialismo, que decide pela matéria. Não admira, portanto, que Damásio opte pela matéria.

3 objecção: Um dos aspectos cruciais na argumentação de Damásio contra Descartes é, não só o facto de o considerar um dualista, mas sobretudo de considerar que esse é o erro fundamental de Descartes, já que determinou e determina ainda hoje o modo como concebemos as relações mente-corpo.

Ora a nossa objecção vai no sentido de considerar que o dualismo não está apenas presente em Descartes mas em outros e nem sequer Descartes foi o primeiro a encontrar-se numa hipótese dualista e, como é evidente, também não foi o último.

E há muitas formas de dualismo - dualismo gnoseológico, dualismo ético, dualismo antropológico, dualismo metafísico, para citar apenas algumas. Sem distinguir essas diferentes formas de dualismo, consideraremos, indistintamente, os muitos dualismos presentes na cultura e na tradição ocidental desde as suas origens. O dualismo existe, desde logo, no mito (o caos e o cosmos, o bem e o mal), na filosofia, ser/ não-ser, mundo sensível/mundo inteligível, corpo/alma, sujeito/objecto, fenómeno/númeno e referimo-nos, assim, a Parménides, Platão, Descartes, Kant, para citar os nomes mais sonantes. Mas o dualismo encontra-se também na ciência: sujeito/objecto, subjectivo/objectivo, Ciências da Natureza/Ciências do Espírito, acaso/necessidade. E ainda o dualismo na religião, em qualquer religião, designadamente naquela que foi e é dominante na nossa tradição cultural, a religião cristã. O dualismo de Deus e do Diabo, do bem e do mal, da alma e do corpo, do mundo terreno e do mundo celestial. Ora não esqueçamos que a cultura e civilização ocidentais são o que são porque se desenvolveram a partir do cruzamento das heranças culturais que são as suas, a saber, a cultura hebraico-cristã e a cultura greco-romana, que, como constatamos, são tradições dualistas.

Porquê, portanto, atribuir a Descartes a culpa do dualismo e estigmatizá-lo considerando que ele é o único responsável por esse dualismo que ainda hoje se evidencia na cultura actual, designadamente nas ciências e nas humanidades?(45)

Por outro lado, Damásio apresenta-se como não-dualista - pretensão esta que já pusemos em dúvida - ou, pelo menos, defendendo que é preciso ultrapassar o dualismo. Ora a superação do dualismo começa no século XIX com Hegel (1770-1831)(46), cujo esforço é de assinalar, mas sobretudo com Nietzsche (1844-1900)(47) que dirige o mais violento e contundente ataque que alguma vez já foi dirigido à cultura ocidental. E, precisamente, esse ataque tem como alvo central o dualismo, esse estigma sempre presente na cultura ocidental, a qual, por isso, é, na perspectiva nitzscheana, uma cultura fraca, uma cultura ressentida, uma cultura doente. Vejam-se as virulentas críticas que Nietzsche dirige, em toda a sua obra, ao socrato-platonismo e, sobretudo, ao Cristianismo que, mais que nenhum outro, é o grande responsável por essa tradição dualista. E cito o título de duas obras de Nietzsche, títulos tão significativos que quase dispensam qualquer comentário: O Crepúsculo dos Ídolos (os ídolos são os grandes valores da tradição cultural ocidental, o bem, a razão, o espírito) e Para além do Bem e do Mal. Este último título fala por si).Para além de todos os dualismos, de todas as dicotomias, de todas as antinomias.

E se Damásio, como anti-dualista que se apresenta, valoriza o organismo, o biológico, o corpo, o mesmo fez, antes dele, Nietzsche, trazendo para primeiro plano o corpo, esse grande esquecido na história da cultura ocidental.

