DESCARTES' ERROR

Fernando Amaro

Ao nascer, o ser humano encontra-se totalmente indefeso, dependendo por inteiro da mãe (ou de quem a substitua). O se humano precisa de tempo para o desenvolvimento do seu cérebro. Durante esse tempo, há períodos críticos, que exigem um contacto físico entre a mãe e o bebé. Por exemplo, a ligação afectiva entre a mãe e o bebé será afectada se não houver contacto físico nos três primeiros dias. Pensa-se que nesses primeiros dias o bebé está mais alerta e mais capaz de responder do que nos dias posteriores.

Numa experiência célebre de Harry Harlow com macacos, ficou demonstrada a necessidade de estimulação, apoio e contacto precoces. Harlow deu a dois grupos de macacos duas espécies de mães substitutas: a um grupo deu uma mãe de arame; ao outro, uma de pano. Ambas proporcionavam leite, mas os bebés da mãe de arame manifestaram, em adultos, um comportamento bizarro: foram incapazes de se acasalar e de se relacionar com objectos estranhos ou novos; além disso, manifestaram características semelhantes à esquizofrenia.

Naturalmente que, mais ainda que os macacos, o ser humano precisa dessa estimulação amorosa, desse contacto que dá segurança e confiança. Se e quando a família falha (e nós sabemos que tantas falham e que não é só a família que falta nesse apoio à criança), poderá a escola ir a tempo de suprir essa falha?

O que aqui me proponho defender, a propósito da obra de Damásio, é que a escola deveria dar mais atenção ao aspecto afectivo, em vez de se preocupar apenas com o aspecto cognitivo. A escola deveria valorizar mais as emoções e sentimentos (a que associamos o coração), em vez de dar mais atenção ao raciocínio e à inteligência (a que associamos o cérebro e a mente, e que alguns, nesta era dos computadores, designam por hardware e software).

O Quociente de Inteligência (QI) dominou a teoria da aprendizagem e do desenvolvimento durante todo este século. No entanto, todos nós conhecemos alunos muito inteligentes que não são os melhores profissionais, nem os mais ricos, nem os mais bem sucedidos ou realizados na vida. Há pessoas de quem se gosta à primeira vista e há outras em quem nunca teremos confiança nenhuma. Há pessoas que fazem amigos facilmente e há outras que, embora muito inteligentes e com elevados graus académicos, não conseguem relacionar-se com ninguém.

A obra de António Damásio realça a importância das emoções na nossa vida. Nas experiências que descreve, verificamos que as pessoas que perderam a ligação entre a zona emocional do cérebro e a zona racional (o neocortex) continuavam a ser espertas e rápidas no seu raciocínio, mas perdiam a capacidade de se relacionarem com as outras pessoas. As suas vidas desfaziam-se, porque não se apercebiam dos sinais de perigo ou irritação nas outras pessoas, mostrando-se incapazes de tomar as decisões correctas. Estes estudos mostram-nos que não basta saber; é preciso sentir.

Recentemente (há cinco anos), um psicólogo da Universidade de Yale, Peter Salovey, e um professor da Universidade de New Hampshire, John Mayer, cunharam a ideia de Inteligência Emocional para descreverem qualidades como a compreensão dos seus próprios sentimentos, empatia pelos sentimentos dos outros e controle das suas próprias emoções, de maneira a melhorar a qualidade de vida. Esta noção de inteligência emocional tem uma nova sigla - QI -, se não ultrapassá-la, graças ao trabalho e à obra de António Damásio e a um livro recentemente publicado em Nova Iorque, por um jornalista cientifico do New York Times, e que tem precisamente o título de Emotional Inteligence.

Não há dúvida que o aspecto afectivo, emocional, sentimental, está com justiça a despertar o interesse da comunidade cientifica.

Quero terminar com uma nota de esperança, amorosa, chamando a vossa atenção para este casamento do prémio Nobel da Física, Stephen Hawking, com a sua enfermeira. Na verdade, a inteligência emocional ajuda-nos a vencer todas as barreiras.

SUMÁRIO