a educação e o lazer

ANA ISABEL MARQUES *

 

A escola constitui um pilar básico na sociedade para a formação dos indivíduos e da própria comunidade em que se integram. Este atributo da escola é inegável, tanto mais que a maioria das crianças cresce no seio dela.

Para Neto (1984), a escola representa o espaço onde se criam condições para promover, de maneira organizada, as aquisições consideradas fundamentais para o normal desenvolvimento da criança.

No entanto, parece que a escola se tem empenhado em esquecer que dos 365 dias do ano, os alunos passam cerca de 170 dias na estrutura escolar e que os restantes dias (cerca de 195) correspondem a tempo livre dessa estrutura. A escola parece que quer esquecer essas centenas de horas em que as crianças e os jovens se encontram noutra formação, em autoformação ou mesmo (de)formação.

Mas porque não aproveitar as aprendizagens dos alunos durante o tempo extra-escolar? Porque é que a escola teima em não aceitar que uma parte significativa dos conteúdos das aprendizagens escolares são adquiridas voluntariamente pelas crianças e jovens nas suas actividades individuais ou colectivas durante o tempo livre? Será que não há nada de positivo nos interesses dos alunos?

A Escola, ao desconsiderar factores que também desempenham um papel importante na formação do aluno, ignorando todos os processos educativos que actualmente se produzem à margem dela, como a existência no ambiente sociocultural de meios que transmitem outras mensagens de informação (televisão, rádio, video, internet…), torna-se numa escola enfraquecida, que se limita a ensinar para o momento e a não dar bases para um reajuste permanente de conhecimentos e capacidades exigido numa sociedade que evolui aceleradamente.

Esta situação é denunciada por um estudo de Hassenforder e col. (1985), realizado nos liceus parisienses. Os autores inquiriram os jovens sobre os conhecimentos adquiridos na escola e fora dela tendo chegado aos seguintes resultados:

Considerando estes aspectos, a Escola não se pode esquecer do tempo livre como processo de formação. Será tarefa da Escola proporcionar aos alunos conhecimentos e oportunidades para que eles possam viver, conviver e trabalhar, dando sentido às suas vidas. E hoje em dia, não podemos alcançar estes objectivos simplesmente pela óptica de uma educação para o trabalho, mas paralelamente por uma de educação para o lazer.

Para Requixa (1979, p.21), "a educação é hoje entendida como o grande veículo para o desenvolvimento, e o lazer, um excelente e suave instrumento para impulsionar o indivíduo a desenvolver-se, a aperfeiçoar-se, a ampliar os seus interesses e a sua esfera de responsabilidades". O mesmo autor (1980, p.72) sugere-nos um duplo aspecto educativo do lazer:

A relação existente entre lazer e educação parece não causar qualquer inquietude. Requixa (1980) defende que nada seria mais adequado que considerar a importância do aproveitamento das ocupações de lazer como instrumentos auxiliares da educação. Argumenta que o indivíduo, ao participar em actividades de lazer, desenvolve-se quer individualmente, quer socialmente, condições estas indispensáveis para garantir o seu bem-estar e participação mais activa no atendimento de necessidades e aspirações de ordem individual, familiar, cultural e comunitária.

Por outro lado, a educação para o lazer pode ter um efeito significativo na participação em actividades de lazer e na satisfação de vida (Kanters e col., 1994 cit. por Mota, 1997).

Mas o termo educação para o lazer acarreta diversas conotações. Para alguns, significa transmitir informação relacionada com o lazer através do sistema educacional. Tradicionalmente, a educação para o lazer tem sido vista como um meio de transmissão de conhecimentos e habilidades para o lazer, através da oportunidade de participação em programas de recreação, bem como em programas pós-escolares (Mundy, 1976).

A educação para o lazer, ou a educação para o tempo livre, para sermos mais abrangentes, tem como objectivo formar o indivíduo para que viva o seu tempo disponível da forma mais positiva, sendo um processo de desenvolvimento total através do qual um indivíduo amplia o conhecimento de si próprio, do lazer e das relações do lazer com a vida e com o tecido social. Por tal, deve ser considerada como um processo integral da vida diária da escola, no sentido de que é necessário ensinar o lazer activo.

Em 1985, as escolas secundárias de New Brunswick (Canadá) adoptaram um curso de 50' por semana, denominado "Lifetime Fitness and Physical Recreation Activities" (Standeven, 1987). Este programa teve como objectivo principal desenvolver as habilidades motoras dos níveis um a seis (dos 5 aos 12 anos de idade), e a aptidão física, ginástica, jogos de equipa, dança e educação para a saúde, dos níveis sete a nove (dos 12 aos 15 anos). O seu objectivo principal era o de proporcionar aos estudantes conhecimentos sobre a relação entre a sua saúde e actividade física e introduzi-los em diversas actividades físicas de recreação, garantindo-lhes a capacidade de as escolher após o termo da escola secundária (Standeven, 1987).

