PROCURA DE FORMAÇÃO DE NÍVEL SUPERIOR

NO CONCELHO DE VISEU

ALFREDO SIMÕES

Professor Adjunto da ESTV

DULCE SANTOS

Equip. a Assistente do 1º Triénio

JOAQUIM ANTUNES

Equip. a Professor Adjunto da ESTV

JOSÉ LUÍS ABRANTES

Equip. a Assistente do 2º Triénio da ESTV

1. INTRODUÇÃO

As escolhas vocacionais dos alunos, após a escolaridade obrigatória, encaminham-se, cada vez mais, para a formação de nível superior. As instituições que oferecem esta formação têm hoje um papel determinante a nível global, dado que o aumento das habilitações escolares/académicas da população constitui um dos principais indicadores de desenvolvimento humano e, portanto, de desenvolvimento global sustentado (Murteira, 1993). A nível local, essas instituições conseguem fixar nas suas regiões recursos humanos qualificados os quais se constituem como elementos promotores do desenvolvimento económico e social.

Nesta óptica, é necessário que as instituições de ensino saibam gerir as suas ofertas de áreas de formação, respondendo às necessidades globais e locais de médio e longo prazo e comuniquem às populações, especialmente aos grupos que intervêm directa ou indirectamente na tomada de decisão vocacional, estas ofertas com o objectivo de lhes serem reconhecidas características de qualidade e validade nos mercados de trabalho.

Os modelos psicológicos de orientação vocacional têm um elemento comum na sua imensa diversidade conceptual. A informação disponível deve ser acessível, rica, variada e reflectora de múltiplas perspectivas e ópticas de análise. Nesta óptica de desenvolvimento, a massa de dados organizada deve incluir elementos como a viabilidade das unidades de formação a ministrar e o prosseguimento de carreiras profissionais que lhe estão associadas, bem como integrar elementos relacionados com os gostos e interesses individuais. Contudo, hoje não se pode dar primazia a uma óptica sobre a outra, face a problemas actuais como são os da integração de jovens no mercado de trabalho e o desemprego associado a profissões que têm como base algumas áreas científicas.

Dado que o processo de escolha de formação constitui um sistema dinâmico entre o indivíduo (ou o grupo) e as instituições e, se existem novos critérios de escolha que estão a ser incluídos neste processo, as instituições de ensino não podem assumir uma postura estática. Os centros de ensino superior, ao desenvolverem processos de comunicação com o seu meio envolvente e ao gerirem-se por objectivos globais e locais na sua gestão, transcendem com frequência as suas próprias metas. As organizações educativas estão a assumir o seu papel no desenvolvimento económico e social e a enriquecer a informação e os processos de decisão dos indivíduos. A sua postura corresponde a uma política empresarial centrada no mercado e nos clientes e reflecte um movimento de mudança e inovação para responder ás exigências sociais.

O estudo realizado tem, portanto, diversos objectivos, numa óptica de relacionamento dinâmico da instituição com o seu meio envolvente:

  • analisar o grau de notoriedade das instituições de ensino superior do concelho de Viseu;
  • conhecer as intenções dos estudantes em relação ao abandono ou prosseguimento dos estudos, após o 12º ano;
  • conhecer as tendências de escolha dos alunos ao nível da localização das escolas de ensino superior e das respectivas áreas científicas e técnicas;
  • explorar os interesses dos alunos pelas áreas científicas e técnicas oferecidas;
  • descobrir interesses potenciais em áreas não existentes.

2. METODOLOGIA

A metodologia seguida baseou-se na elaboração de um inquérito individual aos alunos que frequentavam o 12.º ano em escolas secundárias e profissionais do concelho de Viseu. Os questionários foram respondidos nas diferentes salas de aula, sendo o seu preenchimento coordenado pelo professor da respectiva disciplina.

A amostra considerada foi constituída por 933 alunos (mais de 65% da população), repartida por 776 indivíduos (83,2%) das escolas secundárias e 157 (16,8%) estudantes das escolas profissionais. O nível de erro considerado foi de ± 2,07%.

