O ENSINO SUPERIOR E O MERCADO DE TRABALHO

 

LUÍS FERNANDES RODRIGUES *

 

 

Este ensaio reproduz parte das opiniões expressas no artigo "Employment and Work of British and German Graduates", da autoria de John Brennan, Stina Lyon, Harald Schomburg e Ulrich Teichler (1) sobre a influência do ensino no percurso profissional dos diplomados. Foram tidos em conta outras abordagens à mesma problemática, como a de Christopher Jenks no seu livro "Inequality" (2) e a experiência pessoal do autor.

Na maior parte dos países industrializados, o crescimento e alargamento das iniciativas de ensino superior nas últimas duas décadas tem sido acompanhados por um aumento do interesse, tanto entre políticos como entre educadores, pela integração no mercado de trabalho dos estudantes após terem finalizado os seus cursos. Esta expansão do ensino superior tem mudado a concepção do que é o emprego "típico" ou "adequado" para um diplomado por uma instituição de ensino superior. Igualmente se têm alterado as expectativas dos estudantes, das suas famílias e dos educadores quanto às relações entre a educação superior e o mercado de trabalho. Entre as preocupações mais correntes podemos considerem as seguintes:

Por um lado, teme-se que uma proporção crescente de diplomados se veja obrigada a ocupar posições e a desempenhar tarefas não adequadas para pessoas com uma educação superior. Por outro, enquanto boas oportunidades de emprego subsistem para a maioria dos diplomados em campos relacionados com a ciência, engenharia e áreas de negócio dominadas pelo sector privado, as oportunidades de emprego para os diplomados em Humanidades, Ciências Sociais e áreas relacionadas com o sector público são bastante mais reduzidas.

Parece ainda haver uma crescente diversidade nas oportunidades de emprego para pessoas provenientes do mesmo tipo de cursos, isto é, parece importar cada vez mais onde se estuda do que o que se estuda, dando os empregadores cada vez mais atenção à cultura e competência gerais e às atitudes perante o trabalho e formas de estar em sociedade.

Brennan, Lyon, Schomburg e Teichler realizaram dois projectos de investigação, em meados e fins da década de 80, no Reino Unido e na Alemanha sobre as relações entre a educação superior e a integração com sucesso no mundo do trabalho. Os dois projectos compartilharam objectivos e métodos baseando-se em questionários distribuídos aos diplomados durante um determinado ano sobre características objectivas do tipo de emprego, rendimento ou incidência do desemprego e ainda sobre características mais subjectivas como a realização profissional, a adequação do tipo de ensino às tarefas desenvolvidas na vida profissional.

Comparando os resultados dos dois estudos, procurou-se tirar conclusões sobre as relações entre o ensino superior e os trajectos profissionais tendo em conta as diferenças no sistema de ensino dos dois países que são sintetizadas pelos autores da seguinte forma:

- As Universidades britânicas dão uma formação mais generalista enquanto que as Alemãs procuram sobretudo fornecer as bases de uma especialização profissional;

- No Reino Unido existe uma clara hierarquia na reputação das várias instituições de ensino superior enquanto que na Alemanha estas diferenças são esbatidas.

- Durante os anos 70 e 80, a estrutura e as médias de idades dos alunos do ensino superior era maior na Alemanha do que na Inglaterra. Tal é derivado aos programas de ensino serem usualmente mais longos na Alemanha do que no Reino Unido, pelo que a média de idade dos seus diplomados vai ser superior entrando mais tarde no mercado de trabalho;

- Apesar de ambos os sistemas de ensino terem, em princípio, um sistema de ensino superior "binário", com as "Universities" e os "Polytechnics" na Inglaterra e as "Universitäten" e "Fachhochschulen" na Alemanha, as diferenças em termos de requisitos de admissão, focagem curricular e tipo de diploma, são maiores no sistema Alemão do que no Britânico (onde inclusivamente acabou por se verificar a uniformização dos dois tipos de ensino).

É interessante averiguar até que ponto as experiências de emprego dos diplomados nos dois países diferem de acordo com estas diferenças ou, se pelo contrário, são bastante semelhantes como o debate das tendências internacionais nesta área sugere. Contudo, as relações entre o ensino superior e o mercado de trabalho não são fáceis de estudar, pois a vida activa prolonga-se, com frequência, por quarenta ou mais anos, numa variedade de empregos e circunstâncias, e não há um indicador de "satisfação no emprego" disponível. Restam-nos os dados relacionados com a maior ou menor dificuldade na transição do ensino superior para o mercado de trabalho, nomeadamente a velocidade com que se consegue o primeiro emprego.

Ambos os estudos comparam os destinos, em termos de emprego, dos diplomados em 1982 e 1985, os rendimentos auferidos nesses empregos assim como a sua posição e status. Tentou-se igualmente averiguar como os estudantes avaliavam a importância dos seus cursos superiores na preparação para as tarefas que estavam a desempenhar e avaliar o impacto no emprego de vários factores, alguns internos às instituições de ensino superior, outros externos. Assim, respectivamente, tínhamos por um lado, o tipo de instituição e de curso frequentados e por outro, as orientações vocacionais, as diferenças entre sexos e o contexto socio-económico de onde os estudantes provêm.