Martin e Mason (1987) assinalam que a educação para o lazer deve envolver várias organizações educativas, desempenhando as instituições de educação formal um papel cada vez mais activo nesta área. Estes autores (1987) também defendem a necessidade de toda a comunidade se comprometer na educação dos jovens, devendo existir mais interacção entre a Escola e aquela.

Para Teeters (1992), o sistema escolar pode ser um meio através do qual os indivíduos podem, em segurança, autotestarem-se, explorar, aprender a correr riscos e jogar sem fracassar, descobrir e ter prazer em aprender.

Dar conta deste potencial, no entanto, requer uma transformação nas práticas educacionais para que venham a ser reconhecidos os valores do lazer, dotando os alunos de instrumentos e conhecimentos necessários para que possam organizar a sua própria vida, tanto do ponto de vista laboral, como do aproveitamento do seu tempo livre.

Várias pesquisas demonstraram que as actividades de lazer no contexto escolar facultam, entre outros aspectos, o bem-estar psicológico e o desenvolvimento pessoal dos indivíduos que nelas participam (Driver e col., 1991 cit. por Beauregard e Ouellet, 1995).

Num excelente artigo de revisão acerca da ocupação dos tempos livres por parte dos estudantes, Beauregard e Ouellet (1995) lembram que, no que diz respeito às actividades de complemento curricular, as primeiras pesquisas foram iniciadas em reacção aos trabalhos de Coleman (1959; 1961), que alegava que a participação neste tipo de actividades constituía um entrave ao êxito académico dos estudantes. As conclusões de Coleman inscreveram-se numa abordagem dita "académica" (Beauregard e Ouellet, 1995, p.376), que concebia a escola como um meio de transmissão do saber formal e onde o primeiro objectivo era o sucesso escolar. Nessa perspectiva, as actividades de complemento curricular tinham por objectivo principal ocupar os tempos livres dos estudantes, antes de procurar o prazer nessas actividades. Em contrapartida, uma segunda abordagem dita "desenvolvimentalista" (Holland e Andre, 1987; Marsh, 1992 cit. por Beauregard e Ouellet, 1995, p.376) assume que a escola deve favorecer o desenvolvimento integral dos estudantes. Os adeptos desta abordagem viram-se obrigados a justificar a importância das actividades de complemento curricular como meio educativo complementar das actividades tradicionais de ensino.

Um estudo realizado nos Estados Unidos da América por Schaffer e Armer, em 1968 (Holland e Andre, 1987 cit. por Beauregard e Ouellet, 1995) tentou identificar a relação entre o rendimento escolar e a participação dos alunos em actividades de complemento curricular. As conclusões revelaram que os alunos-atletas do sexo masculino que participavam em actividades desportivas alcançavam melhores resultados escolares do que os seus congéneres não participantes.

A literatura (Holland e Andre, 1987 cit. por Beauregard e Ouellet, 1995) sugere igualmente que o sexo do participante, o tipo de actividade de complemento curricular praticada, o grau de implicação na actividade e a dimensão da escola, podem conduzir a variações importantes ao nível da auto-estima, observada junto dos participantes nas actividades de complemento curricular.

Marsh (1992), citado por Beauregard e Ouellet (1995), sugeriu que as actividades de complemento curricular, mesmo as que não estão associadas de forma evidente ao rendimento académico, levam a um aumento do interesse do aluno face à escola e aos valores da escola, que conduz indirectamente a um melhor rendimento académico.

Uma realidade mais próxima da nossa é-nos apresentada por um estudo realizado na Galiza sobre o tempo livre dos jovens (Aza, 1992). Este estudo pretendia analisar as necessidades e expectativas daqueles, comparando-as com a oferta das escolas e outras instituições formativas, bem como a relação entre o tempo livre e o rendimento escolar. As conclusões desta investigação apontam para a existência de diferenças significativas entre o que os jovens fazem durante o tempo livre fora da escola e o tipo de actividade em que participam nos centros escolares. No que se refere à relação entre as classificações escolares e a prática desportiva dos estudantes no seu tempo livre, comprovou-se que existe uma relação positiva.

De facto, a literatura parece evidenciar que a participação em actividades de complemento curricular está associada a uma percepção positiva de si próprio e do meio escolar, ao elevado nível de motivação pela escola, ao baixo nível de absentismo escolar, bem como a resultados académicos prósperos.

Sendo assim, a escola não pode alienar-se, por um lado, dos tempos livres dos alunos, e por outro, das actividades de complemento curricular, que poderão ser uma excelente alternativa a esses tempos desocupados de actividades curriculares. Esta preocupação, que deverá ser concomitantemente um objectivo da escola (Bento, 1995), deverá ter em conta três preocupações fundamentais (Mota, 1997):

Em resumo, gostaríamos de ver a Escola cada vez mais próxima da vida do aluno para que o aluno sinta a necessidade de integrar a Escola na sua vida. Este desígnio poderá ser alcançado se entendermos as actividades físicas de complemento curricular como algo que propícia a liberdade - já que são facultativas – e ao mesmo tempo que formam e educam para a Liberdade.

 

bibliografia

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* Assistente do 2º Triénio da Área de Educação Física da ESEV