O trabalho de campo decorreu no mês de Maio de 1998 e contou com a colaboração dos alunos do 2.º ano do Curso de Gestão Comercial e da Produção, da Escola Superior de Tecnologia de Viseu. A análise estatística foi realizada com o programa informático de estatística SPSS, versão 8.0.

A análise do estudo foi desenvolvida, em primeiro lugar, através da caracterização dos alunos em relação às variáveis demográficas, escola que frequentavam, regime de ensino e agrupamento científico. Numa segunda parte, foram analisadas as perspectivas futuras desses estudantes, após a conclusão do 12.º ano de escolaridade, em relação à opção de continuar a sua vida escolar ou ingressar no mundo do trabalho e, no caso de continuarem os estudos, quais as opções pretendidas ao nível de cursos e regiões. Numa terceira parte, foram analisados os conhecimentos dos alunos em relação às instituições de ensino superior existentes em Viseu e aos cursos que nelas se leccionam. Foi ainda observado, nesta parte, o grau de interesse por parte desses estudantes, relativamente ao funcionamento de determinados cursos leccionados por aquelas instituições, ou outros, que possam vir a incluir-se na oferta de formação do ensino superior da cidade.

É em relação às duas últimas partes que se vai apresentar um pequeno resumo dos resultados obtidos, bem como as principais conclusões daí decorrentes.

 

 

3. PERSPECTIVAS DOS ALUNOS APÓS CONCLUSÃO DO 12.º ANO

O desenvolvimento deste tema teve por base a divisão da amostra em duas partes: uma, constituída pelos alunos que não pretendem continuar a estudar após a conclusão do 12.º ano; outra, constituída pelos alunos que têm como objectivo prosseguir os seus estudos, ao nível de um curso superior.

3.1 - Decisão pelo não prosseguimento dos estudos

Pretendeu-se saber se os alunos, após concluírem o 12.º ano, desejavam prosseguir os seus estudos para o nível superior. Verificou-se que 81,8% deles pretendiam continuar os estudos, contra 18,2% que afirmaram o contrário (ver quadro 1). Assinale-se, no entanto, o facto de a maior parte dos alunos que não pretende prosseguir esses estudos ser proveniente de escolas profissionais. De facto, 54,8% dos estudantes manifestaram aí essa vontade, enquanto nas Escolas Secundárias apenas 10,8% não desejam continuar a estudar no ensino superior.

 

Quadro 1

Percentagem de alunos que não pretendem prosseguir os estudos,

segundo o tipo de Escola que frequentam

 

Escola

Número de inquiridos

% de alunos que não pretendem prosseguir os estudos

Escola Secundária Alves Martins

Escola Secundária Emídio Navarro

Escola Secundária de Viriato

Escola Profissional ARCE

Escola Profissional de Torredeita

294

279

203

77

80

2,4%

17,9%

12,8%

54,5%

56,3%

Total

933

18,2%

Fonte: Inquérito aos alunos do 12.º ano, Maio de 98.

Efectuando a análise apenas em relação aos alunos das escolas secundárias que não pretendem prosseguir os estudos, verifica-se uma discrepância acentuada entre o número de indivíduos da Escola Secundária Alves Martins (2,4%) e os das escolas secundárias Emídio Navarro (17,9%) e da Viriato (12,8%).

O agrupamento de ensino onde se manifesta uma maior preponderância para o não prosseguimento dos estudos regista-se no agrupamento 3 - Económico-Social, com 25,2% dos alunos, seguido de 9,1% para o agrupamento 4 – Humanidades, 3,8% para o agrupamento 1 – Científico-Natural e 3,4% para o agrupamento 2 – Artes (ver quadro 2). A Escola Secundária Emídio Navarro é a que apresenta uma maior frequência de alunos no agrupamento 3 (34%) contra, por exemplo, 13,9% na Escola Secundária Alves Martins. Poderá esta circunstância justificar o desejo de abandono do sistema escolar no pressuposto de que o Agrupamento 3 possibilita, a quem o frequenta, instrumentos de inserção no mercado de trabalho?

