CIDADE, CULTURA E POLÍTICA

ALFREDO SIMÕES

Professor Adjunto da ESTV

 

 

O processo de crescimento económico da Região de Viseu(1) ao longo das duas ou três últimas décadas apoiou-se em larga medida, no sector industrial. Considerando o peso que hoje tem na economia regional e tratando-se de um sector consolidado e perfeitamente integrado nas restantes actividades, pode afirmar-se que a Região continuará a crescer contando com o apoio seguro da indústria.

É necessário, porém, entender que a indústria, hoje e para o futuro, não se fará sem recursos humanos qualificados e sem serviços igualmente qualificados e de elevado valor acrescentado(2). Esta asserção conduz-nos de imediato a reflectir sobre o papel da cidade (no caso vertente, Viseu(3)), do centro urbano onde se localizam funções essenciais e se desenvolvem práticas sociais que influenciam as pessoas, as actividades (em particular as actividades económicas) e as sua múltiplas relações. Com efeito, não tendo esta Região uma tradição industrial e, por isso, não possuindo uma cultura técnica e empresarial arreigada, o crescimento do sector industrial exige um esforço maior de atracção e de formação em relação a quadros técnicos, a empreendedores dispostos a assumir riscos e a actividades conexas com a indústria, em particular no âmbito do sector dos serviços. É este, afinal, o papel que, no âmbito do território, cabe a Viseu enquanto espaço central e de aglomeração de pessoas e actividades. E quanto maior for a atractividade da urbe mais poderoso será o seu contributo para o crescimento industrial, elemento básico para o desenvolvimento de toda a Região.

Mas, se é verdade que o desenvolvimento da Beira Alta pressupõe o crescimento do produto social, não há dúvida que para isso acontecer não basta exercer o poder de atracção, é também necessário que se crie e se valorize a iniciativa interna(4). Uma sociedade não se desenvolve se não for capaz de deixar florescer, mais do que isso, se não for capaz de estimular a iniciativa das suas gentes, quer seja a iniciativa empresarial, geradora de riqueza material, quer seja a iniciativa no campo das ideias, resultante da discussão e do estudo, e geradora de dinamismo e de oportunidades de escolha social.

É pois o papel da cultura que está em causa. A Região necessita de assumir e projectar uma acção cultural positiva, de dinamismo e de modernidade. Não se confunda, porém, cultura com particularismos étnicos ou folclóricos. Pelo contrário, uma cultura aberta, não dogmática, serve as necessidades da acção colectiva da região e, simultaneamente, auxilia Viseu a competir num mundo em que as regras são ditadas pela concorrência e pelo livre-comércio. Falamos, por isso, numa cultura de inovação e de criatividade que se fundamente na identidade territorial e que sirva para maximizar o potencial de desenvolvimento da região "central beiroa".

Se a cultura é coesiva e nos "dá" uma linguagem comum, é então necessário que ela sirva uma ideia também comum, ou melhor, uma missão que todos assumamos colectiva e individualmente. É, afinal, o papel da política que reclamamos com o sentido da definição de uma liderança que gize estratégias ao serviço da missão de desenvolvimento económico e social da Região.

Cidade, Cultura e Política - três elementos, não independentes, determinantes para o futuro da Beira Alta. Como vai ser o desenvolvimento de cada um deles? Como se poderão inter-relacionar? A Região não se pode queixar de falta de instrumentos para o cumprimento do papel da cidade, da cultura e da política(5). Eles existem e chamam-se escolas, empresas, associações, hospitais, câmaras municipais, etc., etc.

Basta usá-los. Mas bem!

__________________

 

1 Não é de todo incorrecto identificá-la com a Região da Beira Alta (" a Região central beiroa ... o coração do organismo português", no dizer de Amorim Girão) constituida pelo planalto beirão e pelas encostas das serras que o circundam.

 

2 No quadro da União Europeia não parece fazer sentido que os sectores produtivos sujeitos à concorrência externa continuem a procurar na região mão de obra pouco qualificada e barata. A tendência não será seguramente essa, enquanto houver regiões no mundo onde essas características são dominantes.

 

3 E, por extensão, a rede urbana que tem desenvolvido com outros centros vizinhos.

 

4 Mais correcto será afirmar que uma região se tornará mais atractiva na razão directa da sua capacidade para crescer "por dentro", em resultado da sua força interior.

 

5 É óbvio que a política exige o exercício do poder (e a luta pela sua conquista). E este, o poder político, falta na região, pelo menos o que poderia ser exercido por órgãos regionais próprios e competentes. Todavia, malgrado esta insuficiência, o poder político não se esgota no exercício da autoridade por um órgão da administração. É mais vasto e também está contido nas diferentes formas como se manifesta a vontade das populações.

SUMÁRIO