E esta tentativa de superação do dualismo que começa no século XIX continua no nosso século XX, embora ainda como tentativa, porquanto a posição dominante é ainda uma posição dualista. Veja-se o mundo da comunicação informática e a tentativa de criar uma inteligência artificial, e toda a linguagem dicotómica aí utilizada: sim/não, hardware/software. Curioso que o próprio Damásio se refira a este aspecto nestes termos: "Pode bem ter sido a ideia cartesiana de uma mente separada do corpo que esteve na origem, pelo meio do século XX, da metáfora da mente como programa de software."(48)

Mas permitam-nos uma reflexão pessoal. Nietzsche destrói, corrói, critica a tradição dualista ocidental - "transmutação de todos os valores" - nas suas palavras, o que significa que todos os valores, que foram os valores mais preciosos da cultura ocidental, estão doentes, são decadentes,(49) não servem, estão, enfim, destruídos ou destituídos de valor e, portanto, é preciso ir para além desses valores, superando o dualismo. Entenda-se, não basta inverter esses valores, não se trata de uma mera mutação de valores (isso seria ainda permanecer no dualismo). Trata-se, isso sim, de propôr outros valores alternativos, trata-se de inventar novos valores, doravante não dicotómicos, e é este o sentido dessa "transmutação de todos os valores". É preciso ir para além deles, ir para além do Bem e do Mal, criando valores radicalmente novos e isso também só um novo Homem o poderá fazer. Mas Nietzsche não chega a propôr esses novos valores. Deixa isso para o homem do futuro, ou, como ele também o designa, para o Super-Homem.(50)

Ora parece-nos que Damásio faz o mesmo. A solução dualista é errada, é preciso superar o dualismo, mas qual seja a nova solução a adoptar, Damásio não a define.(51)

Portanto, na falta de solução alternativa, e porque não podemos viver sem soluções, no vazio, no nada, na ausência total de soluções, mais vale continuar com a antiga solução ainda disponível: o dualismo. Donde ser ainda esta a tendência dominante nos nossos dias. É que não basta pôr em causa, ou negar, ou mesmo ultrapassar uma tradição, porque permanecemos sempre "tributários daquilo contra que ou para lá do que..." se quer e se consegue ir.(52)

Então onde está a novidade de Damásio? Atrever-nos-íamos a dizer que a novidade não é, segundo parece, uma tão grande novidade como se fez crer, designadamente através dos meios de comunicação social que tanto alarde fizeram da obra e do autor.

3.2. - O ERRO DO MECANICISMO

Um outro erro de Descartes foi, segundo Damásio, o mecanicismo. "Poderíamos começar com um protesto e censurá-lo por ter convencido os biólogos a adoptarem, até hoje, uma mecânica de relojoeiro como modelo dos processos vitais."(53)

Ora já vimos que, na perspectiva de Damásio, foram muitos os erros de Descartes, mas a uns Damásio não responde, porque já sabemos "há muito tempo"(54) que são erros e já foram ultrapassados. Restam apenas refutar os erros que ainda não foram ultrapassados e que perduram e continuam a exercer influência. É este o caso dos erros do dualismo e do mecanicismo.

Muito curioso que Damásio assinale os dois, mas só critique o erro do dualismo. Conclusão: o erro do mecanicismo perdura e, nesse caso, pode perdurar já que Damásio não o desfaz. Então tiremos a conclusão última: o mecanicismo, afinal, pelos vistos, não é um erro! Há aqui, então e indubitavelmente, uma contradição em Damásio: o mecanicismo é um erro mas não é um erro!

Ora o mecanicismo, mesmo considerando-o um erro, não é um erro exclusivo de Descartes. O mecanicismo é o modelo que preside à interpretação do mundo e da natureza na moderna concepção de ciência, desde os seus inícios no século XVII, e já antes de Descartes com Kepler, Copérnico e Galileu. (55) E a hipótese mecanicista consiste em considerar que tudo na natureza se explica analogamente ao funcionamento de uma máquina, em que tudo acontece sempre da mesma maneira, as mesmas causas provocam sempre os mesmos efeitos. Logo, a hipótese do mecanicismo acarreta forçosamente consigo as hipóteses da causalidade e do determinismo.

