UM EXEMPLO DA RELAÇÃO DO PORTUGUÊS COM

OUTRAS LÍNGUAS NO SÉC. XVI

 

JOÃO PAULO RODRIGUES BALULA *

 

 

A leitura das Cartas que os Padres e Irmaos da Companhia de Iesus escreverão dos Reinos de Iapão e China aos da mesma Companhia da India e Europa, desdo anno de 1549 atè o de 1580 levou-nos a registar uma série de notas, aqui apresentadas, sobre os contactos do Português com outras línguas, ao longo do século XVI.

Estas cartas foram editadas em 1598 e circularam pelas mãos de muita gente ao longo dos séculos XVI e XVII. Na primeira página diz-se que Nellas se conta o princípio, socesso e bondade da Christandade daquellas partes, e varios costumes, e falsos ritos da gentilidade. O objectivo fundamental parece ser, em primeiro lugar, mostrar a necessidade de levar a cabo uma obra de evangelização do Japão, e, em segundo lugar, evidenciar que aqueles que já aí se encontram, embora em número muito insuficiente, conseguem, com poucos recursos e muitas dificuldades, fazer um trabalho que muitas vezes ultrapassa os limites do que é possível ao ser humano. Em suma, como disse Aníbal Pinto de Castro na sua comunicação ao Congresso sobre o Humanismo em Portugal na Época dos Descobrimentos, "acender nos membros da milícia inaciana o proselitismo missionário tão intensamente vivido pelos seus mitentes."1

Ao longo destas cartas vão surgindo algumas indicações importantes que nos podem permitir fazer uma ideia, embora bastante vaga, da sua produção textual, para além das cartas/relato que nos servem de fonte de informação. Esta informações são-nos apresentadas como se fossem elementos sem qualquer relação de causalidade com o restante texto. Fazem lembrar certa forma de expressão artística, certo tipo de talha dourada, em que elementos díspares surgem como que numa amálgama sem enquadramento, numa situação de simples acumulação, muitas vezes sobrecarregando a obra no seu conjunto. Não é de estranhar, portanto, que os livros utilizados, os textos produzidos, as traduções de Português para Japonês ou de Latim para Japonês não nos surjam indicados com precisão.

A partir das parcas indicações que nos são dadas, vamos analisar as referências à aprendizagem da língua do Japão. Procuraremos também apresentar uma panorâmica da realidade com que eles se depararam neste campo: os livros que os japoneses possuíam e as atitudes dos padres jesuítas perante esses livros. Finalmente apresentaremos os textos referidos nas cartas, evidenciando a sua importância no contexto em que surgem.

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Um dos aspectos mais referidos nestas cartas, desde o primeiro momento, é a aprendizagem da língua, uma vez que é de importância capital para o bom desempenho da tarefa que os jesuítas pretendem desenvolver. O Padre Baltasar Gago, evidenciando curiosidade e manifesto empenho em conhecer esta língua descreve a origem das suas letras: "Neste tempo não tinhão letras: este princípio avera dous mil e duzentos annos. Dahi a muito tempo vierão as letras da China, que com dificuldade se aprendem, e o primeiro livro veo da China. Daqui tomarão huns caracteres e maneira de letra, com que se entendem muito mais facilmente que com as letras da China."2

Na carta de 23 de Setembro de 15553 ele diz: "A sua escretura he imperfeita, porque lhe faltão letras pera algumas palavras nossas, de maneira que as não podem pronunciar com a letra que pede, tem duas maneiras de letras, mas nos pronunciamos, e escrevemos todas as suas palavras, o que elles não podem."

Também não deixa de ser curiosa a apreciação que o padre Gaspar Vilela faz a este respeito, numa carta4 de 1561: "A lingua não é muito difficultosa de entender, porque sendo eu rude sei muita parte della, ao menos no entender, e ainda que o fosse, temos já muitos livros das cousas de Deos escritas nella, que com os lerem se satifaz aos que querem ouvir."

