OS DIÁRIOS DE FELIX HARTLAUB

COMO DOCUMENTOS DO AMBIENTE HUMANO

DA SITUAÇÃO HISTÓRICA (POLÍTICA E MENTAL) QUE REFLECTEM *

VASCO OLIVEIRA E CUNHA **

 

Os Diários de Felix Hartlaub (Bremen (1913) - Berlin (1945) constituem um conjunto de sete documentos escritos entre 1935 e 1945, o primeiro deles (Berliner Tagebuchblätter) abrangendo o período entre 1935 e 1938 em que o autor prepara em Berlim a sua tese de doutoramento (Don Juan d'Austria und die Schlacht bei Lepanto - D. Juan de Áustria e a batalha de Lepanto), que defende em 1939, e os restantes, formando um bloco a que deu o título de Diário de Guerra (Tagebuch aus dem Kriege), correspondendo à sua presença no cenário de guerra no norte da Alemanha (1939 - 1940), em Paris (1941), na Roménia (final de 1941 e início de 1942), no Quartel-General do Führer ,na Ucrânia (verão de 1942), na Prússia Oriental e em Berchtesgaden (1944) e no comboio especial de Hitler (1945).

Para os eventuais leitores de Hartlaub (não há ainda qualquer tradução da sua obra para língua portuguesa) deixa-se aqui uma questão e uma tentativa de resposta para ela: como explicar o título de uma obra - Diários - em que a pessoa do "eu", do "Ich", está totalmente ausente - pensamentos, sentimentos, impressões reais em que faltam os comentários sobre os acontecimentos e as reacções que eles suscitam; em que é impossível distinguir uma sequência temporal dos factos anotados; em que a linguagem intimista de um Diário cede o lugar a um estilo simultaneamente austero e dominador? A tentativa de resposta: Hartlaub forjou uma figura, uma imagem do seu eu, colocou-a entre ele próprio e a realidade possibilitando-se, assim, uma evasão, uma contemplação desprendida, e apresentando-se como testemunha incorrupta dos acontecimentos ("unbestechlichen Zeugen der Ereignisse"). Entre o autor e o resto da humanidade deveria haver um espaço vazio que lhe possibilitasse obervar o mundo à distância. Necessitava dessa distância, por isso se transformava, por isso despedaçava o seu eu com o objectivo de apresentar, sempre com maior exactidão e precisão, tudo o que se oferecia à sua contemplação banindo-se voluntariamente da sociedade em que se movimentava. Tal criação, por outro lado, corresponde a uma inquietação interior e a uma incapacidade de sair de si próprio.

Esta figura fictícia, este er, este man impessoal, der Student, o estudante dos Berliner Tagebuchblätter, esta figura, dizíamos, é um compromisso feliz entre o completo desprendimento, o ideal, e a fusão de si próprio com a realidade conseguida sob essa capa de disfarce (Tarnkappe) que lhe oferecia uma protecção das forças inimigas exteriores.

O estudante que procura um quarto em Berlim entra um dia num bairro judeu e logo encontra no átrio de um edifício um homem que o convida a entrar na sala de trabalho, muito embora não alugue quartos. Imediatamente surge o diálogo com características de interrogatório conduzido pelo intelectual judeu, que acaba por se oferecer para ensinar gratuitamente uma língua estrangeira ao estudante, o russo ou outra: "Er erbietet sich, den Studenten in einer Sprache zu unterrichten, Russisch oder anderes unentgeltlich...". (1). Quanto ao quarto, alugar-lhe-ia um e por baixo preço: "... Zimmer würde auch nicht viel kosten". (2)

Repentinamente, porém, o telefone toca e o judeu tem de sair. O estudante poderia ficar em sua casa, ele não demoraria. Mas as horas passam sem que algo aconteça. Depois, o telefone toca de novo e o judeu fala-lhe do outro lado do fio: lamentava mas não podia alugar-lhe o quarto.