Podemos então compreender porque é que Damásio não critica esse pretenso erro do mecanicismo. É que Damásio, sem nunca se confessar mecanicista declaradamente, é, também ele, mecanicista. Aliás, como cientista, não pode deixar de o ser. De qualquer forma, implicitamente, o mecanicismo está nele presente, por exemplo quando afirma que a mente foi causada (ou teve origem) pela evolução biológica em geral e, em particular, pela evolução do cérebro. "Existimos e depois pensamos (...) visto o pensamento ser, na verdade, causado por estruturas e operações do ser."(56) Ou ainda, "o que estou a sugerir é que a mente surge da actividade nos circuitos neurais, sem sombra de dúvida..."(57) Dito de outro modo mais simples : o cérebro é causa da mente ou "os cérebros causam mentes", como diz John Searle, autor que, aliás, Damásio refere.(58)

Portanto, só podemos concluir que não foi Descartes o culpado de "os biólogos adoptarem, até hoje, uma mecânica de relojoeiro como modelo dos processos vitais."(59) E podemos mesmo concluir mais: que o próprio Damásio adopta "uma mecânica de relojoeiro como modelo dos processos vitais" e neurológicos!

Daí que não admire que Damásio não critique este "erro" cartesiano e não o desmonte, porquanto ele próprio é ainda um mecanicista e tem consciência disso. Por isso, depois de enunciar este erro cartesiano do mecanicismo, e repito propositadamente a citação, "poderíamos começar com um protesto e censurá-lo por ter convencido os biólogos a adoptarem, até hoje, uma mecânica de relojoeiro como modelo dos processos vitais", conclui "mas talvez isso não fosse muito justo."(60) Convenhamos que, de facto, não é nada justo! E Damásio sabe-o bem.

4. - ALGUMAS CONSEQUÊNCIAS DOS ERROS DE DESCARTES

O erro de Descartes ou os erros de Descartes tiveram, na perspectiva de Damásio, algumas consequências desastrosas. Essas consequências situa-as Damásio no campo da medicina e da biologia, como é natural ou não seja ele médico especializado em neurocirurgia.

A este propósito, não podemos deixar de assinalar uma contradição bem visível no texto de Damásio. É que, por um lado, considera que, até hoje, a visão mecanicista imperou no domínio da biologia e da medicina, de tal modo que a "compreensão" do biológico - do corpo e também do cérebro, como é evidente - se processou em termos meramente mecânicos. De qualquer modo, significa isto que, desde então e até hoje, a biologia e a medicina se foram desenvolvendo e progredindo, inclusivamente no conhecimento do cérebro e da mente. A neurologia, a psiquiatria e a psicologia bem o atestam. Por outro lado, afirma exactamente o contrário, considerando que "o esforço para compreender a mente em termos biológicos em geral atrasou-se várias décadas e pode dizer-se que só agora começa."(61) Afinal, e até hoje, os biólogos (e os médicos) avançaram ou não no conhecimento da mente? Por um lado diz que sim, por outro diz que não!

Ora, o que nos parece estar aqui em questão não é, de modo algum, a questão do avanço ou do atraso no conhecimento da mente, seja em termos biológicos, seja em termos médicos. A questão essencial será, antes, a de saber se o modelo mecanicista, até agora aplicado ao estudo do cérebro e da mente, tanto pela biologia como pela medicina, permitiu e produziu um conhecimento e uma "compreensão" satisfatória e eficaz desses objectos. Parece que a resposta é claramente um "não". Por isso é que consideramos estar atrasados no conhecimento desses fenómenos, de tal modo que, não os conhecendo bem, a medicina não consegue uma intervenção eficaz quer no diagnóstico quer no tratamento das doenças mentais.(62) Mas se Damásio, ele próprio, continua a ser um mecanicista não se vislumbra muito bem como quer progredir no conhecimento e tratamento da mente, partindo da adopção do mesmo modelo mecânico que, pelos vistos, até agora, não produziu resultados eficazes. E modelo esse que ele próprio considera ser um erro e um erro atribuível a Descartes! Se tal modelo é um erro, como Damásio afirma, como pode ele próprio persistir no erro?!

