HUMANISMO E ERASMISMO NO RENASCIMENTO PORTUGUÊS.

PEDRO SANCHES E A MUSA DE ROTERDÃO: O (DES)VELADO

CÁLAMO DE PENDOR ERASMISTA

 

 E nos Adágios dele creio que lestes, abundantemente exposto, o pensamento de Péricles, segundo o qual, se deve fazer a vontade e ceder aos amigos, mas só até ao altar, evidentemente, para que se não fira a majestade divina, por causa dos amigos.

 

André de Resende, A conversão maravilhosa do português D. Gil

 

LUÍS MIGUEL OLIVEIRA DE BARROS CARDOSO *

 

 

O Manuscrito F.G. 6368 da Biblioteca Nacional de Lisboa, relicário da obra de Pedro Sanches, inclui um poema em 161 hexâmetros dactílicos, com o título De Superstitionibus Abrantinorum, ou seja, «Acerca das Superstições dos Abrantinos», que mereceu aturado estudo por parte do Doutor Américo da Costa Ramalho 1 e que se revela um texto basilar para a compreensão da personalidade do nosso humanista.

Este poema denota um pendor erasmista se tivermos em mente um desvelado cálamo que ousou entrar nos domínios da crítica do exercício da religião. Porém, se o texto pode atestar o perfume da Musa de Roterdão, o autor, talvez devido às suas grandes responsabilidades na Corte - «Supremi Senatus a Secretis, rege Sebastiano», de acordo com o Ms. F.G. 6368 da B.N.L. - não o publicou, nem a outros semelhantes que talvez tivesse escrito, pelo que o cálamo erasmista de Sanches se apresenta velado, em relação à sua época e em relação ao próprio perfil do humanista, no que concerne à sua simpatia para com Erasmo.

As suas responsabilidades na Corte tiveram certamente um grande peso na não publicação do poema, pois Sanches, tal como «muitos humanistas, dependentes de sinecuras eclesiásticas ou palacianas, procuram evitar as polémicas arriscadas...», como nos dizem Óscar Lopes e António José Saraiva 2, não terá ousado dar a lume um texto de sabor polémico, principalmente nos tempos de fervor ortodoxo pós - 1555, data da significativa entrega do Colégio das Artes conimbricense aos Jesuítas.

O poema de Sanches remete-nos para as ideias erasmistas. Na palavra de Pina Martins, «Erasmismo é philosophia Christi, religião interior, fidelidade à autenticidade evangélica, desprezo da letras no culto do espírito, pacifismo, aversão à violência; mas também sátira à corrupção das autoridades civis e eclesiásticas, à corrupção das próprias instituições, na medida em que se deixam afeiçoar pela história na preocupação do temporal, desvirtuando-se: sátira religiosa, social e até política em todos os seus aspectos»3, o que nos faz estabelecer uma ponte temática com o De Superstitionibus Abrantinorum, principalmente os aspectos que o estudioso refere no primeiro segmento desta citação.

Erasmo afasta da verdadeira vivência interior da fé as manifestações exteriores pautadas pelo excesso e pelo acessório. Como nos diz Luís Sousa Rebelo, «o humanismo de endereço erasmista visa a reforma moral interior do indivíduo por meio da deuotio christiana...»4.

O Roterdamês tem uma opinião crítica sobre o culto das imagens, a hagiolatria e as peregrinações, o fausto do cerimonial e a ignorância, mas sempre numa posição que radica na defesa da tranquilidade e da ordem e nunca na apologia da perturbação ou desestabilização. O anseio pela paz não se opõe ao seu antidogmatismo ou à sua antipatia pelo radicalismo, antes denota a sua veia tipicamente humanista.

Um primeiro ponto do «itinerário erasmista» de Pedro Sanches é a sua própria chegada a Portugal, ao que tudo indica, integrado na comitiva da rainha D. Catarina.

A esposa de D. João III terá trazido consigo livros de Erasmo de Espanha e da corte do seu irmão Carlos V. De facto, no inventário do tesouro da rainha, concluído em 10 de Junho de 1534, encontramos a «esposyciõ sobre dos salmos - s - beatus vir y cõ ynvocare», o «Inchiridio e esortacion (...) e la Oracion del padre...», «Otra Exposycion del padre e vn Sermõ cõ otras Obras mas de Erasmo...», a «Lingua Arasmi...» em dois exemplares e uma edição de Paraclesis, entre obras de Petrarca, Juan de Mena, Jorge Manrique, Boécio, S. Bernardo e Francisco de Castilho 5.