O comportamento imprevisto desta personagem não deve interpretar-se como simples indecisão pessoal. Deve, pelo contrário, inserir-se no âmbito mais vasto da realidade histórica e mental da Alemanha dos anos trinta. A mística pangermânica e o militarismo prussiano tinham-se unido estreitamente para fazerem da nação um instrumento de dominação europeia. O regime hitleriano aboliu a distinção entre o civil e o militar, esmagou os espíritos pela propaganda, formou um exército de executantes, de trabalhadores e de soldados.

A este adestramento de uma nação inteiramente mobilizada entregaram-se com complacência as antigas classes dirigentes: os militares, porque viam ali uma fonte de poder; os burocratas, porque isso favorecia o seu prussianismo dominador; os industriais, porque sendo o sustentáculo financeiro do regime dele tirariam proveitos máximos.

Legalizaram-se as limitações da liberdade pessoal, da liberdade de expressão e de associação "para a protecção do povo e do estado". O objectivo do Partido Nacional-Socialista era o de manter os princípios fundamentais que assegurassem a unidade da nação e cujos funcionários, repartidos em Gaue, deviam penetrar até às células mais minúsculas da organização profissional, administrativa ou familiar, e de fazer conhecer por toda a parte o pensamento do chefe e de espiar os menores movimentos. (3)

Este alargamento da penetração capilar legalizava todo o arbítrio, toda a suspeita se tornava uma acusação clara, toda a actividade sobre que podiam surgir dúvidas era um crime comprovado, graças ainda a um outro supremo princípio da organização jurídica nazista segundo o qual a lei não era senão a forma em que se manifestava a vontade do Führer. (4)

Quanto ao mito da raça, constante permanente do nazismo, ele reconhecia no Nórdico os traços do chefe, do dominador por excelência. Segundo Alfred Rosenberg (in "Mito do Século XX"), cada raça tem o seu génio próprio sendo a unidade do género humano reconhecida como hipótese absurda. O espírito judeu, como fomentador constante, com todos os elementos estrangeiros, de uma conspiração universal contra o germanismo seria perseguido e aniquilado. (5)

Um tal ambiente histórico criaria forçosamente, e em primeiro lugar, uma atitude de medo e de desconfiança entre as populações, e para os judeus esse medo, esse terror, estava constantemente corporizado nos elementos policiais que não deixavam de vigiá-los. Quando o estudante abandona a casa do judeu é a polícia que encontra nas escadas: "Auf der Treppe ist Polizei" (6); na biblioteca que frequentava Hartlaub viu sentar-se um estudante alto da Tropa de Protecção ao lado de um judeu, conhecido investigador de Platão: "Neben einen bekannten Platonforscher nimmt ein hochgewachsener S.S. - (7) Student Platz". (8)

Desta atmosfera de medo nascia, naturalmente, a insegurança e a impossibilidade de estabelecimento de ligações duradouras: "Der Student schliesst sich öfters rasch an, fühlt sich irgendwo heimisch, gemütlich, gibt sich dem Zufälligsten gänzlich preis - dann plötzlich Stockung, Abbruch, er kann sich nirgendshin zurückziehen, hat keinen Rückhalt, kann sich nicht regenerieren, wird ausgestossen, auf die Strasse gesetzt, muss wieder von vorne anfangen", "o estudante associa-se por vezes rápidamente, sente-se à vontade onde quer que seja, confortável, abandona-se ao que há de mais acidental - depois, subitamente, paralização, interrupção, para parte alguma pode recolher-se, não tem qualquer apoio, não pode regenerar-se, é expulso, posto na rua, tem de começar de novo". (9)

A solidão e o isolamento subsquentes constituem a terceira fase deste processo evolutivo, contrariando a teoria nacional-socialista do "ritmo impetuoso do nivelamento espiritual do povo" (10), e alargando-se do simples isolamento pessoal à solidão e à incapacidade de conciliação entre os sexos.