A descrição mais completa e mais interessante é, sem dúvida, a que o Padre Lourenço Mexia5 faz em 1584: "A lingoa he a mais grave, e copiosa que creo ha, porque em muitas cousas excede a grega, e latina, tem infinidade de vocabulos, e modos pera declarar a mesma cousa, e tem tanto que fazer em se aprender, que não somente os nossos que ha mais de vinte anos que la andão, mas os naturaes aprendem cousas novas. Tem outra cousa (que creo que se não acha em nenhuma lingoa) que se aprende a Reithorica e boa criação cõ ella. Não pode ninguem saber Japão que não saiba logo como ha de falar aos grandes, e aos pequenos, altos e baixos e o decoro que se ha de guardar com todos, e tem particulares verbos e nomes e modos de falar pera huns, e outros. Ja os nossos têm feito arte da Gramática e Calepino, ou Vocabulário, e começarão o Nisolio, ou tesauro. A lingoagem da escritura he mui diferente da pratica e assi huma, como a outra he mui varia, e abundante e cõ ser tão abundante em poucas palavras cõprendem muito. A letra he cousa infinita, nem se acha pessoa que a saiba toda, porque tem duas maneiras de A b c, e cada hum de mais de corenta letras, e cada letra tem muitas figuras: e alem disto tem letra de figuras como os Chins, que he cousa que nunca se acaba de aprender. E afora estas figuras tem outras proprias pera as mesmas cousas. Tem no escrever muito engenho, e artifício porque o que se não pode explicar na lingoa se declara na letra".

A diferença entre o relato do Padre Lourenço Mexia e o do Padre Gaspar Vilela não deixa de se revestir de alguma importância para o esclarecimento dos objectivos destas cartas, para além das diferenças dos estilos próprios de cada um. Enquanto que a carta do Padre Gaspar Vilela é escrita em 1561, a carta do Padre Lourenço Mexia é de 1584. O Padre Gaspar Vilela escreve numa altura em que a missão dos Jesuítas no Japão estava a dar os primeiros passos. Parece-nos que um dos objectivos mais importantes das suas cartas era levar os europeus a entusiasmarem-se por estas novas terras. É de esperar que sejam colocadas algumas reticências, porque iam partir para terras desconhecidas a fim de evangelizar povos com que dificilmente se poderiam entender. Esta descrição pretendia acabar com essas reticências. O Padre Lourenço Mexia, por seu lado, parece distanciar-se desta perspectiva e analisa de uma forma objectiva a realidade com que contactou, procurando apresentar mais pormenores. As dificuldades já reduziram o entusiasmo inicial, apesar de continuar a admiração por aqueles povos.

A aprendizagem da língua é de especial importância, porque, para atingirem os objectivos pretendidos, a conversão dos Japoneses, tinham necessidade de entrar em contacto com eles, fazer-lhes chegar a sua mensagem, discutir com eles. Este contacto não era possível sem aprenderem primeiro a sua língua. Isto é dito pelo Padre Mestre Belchior6: "La he o padre Cosme de Torres e o irmão João Fernãdes, que he maravilhoso topaz,7 e tem mui especial graça de pregar aos Japões, estão em Bungo, e logo se pos grande diligência, como chegamos em aver grande exercício da lingoa de Japão em casa, porque sem ella pouco se pode fazer, e o padre Gaspar Vilela e os tres irmãos, que lá ficarão se davão tanto a ella, que estavão já muito avante."

É ainda dito pelo irmão Luís Dalmeida8 em Novembro de 1559: "Todos estamos bem, louvado seja o Sñor, e nos exercitamos em aprender a lingoa, para ajudar a estes christãos."

Empenham-se nesta missão de uma forma notória, como é evidenciado pelo número de vezes que é referido em cartas de diferentes autores e de épocas diversas. Numa carta do Irmão João Fernandez9 lê-se: "O irmão Guilherme afora as lições que tem continuas da lingoa de Japão, ensina a doutrina Christã aos mininos."