Os livros de Erasmo circulavam por entre professores da Universidade, nobres e mesmo alguns funcionários como Balthasar Jorge de Valdez que, ao falecer em Évora, em 1546, depois de ter tomado contacto com o Oriente (foi juíz da Alfândega de Diu) tal como Sanches (alcaide-mor, feitor e recebedor da alfândega da fortaleza e feitoria de Baçaim), deixou epístolas de S. Jerónimo, Petrarca, «hum liuro da exposição dos almos cum jmuocarem e beatos vyr de erasmo» e «hum Liuro da limgoa darasmo»6.

Erasmo não seria desconhecido para Pedro Sanches. Poderia ter tomado contacto com o Roterdamês na corte de Carlos V, se a frequentou; através da biblioteca da rainha, de quem o seu irmão Rodrigo era capelão; através da leitura de obras de Erasmo, ou ainda pelo convívio epistolar e directo com amigos que respiravam essa atmosfera, nomeadamente André de Resende.

O ambiente erasmista em Portugal perpassa cronologicamente a vida de Pedro Sanches, pelo menos a julgar pelas poucas datas conhecidas relativas ao seu perfil bio-bibliográfico, como podemos constatar num quadro sinóptico:

 1525 - Pedro Sanches chega a Portugal integrado no séquito da rainha D. Catarina.

1527 - Erasmo dedica a D. João III as suas Chrysostomi lucubrationes. Diogo de Gouveia Sénior, D. Estevão de Almeida e Pedro Margalho participam na célebre reunião de teólogos em Valladolid.

1529 - André de Resende elogia Erasmo no Encomium Vrbis et Academiae Louaniensis. Dois recibos de 26 de Julho atestam que, entre as obras que foram compradas para ensinar os moços da capela de D.Catarina, figuram «cj. colloquios de erasmo».

1530 - A partir deste ano, Pedro Sanches assina recibos trimestrais do subsídio de moradia como moço castelhano da capela da rainha D. Catarina.

1531 - Carmen eruditum et elegans ou Erasmi Encomium de André de Resende.

1532 - Ropica Pnefma de João de Barros.

1534 - Oratio Pro Rostris de André de Resende.

1536 - A 11 de Julho, em Basileia, morre Erasmo. Neste ano é publicada a Antimoria de Aires Barbosa.

1538 - A 5 de Novembro, Pedro Sanches apresenta, em Salamanca, a sua candidatura ao grau de licenciado em Direito Civil.

1540 - A 16 de Novembro é nomeado alcaide-mor, feitor e recebedor da alfândega da fortaleza e feitoria de Baçaim, por três anos.

1541 - Publicação do Enchiridion militis christiani, em Lisboa, por Luís Rodrigues, numa versão em espanhol.

1544 - Compendium Rhetorices dedicado por Erasmo a Damião de Góis. Vicentius leuita et martir de André de Resende.

1545 - Neste ano (ou em 1547 ?) são editados os Colloquia de João Fernandes.

1547 - Os Colloquia são defesos no Index.

1548 - Pedro Sanches vê publicados dois epigramas seus dedicados a Francisco de Holanda em Da Pintura Antiga.

1549 - Index rerum et uerborum copiosissimus ex Ded. Erasmi Roterodami chiliadibus por João Vaseu.

1550 - Hieronymi Cardosi Lusitani Libellus que inclui epigramas de Pedro Sanches.

1551 - O Enchiridion figura no Index. Oratio habita Conimbricae de André de Resende.

1556 - Pedro Sanches é nomeado escrivão e tesoureiro-mor de D.João III, a 19 de Março. Hieronymi Cardosi Lusitani Epistolarum Familiarium Libellus que inclui cartas de Pedro Sanches.

1559 - Opera Omnia de Erasmo no Index de Paulo IV. A 20 de Dezembro, Pedro Sanches escreve a seu filho, estudante no Colégio das Artes conimbricense.

1561 - A 7 de Julho, Pedro Sanches é nomeado procurador por D.Sebastião e pela Mesa da Consciência, no contrato celebrado com a Ordem da Santíssima Trindade quanto à redenção dos cativos.