Mas enquanto que o primeiro é apresentado de uma maneira que poderíamos classificar de positiva, na medida em que Felix Hartlaub tenta atingir um estado de equilíbrio, enquanto se eleva acima de si próprio e anota o mundo circundante objectivamente - ele é como um saltimbanco que se não pode deter em si próprio nem nos objectos -, enquanto contempla esses mesmos objectos e penetra simultâneamente na sua vida, a irreconciliação dos sexos é um símbolo de ausência de "nivelamento" : "Erst gab es nur die Frauen in diesen feuchten Gemäuern, dann kam der Mann, frech und feig wie ein Dieb, geil und lustlos, gewalttätig und wehleidig. Sie kochten ihm Suppe und gaben sich hin, weckten ihn und schickten ihn auf Arbeit, jetzt sitzen sie wieder zusammen. Matriarchat der modern Grossstadt", "primeiramente havia apenas mulheres nestas ruínas húmidas; depois chegou o homem, insolente e cobarde como um ladrão, lascivo e desanimado, brutal e dolorido. Cozinharam-lhe sopa e entregaram-se; despertaram-no e mandaram-no para o trabalho. Agora estão de novo sentadas. Matriarcado da capital moderna". (11)

Quando as ligações surgem - por exemplo na liga dos estudantes políticos (Studentenbund) - reina a intriga entre os elementos do grupo, na maioria verdadeiros demagogos em potência que se sentem já futuros dirigentes integrados na concepção hitleriana do mundo que, repelindo a ideia democrática da massa, obedecia a um princípio aristocrático não se fundando, por isso, na ideia da maioria, mas na da personalidade. Simplesmente, como Felix Hartlaub anota, é o automatismo, revelador de falta de análise em profundidade, que domina entre estes Führer em potência.

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A situação política em 1939, considerada terrível por Felix Hartlaub, podendo mesmo redundar em catástrofe a todo o momento - "Die politische Lage scheint mir ... schrecklich, es kann jeden Augenblick zur Katastrophe kommen ..." (12) -, assemelhava-se a um balão que, já completamente cheio de gás, ameaça rebentar a cada momento. A invasão da Polónia em 1 de Setembro foi o choque brusco que precipitou a explosão e a catástrofe subsequente.

Felix Hartlaub encontrava-se como soldado no norte da Alemanha (1939-40), longe da frente polaca e num ambiente onde apenas a presença física dos militares e a máquina de propaganda nacional-socialista faziam lembrar que o conflito era real.

A erupção da guerra veio modificar dentro do país o clima de tensão característico do período que antecedeu o conflito sendo a este respeito sugestivo o diário de Hartlaub referente ao primeiro ano de luta. O ambiente deixou de ser opressivo, ao contrário do que acontecia em Berlim. Ao medo e à insegurança sucedem-se agora quadros onde dominam a alegria e a espontaneidade de movimentos; a solidão deu lugar a uma vida constante em comum. É que o alvo das atenções não era já o comportamento pessoal, a restrição das liberdades, mas a guerra e a subjugação das populações polacas. Alargava-se o "espaço vital" (Lebensraum) e, simultâneamente, diluia-se a tensão interna. Há mesmo uma personagem neste diário, o estalajadeiro Jan, que abertamente exprime as suas opiniões políticas não receando evidenciar o seu cepticismo quanto ao desfecho da luta. Dele diz Hartlaub: "Er kennt die angelsächsische Welt und sagt jedem ohne Unterschied, dass wir das britische Weltreich nicht in die Knie zwingen werden", "ele conhece o mundo anglo-saxão e diz a cada um, sem distinção, que nós não dominaremos o Império Britânico". (13)

As figuras que Felix Hartlaub apresenta reflectem esse ambiente de relativa descontracção. "O professor", por exemplo, "comtempla, rindo, os soldados", "Der Lehrer ... sieht den Soldaten lachend zu" (14); quando alguns soldados abandonavam a sua tenda, de manhã, Felix Hartlaub distinguiu "uma gargalhada sonora e seca", "Ein lautes trocknes Lachen" (15). Por outro lado, a antiquíssima oposição entre camponeses e soldados estava ainda muitas vezes velada.