 

Quadro 2

Número de alunos que não pretendem prosseguir os estudos, segundo o tipo

de escola que frequentam e o agrupamento de ensino

 

E.S. Alves Martins

E. S. Emídio Navarro

E.S. Viriato

Total

 

N.º

%

N.º

%

N.º

%

N.º

%

Ag. 1 – Cient. – Natural

Ag. 2 – Artes

Ag. 3 – Econ. Social

Ag. 4 – Humanidades

4

1

-

2

1,09

1,7

0,0

1,1

4

-

32

-

1,09

0,0

23,0

0,0

6

1

3

14

1,6

1,7

2,1

8,0

14

2

35

16

3,8

3,4

25,2

9,1

Fonte: Inquérito aos alunos do 12.º ano, Maio de 98.

Outra razão que pode justificar essa diferença acentuada é o facto de uma maior percentagem de alunos que frequentam as escolas secundárias Emídio Navarro e Viriato serem originários de freguesias mais afastadas da cidade de Viseu(1), serem filhos de pessoas com baixos níveis de instrução (ver quadro 3) e pertencerem a famílias com profissões associadas a menores rendimentos que, como iremos ver de seguida, influenciam a decisão no prosseguimento dos estudos para nível superior.

 

 

 

 

Quadro 3

Caracterização dos alunos das escolas secundárias segundo a profissão

e nível de habilitação dos pais

 

Características

E.S. Alves Martins

E. S. Emídio Navarro

E. S. Viriato

N.º

%

N.º

%

N.º

%

Profissão do Pai:

. Prof. Liberal/Q. Superior/ Emp. Administ.

. Operário/ Emp. Comercial

. Pensionista/ Reformado/ Desempregado

. Empresário

 

93

46

12

43

 

47.9

23.7

6.1

22.1

 

52

51

40

37

 

28.8

28.3

22.2

20.5

 

26

45

24

43

 

28.8

32.6

17.4

31.1

Profissão da mãe:

. Prof.Liberal/Q.Superior/Emp. Administrat.

. Operário/ Emp. Comercial

. Pensionista/ Ref./ Desempreg./ Doméstica

. Empresário

. Outra

 

65

33

82

7

68

 

25.5

12.9

32.1

2.7

26.6

 

27

21

114

17

39

 

11.1

8.6

57.3

6.9

15.9

 

29

19

108

10

30

 

14.8

9.6

55.1

5.1

15.3

Habilitações do pai:

. Básico

. Secundário

. Superior

 

104

90

86

 

37.1

32.1

30.8

 

168

58

28

 

66.1

22.8

11.1

 

132

33

18

 

72.1

18.0

9.9

Habilitações da mãe:

. Básico

. Secundário

. Superior

 

110

81

86

 

39.7

29.2

31.1

 

177

41

36

 

69.7

16.1

14.2

 

137

34

24

 

70.2

17.4

12.4

Fonte: Inquérito aos alunos do 12.º ano, Maio de 98.

A análise dos resultados permitem-nos verificar que os alunos que indicaram não pretender prosseguir os estudos são, maioritariamente, originários de famílias em que o pai e/ou mãe são operários ou empregados administrativos e do comércio, desempregados, reformados ou doméstica.

Também as habilitações do pai e da mãe são influentes no prosseguimento dos estudos. Assim, os alunos que não pretendem ingressar no ensino superior são, principalmente, de famílias em que as habilitações académicas dos pais são mais baixas. Cerca de 25% dos alunos cujas habilitações do pai e/ou mãe é o ensino básico, não pretendem prosseguir os estudos, contra cerca de 4% dos alunos cujos pais possuem como habilitação o ensino superior.

Analisou-se, ainda, aquela decisão pelo não prosseguimento dos estudos em relação à área de residência. Evidencia-se uma importância crescente daqueles que não desejam prosseguir os estudos, à medida que nos afastamos da cidade de Viseu em direcção às restantes freguesias do concelho. Com efeito, dos alunos que residem na cidade, apenas 1 em 10 afirma querer desistir dos estudos, enquanto nas freguesias mais afastadas cerca de um terço manifestou essa intenção.