1563 - Vem a lume uma elegia de Pedro Sanches no Hieronymi Cardosi Lamacensis Elegiarum Liber II...

1579 - Pedro Sanches dedica dois epigramas a Lopo Serrão, publicados com o De Senectute.

1579/1580 - Epistola ad Ignatium de Moraes de Pedro Sanches.

1580/1581 - Morre Pedro Sanches.

 Pedro Sanches foi um humanista que sempre estimou o contacto com outros homens da cultura, e a troca de missivas atesta esse facto.

Entre o círculo de amizades de Pedro Sanches encontramos vários nomes que estão ligados às ideias erasmistas em Portugal, pelo que este terá sido um outro factor decisivo para o nosso humanista respirar o perfume da Musa de Roterdão.

D. Miguel da Silva, a quem Pedro Sanches, na Epistola ad Ignatium de Moraes chama seu concidadão (Hac nostra natus, nostra hac nutritus in urbe. v. 139), na sua carreira diplomática e estadias em Roma e Paris (c. 1500 a 1513) conhece os ventos do humanismo cristão, pois Jacques Lefèvre d' Étaples e Erasmo, por volta de 1514 já eram bastante conhecidos 7.

D. Miguel da Silva conhece em Roma as lutas pró e contra Erasmo em volta de Leão X, Adriano VI e Clemente VII, e entre as suas amizades contavam-se os conservadores Zaccaria Caliergi, Lattanzio Tolomei, Paolo Giovio, Baldassar Castiglione (recorde-se a sua dedicatória de Il Cortegiano) e Gian Matteo Giberti, admirador de Erasmo, tal como Paolo Bombasio ou Marino Caracciolo.

A re erasmiana era conhecida de D. Miguel. André de Resende, em 1531, coloca-o entre os vultos do erasmismo português e Luís Vives, em carta de 17 de Julho de 1533 para Damião de Góis, pede para saudar o prelado em seu nome. D. Miguel entrará mais tarde em divergência com o rei.

António Luís conviveu com Fr. Brás de Braga, João de Barros, André Cotrim e com os amigos de Pedro Sanches, André de Resende, Jerónimo Cardoso, Luís Pires e o irmão do nosso humanista, Rodrigo Sanches, como provam, por exemplo, o Epistolarum Familiarium Libellus, fls. 24-26, e o Apêndice Documental, nº 345 da B.N.L.

Cristão-novo, ao que tudo indica, figura nos processos da Inquisição como licenciado (vd. Processo de António de Luís, pp. 729, 732, 733, 737, 739). Apelidado de Grego, como nos diz João Fernandes na sua oração De celebritate Academiae Conimbricensis, foi «preso por ter livros em hebraico», na expressão do rosto do seu processo, mas o seu espólio literário não veicula ideias suficientemente límpidas de corrente fabro-erasmiana. Talvez para se retractar, escreve e dedica ao rei as suas Annotationes aliquorum locorum in quibus hallucinatus est Erasmus in transferendo Galeni libello qui inscribitur Exhortatio ad bonas literas, nas quais critica pouco e insinua mais. Em todo o caso, condena Erasmo quanto à leviandade da sua tradução num debate técnico que não nos permite identificar com verdade a sua opinião mais profunda quanto ao Roterdamês.

Jorge Coelho era um elemento mais próximo de Sanches do que D.Miguel ou António Luís. Numa carta de Rodrigo Sanches para Jorge Coelho, na B.N.L., Ms. F.G. 6368, fl. 197-98v., transcrita no vol. 2º, Apêndice Documental, nº 344, é evidente o contacto com o nosso humanista:

«Descobri, porém, há dias, através do meu irmão, a tua gentileza: e pelas cartas que não desdenhaste enviar-lhe, vi excedido o que desesperadamente desejava. Não pode descrever-se bem a ingente alegria que se apoderou de mim, nem a satisfação que me arrebatou, ao verificar que não só permitias que este homem entrasse no círculo dos teus amigos, mas o convidasses ainda para uma aliança de amizade»8.

(O sublinhado é nosso)

Carteou-se com Damião de Góis, Erasmo e Bembo 9 e recebeu elogios de Clenardo - que o equipara a Resende -, Vaseu, Jerónimo Cardoso, Rodrigo Sanches e Gaspar Barreiros. Participou num areópago epistolar de cariz literário sem pendor ideológico com Baltasar de Teive, Bartolomeu Filipe, Cristovão de Miranda, Afonso de Torres, Pedro Mendes e Luís Pires.