A sua actividade fundamental era a aprendizagem da língua. Para este efeito organizam uma espécie de escola com duas vertentes. Inicialmente ensinavam os padres que tinham necessidade de saber a língua para poderem catequizar e pregar ao público crescente de fiéis que não compreendia o Português nem o Latim. Posteriormente surge uma outra vertente. No Japão eram os Bonzos que ensinavam as crianças a ler e escrever. Quando os japoneses se convertiam, essa forma de aprendizagem era-lhes vedada, quer por uma questão de princípios por parte dos pais que queriam os filhos longe da fonte do mal que os cegou durante muito tempo, quer, porque os Bonzos também não estavam dispostos a isso, depois de eles terem abandonado a sua crença. Assim, os padres vêem-se na necessidade de ensinar as primeiras letras às crianças.

O irmão João Fernandez de Bungo10 diz-nos: "Tambem ensina as letras de Japã aos filhos dos Christãos, porque antes as aprendião nos mosteiros dos seus Bonzos, onde depois de aprenderem ficavão filhos do demonio, polos muitos maos costumes e vicios que os Bõzos ensinão aos moços que tem em seus mosteiros: e por impedir este mal ordenou o padre que todos os filhos dos christãos viessem aqui a casa aprender suas mesmas letras, pera que juntamente com ellas bebessem a Doutrina Christã."

Entre eles dividiam as tarefas a ponto de chegarem a servir-se de intérpretes quando algum padre não dominava a língua suficientemente bem para pregar ou discutir questões de doutrina, embora dominasse bem a doutrina cristã, como nos é dito pelo Padre Gaspar Vilela:11 "e com hum livro na mão, põdo comigo hum Japão que me servia de intérprete, pera que fosse melhor entendido."

Mas, pouco a pouco, os padres que dominam o Japonês vão aumentando. Um deles é o irmão João Fernandez, como se pode verificar através dos dois testemunhos que se seguem: "Antre os irmãos que vieram a Japão, da lingoa nenhum chegou ao irmão João Frz, nem me parece que o haverá por muitos que venhão. Mas este mancebo que anda comigo tem tanta graça no que diz, que rouba os corações daqueles com quem fala: tera agora vinte e dous anos, tem muita parte da sagrada escritura na memória."12; "O irmão João Fernandez, porque sabe bem a língua de Japão se occupa em ensinar aos baptizados."13

Outro padre que também domina bem o Japonês, segundo os testemunhos, é o Padre Torres: "Ficou por mestre dos mininos de casa, por ser elle grande escrivão da língua de Japão."14

Esta aprendizagem da língua é significativa em diversos sentidos. Para além do resultado prático pretendido, que é o acesso aos japoneses para os converter, esta aprendizagem influencia a língua portuguesa, apesar de nas cartas ser utilizada apenas para fins ilustrativos, quase como manifestação de um certo exotismo que algumas vezes quase se estandardizou. A este respeito note-se a forma como a palavra Xintáy é utilizada em dois casos, sendo em ambos apresentada a sua explicação: "Ha em Japão ordinariamente nos templos dos Cámis huma pedra, que se chama Xintáy, que quer dizer coração, e sustancia do Càmi daquelle orago";15 "E porque nos templos dos Camis ha ordinariamente huma pedra, que se adora, que se chama Xintáy que quer dizer coração, e sustancia do Càmi."16

A aprendizagem da língua era feita com especial cuidado. Os jesuítas não se preocupavam em aprender apenas o fundamental, mas sim em conseguir dominar perfeitamente a língua, a ponto de poderem explorar todas as suas potencialidades. Daqui resulta que uma parte dos esforços na elaboração de livros esteja encaminhada para esta missão. Assim aparecem-nos referidos alguns compêndios de Gramática e livros de vocabulário. O Padre Luís Froes, numa carta de 3 de Outubro de 156417 diz: "Por em Japão até agora não aver arte conforme a ordem que tem a latina por onde se padecia detrimento no aprender da lingoa, determinou o irmão João Fernandez (por então ter algum vagar, e desposição pera se ocupar nisso) de a fazer com suas conjugações, praeteritos, sintaxi e mais regras necessárias cõ dous vocabulos por ordem do alfabeto hum que começa em Portugues, e outro na mesma lingoa. Gastou em compor isto seis ou sete meses, até que pela bondade de Deos lhe deu fim, não perdendo nada de suas pregações e exercícios costumados, que foi huma das mais necessárias cousas que cá se avião mister, pera com a língoa se poder fazer fruito nas almas."