A análise dos resultados permitem-nos também verificar que são os alunos mais velhos, de 19 ou mais anos, aqueles que manifestaram maior vontade em não prosseguir os estudos – 32,6%, contra apenas 7,5% dos alunos do escalão inferior (17 aos 18 anos).

 

3.2 – Decisão pelo prosseguimento dos estudos

Tal como foi referido anteriormente, a grande maioria dos alunos que frequentavam o 12.º ano pretende continuar os seus estudos ao nível do ensino superior. As áreas de formação pretendidas e as localidades onde desejam realizar esses cursos são os mais variados possíveis.

Pretendeu-se também conhecer qual a preferência dos alunos para o prosseguimento dos seus estudos, por grandes áreas de formação. Verificou-se, das áreas apresentadas no questionário, que a mais pretendida é a da Saúde (21,9%), logo seguida das Engenharias (21,3%), Línguas (10,6%), Gestão (9,5%) e Desporto (6,6%), conforme apresentado no quadro 4.

 

 

 

Quadro 4

Área de formação pretendida pelos alunos

Área de formação

Frequências

Percentagem

Percentagem

Válida

Artes

Gestão

Desporto

Direito

Economia

Engenharias

Saúde

História/Geografia

Línguas

Outra

Não respostas

36

71

49

34

31

159

163

19

79

104

18

4,7

9,3

6,4

4,5

4,1

10,8

21,4

2,5

10,4

13,6

2,4

4,8

9,5

6,6

4,6

4,2

21,3

21,9

2,6

10,6

14,0

-

Total

763

100,0

100,0

Fonte: Inquérito aos alunos do 12.º ano, Maio de 98.

 

Desejou-se, de seguida, conhecer um conjunto de informações relativamente ao nível da formação e das instituições desejadas. Verificou-se que 83,8% dos alunos procuram uma formação superior ao nível da licenciatura e apenas 16,2% ao nível de bacharelato. A eleição da licenciatura é preferencialmente realizada pelos alunos do grupo etário dos 17-18 anos (67,5%) enquanto para o nível de bacharelato a preferência é repartida pelo grupo etário dos 17-18 anos (50%) e pelo grupo dos 19 ou mais anos (50%).

Se efectuarmos a análise em relação às profissões dos pais, observa-se que no caso dos alunos que preferem o bacharelato, os seus pais têm, maioritariamente, a profissão de Operário (21,8%), Empresário (19,2%) e Pensionista/Reformado (17,9%).

Ao analisarmos as habilitações dos pais dos alunos que indicaram como nível de formação desejado o bacharelato, verifica-se que a maior parte possui apenas o ensino básico, ou seja, 71,6% dos pais e 75,5% das mães dos alunos inquiridos. Os alunos cujos pais possuem como habilitações literárias o nível superior tendem a optar pela licenciatura, cerca de 92,5%, contra apenas 7,5% que indicaram preferir o bacharelato.

 

Em relação à freguesia de residência, os alunos provenientes das freguesias da cidade de Viseu (Coração de Jesus, Santa Maria e S. José) preferem, maioritariamente, o grau de licenciatura (88,6%) em relação ao grau de bacharelato (11,4%). O mesmo já não se verifica em relação aos alunos provenientes de outras freguesias mais afastadas da cidade, em que 24,2% preferem como formação superior o nível de bacharelato.

 

Os alunos que desejam ingressar em Universidades para prosseguirem os seus estudos superiores são numa percentagem bastante superior aos daqueles que preferem os Politécnicos, cerca de 76,5% contra 23,5% respectivamente (Gráfico 1).

 

Gráfico 1

Tipo de instituição pretendida

Fonte: Inquérito aos alunos do 12.º ano, Maio de 98.