Acredita-se que a guerra terminará em breve - alguns soldados pensavam poder passar o Natal de 1939 em casa, outros o Verão do ano seguinte, facto que comprova uma superficialidade de julgamento por parte das camadas populares na Alemanha hitleriana. Para estas camadas a guerra tinha como objectivo único o alargamento do Lebensraum, do "espaço vital", e não era o pretexto para a dominação continental.

Por outro lado, nem a poderosa máquina de propaganda, nem o abrandamento dos elos apertados do terror instaurado pelo Nacional-Socialismo com o início das hostilidades conseguiram destruir o sentimento de hostilidade, e até de ódio, das populações relativamente às forças policiais do regime. Assim, é com uma espécie de satisfação que se lê nos jornais a notícia da morte de um alto chefe da Secção de Assalto da região - "Die Leute lesen es mit einer Art Befriedigung". (16)

A própria propaganda que, segundo os teóricos do Nacional-Socialismo, e do próprio Hitler, deveria ser popular e o seu nível intelectual regulado de acordo com a capacidade de absorção daqueles a quem se dirigia, não esquecendo nunca que ela deveria fazer apelo exclusivamente ao sentimento da massa, é denunciada por Felix Hartlaub naquilo que tinha de repetitivo. Depois de ouvir algumas informações sobre política o autor anota simplesmente: "schon ewig bekannt", "já eternamente conhecidas" (17); "das ganze Vokabularium", "todo o vocabulário" (subentenda-se - habitual), é o seu comentário à leitura de um jornal sobre os acontecimentos na Polónia.

Se no Diário de Berlim se manifesta a tendência para a apresentação da realidade caótica da vida; se, mais tarde, no Sperrkreis, a realidade deixa, de certo modo, de existir, não só através da posição de Hartlaub no Quartel-General, mas também através da sua capacidade de viver antecipadamente os acontecimentos, há, nas notas escritas em Paris, figuras que o condicionalismo político lança para os limites mais afastados da realidade.

A poderosa máquina alemã nos países ocupados, protegendo a exploração económica e materializando a obediência política, trabalhava no sentido de uma opressão nacional, destruidora do seu carácter específico; numa palavra, conduzia a uma verdadeira "colonização espiritual".

A cidade ocupada, "nada mais que uma cidade europeia de província", "nichts weiter als eine europäische Provinzstadt" (18)), segundo um propagandista nacional-socialista, não sendo já necessário aproximar--se dela com veneração - "Man brauche ihr nicht mehr in Ehrfurcht zu nahen" (19), a cidade onde "aquilo que ainda se movimenta nas ruas silenciosas é tudo potência ocupante", "Was sich noch in den totenstillen Strassen bewegt ist alles Besatzungsmacht" (20), apresenta-se como lugar de segregação, quer de nacionalidades quer de raças: "Irgendwo läuft die Grenze zwischen dem 'pour l'ambassade allemande' vorgesehenen Teil und dem für die Wartesaalkundschaft", "algures levanta-se a barreira entre a parte prevista 'pour l'ambassade allemande'e a da destinada à clientela da sala de espera". (21) E mais adiante : "Die Strassen schon leer, gangbar nur für Inhaber von Passierscheinen - die Stunde für deutsche Zivilisten", "as ruas já vazias, utilizáveis só para detentores de passes - a hora dos civis alemães" (22).

Mais penosas do que estas barreiras, do que estas fronteiras, é o abismo intransponível e invisível que separa franceses e alemães, tanto mais que para Felix Hartlaub a França era o país a que sempre se sentira ligado espiritualmente.