O padre Gaspar Coelho, na sua Carta anual de 1582 também se refere a livros do mesmo género, mas não especifica a sua autoria: "A arte da lingoa de Japão, se aperfeiçoou este ano, e também se tem hum vocabulário e alguns tratados na lingoa de Japão."18

O mesmo cuidado que os padres jesuítas colocam na aprendizagem da língua também é colocado na preparação dos livros e dos textos que são escritos em língua de Japão. Se por um lado eles optam pelas letras comuns,19 em oposição às letras eruditas, certamente para que os escritos sejam acessíveis a um maior número de pessoas, por outro lado eles sujeitam-nos a uma correcção por parte de japoneses para que "a treladação seja mais pura, fácil e gostosa".20

Não podemos esquecer que eles se deparavam com uma civilização em que os livros eram muito abundantes. As cartas demonstram que os conheciam, embora os vissem como instrumentos do culto do demónio. A posição destes padres, aos olhos do nosso tempo, nem sempre é a mais correcta. Livros de Xáca, todos "escritos com letra de ouro, e mui coriosamente, segundo seu costume, encadernados, os quais por papeis autênticos que ali tinhão de seus antecessores ha duzentos e setenta annos que são feitos e ainda agora parecem novos"21 são destruídos. Isto é feito para atingir os Bonzos devido à veneração que tinham por estes livros das suas seitas.

Dentro deste espírito, muitos dos livros editados têm a ver com a missão dos jesuítas: evangelizar. Aparecem frequentes referências a traduções de partes dos livros da Bíblia, textos doutrinais, livros que relatam as questões fundamentais colocadas nas disputas teológicas que havia entre os Bonzos e os padres jesuítas; em suma, livros para serem usados na catequização daquela gente. Entre essas referências merecem particular atenção as seguintes:

"Fizemos em lingoa de Japam um livro, que tratava da criação do mundo e de todos os mysterios da vida de Christo, e depois este mesmo livro escrevemos em letra da China, para que quando formos à China me possa declarar e entender, até saber a lingoa da China."22;

"Em Yamanguchi depois da partida do irmão Pero Dalcaceva, sempre ouve missa e prégação, lida por um livro que se tirou em lingoa de Japam"23;

"....hum livro que se tirou em lingoa de Japão das seis idades de Adam, até ao fim do mundo. No princípio dele se pos a criação do homem, e seu estado antes que pecasse...."24;

"Os dias passados falamos ao senhor desta terra, que nos desse licença para fazer um livro, e que o visse, e os seus regedores, e saberiam o que prêgavamos. Mostrou nisso boa vontade, e porque estava ao presente aqui o irmão João Fernandez, brevemente ordenou, começando como avia hum criador com rezões naturais, e assim dos princípios das cousas, de que eles não tem noticia."25;

"O que mais sentimos, pola falta que depois fez, forão huns livros do irmão João Fernãdes que há muitos anos que hia escrevendo na lingoa de Japão, aonde tinha todas as pregações dos Domingos do anno, a exposição do Credo, Pater noster e Ave Maria, e outras cousas bem necessarias."26;

"Neste tempo que aqui ficamos tiramos na lingoa huma exposição sobre os dez mandamentos, e modo pera se confessar, algumas vidas de Santos, e pregações dos domingos e quartas feiras e festas da coresma que faltavam e outras coisas desta qualidade."27

Os livros com textos bíblicos e doutrinais são, sem dúvida, aqueles que predominam. É a sua missão que os obriga a desenvolver aquilo que precisam para atingir os objectivos propostos. Dentro de todo este conjunto destaca-se um "Frol sanctorum" composto pelo padre Gaspar Vilela.28 Estes livros, que normalmente são conhecidos por "Flos Santorum", tiveram uma grande propagação e eram um instrumento imprescindível dos pregadores da época. Continham as vidas de todos os santos "possíveis e, por vezes, imaginados".29

Um outro livro importante, que é referido como um dos textos traduzidos para Japonês, é a vida de Santo Aleixo.30 Contudo não aparece referência ao seu tradutor.