Jorge Coelho, talvez em desacordo com os rumos nacionais, relega-se para um certo silêncio entre 1540 e 1554, se bem que o facto de pertencer ao gabinete particular do Cardeal D. Henrique, bastião da Contra-Reforma, possa justificar essa atitude e a sua inconstância nas posições de pendor erasmista.

Coelho ora aplaude Aires Barbosa e a sua Antimoria, ora deixa transparecer um tom erasmista junto de Nicolau Clenardo, ora mantém relações amistosas com Damião de Góis, chegando a trocar cartas e livros. O próprio Erasmo irá escrever-lhe em 1535, mas a linha ortodoxa henriquina obriga Coelho a uma inflexão. Depois da morte de Erasmo, Jorge Coelho furta-se ao convite feito por Clenardo para celebrar o seu desaparecimento - sinal evidente dos rumos da corte de D. João III, bem diferentes dos de 1533, quando pedia a Góis para trazer o Holandês para a Universidade, segundo declarou em 1571 no seu processo na Inquisição. Outro motivo para a não participação na celebração de Erasmo, ao lado de Joana Vaz (que também não respondeu) e André de Resende, terá sido de foro pessoal, como defende o Senhor Professor Américo da Costa Ramalho: «Jorge Coelho, fraco poeta latino, para mais ressentido com a consideração menor que Erasmo lhe dispensara, em confronto com Resende, não respondeu»10.

Luís Pires, «Pyrrhum meum», na Epístola a Inácio de Morais, possivelmente parente de Diogo Pires, com o qual é frequentemente confundido - como ocorreu no Corpus Illustrium Poetarum Lusitanorum, p. 33, n. 26 - era natural de Évora, tal como Lopo Serrão, associado ao primeiro por Sanches no seu poema sobre os vates lusos.

Luís Pires era amigo do nosso humanista, tal como André de Resende e Inácio de Morais, que intervêm na Conuersio Miranda D. Aegidii, um testemunho importante para o estudo das relações entre Erasmo e Resende. Neste texto, Erasmo é citado por Pires quando se refere à identidade do beato Dinis ou Dionísio, que provocara um êxtase a Frei Gil. Por outro lado, a terceira sessão em que, na partida para um passeio matinal, Inácio de Morais, com sono, teima em ir de mula, tem muito das encenações do Holandês.

Na Conuersio Miranda D. Aegidii, Luís Pires apresenta as suas opiniões com muita cautela, o que nos leva a pensar que as afinidades familiares e religiosas com Diogo Pires/ Didacus Pyrrhus Lusitanus/ Iacobus Flauius Eborensis/ Isaías Cohen serão efectivas.

O vulto da Musa de Roterdão encontra em André de Resende o mais distinto interlocutor de Pedro Sanches, também no que toca à discussão das ideias de Erasmo que, decerto, terão sido abordadas entre os dois humanistas e amigos.

No Corpus Illustrium Poetarum Lusitanorum, entre os Testimonia, Jorge Cardoso aponta o respeito de Resende a Sanches, que consultava como Oráculo da Latinidade; João Franco Barreto refere uma ode que Resende lhe escreve e o próprio André de Resende o elogia numa carta de Évora, com data de 7 de Maio de 1542. Nesta missiva, o tema remete-nos para uma carta anterior de Sanches na qual parece ter debatido o destino pouco feliz e a injustiça do seu tempo que premiava os maus.

O Pe. António dos Reis, na Vida de Pedro Sanches, refere-se ao lamento de Sanches relativamente ao afastamento da Corte de André de Resende, devido a conjuras de bastidores, instando-o a procurar o rei, ao que Resende respondeu:

Tu, porém, e outros semelhantes a ti, suportais com dificuldade

que eu esteja agora numa situação precária, desprezado pela Corte

na qual, vis parasitas se coçam nos primeiros lugares.

Diz, peço-te, pensas tu que isto é o meu infeliz destino ou

o infelicíssimo destino da Corte?

 Furtando-nos a uma visão profunda da obra resendiana destacamos os seus contactos com Erasmo e com o círculo de amizades de Sanches que a sua Epistola ad Petrum Sancium bem testemunha.

