A Ligação da Escola ao Meio como Factor de Desenvolvimento - Uma Reflexão

 

ELIZABETH FERREIRA DA SILVA MATOS*

O desenvolvimento de uma região passa muito pela natureza da respectiva economia local. Neste sentido é importante que esta se desenvolva não apenas em resultado das decisões de localização de empresas dotadas de mobilidade, mas sobretudo pela intensificação das "interdependências industriais locais" no âmbito de um sistema gerador de economias de aglomeração. Este é um caminho longo que tem essencialmente duas fases, uma em que se constrói capacidade profissional e competência técnica, em que se assegura a manutenção das unidades produtivas, do volume de emprego, etc.. A seguinte corresponde ao seu aprofundamento, com a divisão do trabalho entre empresas e o desenvolvimento de novas funções numa lógica de integração produtiva. As economias de aglomeração desenvolvem-se não só pela densidade das interdependências sectoriais, mas também pelas características da mão-de-obra local (disponibilidade, competências e qualificações) e pelo ambiente favorável à circulação da informação que promovem uma certa aprendizagem colectiva.

O aprofundamento do sistema produtivo é indissociável da produção de inovação ao nível das várias funções empresariais. Acerca da ligação entre a inovação e o desenvolvimento local é importante colocar a seguinte questão:

- este objectivo atingir-se-á através de uma ruptura com as formas locais de organização do sistema produtivo, ou

- através de uma internalização construtiva, por parte dos agentes económicos locais, dos estímulos externos que veiculam a inovação?

Eu penso que numa região como aquela que é subsidiária da ESTV a melhor via é a segunda, pelas razões que passo a expor.

Tomando como referência as características do sector industrial do concelho de Viseu, chega-se à conclusão que o universo empresarial desta região tem uma geratriz profundamente endógena. Das empresas que surgiram a partir do fim da década de setenta naquele concelho, mais de metade são empresas cujos empresários são naturais do concelho, nele residente desde longa data e com actividade anterior no respectivo sector; mais de 2/3 dos empresários deste grupo adquiriram a sua formação via experiência e mais 3/4 dos mesmos são empresários por razões de progressão sócio-profissional. Enquanto esta matriz se mantiver, condicionará certamente a natureza do desenvolvimento local.

Por outro lado, a inovação, independentemente da sua maior ou menor componente tecnológica, tem associado um elemento fundamental, a "presença paralisante da incerteza". Este é um domínio em que pode ser determinante a qualidade do envolvimento do meio local na medida em que consiga desenvolver "um processo de aprendizagem colectiva" e funcionar ainda como "dispositivo de redução da incerteza". Neste último aspecto é necessário encontrar mecanismos que contribuam para o melhoramento de várias das funções essenciais à inovação nas empresas: a pesquisa e avaliação da informação; a descodificação de mensagens; a selecção de rotinas de decisão apropriadas e de controlo do comportamento de outros agentes económicos, etc.

Um dispositivo desta natureza, num contexto empresarial como o descrito, terá de ser necessariamente colectivo pelas características dos seus agentes. É por esta razão, assim como por outras que estão associadas à necessidade de negociação num contexto regional mais amplo, que eu acentuo a necessidade de reflectirmos sobre o domínio organizacional do desenvolvimento. É indispensável que o meio local crie os órgãos representativos dos interesses dos seus agentes, de modo a desenvolverem a necessária intermediação interna e externa nos vários domínios e também no domínio da inovação.

Penso que aqui a ESTV pode ter uma função importante, pela forma como 'cuidar' a sua relação com o meio. Até ao momento, tem sido desenvolvido, com sucesso, um ensino que corresponde às necessidades das empresas de uma organização produtiva que procura assegurar a sua estabilidade. Neste sentido, procura-se fornecer aos alunos os instrumentos que correspondam às suas expectativas e os habilitem ao desempenho das tarefas exigíveis pelo presente ou futuro posto de trabalho. Se aceitarmos que o desenvolvimento local passa pelo aprofundamento da referida organização, indissociado das necessidades de inovação, a ESTV como agente institucional de formação e de desenvolvimento deverá inserir-se nesse processo, agindo por antecipação, ou seja, aprofundando também o seu sistema de formação. Refiro-me concretamente à importância de suscitar nos alunos o interesse por matérias que, não correspondendo directamente às necessidades imediatas das empresas, os tornam o interface que estas necessitam no diálogo com a inovação ou com a investigação. Temos provas de que o produto final da ESTV dá uma resposta razoavelmente boa às carências das empresas desta região, é preciso, no entanto, acentuarmos o seu desempenho na resposta às necessidades potenciais das mesmas. Para isso precisamos de valorizar as valências que desenvolvam nos alunos, principal veículo da ligação Escola - Meio, a capacidade de se questionarem sobre o seu destino colectivo e de determinarem a sua acção na busca das possíveis soluções. Acredito que este espírito desenvolveria no meio local uma maior necessidade de cooperação, geradora de uma aprendizagem mais colectiva, uma maior circulação da informação e uma maior confiança nas relações interpessoais.

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* Professora Adjunta do Departamento de Gestão da ESTV

 

Referências Bibliográficas:

CAMAGNI, Robert (1991), Innovation Networks: Spatial Perspectives, Belhaven Press, London.

REIS, José (1992), Os Espaços da Indústria - a regulação económica e o desenvolvimento local em Portugal, Edições Afrontamento, Porto.

VÁZQUEZ-BARQUERO, António (1995), "A Evolução Recente da Política Regional - a experiência europeia", in Notas Económicas nº6, FEUC, Coimbra.

SUMÁRIO