A única conclusão que se pode tirar é que, com toda a certeza, esse modelo mecânico, dado que não produziu os frutos esperados, não é o modelo adequado para abordar o estudo desses fenómenos. De facto, tal modelo mostrou-se reducionista no que diz respeito, em particular, à mente, porquanto considerou que a mente podia perfeitamente ser "explicada" apenas em termos mecânicos, isto é, em termos de acções e reacções de natureza físico-química e eléctrica. E o que agora constatamos é que a mente não se deixou aprisionar e explicar por esse modelo! Logo, parece que a única saída deste impasse passará pela invenção e adopção de um outro e novo modelo, não mecânico, no estudo desses fenómenos, modelo esse que ultrapasse o reducionismo em que o mecanicismo nos encerra.

"A negligência cartesiana da mente, tem tido duas consequências negativas principais. A primeira situa-se no campo da ciência. O esforço para compreender a mente em termos biológicos em geral atrasou-se várias décadas e pode dizer-se que só agora começa. (...) A segunda consequência negativa relaciona-se com o diagnóstico e com o tratamento eficaz das doenças que nos confrontam"(63), a saber, as doenças da mente.

Mais uma vez Descartes é acusado de ter esquecido e negligenciado a mente e que, por consequência, é culpa cartesiana que o estudo da mente se tenha atrasado e, em verdade, só agora comece. E também mais uma vez somos obrigados a contradizer Damásio. E por quatro razões, das quais as duas primeiras não deixam lugar para dúvidas.

PRIMEIRA: É o próprio Descartes que prova que Damásio está enganado quando lhe dirige tal acusação que é, pois, muito injusta. E cito Descartes "De maneira que esse eu, isto é, a alma pela qual sou o que sou é (...) mais fácil mesmo de conhecer" que o corpo.(64)

SEGUNDA: Descartes repete esta mesma ideia nas Meditações, na segunda meditação que, significativamente, se intitula "Da natureza do espírito humano: que se conhece melhor que o corpo."(65) E não resistimos a citá-la de novo tal como ela foi escrita pelo próprio Descartes, em latim "De natura mentis humanae: quod ipsa sit notior quam corpus."(66)

TERCEIRA: E provando que a mente é mais simples e fácil de conhecer que o corpo, Descartes aventura-se no estudo da alma escrevendo o Tratado das Paixões da Alma, publicado em 1649.

Atendendo que a publicação do Discurso data de 1637 e que as Meditações são publicadas em 1641 não parece, de modo nenhum, a não ser por um erro muito grosseiro, que possamos acusar Descartes de ter esquecido a mente e de, por essa razão, ser igualmente culpado pelo atraso no estudo da mente!

QUARTA: Permita-se-nos citar Koyré, que apresenta esta explicação que, pensamos, é tão clara que fala por si. "Porque a filosofia [ e nós acrescentamos: e a ciência] tenta sempre dar-nos uma resposta à dupla questão: "o que é que é" e "que sou eu", eu que me ponho esta pergunta. Nas épocas felizes, clássicas, ela começa por aquilo que é, pelo Mundo, o Cosmos, e é a partir do Cosmos que tenta responder à pergunta "que sou eu?" procurando o local, o lugar que o homem ocupa na grande cadeia do ser, na ordem hierárquica do real. Mas nas épocas "críticas", épocas de crise, em que o Ser, o Mundo, o Cosmos se torna incerto, se desagrega e estilhaça, a filosofia [e voltamos a acrescentar: e a ciência] volta-se para o homem. Começa então pelo "que sou eu?", interroga aquele que põe as questões."(67)

Aliás, e tomando em linha de conta este excerto de Koyré, somos de opinião que Damásio se engana redondamente, quando acusa Descartes de ter esquecido a mente. A época de Descartes é, sem dúvida, uma época de crise. Já o demonstrámos na comunicação do "Viva a Ciência - 94". Por isso é que Descartes não começa pelo Mundo, começa pelo "que sou eu?" A primeira verdade e primeiro princípio do seu sistema responde precisamente a esta questão: "cogito, ergo sum" ou "sum res cogitans", sou pensamento, sou uma coisa que pensa. Por isso Descartes é o primeiro filósofo moderno e anuncia o idealismo subsequente.

