Relação entre ensino superior e trabalho

 

EDUARDO PAIVA*

 

 

1 - Para além da estreiteza de visão com que normalmente se contempla o estudo deste tema - em que apenas se contempla o emprego de diplomados, que é tratado essencialmente por economistas e em que os interesses do ensino se devem subordinar às necessidades da economia - há que ter em conta o actual efeito (alargado) de socialização do ensino superior, com reflexos na motivação, atitudes e comportamentos, que estão, directa ou indirectamente, envolvidos no conhecimento académico.

Também deverá ser uma preocupação permanente o facto de ser mais importante para o emprego, a exploração dos recursos educacionais (educação e treino) dos estudantes, do que a sua mera possessão.

As relações entre o ensino e a posterior inserção no mundo profissional, passam, à partida, por duas vertentes: por um lado, os aspectos do trabalho com reflexos na formação ministrada ao indivíduo, e por outro, os aspectos da formação ministrada com impacto nas actividades profissionais a serem desempenhadas.

Desta forma, o estudo das relações entre ensino superior e mundo profissional deverá processar-se não só àqueles dois níveis (mundo do ensino e mundo do trabalho) e de forma mais actual (socialização), mas também debruçar-se sobre as causas e efeitos da ligação entre eles.

 

 

No decurso desta adaptação observam-se os seguintes aspectos:

2 - Dimensões do trabalho, relevantes para o ensino superior

2.1 - Emprego

Relativamente ao emprego de diplomados do ensino superior, é possível identificar algumas conclusões de estudos recentes, que poderemos apresentar.

Em certos países da Europa, a investigação tem observado diferenças regionais no emprego de diplomados. Na generalidade destes países, verifica-se um mais alto nível de atenção educacional e uma maior proporção de diplomados na força de trabalho em áreas mais importantes da indústria, comércio e administração, relativamente às proporções nas áreas satélite.

Estes estudos revelam que em vários países europeus a obtenção de um grau (de ensino superior) se tornou a qualificação típica, de entrada em quase todos os tipos de trabalho de nível superior. Em áreas como a medicina, advocacia, etc, o grau académico sempre foi um requisito formal. No entanto, nas últimas décadas, estes requisitos estenderam-se a todo um leque de áreas de trabalho, como por exemplo a gestão.

À medida que o ensino superior se tornou num requisito necessário, tornou-se também, cada vez mais, um requisito suficiente. Verifica-se um crescimento de postos de trabalho (preenchidos normalmente por diplomados), um aumento do número de diplomados a ocuparem cargos de nível médio, um aumento da proporção de diplomados que acabam como "colarinhos azuis" e uma extensão dos períodos de procura e de incerteza iniciais no emprego. Não se observa, portanto, a ligação ideal (frequentemente expressa) entre crescimento dos postos para diplomados e o fornecimento destes, nem tão pouco a frequentemente anunciada catástrofe da proletarização dos postos "graduados".

Num outro plano, constata-se a crescente importância do sector privado no emprego de diplomados para a maioria dos países europeus. Nestes, as instituições de ensino superior acostumaram-se a uma substancial influência do estado como o maior empregador de diplomados, nomeadamente na medicina, ensino e direito. Nos últimos anos, dado o incremento do emprego no sector privado, disparou o debate sobre a legitimidade e limites (desejáveis) da influência dos empregadores privados sobre o ensino superior.

Perspectivas recentes revelam um aumento no tempo de busca de emprego, no desemprego em início de carreira, no emprego a termo certo, bem como sinais de dificuldades crescentes em conseguir carreiras regulares ou ainda a existência de diplomados com carreiras não desejadas.

Em anos recentes, os dados sobre emprego de diplomados despertaram o interesse, como indicadores de diferenças em oportunidades de emprego quando relacionados com as áreas de estudo ou com instituições de ensino particulares. Estes dados ofereceram informações básicas acerca de oportunidades de emprego, segundo diferentes tipos de diplomados, bem como possíveis áreas de expansão/contracção na capacidade institucional. Falharam, no entanto, na tentativa de revelar os assuntos e os padrões institucionais do sucesso com que diferentes tipos de estudantes se encontram preparados para o emprego. Estudos mais sofisticados revelam que os alunos que mais facilmente encontram trabalho não são necessariamente os mais bem preparados.

2.2 - Carreira

O termo carreira refere-se à sequência típica ou actual de emprego e correspondentes tarefas desempenhadas.