Surgem também outras referências, bastante significativas, a textos que apresentam a doutrina em verso. Esses textos eram em verso por uma dupla razão. Em primeiro lugar, porque assim se tornavam de mais fácil memorização. Em segundo lugar, para apagar da memória e substituir todas as "crenças no demónio" que ainda podiam subsistir. Isso é-nos relatado numa carta do padre Belchior de Figueiredo de 1566: "Pera este dia tinha Paulo feito na lingoa de Japão em certo modo de verso, que costumão cantar os Japões, toda a historia do sepulcro de Christo, e da reposta do Anjo as Marias, que o forão visitar o qual ao redor de hum penedo mui ornado grãde de arvores naturaes .... representarão os meninos." 31

Um outro tema que também motivou de forma especial os jesuítas na produção textual em japonês foi o confronto entre questões religiosas. São as chamadas disputas que existiam entre os chefes religiosos japoneses e os padres cristãos. Essas disputas levam a repensar alguns aspectos da doutrina cristã e a arranjar argumentos válidos para lhes contrapor uma vez que os chefes religiosos japoneses eram muito competentes e não eram facilmente demovidos das suas convicções. Mas, como o sucesso dos padres passava pela vitória nestes confrontos, empenharam-se fortemente neles. Desse esforço resultam vários livros de que nos são dadas algumas notícias: ".... especialmente se alegrarão ambos muito, de ouvir hum tratado que levamos de propósito feito na lingoa de Japão em frase muito polida, no qual se tratava brevemente dos enganos das leis de Japão; e falsidades dos Câmis e Fottoquès, e da verdade, justiça, e inteireza da lei de Deos, e no cabo nos pedio, que lho fizessemos tresladar na letra de Japão, e juntamente o catequismo pera algumas vezes o praticar aos seus."32; "....por se ajudarem muito de uns livros nossos, cõnvertidos em sua língua pera reprovarem a omnipotência de Amida, e outros falsos deoses que tem"33.

Em conclusão e como explicação do número limitado de livros traduzidos para Japonês temos, para além das dificuldades motivadas pelo desconhecimento da língua e pelas condições logísticas, uma interessante referência numa carta34 do Padre Alexandre Valegnhano para Theotonio de Bragança, Arcebispo de Évora no Ano de 1597: "Quanto ao parecer que Vossa Senhoria Tem que em Japão não se introduzão livros de herejes, e de gentios que fallem em ritos he tão acertado e conveniente a Japão, que fora mui grande erro fazer-se outra cousa, por onde não somente se tem proibido isso, mas ainda se tem dado ordem que os meninos todos de seminarios não estudem por outros livros, que por mui sanctos, e catholicos, nos quais de tal maneira aprendão o latim, que embebão juntamente os preceitos, e virtudes Christãs, e aborreçam os vicios e ainda a Philosofia, e Theologia que lhe hão de ensinar, ha de ser ao menos por muito tempo sem se lhe tratar de diversidades de opiniões erronias, e controversias, mas dando somente a doutrina bem dirigida, e bem fundada de nossa fè Cathólica, posto que sanctos se hão de meter sem escolha entre os Japões, nos quais se tratam de reprovar as heregias, e outros abusos que às vezes também na Christandade da Europa correm, e por isto tenho mandado vir impressão que levo comigo a Japão para imprimirmos os livros lá purgados, e alimpados quaes convem a Japão."

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Depois de ter percorrido todas as cartas notamos que a aprendizagem da língua japonesa é tida como uma acção imprescindível para o desempenho da missão destes padres em terras quase desconhecidas dos europeus da época. A elaboração e tradução de livros surgiu como consequência e complemento desse esforço.

A temática destes livros está subjugada a uma missão: a evangelização. Assim, todos eles estão directa ou indirectamente relacionados com o cumprimento dessa missão. É de realçar, também, o facto de dificilmente se poder comprovar a existência real destes livros, porque, na maior parte dos casos, apenas nos são dadas indicações dos seus conteúdos, não sendo sequer referido o seu autor. Tratava-se de uma obra da Companhia...