Por outro lado, e tendo presentes as afirmações cartesianas de que a alma é mais fácil e simples de conhecer que o corpo, consideramos mesmo que, neste aspecto, aqui sim, Descartes se equivocou. A história, parece, se encarregou de o provar. Naturalmente viramo-nos, em primeiro lugar, para o mundo e para o conhecimento do mundo. Temos consciência de mundo antes de termos consciência de nós próprios. O mundo é bem mais simples e fácil de conhecer, afinal! Por isso, historicamente, surgem primeiro as Ciências da Natureza e só mais tarde as Ciências do Homem. O atraso, a que Damásio alude, da medicina no que diz respeito ao conhecimento e ao tratamento das afecções da mente, pode bem mais facilmente ser explicado pela complexidade da mente do que por culpa de Descartes!

5. UMA NÃO-CONCLUSÃO

Não estejam à espera de uma conclusão, não nos peçam para concluir, não nos podem pedir que concluamos. De facto, é uma impossibilidade concluir.

Há muito ainda por explicar. Nada está fechado. Tudo está em aberto e permanace, ainda, em aberto.

BIBLIOGRAFIA

ALQUIÉ, Ferdinand, A Filosofia de Descartes, Lisboa, Editorial Presença, 1980 (col. Biblioteca de Textos Universitários).

BEYSSADE, M., Descartes, Lisboa, Edições 70, s.d., (col. Biblioteca Básica de Filosofia).

CHÂTELET, François, Platão, Porto, Rés, s.d., (col. Diagonal).

COTTINGHAM, A Filosofia de Descartes, Lisboa, Edições 70, 1989 (col. O Saber da Filosofia).

DAMÁSIO, António R., O Erro de Descartes. Emoção, Razão e Cérebro Humano, 12 edição, Lisboa, Publicações Europa-América, 1995, (col. Forum da ciência, 29).

DESCARTES, R., Discurso do Método e Tratado das Paixões da Alma, 5 edição, Lisboa, Livraria Sá da Costa, 1968.

DESCARTES, R., Meditações sobre a Filosofia Primeira, Coimbra, Livraria Almedina, 1976. (Trata-se de tradução portuguesa da obra Méditations Métaphysiques).

DESCARTES, R., Méditations Métaphysiques, 4 edição, Paris, P.U.F., 1970, (col. S.U.P.).Edição bilingue em francês e em latim.

DESCARTES, R., Princípios da Filosofia, 3 edição, Lisboa, Guimarães Editores, 1978.

FONSECA, Maria de Jesus M., Em Torno do Conceito de Ciência, in: CUNHA, Vasco e SILVA, Sónia (Coord.), VIVA A CIÊNCIA 94, Viseu, Edição do Departamento Cultural do I.P.V., 1995, 123-138.

GOSCINNY e UDERZO, Astérix Legionário, Lisboa, Meribérica, s.d.

HEIDEGGER, Martin, El Ser y el Tiempo, Buenos Aires, Fundo de Cultura Económica, 1951.

IOVCHUK, I., OÏZERMAN, T. I. e SCHAPANOV, I. V., História da Filosofia, 2 vol., Novo Curso Editores, 1983.

KOYRÉ, A., Considerações sobre Descartes, Lisboa, Editorial Presença, 1980 (col. B.U.P.).

MORENTE, M. G., Fundamentos de Filosofia. Lições Preliminares, 8 edição, S. Paulo, Editora Mestre Jou, 1980.

NIETZSCHE, F., Anti-Cristo, Lisboa, Presença, 1973, (col. Clássicos,26).

NIETZSCHE, F., O Crepúsculo dos Ídolos, Lisboa, Editorial Presença, 1973, (col. Clássicos,34).

NIETZSCHE, F., Para Além do Bem e do Mal, Lisboa, Guimarães Editores, 1958.

NIETZSCHE, Assim Falava Zaratustra. Livro para todos e para ninguém, s.l., Edição do Círculo de Leitores, 1974.

NIGEL, Thomas, O Problema Mente-Corpo, in: NIGEL,Thomas, Que Quer Dizer Tudo Isto? Uma Iniciação à Filosofia, Lisboa, Gradiva, 1995, (col. Filosofia Aberta,1), 29-37.