A percentagem mais elevada dos alunos que indicaram preferirem as Universidades são residentes nas freguesias limítrofes à cidade de Viseu, ou seja, 90% dos inquiridos que residem nestas freguesias desejam as Universidades, e apenas 10% indicaram preferirem o Politécnico. Em relação aos alunos residentes nas freguesias da cidade de Viseu, a grande maioria também prefere as Universidades (83,8%) em relação aos Politécnicos (16,2%). Ao analisarem-se os alunos residentes nas freguesias mais afastadas da cidade de Viseu, observa-se uma menor percentagem dos que preferem as Universidades, quando comparados com os que residem nas outras áreas geográficas, ou seja, 75,6% preferem aquele tipo de instituição para completar os seus estudos a nível superior, contra 25,4% que indicaram preferir os Politécnicos.

 

Ao efectuarmos uma análise entre as áreas de formação pretendida e os agrupamentos de ensino de formação geral, verifica-se, conforme se descreve no quadro 5, que em relação aos alunos provenientes das áreas de formação geral e do agrupamento 1 - Científico-Natural, 46,1% pretendem como formação superior a área da Saúde, 30% as Engenharias e 13,4% a área de Desporto. Em relação a outras áreas desejadas por estes alunos, destaca-se a área da Matemática com 1,9%, seguida de Psicologia com 0,8% e Química com 0,5%.

 

Quadro 5

Relação entre a área de formação pretendida e os agrupamentos de ensino de formação geral

 

Área de formação

Agrupamentos – Formação-Geral

Pretendida

Agrupam. 1

Científico-

-Natural

Agrupam.2

Artes

Agrupam. 3

Económico-

-Social

Agrupam. 4

Humanidades

Total

 

Artes

Gestão

Desporto

Direito

Economia

Engenharias

Saúde

História/Geografia

Línguas

Outras

 

2

5

46

1

0

103

158

0

1

27

 

28

2

0

0

1

21

0

0

0

4

 

2

38

0

4

29

2

1

5

3

18

 

1

0

1

29

0

1

1

14

73

32

 

33

45

47

34

30

127

160

19

77

81

Total

343

56

102

152

653

Fonte: Inquérito aos alunos do 12.º ano, Maio de 98.

 

Na análise seguinte, pretendeu-se saber a ordem de preferência, em relação às regiões onde os alunos desejam efectuar a sua candidatura ao ensino superior. Em relação à região que é preferida em 1.º lugar, o maior número de preferências incide sobre Viseu, seguida de Coimbra, Porto, Lisboa e Aveiro (ver quadro 6).

Quadro 6

Regiões preferidas em 1.º lugar na candidatura ao ensino superior

Regiões

Frequências

Percentagem

Percentagem

válida

 

Aveiro

Braga

Coimbra

Covilhã

Guarda

Lisboa

Porto

Vila Real

Viseu

Outra

Não respostas

 

71

6

170

7

8

81

118

19

266

9

8

 

9,3

0,8

22,3

0,9

1,0

10,6

15,5

2,5

34,9

1,2

1,0

 

9,4

0,8

22,6

0,9

1,0

10,7

15,7

2,5

35,2

1,2

-

Total

763

100,0

100,0

Fonte: Inquérito aos alunos do 12.º ano, Maio de 98.

Vimos, anteriormente, quais as áreas de formação superior pretendidas pelos alunos do 12.º ano. Nesta situação, desejámos saber quais os cursos, tipo de instituição e localidade que, efectivamente, os alunos pretendem eleger no momento de efectuarem a sua candidatura ao ensino superior. Assim, pretendeu-se que os alunos indicassem as seis opções seleccionadas, simulando a candidatura ao ensino superior.

 

Salientam-se as preferências pelos cursos ligados à área da saúde. Se de facto somarmos Enfermagem com Medicina, obtemos 112 alunos (16,2%) a candidatarem-se a esta área, seguida de Desporto/Educação Física com 43 candidaturas (6,2%), Engenharia Civil com 39 candidaturas (5,7%) e só depois Direito, Gestão de Empresas e Economia. Registe-se, por outro lado, que o conjunto dos cursos de Engenharia é preferido, prioritariamente, por 89 alunos, isto é, cerca de 12% do total (ver quadro 7).