A carreira aparece tanto mais facilitada quanto maior o nível educacional existente. No entanto, é largamente aceite que, como resultado da expansão da educação superior, uma crescente proporção de diplomados não enfrenta apenas um início de vida profissional mais arriscado e movediço, mas também uma carreira menos ascendente e menos estável. Como ponto adicional a esta questão, o facto de ser bastante mais difícil obter informação sobre a mobilidade de emprego do que sobre a transição ensino-trabalho.

Colocam-se, aliás, duas grandes questões acerca deste assunto:

 

Os dados disponíveis sugerem que a maior correlação entre o ensino pré-trabalho e o sucesso profissional se encontra a meio da carreira, o que, por sua vez, sugere que o conhecimento adquirido durante o estudo no ensino superior tem um impacto nas carreiras, para além da selecção inicial e da aplicação imediata no primeiro emprego.

2.3 - Tarefas e requisitos

Tarefa refere-se a actividades específicas realizadas regularmente no trabalho individual.

Requisito refere-se às implicações das tarefas nas aptidões e na formação relevante.

O interesse da relação entre tarefas com o emprego de diplomados e com os requisitos implicados reflecte uma estreita ligação entre campos educacionais e categorias ocupacionais. Para além disso, os custos provocados por desencontros entre ensino e emprego tendem a ser maiores em níveis mais elevados da hierarquia ocupacional.

A maioria da investigação disponível foca-se nas concordâncias, menos óbvias, entre competências e tarefas que são mais importantes para as relações entre ensino superior e trabalho.

2.4 - Profissão

Certas configurações das tarefas e das carreiras, que tendem a ser relativamente estáveis:

Investigações disponíveis, permitem identificar uma inclinação para o profissionalismo, em termos de crescente importância do conhecimento, como base para a eficiência do trabalho, em termos de "cientificação" da sociedade. É menos claro que se observe, quer uma inclinação geral para um ganho de estatuto de "profissão" (comparado com outras ocupações de alto nível de educação), quer uma inclinação para o "vocacionalismo". Observam-se frequentes queixas acerca do baixo desempenho no trabalho em profissões associadas com resistência à mudança e ao impedimento de acesso à sua base de conhecimento em áreas de especialidades adjacentes.

Adicionalmente, a pressão na flexibilidade, nas competências cruzadas e na lealdade à organização, desafiam a importância de valores e competências profissionais.

3 - Dimensões do ensino superior relevantes para o trabalho

Face ao sistema de emprego o ensino superior desempenha um papel, em primeiro lugar de fornecedor de conhecimentos e competências relacionados com o trabalho, e em segundo lugar, na pré-selecção de alunos para futuros trabalhos e lugares. É assim, quer esteja a prosseguir objectivos educacionais autónomos, quer esteja a responder reactivamente a presumíveis necessidades do sistema de emprego, quer ainda para atingir políticas pró-activas de adaptação e inovação face ao sistema de emprego.

3.1 - Desenvolvimentos quantitativos e estruturais

O primeiro impacto da educação superior no mercado de emprego mede-se pelo número de diplomados que fornece.

Algumas explicações sugerem que o passado tende a ser desenhado como um estado de equilíbrio entre a oferta e a procura. Por volta de 1950, a proporção de diplomados era inferior a 5% na maioria dos países europeus, proporção que duplicou nos últimos dez anos em muitos países. Note-se que a muitos períodos de crescimento rápido se seguiram períodos de crescimento lento ou estagnação seguidos novamente de períodos de crescimento.

Pesquisas disponíveis sugerem que políticas governamentais, políticas de instituições de ensino e pedidos individuais reflectiam a procura presumida, mas, como regra, a maioria dos países da Europa ocidental não a acompanhou de perto. Podem identificar-se períodos em que tanto a falta como o excesso de diplomados dominaram.

Na maioria dos países europeus a expansão do ensino superior foi acompanhada por esforços da sua reestruturação, baseada na premissa de que o crescimento da diversidade de talentos estudantis, de motivação e de carreiras seriam mais bem servidos por uma diversidade de cursos. Por volta de 1970, tornou-se um desejo convencional a existência de uma estrutura diversificada, de forma a proteger a tradicional qualidade do ensino superior e providenciar ambientes de aprendizagem adequados ao número de estudantes.

É geralmente aceite que as diferenças de qualidade e reputação entre instituições de ensino superior, formalmente do mesmo tipo, se tornaram, progressivamente mais relevantes para o emprego. No entanto, essas diferenças continuam a ser consideradas mais importantes em países cujas diferenças, em termos de estatuto e prestígio entre instituições, têm sido tradicionalmente mais profundas, do que em países em que aquelas diferenças eram marginais.