NUNES DOS SANTOS, Existes, logo pensa! Máximas e aforismos, 9 edição, Porto, Menabel, 1988.

PLATÃO, Fédon. Diálogo sobre a Imortalidade da Alma., 2 ed., Coimbra Atlântida, 1954, (col. Biblioteca Filosófica).

REVEL, Jean-François, História da Filosofia Ocidental. A Filosofia no Tempo da Ciência, vol. II, Lisboa, Moraes Editores, 1972, (col. Manuais Universitários).

RICOEUR, Paul, Finitude et Culpabilité. 1. L'Homme Faillible, Paris, Aubier-Montaigne, 1977, (col. Philosophie de l'esprit).

RICOEUR, Paul, Teoria da Interpretação, Porto, Porto Editora, 1995, ( col. Filosofia.Textos,2).

RODIS-LEWIS, G., Descartes et le rationalisme, 2 edição, Paris, P.U.F., 1970, (col Que sais-je?).

SARTRE, Jean-Paul, Uma ideia fundamental da fenomenologia de Husserl: a intencionalidade, in: SARTRE, Jean-Paul, SITUAÇÕES I, Lisboa, Publicações Europa-América, 1968, 28-31.

SEARLE, John, Mente, Cérebro e Ciência, Lisboa, Edições 70, 1987, (col. Biblioteca de Filosofia Contemporânea,1).

SEVERINO, A Filosofia Moderna, Lisboa, Edições 70, s.d., (col. O Saber da Filosofia). 

*NOTA: Este é o texto que foi apresentado como comunicação nas " 1asConferências Internacionais de Filosofia e Epistemologia", no Instituto Piaget em Viseu, que decorreram de 28 a 30 de Março de 1996 com o título "Sob o signo de Descartes - A problemática das relações mente-corpo e o retorno do sujeito".Esta versão constitui uma reformulação alargada do texto que apresentámos na Semana "Viva a Ciência 95" no Instituto Politécnico de Viseu, já publicado no N2 da Millenium (p.53-57), mas que agora se apresenta, com as adaptações necessárias a essas novas circunstâncias.

1 Cf. Koyré, Considerações sobre Descartes,9.

2 José Barata-Moura, Kant e o conceito de filosofia, 2.

3 Koyré, Op. Cit., 9.

4 Damásio, O Erro de Descartes, 19-20. O sublinhado é nosso.

5 O que está em julgamento é, para ser mais específica, esta obra, porque nem sequer conhecemos a totalidade da obra de Damásio.

6 Damásio, O Erro de Descartes, 12 edição, Lisboa, Europa-América,1995,20.

7 Damásio, Op. Cit., 20.

8 Damásio, Op. Cit., 252.

9 Damásio, Op. Cit., 255. O sublinhado é nosso.

10 Damásio, Op. Cit., 20.

11 François Châtelet, Platão, Porto, Rés, s.d., 173. Desta mesma opinião é Koyré, outro conhecido especialista em Platão.

12 E que dizer do próprio Aristóteles (embora num contexto filosófico totalmente diferente) quando define o homem como "animal racional"? Definição que perdurou e perdura, quer queiramos quer não, na cultura ocidental? E o homem vale e distingue-se pela diferença específica - a razão! O homem é uma substância constituída por matéria (corpo) e forma (razão) e, embora elas sejam indissociáveis, a essência ou natureza do homem e, portanto, aquilo por que o homem vale, é, indubitavelmente, a forma, i.e., a razão.

E depois de Descartes, Kant ou mesmo Hegel?!

E fora da filosofia, a religião cristã?

E isto para só falar das grandes "figuras emblemáticas" da cultura ocidental e apenas delas!

Porquê, então Descartes, se nem sequer, como vemos, é o primeiro ou sequer o mais próximo, temporalmente, de nós?

Será preciso esperar pelo século XIX para aparecerem, e como tendências dominadas, correntes, tendências e autores que, pela primeira vez, põem em causa o valor supremo da razão: o voluntarismo, o vitalismo, o irracionalismo, Schopenhauer, Kierkegaard e, sobretudo, Nietzsche!