Quadro 7

Cursos mais pretendidos na candidatura ao ensino superior, colocados em 1.ª opção

Cursos

Frequências

Percentagem

Percentagem

Válida

Arquitectura

Arte e Design

Belas Artes

Biologia

Bioquímica

Comunicação Social

Contabilidade e Administração

Desporto

Direito

Economia

Educação Física

Educador Infância

Electrónica

Informática

Engenharia Civil

Engenharia do Ambiente

Enfermagem

Farmácia

Fisioterapia

Gestão/Gestão de Empresas

Inglês/Alemão

Inglês/Português

Matemática

Medicina

Psicologia

Relações Públicas

Sociologia

Turismo

Outros

Não respostas

15

4

4

19

6

14

21

24

34

30

19

13

24

16

39

10

67

6

10

33

10

19

12

45

13

6

4

7

166

73

2,0

0,5

0,5

2,5

0,8

1,8

2,8

3,1

4,5

3,9

2,5

1,7

3,1

2,1

5,1

1,3

8,8

0,8

1,3

4,3

1,3

2,5

1,6

5,9

1,7

0,8

0,5

0,9

21,8

9,6

2,2

0,6

0,6

2,8

0,9

2,0

3,0

3,5

4,9

4,3

2,8

1,9

3,5

2,3

5,7

1,4

9,7

0,9

1,4

4,8

1,4

2,8

1,7

6,5

1,9

0,9

0,6

1,0

24,1

-

Total

763

100,0

100,0

Fonte: Inquérito aos alunos do 12.º ano, Maio de 98.

 

4. NOTORIEDADE DAS INSTITUIÇÕES DE ENSINO SUPERIOR DE VISEU

 

Foi pedido aos alunos que indicassem os nomes de três instituições de ensino superior de Viseu, que fossem do seu conhecimento. Desta forma, sem se apresentar qualquer listagem, pretendeu-se que os inquiridos fizessem apelo ao seu conhecimento, medindo-se, assim, a notoriedade espontânea das referidas instituições.

 

Os resultados revelam que a instituição mais conhecida e que aparece mais frequentemente em 1.º lugar, ou seja, em termos de "top of mind", é o Instituto Politécnico com 35,8%, seguido da Universidade Católica com 24,2%. Salienta-se o facto de a Escola Superior de Educação, que faz parte do Instituto Politécnico, ser referida por 16,4%. Portanto, se somarmos o número de alunos que indicaram conhecer o Instituto Politécnico com a Escola Superior de Educação mais a Escola Superior de Tecnologia, a notoriedade do Instituto Politécnico passa para 52,5% em termos de "top of Mind".

 

A notoriedade total, isto é, o número total de alunos que indicaram conhecer cada Escola é apresentada no quadro 8. Desta forma, o Instituto Politécnico foi referido por 684 indivíduos (89,6%), ou seja, por quase todos aqueles que pretendem continuar os seus estudos ao nível superior. Se a estes valores somarmos os alunos que indicaram a Escola Superior de Educação e a Escola Superior de Tecnologia, também pertencentes ao Instituto Politécnico, daria um número superior ao de alunos inquiridos, 960 contra 763 inquiridos, o que leva a afirmar que alguns alunos não têm conhecimento, ou têm-no de forma pouco precisa, de que o Instituto Politécnico é constituído pela Escola Superior de Educação, pela Escola Superior de Tecnologia e também pela Escola Superior Agrária.

 

Quadro 8

Número de alunos que indicaram conhecer as instituições de Ensino Superior em Viseu

Área de formação

Frequências

Percentagem

Instituto Politécnico

Universidade Católica

Escola de Enfermagem

Instituto Piaget

Escola Superior de Tecnologia

Escola Superior de Educação

684

549

158

455

16

260

89,6

71,9

20,7

59,6

0,2

34,1

Fonte: Inquérito aos alunos do 12.º ano, Maio de 98.

Analisou-se, ainda, o grau de interesse demonstrado pelos entrevistados por alguns cursos leccionados, ou que pudessem vir a ser leccionados por instituições de ensino superior em Viseu. O grau de interesse pelos cursos apresentados foi avaliado, através de uma escala de Likert de 5 pontos, desde a opção Todo o interesse até Sem qualquer interesse (ver quadro 9).