Pesquisas disponíveis, identificaram diferenças nas perspectivas de emprego dos estudantes, de acordo com:

As pesquisas disponíveis não confirmam necessariamente o desejo habitual acerca das perspectivas de emprego, dos diferentes tipos de graduação. Por exemplo, os diplomados dos politécnicos ingleses consideram os seus estudos mais úteis para o seu desempenho profissional, face aos seus colegas universitários, ao passo que os diplomados das universidades alemãs reportam um mais alto grau de utilização dos conhecimentos adquiridos no curso que os seus colegas de outros tipos de escolas.

3.2 - Curriculum, formação adicional e socialização

O curriculum no ensino superior pode variar nas suas relações com o trabalho, segundo as seguintes formas:

Os dados sobre emprego confirmam que enquanto os diplomados de algumas áreas de estudo se transferem para as profissões "correspondentes", outros diplomados de outras áreas se disseminam largamente. Por outro lado, uma análise curricular poderá mostrar que determinadas áreas enfatizam áreas de conhecimento e formas de raciocínio que estão abaixo da funcionalidade prática requerida, enquanto outros não têm sequer áreas específicas de emprego subjacentes, nem tão pouco possuem áreas de treino com propósitos práticos.

A pesquisa aos processos de recrutamento e aos critérios dos empregadores sugere que estes prestam menos atenção aos pormenores curriculares do que os meios académicos ou outros organismos profissionais. Os empregadores tendem a colocar a tónica em três dimensões da educação superior:

Estudos disponíveis sublinham o facto das instituições de ensino superior enfrentarem problemas substanciais na integração de actividades profissionalizantes nas suas formas tradicionais de ensino.

3.3 - Recursos educacionais e opções dos estudantes

Vários estudos têm tentado estabelecer qual o impacto dos recursos curriculares e institucionais no emprego de diplomados. O mais simples destes estudos observa as características de determinados programas e as carreiras dos diplomados para inferir o seu impacto. Falha, no entanto, ao não as comparar com outros programas, nem tão pouco ao não examinar se, de facto, os estudantes aprendem o que era previsto e se fazem uso desse conhecimento.

Enquanto as abordagens quantitativas de medição do impacto das condições de estudo e dos recursos permanecem raras na Europa, formam uma área importante de pesquisa sobre ensino superior nos E.U.A. Aí, a maioria das pesquisas sugerem que as competências adquiridas (e os subsequentes sucessos profissionais) são menos formadas pelas condições institucionais e pelos recursos que pela sua utilização pelos estudantes. Isto é, é razoável assumir que as competências do estudante dependem menos da qualidade da biblioteca que das formas como a utiliza.

4 - Ligações entre educação superior e trabalho

Os estudos das expectativas dos empregadores, expressas nos processos e nos critérios de recrutamento, foram considerados úteis, quanto providenciariam, para estudantes e responsáveis pelo ensino uma base de informação que poderia ser útil no estabelecimento de prioridades na educação ao tornarem-se num meio de realimentação regular e rápido para rápidos ajustes entre ensino superior e sistema de trabalho. No entanto, esta abordagem não fornecia os instrumentos mágicos de identificação das necessidades, do sistema de emprego - incerteza acerca dos requisitos e estratégias de curto prazo, imperfeições na identificação de competências, rotinas de recrutamento e estereótipos dos envolvidos na tomada de decisões, jogos tácticos entre organizações empregadoras e "procuradores" de emprego, etc.

Enquanto todos os estudos apontam para diferenças institucionais e de conteúdo na extensão e dificuldade do processo de transição, também as próprias flutuações do mercado de trabalho parecem ter impactos variáveis em diferentes tipos de estudantes. Extensão e dificuldade do processo de transição também estão relacionadas com o grau difuso dos destinos de emprego para diferentes tipos de programas e de instituições.

Para certos estudantes, o período de transição incorpora não só o processo de procura de emprego, mas também um processo de escolha ocupacional.

As relações entre ensino superior e trabalho assentam tradicionalmente em dois estágios:

Neste contexto existe uma tendência da educação permanente para ser realizada fora das instituições de ensino tradicionais.

Adaptado de:

Brennan, J., Kogan, M., Teichler, U. (1996) - "Higher Education and Work"- Higher Education Policy Series, Jessica Kingslyey Publishers, Londres.

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* Assistente do 1º Triénio da ESTV

SUMÁRIO