E é muito curioso que Nietzsche, o mais radical, tenha como alvos preferidos da sua crítica Platão, mais precisamente o pensamento socrático-platónico, e o cristianismo. Platão porque inaugurou esse modo de ver - desvalorização do mundo sensível, kosmos aisthetos, da matéria, do upokeimenon, do corpo, e valorização do mundo inteligível, kosmos noetos, da Ideia, do nous, da razão. O cristianismo porquanto "aplicou" no domínio religioso o modelo platónico distinguindo e valorizando o espírito relativamente à matéria, a alma relativamente ao corpo, o mundo celestial da salvação para além da morte relativamente ao mundo sensível, único mundo real. De facto, para Nietzsche, "o cristianismo é um platonismo para o povo"! - permitam-me a utilização da famosa imagem de Marx.

13 Nunes dos Santos, Existes, logo pensa! Máximas e aforismos, 9 edição, Porto, Menabel, 1988.

14 Goscinny e Uderzo, Astérix Legionário, Lisboa, Meribérica, s.d., 41, 3 tira e 42, 3 tira.

15 A. Koyré, Considerações sobre Descartes, 9.

16 Koyré, Id., Ibid.

17 A. Damásio, Op. Cit., 254.

18 Ao todo, contámos 24 vezes, uma referência explícita ao nome de Descartes e 5 vezes a palavra "cartesiana". Na totalidade, apenas 30 vezes em 271 páginas de texto!

É evidente que esta contagem não é rigorosa, porquanto resultou da nossa própria contagem a partir da leitura da obra e não de contagem realizada por computador. Aliás, seria interessante confrontar o número de vezes que, na obra, são referidos os nomes de outros filósofos, designadamente Platão.

19 Damásio, Op. Cit., 20

20 Intencionalmente, porquanto, para Damásio, a razão e a possibilidade do seu uso adequado e correcto depende da sua ligação e interconexão aos sentimentos e às emoções, i. e., ao "pathos", à paixão.

Curiosamente, porquanto a afirmação implica uma dupla intencionalidade já que a palavra "paixão" é usada em dois sentidos, o sentido etimológico, que é aquele que acabou de ser expresso, e o sentido comum que se refere ao valor fundamental que atribuímos à razão, já que consideramos que o homem só é homem pela razão ou porque tem razão. Cf. p. 251.

21 Damásio, Op. Cit., 253.

22 Damásio, Op. Cit., 253.

23 Damásio, Op. Cit., 253.

24 Damásio, Op. Cit., 253.

25 Damásio, Op. Cit., 255.

26 Damásio, Op. Cit., 254.

27 Damásio, Op. Cit., 254.

28 Damásio, Op. Cit., 255.

29 Damásio, Op. Cit., 255.

30 Damásio, Op. Cit., 255.

31 Damásio, Op. Cit., 256.

32 Damásio, Op. Cit., 255.

33 Cf. Descartes, Méditations Métaphysiques, 41 e, em geral, toda a 1 Meditação.

34 Damásio, O Erro de Descartes, 254.

35 Cf. Sartre, Situações I, 28-31.

36 Damásio, Op. Cit., 254.

37 Damásio, Op. Cit., 39 e 138.

38 Damásio, Op. Cit., 138.

39 Descartes, Tratado das Paixões da Alma, 115.

40 Damásio, Op. Cit., 254.

41 Substância - o que subjaz, suporta, sustenta, é fundamento de si mesmo. O que existe por si mesmo e em si mesmo. É por si e em si, não precisa de nenhuma outra coisa para existir e é substracto daquilo que não existe por si, mas só agarrado à substância.

42 Damásio, Op. Cit., 255.

43 O Discurso é uma obra de cientista e é uma propedêutica à ciência.Veja-se o título completo: Discurso do Método.Para bem conduzir a sua razão e procurar a verdade nas ciências. Procura-se um conhecimento que possa ser considerado indubitavelmente verdadeiro, um princípio para além de toda a suspeita de dúvida. Procura-se,pois, um fundamento gnoseológico para o saber. E isso depende do método e, depois, da ordem das razões, para que a partir desse primeiro conhecimento se possam construir outros igualmente seguros e certos. O fundamento gnoseológico é, pois, também, lógico-metodológico.