A segregação racial manifesta-se entre as próprias forças alemãs de ocupação, uma das muitas contradições do Nacional-Socialismo. Felix Hartlaub observa soldados coloniais - feras negras (Schwarze Bestien) - no seu passeio dominical e comenta: "Sie dürfen anscheinend nur solche Stadtviertel aufsuchen, wo die Möglichkeiten des Zusammentreffens mit deutschem Militär gering ist", "eles só podem, segundo parece, procurar aqueles bairros onde é diminuta a possibilidade de encontro com a tropa alemã. (23)

A impossibilidade de conciliação da força alemã com o orgulho e a liberdade franceses cria naturalmente entre ocupantes e ocupados um ambiente de desconfiança mútua, último degrau, em Felix Hartlaub, para a solidão humana e para o silêncio, verdadeiras armas dos franceses contra a ocupação, arma do próprio autor contra o ódio com que os franceses parecem envolvê-lo.

Uma atitude de imobilidade parece permear o homem e as coisas: as raparigas que viajam sozinhas num combóio dos arredores de Paris sentam-se em silêncio nos lugares vagos. Uma delas, porém, deixa-se cair num desses lugares porque está cansada. Apesar disso, "nenhum rosto reflecte o que quer que seja", "kein Gesicht spiegelt etwas wider" (24); os pescadores à linha, no Sena, estão horas seguidas encostados à balustrada sem mesmo mudarem a posição das pernas - "Die Angler über die Mauerbrüstung gelehnt, stundenlang, ohne die Beine zu wechseln" (25); no ministério conquistado o "pó tem já meio dedo de espessura. Efeitos pompeiânicos: os calendários marcam todos o dia 14.6.40", "...Staub liegt schon einen halben Finger dick. Pompeianische Effekte: Die Kalender zeigen alle den 14.640". (26)

Os únicos contactos entre alemães e franceses são os que revelam os aspectos mais negativos da ocupação - entre eles, o da prostituição em que são lançadas muitas parisienses muito jovens para garantirem a subsistência: "...die nicht professionellen, ganz jungen... C'est au moins ce qu'elles disent, qu'elles n'ont plus de travail ... pas mon métier ... mais pour ne pas crever de faim". (27)

Uma preparação militar superior assegurara à Alemanha, nos três primeiros anos de guerra, triunfos retumbantes que possibilitaram a crença de que o sonho pangermanista ia, finalmente, realizar-se. Ao Reich alemão deveria pertencer a direcção do "grande espaço" europeu. A posição central que o destino tinha dado ao povo alemão revestiria enfim o seu verdadeiro significado. O Reich era, segundo um autor nacional-socialista, "o dever alemão de assegurar a sua plena responsabilidade constituindo uma força organizadora acima dos Estados". (28)

Viu-se, por conseguinte, surgir em 1941 e em 1942, nas regiões subjugadas da Europa, um sistema baseado na desigualdade das raças e dos direitos. Mas enquanto que em algumas dessas regiões (29) as populações foram, pura e simplesmente, integradas no Reich, noutras, pela sua localização no leste do Continente - casos da Roménia e da Ucrânia - a administração era meramente militar. Por outro lado, os teóricos do Nacional-Socialismo e, entre eles, o próprio Hitler, não subestimavam as condições específicas do Leste e das suas populações.

Segundo a tese hitleriana, para dominar os povos submetidos a leste do Reich dever-se-ia com efeito corresponder, na medida do possível, aos desejos de liberdade individual que eles pudessem manifestar, privando-os, portanto, de quaisquer organizações de Estado mantendo-os assim a um nível cultural o mais baixo possível. (30). "No Oriente o homem é um cão", "Im Orient ist der Mensch ein Hund" (31), diz uma das personagens de Hartlaub. E, como cão que é, integra-se com facilidade no ambiente miserável, selvagem e primitivo.

Simplesmente, como se depreende da leitura das notas escritas na Roménia, a subjugação preconizada não pôde ser efectivada. É que o povo romeno não se deixou perturbar na sua vida e, a despeito da guerra, continuou a viver abertamente. Aconteceu até algo de imprevisto nesse país, e na Ucrânia, no que se refere aos soldados alemães: o primitivismo da paisagem e o ambiente humano, em vez de anestesiarem os forasteiros pela sua rudeza, incluem-nos na sua atmosfera suave.