 

Quadro 9

Interesse, por parte dos alunos do 12.º ano, pela frequência de cursos oferecidos,

ou a oferecer, por instituições de ensino superior em Viseu

 

Cursos

Todo o interesse

(1)

Algum

Interesse

(2)

Pouco

Interesse

(3)

Sem qualquer

Interesse

(4)

 

N.º

%

N.º

%

N.º

%

N.º

%

Arte e Design

Contabilidade

Curso Superior de Comércio

Curso Superior de Secretariado

Curso Superior de Turismo

Enfermagem

Engenharia do Ambiente

Engenharia Civil

Engenharia Electrotécnica

Engenharia de Madeiras

Eng. Mecânica e G. Industrial

Eng. de Sistemas e Informática

Formação de Professores

Gestão de Empresas

Marketing

Matemática Aplicada à Gestão

Medicina

Publicidade

Relações Públicas

51

65

16

41

82

151

96

92

65

18

37

93

174

120

130

45

209

156

155 

7,1

9,0

2,2

5,7

11,4

21,1

13,4

12,8

9,0

2,5

5,2

13,0

23,9

16,6

18,1

6,3

28,9

21,5

21,5

106

129

118

158

212

140

226

129

110

58

99

239

207

196

204

118

113

269

211

14,7

17,8

16,5

22,0

29,4

19,5

31,5

17,9

15,3

8,0

13,9

33,4

28,4

27,1

28,4

16,6

15,7

37,0

29,3

142

157

211

200

176

145

168

151

145

160

158

154

159

159

151

137

132

140

151

19,7

21,7

29,5

27,9

23,1

20,2

23,4

21,0

20,1

22,2

22,3

21,5

21,8

22,0

21,0

19,3

18,3

19,3

21,0

421

374

370

319

249

281

226

348

401

485

416

228

188

249

234

411

268

162

203

58,5

51,6

51,7

44,4

32,6

39,2

31,5

48,3

55,6

67,3

58,6

31,8

25,8

34,4

32,5

57,8

37,1

22,3

28,2

 

Fonte: Inquérito aos alunos do 12.º ano, Maio de 98.

De entre aqueles cursos, os alunos declararam que teriam todo o interesse e algum interesse os cursos de Publicidade (58,5%), Formação de professores (52,3%), Marketing (46,5%), Engenharia e Sistemas Informáticos (46,4%), Medicina (44,6%), Gestão de Empresas (43,6%), Engenharia do Ambiente (40,7%), Curso Superior de Turismo (40,7%) e Enfermagem (40,6%). Da classificação de todo o interesse, o curso que aparece em primeiro lugar é o de Medicina com 28,9%.

 

5. CONCLUSÕES

As conclusões mais significativas prendem-se com o elevado número de alunos que pretendem uma formação de nível superior, o que comprova a recente tendência numa aposta nos cursos superiores e nas carreiras /profissões que lhes estão associadas.

Segundo estudos recentes, variáveis como o sucesso escolar, nível sócio-económico, etc., estão relacionados com esta opção. Se os grupos sociais e, mais concretamente, os sistemas familiares são fortemente influentes na tomada de decisão, então as expectativas da família, quanto aos desempenhos escolares e profissão a seguir, poderão explicar esta relação. Os resultados apontam para uma relação clara entre a faixa etária de pertença e a decisão de prosseguimento dos estudos, sendo as faixas etárias dos 19 anos em diante as que mais optam pelo não prosseguimento dos estudos. Esta relação pode ser explicada pelo atraso escolar destes alunos, conducente a uma percepção própria, familiar e escolar de não competência para o prosseguimento de estudos.

Da mesma forma, os resultados apontam para uma forte relação entre os baixos níveis académicos dos progenitores, consequentemente profissões com menores rendimentos, e a decisão de não prossecução de estudos. Resultados semelhantes noutros estudos apontam para uma forte correlação entre estas variáveis, explicada pelo baixo investimento dos pais nos processos escolares dos filhos, descrédito da escola como forma de inserção no mercado de trabalho e, simultaneamente, pelas baixas expectativas quanto às competências académicas dos filhos.