Resende conhece Conrado Goclénio, Rutgero Réscio e João Campense, na Bélgica, docentes do Colégio Trilingue de Lovaina; é amigo de Dantísco, Clenardo e Vaseu e respira os ares da Musa de Erasmo, que o Desiderii Erasmi encomium consagrou.

A sua apologia do erasmismo vacila face aos avanços da frente conservadora. No diálogo Conuersio Miranda Domini Aegidii Lusitani, Doctoris Parisiensis, Ordinis Praedicatorum 11, Resende mostra-se prudente numa época em que a ferocidade pautava as acções de inquisidores zelosos como D. João de Melo e o licº Pedro Álvarez de Paredes, de Castela.

Resende não chegou a publicar a Conuersio Miranda, que foi impressa em Paris, em 1586, doze anos após a morte de Resende, por Frei Estevão de Sampaio.

Resende tocara alguns pontos do ideal de Erasmo. Como Pedro Sanches, desejava ver a vitória da verdadeira piedade sobre a vã superstição - «uanaque superstitione / Reiecta uere pia sit plebecula» - como diz no Erasmi encomium.

Face ao clima de condenação erasmista, Resende deixa de ser um fiel de Erasmo, por razões históricas mas continua erasmista de espírito, como afirma Pina Martins 12.

As ideias erasmistas poderão também ter chegado até Pedro Sanches via Jerónimo Cardoso, seu amigo e correspondente, como prova o Ms. F.G. 6368 da B.N.L.

Sabemos que Jerónimo Cardoso recebe correspondência de Damião de Góis. Recordamos em especial uma carta de Góis, em 1554, na qual o autor ainda se refere com emoção a Erasmo 13, ele que havia sido seu anfitrião em Friburgo em 1533 e que o recomendara a Pietro Bembo. A correspondência entre Erasmo e Góis reforça a união espiritual. Góis, em carta de 20 de Junho de 1533, diz a Erasmo que se oferece como verdadeiro amigo, ao que este responde em 25 de Julho de 1533.

Em 11 de Abril de 1534, Erasmo oferece a sua hospitalidade a Góis, que fora à Alemanha. O comércio epistolar cimenta a união dos dois. Joaquim de Vasconcellos, na sua Correspondência de Damião de Góis, foca as oito cartas de Erasmo a Góis, de Julho de 1533 a Julho de 1536 - data da sua morte -, e a carta de Erasmo a Resende como testemunhos fundamentais para a análise desta relação.

O irmão de Pedro, Rodrigo Sanches, era capelão da rainha D.Catarina, pelo que conhecia o teor da biblioteca da esposa de D. João III que, como já vimos, incluía livros de Erasmo, pois era também professor de latim na corte.

Os «cj. colloquios de erasmo» estão entre as obras que figuram em dois recibos de compra, com data de 26 de Julho de 1529, prova que foram adquiridos para ensino dos moços da capela de D. Catarina 14. Pina Martins 15 refere-se a Eugenio Asensio que opina que as rainhas espanholas são portadoras de ideias erasmistas até à corte portuguesa. Porém, o erasmismo da rainha D. Catarina sofreu uma evolução entre 1540 e 1560, desde uma abertura de espírito à clausura, após a morte de D. João III.

Rodrigo Sanches não alinha abertamente pela fileira da vanguarda humanista. Prefere o humanismo literário, Ângelo Policiano e Budé em detrimento de Erasmo, Vives, Lefèvre d' Étaples, Thomas More ou Sadoleto.

Aprecia o convívio com Jerónimo Cardoso, Jorge Coelho e António Luís, as Literae politiores, o classicismo até 1540; «na segunda fase da vida, de 1540 por diante, as letras humanas parecem ter perdido toda a sedução para ele. Não se conhece, pelo menos, qualquer rasto de cuidado com elas. Inquieto talvez com os receios e mal-entendidos que atingiram o humanismo cristão, porventura convencido de que a piedade se tinha tornado mais urgente que a ciência, e sem ter conseguido compreender a corrente humano-evangelística, retirou-se do campo literário para o do simples apostolado religioso», como afirma J. S. da Silva Dias 16.

Inácio de Morais, amigo de Pedro Sanches - também seu mecenas -, tomou contacto com as ideias erasmistas e poderá tê-las discutido com o nosso humanista.