A três anos de vitórias vai seguir-se um período de tempo igual de aniquilamento gradual para a Alemanha. O equilibrio de forças a que se chegara em 1942 começa no final desse mesmo ano a pender para os Aliados. A extensão do conflito a outros continentes obrigara a um alargamento de frentes e conduziria à derrota alemã. "Es ist unmöglich", pensa o redactor do Diário de Guerra, "...das Kriegstheater in seiner Ausdehnung (zu umfassen)", "é impossível ... abranger o teatro da guerra em toda a sua extensão" (32), e os inúmeros pontos de interrogação que o redactor vê assinalados no mapa do sudeste europeu são uma prova material do começo da derrocada.

As páginas dos diários de guerra de Felix Hartlaub apresentam, na sua objectividade, os aspectos mais característicos do ambiente mental dentro da Alemanha no período final do conflito.

Primeiramente, a ânsia da fuga às responsabilidades políticas assumidas, antes e durante a guerra, um fenómeno sempre actual. "Ich bin völlig unpolitisch ...", confessa Onkel Max ao redactor do Diário de Guerra, "sou inteiramente apolítico" (33), atitude que não é, de modo algum, pessoal, mas característica do pensamento a nível de funcionários do Estado-Maior alemão.

Na verdade, quando os acontecimentos da guerra não são favoráveis aos exércitos alemães eles classificam-se de "pequenos órgãos executantes", "kleine ausführende Organe" (34), que desde o início souberam prever a marcha e o final do conflito. Simplesmente nada poderiam fazer, até porque os altos comandos tinham ficado em silêncio como se fossem simples recrutas. Afirmam,inclusivamente, nunca terem pertencido ao Quartel-General e atrevem-se a pronunciar-se sobre o mais perigoso tabú do Nacional-Socialismo - a Questão Judaica -, declarando terem dado provas de liberais no processo de arianização - era-se humano -, e classificando mesmo o antisemitismo contrário aos seus espíritos: "Bei der Arisierung hatte man sich auch grosszügig erwiesen, man war ja Mensh; der Radau-Antisemitismus war mir, offen gesagt, immer in der Seele zuwider". (35)

E logo a seguir: "Gewiss, die Judenfrage drängte zur Lösung, aber die Methoden, zu denen man griff ...", "certamente a Questão Judaica urgia solução, mas os métodos a que se lançou mão ...". (36)

Porém, Felix Hartlaub anota que durante a acção dirigida contra os implicados no atentado de 20 de Julho o próprio Onkel Max "queimou até alguma coisa na retrete", "verbrannte sogar etwas auf dem klo" (37), sendo mesmo frequente, à hora do crepúsculo, passar-se pelo forno crematório e lançar algumas cartas dentro dele ...

Um outro aspecto das notas de Hartlaub é o da atitude passiva dos alemães, diriamos mesmo negativista, assumida na perspectiva de derrota, criando-se até a noção de que havia unicamente uma saída para o labirinto em que se encontravam: "Morrer em beleza", "In Schönheit sterben", como Onkel Max sintetiza. (38)

Ausente, "a linguagem de comando enérgica e sugestiva de outrora que, com cada parágrafo, abria novos espaços", "Wo ist die straffe suggestive Befehlssprache von früher, die mit jeden Absatz neue Räume aufriss?" (39); ausentes, os heróis tão gratos à ideologia nacional-socialista.