44 Damásio, Op. Cit., 254. O sublinhado é nosso.

45 Cf. Damásio, Op. Cit., 253.

46 Contudo, as publicações dos escritos filosóficos de Hegel só começam a partir de 1801.

47 Nietzsche enlouqueceu definitivamente dez anos antes da data da sua morte.

48 Damásio, Op. Cit., 256.

Aliás esta ideia encontra-se também presente noutros autores. "Segundo a versão mais extrema desta concepção, o cérebro é justamente um computador digital e a mente é um programa de computador. Poder-se-ia resumir esta concepção (...) dizendo que a mente está para o cérebro tal como o programa está para o hardware do computador." John Searle, Mente, Cérebro e Ciência,36.

49 Termos que o próprio Nietzsche muito utiliza.

50 É esse o anúncio do profeta Zaratustra, quando apela para o aparecimento de um novo tipo de homem - o super homem . Um outro homem, um homem novo, um homem dionisíaco, nos antípodas deste velho homem apolíneo. Um homem que não é doente, ressentido, decadente , capaz, por isso de criar novos valores para uma nova cultura. Cf. Nietzsche, Assim falava Zaratustra.

51- De facto, para Damásio, a mente não é uma substância, não existe separada do cérebro e nem sequer separada, não apenas do cérebro, mas também do corpo, (Cf. Damásio, Op. Cit., 236) das interacções entre ambos (p. 233) e das interacções com o organismo inteiro, com os sentimentos e as emoções, e com o meio-ambiente físico e sócio-cultural (cf. pp. 138, 232, 233) já que a mente é a actividade resultante de um complicado e muito complexo sistema de relações e inter-relações.(cf. 210-211 e 231-234) Por outro lado, a mente não se localiza em nenhum ponto específico do cérebro (cf. pp. 110 e 111) - não há um "teatro cartesiano", como lhe chama. Pelo contrário, o cérebro é capaz de integrar percepções, sentimentos, emoções, imagens, representações que, essas sim, podem ser localizadas numa região ou em algumas regiões do cérebro. Mas, sendo assim, continua por explicar como integramos todas essas informações provenientes de diferentes regiões cerebrais. Como é que a mente o faz, porque, indubitavelmente, o faz? Permanece um mistério! E aquilo que a mente faz ao integrar não é equivalente à soma das partes, não é resultado da mera adição desses diferentes fragmentos informativos; logo, a mente é mais que o cérebro e o todo é mais que a mera soma das partes. Como é isto possível? O mistério permanece!

A este propósito, leia-se o quarto capítulo "O problema mente-corpo" da obra de Thomas Nigel, Que Quer Dizer Tudo Isto? Uma Iniciação à Filosofia, 29-37.

52 Châtelet, Platão, 175.

53 Damásio, Op. Cit., 253-254.

54 Cf. Damásio, Op. Cit., 255.

55 Na nossa comunicação no "Viva a Ciência - 94" tratámos este aspecto. Cf. Maria de Jesus Fonseca, "Em torno do conceito de ciência", in: Vasco Cunha e Sónia Silva (Coord.), VIVA A CIÊNCIA 94, 123-138.

56 Damásio, Op. Cit., 254. O sublinhado é nosso.

57 Damásio, Op. Cit., 233.

58 John Searle, Mente, Cérebro e Ciência, 47. Leiam-se, a este propósito, sobretudo os dois primeiros capítulos intitulados respectivamente "O problema mente-corpo" (17-33) e "Podem os computadores pensar?" (35-51). Cf., ainda, Damásio, O Erro de Descartes, 242.

59 Damásio, Op. Cit., 253-254.

60 Damásio, Op. Cit., 254.

61 Damásio, Op. Cit., 261.

62 Cf. Damásio, Op. Cit., 261.

63 Damásio, Op. Cit., 261.

64 Descartes, Discurso do Método, 40.

65 Descartes, Meditações sobre Filosofia Primeira, 117.

66 Descartes, Méditations Métaphysiques, 36.

67 Koyré, Considerações sobre Descartes, 27.

SUMÁRIO