José V. de Pina Martins 17 integra IN QVOSDAM/ Dialecticos et Gramma/ ticos, pro Iure peritis, de Inácio de Morais, nas obras de sabor erasmista, pois este texto enaltece a felicidade social condicionada pelas leis, que aproxima o português da Bellum Dulce inexpertis de Erasmo. O contacto com Erasmo é reconhecido pelo próprio Inácio de Morais, quando numa carta a Jerónimo Cardoso 18 se refere com afecto ao humanista holandês. Na Conuersio Miranda D. Aegidii Lusitani, Resende, dirigindo-se a Morais e Luís Pires, refere-se à leitura dos Adágios de Erasmo: «E nos Adágios dele creio que lestes, abundantemente exposto, o pensamento de Péricles»19.

Morais, que, em vários textos, utilizará expressões proverbiais de Erasmo 20, poderá ter sido um elo de comunicação das ideias erasmistas com Pedro Sanches.

Diogo de Teive, outro humanista do círculo de Sanches, na sua AD IOANNEM/ Alemcastrum sere -/ nissimu Auerij/ Ducem/ Mortis meditatio in fu/ nus Theodosij Brigã/ tiae Ducis, lembra uma reflexão sobre a morte, escrita por Erasmo em 1510; o Comentarius de rebus ad Dium gestis recorda o amor da justiça, da paz, o culto das Letras, apesar do elogio da guerra - justa, pois era travada em prol da fé e não contra outros cristãos.

Teive vive a divisão ideológica do Colégio das Artes, principalmente após a morte de André de Gouveia, a sucessão de Diogo de Gouveia, o Moço, e o conflito com João da Costa até 1549, altura em que é nomeado Reitor. A dez de Agosto de 1550 é enleado no processo do Santo Ofício contra os lentes de simpatia luterana. Recolhe-se ao mosteiro de Belém em 1551, para ser libertado em 1552 pelo Cardeal D. Henrique. Volta ao Colégio das Artes até 1555 de onde irá para o seu canonicato na Catedral de Miranda, afastado da luz douta da conversação com homens de cultura. Em Miranda, numa ode, defende a guerra de conquista, «colide» com a Querella Pacis de Erasmo, acabando por enaltecer D. João III, neutral nos conflitos entre cristãos.

Referimo-nos a alguns humanistas que, de uma forma directa ou indirecta, estiveram em contacto com as ideias de Erasmo e com o nosso humanista Pedro Sanches.

Face ao círculo de amizades de Sanches, não nos parece estranha ou inverosímil a hipótese de uma participação sua nos debates que agitaram a cultura de então, bem como afectaram a própria vida pessoal dos seus amigos. Todavia, da problemática erasmista apenas chegou até nós um único texto da autoria de Pedro Sanches, o que não nos concede uma ampla visão dos ecos da Musa de Roterdão como seria desejável.

O poema De Superstitionibus Abrantinorum, ou seja, «Acerca das Superstições dos Abrantinos» já mereceu um profundo estudo histórico e literário do Senhor Professor Américo da Costa Ramalho 21, que ressoará em eco iluminador nesta nossa breve reflexão.

A composição de Sanches é uma revisitação à «Sátira XV» de Juvenal, na qual o autor critica os egípcios por adorarem o crocodilo, o íbis, o macaco, o gato, peixes, o cão; não comem alho nem cebolas por ser proibido, nem animais que dão lã, mas o antropofagismo não estava vedado.

Juvenal centra a sua atenção num incidente entre Ombos e Têntira, localidades próximas, unidas por um ódio visceral devido a cada uma recusar o culto a outro deus que não o seu. O ódio levou os habitantes de Ombos a atacarem os seus vizinhos, durante uma festa. Surpreendidos e embriagados fogem, com a excepção de um infeliz que foi apanhado pela multidão e devorado por completo.

O tema foi glosado por Montaigne e pelo nosso humanista, que constrói a sua composição dirigindo-se a António Sarmento, tal como Juvenal a Volúsio.

Depois de pedir ao interlocutor a sua atenção e boa fé para o que vai contar, Sanches começa por descrever Abrantes em tons harmoniosos e perfeitos que ultrapassam o Lácio.

