EDUCAÇÃO, CIÊNCIA E TECNOLOGIA

 

NOTA DE APRESENTAÇÃO

«Uma língua é o lugar donde se vê o mundo e em que se traçam os limites do nosso pensar e sentir. Da minha língua vê-se o mar. Da minha língua ouve-se o seu rumor como da de outros se ouvirá o da floresta ou o silêncio do deserto».

Estas palavras que Vergílio Ferreira proferiu, em Bruxelas, a 9 de Outubro de 1991, por ocasião da entrega do Prémio Europália da Comunidade Europeia, veiculam-nos, pelos seus efeitos perlocutivos, à dimensão essencial e primogénita donde partiram todos os artigos da responsabilidade da Área Científica de Português.

Sob a égide, então, deste grande arauto da contemporaneidade que foi Vergílio Ferreira – cuja postura em acto de escrita emblematiza a capa da nossa Millenium – escreveram-se palavras... palavras que certamente eram a casa do ser de cada um que as usou (para avocar um pensamento heideggeriano) e que, por isso, foram um viático para o milagre de ver, tão acirrado pelo autor de Aparição.

Em Para Sempre ou "nessa fulguração de apogeu no percurso de um escritor", como o entendeu Vítor Aguiar e Silva, lê-se no final do capítulo XXVI: «Assim nós nos perguntamos no ruído deste linguajar frenético, nesta infernal feira de palavras, assim nós nos interrogamos se é possível existir uma palavra fundamental, a que inarticulada exprima o homem primeiro, o que subsiste por sob um montão de vocábulos e ideias e problemas, se acaso é concebível que ele exista antes disso. Diz-se às vezes que essa palavra a sabem os artistas, o poeta, o músico, o pintor, ou seja os que não dizem o que dizem, mas dizem apenas o silêncio primordial, ou seja o que se diz».

Partindo desta asserção dimanada da leva vergiliana, parece-nos ser lícito afirmar que em todos os estudos, ínsitos na secção Educação, Ciência e Tecnologia, diligenciaram os autores, ainda que de forma sub-reptícia, por procurar esse signo original, esse sentido primeiro, onde os lindes entre o dizível e o inefável por vezes se aluem. É que, efectivamente, em todos os trabalhos desta secção, há uma perspectiva inerente comum: reflectir sobre o sistema modelizante primário, que é a língua, considerando os seus sistemas semântico, léxico-gramatical e fonológico, bem como as suas variações diatópicas, diastráticas e diafásicas.

De qualquer forma, pensamos que a diversidade dos temas tratados se deve, na sua maioria, às sub-áreas de investigação a que os especialistas se têm dedicado, e que certamente privilegiam, de forma sistemática, no apetrechamento da sua biblioteca pessoal. De facto, e aproveitando o ensejo para citar mais uma vez o escritor, pensador e ensaísta, que escolhemos para esteira destas nossas reflexões, «Uma biblioteca é quase tão pessoal como as impressões digitais. Ela forma-se com os problemas que nos formaram a nós e outros virão a abandonar. A cultura de cada um orienta-se pela do tempo que lhe calhou no provisório definitivo dessa calhar».

Este pensamento que Vergílio Ferreira nos legou em Pensar (p. 74) concita-nos a aquilatar da importância que análises multímodas a nível textual (quer no que concerne ao texto literário, quer a outra classe de textos) granjeiam numa área tão abrangente como é a nossa de Estudos Portugueses, para as quais a elaboração de metalinguagens adequadas são a garantia da congruência e do rigor que elas exigem.

Nesta série de estudos que se apresentam, da responsabilidade da Área Científica de Português, ficam patenteadas as orientações cintífico-metodológicas a que cada um dos doze autores (apresentados por ordem alfabética, como é já habitual nos outros números anteriores da revista Millenium) têm vindo a tributar mais atenção e interesse.

Não pretendendo, de forma alguma, fazer uma paráfrase dos artigos, até porque eles valem pela sua leitura integral, diremos apenas, num escorço muito rápido, que nesta secção estão contempladas as grandes áreas dos Estudos Portugueses.

Embora a triagem de trabalhos científicos desta natureza não possa ser categórica e absoluta relativamente a uma área específica concreta, sobretudo pelas implicações interdisciplinares promanadas, atrever-nos-emos, contudo, a compartimentá-los da seguinte maneira: na Análise do Discurso (vd. o artigo da Doutora Natália Vieira); na Pragmática Linguística e na Teoria do Texto (vd. os artigos da Drª Ana Cristina Martins e do Dr. Diogo Polónio); na Literatura/Crítica Literária (vd. o trabalho da Profª Doutora Maria Lucília Gonçalves Pires, os do Doutor Luís Miguel Cardoso, o do Dr. Manuel Sá Correia, o da Drª Sónia Alves, os do Dr. Martim de Gouveia e Sousa e aquele que é de nossa autoria); na Sociolinguística (de que é exemplo o estudo da Profª Doutora Isabel Aires de Matos); na História da Língua e Culturas (vd. o trabalho do Doutor João Paulo Balula); na Psicolinguística (vd. o primeiro artigo do Doutor Joaquim Rodrigues Bento); por fim, na Didáctica (em que versou, no seu segundo artigo, o Doutor Joaquim Bento, e onde também radica o trabalho apresentado pelo Dr. Diogo Polónio).

Esta breve nota de apresentação teria a sua principal lacuna, se não terminasse com um agradecimento muito reconhecido a todas as pessoas que contribuíram para esta realização da Área Científica de Português da E.S.E.V.

Na impossibilidade de todos nomear, desejamos agradecer, em nome dos professores da Área, à Senhora Profª Doutora Maria Lucília Gonçalves Pires, pelo seu prestimoso contributo de especialista com que honrou este número da Millenium (não descurando também a ligação "fraterna" que a une à nossa instituição), e ao Dr. Martim de Gouveia e Sousa, que com a sua leva vergiliana, pronta e amiga, logo acedeu a participar nesta iniciativa cultural.

Ao Dr. Paulo Medeiros, estamos gratos pela sua disponibilidade a todo o momento e pelas suas excelentes sugestões "estéticas".

É, porém, ao Senhor Doutor Vasco de Oliveira e Cunha, a quem expressamos o maior dos nossos reconhecimentos. Devemos-lhe, além do privilégio que concedeu a todos os docentes do nosso departamento, na sua qualidade de director da revista Millenium, o seu permanente, douto e incansável acolhimento, donde saíamos sempre esclarecidos e com vigorantes estímulos para a prossecução do nosso trabalho.

 

 

Fernando Alexandre Lopes

SUMÁRIO