Por outro lado, os poucos livros que são referidos com indicação do autor não são conhecidos dos dicionários bibliográficos. De todos os autores referidos nas cartas, apenas há indicação de livros em japonês em três deles: Padre Balthezar Gago, Duarte da Sylva e Gaspar Vilela. Do Padre Balthezar Gago o dicionário de Barbosa Machado35 diz: "Compoz em língua Japoneza o Tratado em que se mostra claramente a grande differença que há entre a ley de Christo, e a do Japão." Do padre Duarte da Sylva dá notícia da "Arte da lingua Japoneza. Ms." e do Vocabulario da lingua Japoneza. Finalmente do padre Gaspar Vilela, refere "Controversias contra todas as seytas do Japão. Nellas refutava concludentemente todos os argumentos pelos Mestres da Corte de Meaco", "História das vidas dos Santos" 36 e ainda "Documentos espirituais".

Demonstra-se assim a importância que estas cartas têm para o conhecimento mais profundo do século XVI e da influência que o contacto com outras culturas, até então desconhecidas, causou no modo de pensar português e europeu.

 

BIBLIOGRAFIA

Cartas que os Padres e Irmaos da Companhia de Iesus escreverão dos Reinos de Iapão e China aos da mesma Companhia da India e Europa, desdo anno de 1549 atè o de 1580, I e II, Évora, Manoel de Lyra, 1598.

CASTRO, Aníbal Pinto de, As Cartas dos Jesuítas do Japão, Documento de Um Encontro de Culturas, Universidade de Coimbra, 1991.

LACOUTURE, Jean, Jésuites, Une Multibiographie, Paris, Éditions du Seul, sd.

LUCAS, Maria Clara de Almeida, Ho Flos Sanctorum em Lingoagem: os Santos Extravagantes, Instituto de Investigação Científica, Lisboa, 1988.

MACHADO, BARBOSA, Biblioteca Lusitana, Coimbra, Atlântida Editora, 1965.

YAMACHIRO, José, Choque Luso no Japão dos Séculos XVI e XVII, São Paulo, IBRASA, 1989.

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* Professor-Adjunto da ESEV

¾ ¾ ¾ ¾ ¾

1 Castro, Aníbal Pinto de, As Cartas Jesuítas do Japão, Documento de um Encontro de Culturas, Universidade de Coimbra, 1991, 3.

2 Cartas..., I, fl.100.

3 Cartas..., I, fl. 41.

4 Cartas..., I, fl. 93.

5 Cartas..., II, fl. 123r.

6 Cartas ...., I, fl. 50r.

7 Intérprete.

8 Cartas....,I, fl. 62r.

9 idem, fl.77.

10 Cartas...., I, fl. 77r.

11 Cartas ...., I, fl. 141.

12 Idem, fl. 84.

13 Idem, fl. 101.

14 Idem, fl. 103r.

15 Cartas...., II, fl. 62r.

16 Idem , fl. 126.

17 Cartas...., I, fl. 146r / 147.

18 Cartas...., II, fl. 28r.

19 "São estas letras que se prezão os principais de saber, estroutas a baixo são letras que mais comummente se sabem, e não tem, nem são mais que a primeira significação, e nestas escrevemos os livros." Cartas...., I, fl. 41.

20 Cartas...., I, fl. 101.

21 Cartas..., II, fl. 98.

22 Cartas...., I, fl. 23.

23 Cartas...., I, fl. 43.

24 Cartas...., I, fl. 43r.

25 Cartas...., I, fl. 40r.

26 Cartas...., I, fl. 146

27 Cartas...., I, fl. 242r.

28 Cartas...., I, fl. 177.

29 Sobre este assunto cf. LUCAS, Maria Clara de Almeida - Ho Flos Sanctorum em Lingoagem: os Santos Extravagantes, Instituto de Investigação Científica, Lisboa, 1988.

30 Cartas...., I, fl. 428.

31 Cartas...., I, fl. 225.

32 Cartas...., I, fl. 426r.

33 Cartas...., I, fl. 353r.

34 Cartas...., II, fl. 233.

35 BARBOSA MACHADO, Biblioteca Lusitana, 449.

36 Este é o livro referido nas Cartas..., I, fl.177.

 

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