Da descrição idílica - que contrasta com a barbárie que irá apresentar - introduz o cerne da disputa: Abrantes divide-se em duas freguesias, adorando uma a São João e outra a São Vicente.

Chegamos ao fulcro narrativo. A ocasião tinha sido a festa de São Vicente, propalada de forma pouco cristã, centrada numa procissão, acompanhada por um hino - criação literária do poeta -, que é impedida de prosseguir o seu caminho pela «aemula pars», através de uma «barricada», enquanto que velhas tecedeiras desordenam a marcha, por entre os protestos dos sacerdotes. As velhas gritam que o dia não é sagrado nem fora celebrado pelos antigos, proclamam São João e ojerizam São Vicente, «cuja pátria e cujo pai ninguém é capaz de mostrar, nem de dizer o nome da mãe» (vs. 123-124), ao que os defensores do santo contrapõem uma catilinária ao padroeiro contrário, criticando a pobreza, os gafanhotos e a sua pele de camelo (vs. 137-139).

Se Cícero disse que as armas deviam ceder à toga, os habitantes de Abrantes julgaram que as palavras deveriam ceder às vias de facto. Só a intervenção de homens de lei e outros espíritos mais esclarecidos impediu que o tumulto tomasse proporções de outro jaez.

Sanches comenta o sucedido pedindo novamente a António Sarmento que acredite no episódio de Juvenal, porque os cristãos de agora não procedem de forma dissemelhante aos pagãos de outrora.

O tom de Pedro Sanches é de nítida crítica à superstição e ao catolicismo popular, traçada com um cálamo que veladamente vai delineando pormenores de veia satírica como a utilização de instrumentos musicais como cymbala, sistrum e buxus, reconhecidamente utilizados pelo culto de feições orgiásticas em honra da deusa frígia Cíbele, cujos sacerdotes («galli») eram eunucos.

Os contornos erasmistas do poema são assinalados pelo Senhor Professor Américo da Costa Ramalho, pois fazem recordar «cerimónias que por si nada contribuem para a piedade, nem recomendam quem quer que seja aos olhos de Cristo, que contempla a pureza da alma»22, e a confrontação entre frades de duas ordens, como em Funus, diálogo de Erasmo, revisitando o nosso humanista a festa de Santo Antão no Ptwcoplousioi :

 «Conrado. - Oxalá que prestassem o verdadeiro culto!

 Pandoqueu. - De que maneira?

Conrado. Presta culto santíssimo aos santos, quem os imita. Pandoqueu. Toda esta aldeia amanhã ressoará de bebedeiras, danças, divertimentos, rixas e socos.

Conrado. Era assim que os pagãos outrora festejavam o seu Baco. E muito me admira de que Antão, assim celebrado, se não encolerize com os homens, bem mais estúpidos do que o próprio gado»23.

 Erasmo censura essencialmente o exagerado exercício terreno da religião quanto às suas manifestações visíveis, mais vocacionadas para a ostentação entre os homens do que para o culto a Deus. Escrevendo a John Colet em 1504, sobre o Enchiridion, diz a dado passo que tinha escrito este texto «não para fazer alarde de espírito ou de eloquência, mas com a única intenção de curar do seu erro aqueles que geralmente colocam a religião em cerimónias e em observâncias mais do que judaicas, que dizem mais respeito às coisas materiais do que à piedade»24.

Outra ponte que se estabelece entre Erasmo e este poema de Pedro Sanches é o uso da sátira, frequente nos Colloquia, nomeadamente quando o Roterdamês se ocupa da «superstitio».

A sátira é, de facto, um utilíssimo instrumento para denunciar os vícios do mundo terreno a desprezar e iluminar o espírito do cristão para a verdadeira fruição religiosa, âmbito do pensamento.

Esta estratégia já era utilizada na pregação e nas representações medievais. Foi utilizada e autorizada pelos Padres da Igreja, e S. Jerónimo cultivou-a, sendo mesmo o seu uso uma arma anterior a este Santo contra o paganismo, muitas vezes interligada à ironia e ao exagero da descrição.

O Roterdamês denota uma utilização dos processos medievais que visava destacar o seu conceito de simplicitas, pólo antipódico das manifestações populares pautadas pela atracção dos sentidos.