O facto de as famílias com menores níveis de rendimentos investirem menos na escolaridade dos filhos, não pode ser explicada linearmente pela falta de recursos materiais, entendendo-se como um fenómeno complexo em que intervêm os impedimentos de carácter material, bem como as percepções sociais da escola e do sucesso académico.

Os impedimentos de carácter material parecem ser mais significativos na escolha da localização da instituição, dado que o mesmo grupo sócio-demográfico tende a optar pela região de Viseu, provavelmente como forma de evitar custos, bem como para usufruir da preferência regional.

De alguma forma, o percurso escolar anterior parece ser relevante na opção pelo prosseguimento de estudos, uma vez que é responsável pela percepção de competência. Se os alunos oriundos de meios sociais e familiares mais desfavorecidos tendem a não investir num projecto de formação superior, teremos que questionar o papel da Escola como promotora de democracia e igualdade de acesso à formação e ao trabalho. Estes e outros resultados tendem a apontar para uma múltipla causalidade, em relação à procura de formação, que pode ser explicada pelos sistemas de vida dos alunos: escola, família e meio social.

Se é claro que a formação de nível superior está relacionada com melhores níveis de vida, esta relação não é linear, havendo hoje áreas com elevados índices de desemprego ou emprego precário, bem como lacunas graves noutras áreas e em profissões de nível técnico intermédio. A procura de formação, por parte de alunos das escolas profissionais, reflecte a opção por um percurso diferente mas que pode ser igualmente viável. Não deixa de ser surpreendente o elevado número de alunos destas escolas que pretende formação de nível superior, após terem optado por um percurso claramente vocacionado para a inserção no mercado de trabalho.

O desconhecimento de cursos específicos e das instituições onde são leccionados a tão pouco tempo da tomada de decisão e da candidatura, por parte dos alunos que pretendem prosseguir os estudos, foi notório nos resultados. É singular que um tão grande investimento seja feito com bases tão vacilantes.

As escolhas de áreas reflectem ainda as opções ditas tradicionais e com reconhecimento social mais antigo. Aparentemente, as questões relacionadas com a inserção de bacharéis e licenciados no mercado de trabalho não são ainda devidamente equacionadas. É provável que esta tendência se reflicta também na tendência para escolher a Universidade em detrimento do Politécnico, este de implantação mais local e com menos tradição académica.

A atribuição de um grau de interesse mediano ou elevado a alguns cursos, por parte dos alunos, reflecte, provavelmente, o estatuto social das profissões que lhe estão associadas, sendo já claro o baixo grau de conhecimento do mercado de trabalho por parte desta população. Apesar disso, algumas áreas relacionadas com o desenvolvimento económico (empresarial e social) começam a evidenciar-se.

Sendo clara a complexidade dos factores sociais que intervêm na decisão, será da competência das instituições a informação e validação das suas ofertas, perante a população. A validação das ofertas de formação passará, então, por um desenvolvimento do papel social dos profissionais e pela exposição da atractividade das carreiras. Ainda que seja obrigatório ter em conta as preferências dos alunos, é de considerar, igualmente, que a valorização social de uma profissão é geralmente mais lenta que as mudança no mercado de trabalho, pelo que se exige às instituições uma atitude responsável e pedagógica para a cidadania.

 

Bibliografia

MURTEIRA, M. (1993), A economia em 24 lições, Ed. Presença.

SIMÕES, A.; ANTUNES, J.; ABRANTES, J. L. (1998), Procura de Formação de Nível Superior no Concelho de Viseu, Departamento de Gestão da Escola Superior de Tecnologia de Viseu.

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1 Verifica-se uma diferença muito significativa em relação à origem dos alunos, nas três escolas secundárias. A análise dos resultados permitem-nos de facto verificar que na Escola Secundária Alves Martins cerca de 46% dos alunos eram residentes nas freguesias da cidade de Viseu, contra apenas 33,7% na Escola Secundária Emídio Navarro e 13,8% na Escola Secundária de Viriato.

SUMÁRIO