Em geral, os resultados dos dois estudos não são muito diferentes. As taxas de emprego são quase idênticas, com cerca de 90% de emprego a tempo inteiro alguns, dois anos depois de acabados os cursos. Ao fazer-se um ajustamento aos diferentes níveis salariais entre os dois países obtiveram-se níveis e rendimentos idênticos segundo os tipos de curso e instituições frequentados, pelo que podemos concluir que as vantagens financeiras da educação superior são semelhantes em ambos os países.

Cerca de 80% dos inquiridos responderam que sentiam que, ao menos, podiam fazer um uso parcial dos conhecimentos adquiridos durante o curso, não se encontrando evidências de excesso de qualificações para os tipos de trabalho desempenhados.

Sobre a adequação da sua educação superior, cerca de 20% dos alemães deram conta de problemas relacionados com a falta de conhecimentos, mas uma percentagem muito superior de britânicos (cerca de 40% oriundos de diversos cursos) revelaram insuficiências na sua formação para as tarefas exigidas nos seus empregos. Referiam nomeadamente dificuldades no desenvolvimento de aptidões para a comunicação oral, pelo que podemos concluir que o carácter mais generalista dos cursos britânicos não resulta necessariamente na transmissão das competências e aptidões gerais, mais estreitamente ligadas à personalidade de cada indivíduo, exigidas no mercado de trabalho.

Outra das conclusões foi a de que o sexo continua a ser uma importante determinante do emprego. Os diplomados do sexo feminino, apesar de já conseguirem um emprego tão rapidamente quantos os homens, continuam a ganhar significativamente menos que os homens.

Ambos os estudos concluíram também pela importância da área de estudos como uma determinante fundamental na forma de integração no mercado de trabalho. Assim, apesar das diferenças em termos de taxas de desemprego tenderem a esbater-se com o tempo, aumentam as diferenças em termos de rendimentos auferidos pelos diplomados dos vários cursos. Os cursos de engenharia tendem a ocupar os primeiros lugares no que respeita à oferta de emprego e aos níveis de rendimento e posição social obtidos, mas surpreendentemente em ambos os estudos verificou-se um relativo baixo uso dos conhecimentos adquiridos durante o curso, comparando, por exemplo, com os cursos nas áreas de gestão. O estudo britânico fez notar que, cinco anos após terem entrado no mercado de trabalho, um número substancial de engenheiros passou a ocupar cargos de gestão, facto importante a ter em conta nos planos curriculares dos cursos de engenharia.

Um outro conjunto de conclusões relaciona-se com os efeitos de um sistema de ensino superior binário. Esta política de ensino superior foi progressivamente abandonada no Reino Unido, a que se acrescenta o facto das diferenças formais da educação e qualificação apresentadas por esta política serem pequenas quando comparadas com as diferenças entre as "Fachhochschulen" e "Universitäten" alemãs. Com base nestas diferenças há certos tipos de carreira que estão bloqueados para os estudantes das "Fachhochschulen", pela natureza mais regulada do mercado de trabalho alemão e diferente tipo de diplomas obtidos em ambas as instituições. Pelo contrário, no Reino Unido os diplomados dos "Polytechnics" entram no mercado de trabalho, formalmente, em condições iguais aos seus colegas da universidade. Contudo, apesar desta desvantagem aparente, os diplomados das "Fachhochschulen" alemãs têm um melhor desempenho no mercado de trabalho relativamente aos seus colegas das "Universitäten", o que já não se passa no Reino Unido a nível dos diplomados das "Universities" e dos "Polytechnics".

Pensamos, porém, que temos de ser cautelosos na interpretação dos resultados extrapolados dos valores médios dos grupos e não nos podemos esquecer que normalmente as desigualdades entre os indivíduos são maiores do que entre os grupos.

Os resultados deste estudo levam-nos a pensar que o sucesso económico depende de vários elementos de oportunidade e de competência para um dado trabalho. Acontece que a definição de competência varia consideravelmente de um emprego para o outro e parece estar pelo menos tão ligada à personalidade como às qualificações técnicas, pelo que definir uma estratégia de igualdade nas competências é ainda mais difícil do que conceber uma estratégia de igualdade de oportunidades.

Para finalizar, julgamos ainda que temos que ser cautelosos quando somos tentados a comparar numa instituição de ensino a uma "fábrica" onde cremos que as características dos alunos são modificadas. Pelo contrário, pensamos que cada vez mais as instituições de ensino se afastam desta metáfora enfrentando uma acrescida concorrência no papel de formadores do seus alunos.

A forma como as instituições de ensino conferem aos seus alunos a capacidade de numa "sociedade de informação" estarem informados, isto é, terem acesso e capacidade de seleccionar a informação crítica (que podemos definir como a informação relevante para a tomada de decisões) num ambiente de superabundância de informação, vai ter que nortear qualquer política de ensino.

 

* - Assistente do 2 Triénio da ESTV.

Notas:

1 - Brennan J., Lyon S., Schomburg H., Teichler U, (1996) "Employment and Work of British and German Graduates", in Higher Education and Work, Jessica Kingsley Publishers.

2 - Jenks, C., (1972) "Inequality", Basic Books.

SUMÁRIO