Finalmente, à medida que a derrota alemã se corporizava, as informações deixavam de circular; muitas vezes nem sequer atingiam o próprio Quartel-General: "O encolher das frentes da guerra e o desaparecimento das cidades no fundo não nos afecta isso aqui de modo algum; isso é um 'caso quase orgânico' ", "das Schrumpfen der Fronten und das Schwinden der Städte, im Grunde berührt uns das hier gar nicht, das ist ein 'beinahe organischer Vorgang' ". (40)

O redactor do Diário de Guerra sente que as suas informações estão, na maior parte, ultrapassadas e que o contacto se perdeu: "Unsere Meldungen sind zum grössten Teil überholt, wir haben den Anschluss verpasst ...". (41). E os diários são interrompidos precisamente no momento em que o combóio especial (der Sonderzug des Führers) onde, no final da guerra, estava instalado o Quartel-General alemão, entra num túnel. Uma acústica cómica tem este túnel, semelhante a uma canção popular alemã acompanhada por um órgão. Nas palavras de Hartlaub, "eine komische Akustik hat dieser Tunnel, da spielt doch einer das Deutschlandlied auf einer Wurlitzer Orgel, wenigstens so ähnlich ... (42). Símbolo da derrota?

NOTAS

(1) Felix Hartlaub, Das Gesamtwerk, p.14.

(2) Ib., p.14.

(3) J.Droz, "Histoire de L'Allemagne", pp. 101 e 103.

(4) Enzo Collotti, E. Per una storia dell'opposizione antinazista in Germania. Contributi documentari e storiografici. In Rivista Storica del Socialismo, Janeiro - Abril, 1961, p.131.

(5) J. Droz, op.cit., pp., 105 - 106.

(6) Felix Hartlaub, op. cit., p.15.

(7) Abreviatura de Schutzstaffel.

(8) Felix Hartlaub, op. cit., p.25.

(9) Ib., p.5.

(10) Engelbert Huber, in E. Collotti, op. cit., p.108.

(11) Felix Hartlaub, op. cit., p.33.

(12) R. Krauss und G. Hartlaub, Felix Hartlaub in seinen Briefen, p.170.

(13) Felix Hartlaub, op. cit., p.52.

(14) Ib., p.38.

(15) Ib., p.39.

(16) Ib., p.40.

(17) Ib., p.35.

(18) Ib., p.59.

(19) Ib., p.59.

(20) Ib., p.59.

(21) Ib., p.64.

(22) Ib., p.104.

(23) Ib., p.113.

(24) Ib., p.92.

(25) Ib., p.68.

(26) Ib., p.89.

(27) Ib., p.76.

(28) In J. Droz, op. cit., p.120. Citação de um autor nazi não identificado na obra.

(29) Por exemplo, na Alsácia, Lorena e no Luxemburgo.

(30) Hitler. A. Conversazione Segrete. Napoli, 1954, p.450.

(31) Felix Hartlaub, op. cit., p. 124.

(32) Ib., p.149.

(33) Ib., p.155.

(34) Ib., p.159.

(35) Ib., p.159.

(36) Ib., pp.159 - 160.

(37) Ib., p.160.

(38) Ib., p. 154.

(39) Ib., p.194.

(40) Ib., p.168.

(41) Ib., p.195.

(42) Ib., p.196.

BIBLIOGRAFIA

Collotti, E. Per una storia dell'opposizione antinazista in Germania. Contributi documentarie storiografici. In Rivista storica del socialismo, Janeiro-Abril, 1961, pp.105-137.

Droz, J. Histoire de L'Allemagne. Paris: P.U.F.,Que sais-je?, nš.186, 1958.

Hartlaub, F. Das Gesamtwerk. Frankfurt am Main: Fischer Verlag, 1945.

Hartlaub, G. (Herausg.) Felix Hartlaub - Im Sperrkreisg - Aufzeichnungen aus dem zweiten Weltkrieg. Stuttgart und Hamburg: Rowohlt, 1955.

Hitler, A. Conversazione Segrete. Napoli, 1951.

Holthusen, H. E. Der unbehauste Mensch, Motive und Probleme der modernen Literatur. München: R. Piper Verlag, 1951, pp.157-160

Krauss, E. und Hartlaub, G (Herausg.) Felix Hartlaub in seinen Briefen. Tübingen: Rainer Wunderlich Verlag, 1958.

 

* Uma perspectiva de 1961.

** Professor-Coordenador da ESEV

 

SUMÁRIO