Defendia a sua pietas simples e comedida quanto às manifestações exteriores, como contraponto do exagero popular, rótulo de ignorância (recorde-se o colóquio Peregrinatio religionis que criticava essas características tão avessas ao espírito evangélico do autor).

A sátira em Erasmo tem uma função pedagógica e moral bem delineada como o próprio afirma nos Colloquia, tal como Pedro Sanches a plasmou no poema De Superstitionibus Abrantinorum.

Erasmo critica o exagero quer das palavras quer dos actos, verdadeira ilusão que respira o clima da superstitio e que caracteriza as pessoas que «se non credant esse Christianos, nisi quotidie missam, ut apellant, audierint»25.

Se já nos primeiros autores cristãos se vê uma pena mavórtica contra a idolatria e a superstição, em Erasmo surge como um pilar do seu pensamento evangélico. No Encomium Moriae, retrata-se a superstição humana e a sua «aderência» ao mundo terreno, elogiada pela loucura, por meio da ironia; no Enchiridion militis christiani, a própria obra é um instrumento do cristão no combate que é a existência terrena. A IV regra do Enchiridion apresenta um traçado do conceito de superstitio (que Erasmo nunca define totalmente), quando se defende que existe um declive para as atitudes religiosas semelhantes aos pagãos do passado ou ao exagero escrupuloso dos judeus no seguimento da lei, relicário da vida espiritual.

O Roterdamês parece ter sido uma influência para Pedro Sanches, se pensarmos na superstição simples, atitude que resulta da ignorância popular, que não poderia ser liminarmente incompreendida, pois era algo de comum numa Europa onde grassava a falta de cultura, uma certa barbárie nada cristã, resvalando por vezes para o grotesco e horrendo, que Azpilcueta, numa perspectiva semelhante, já tratara no Commento en romance e no Manual de Confessores.

Se por um lado Erasmo não é radical na condenação dos incultos, como podemos ver, por exemplo, quando se refere ao culto dos santos no Enchiridion («Ego uero non tam damno eos, qui haec simplici quadam superstitione faciunt, quam qui emolumentum suum secuti ea, quae tolerabilia fortasse sunt...»26) por outro, não perdoa quando se lida com o espírito de uma forma similar à matéria («Ergo non tam reprehendendum istiusmodi facere quam perniciosum in eis, consistere atque inniti. Tolero infirmitatem, sed cum Paulo uiam demonstro excellentiorem»27).

Esta condenação do excessivo apego às cerimónias vê-se também em Azpilcueta Navarro que vislumbrava o perigo nas «cerimonjas sobradas», no que faziam os «muy cerimoniaticos», pois não reflectiam «enlo que dizen, ni a quie, y porq las hazen, que es harto daño»28 apesar de considerar as cerimónias necessárias «Por sernos cosa natural alcançar las cosas intellectuales y spirituales, por las sesibles, nuestras almas se mueve mucho a se interior, y spiritualmete someter a Dios por las humillationes sesibles, corporales, y exteriores»29.

Quando em 1536 Erasmo silencia a sua voz para sempre, os humanistas conhecem tempos ainda mais difíceis. Em Portugal, André de Resende, que elogiara o Holandês no Erasmi Encomium, substitui o encómio pela precaução como prova a Conuersio Miranda onde cita o próprio Erasmo, nos seus Adágios: «E nos Adágios dele creio que lestes, abundantemente exposto, o pensamento de Péricles, segundo o qual, se deve fazer a vontade e ceder aos amigos, mas só até ao altar, evidentemente, para que se não fira o majestade divina, por causa dos amigos»30.

Resende afasta-se também da Corte onde outrora fizera amigos e era respeitado, como diz a Pedro Sanches, numa carta de 1542 (31). Agora, teme o braço da Inquisição que o fanatismo fazia transfigurar os homens em serviçais do medo. O próprio Diogo Pires, na distante Dalmácia, refere-se a dois nomes odiosos:

«Melo, odioso aos deuses, e Paredes mais cruel ainda!

Sobre mim, ao menos, já não tereis direitos!»32.

Pedro Sanches não poderia deixar de estar atento a este clima censório que se instalava, ele que desempenhava as funções de Secretário do Desembargo do Paço.

A censura era administrada e ministrada através do Ordinário Diocesano, da Inquisição e do Desembargo do Paço. Este último órgão actuou por vezes isoladamente como são os citados casos do rei D. Afonso V, que, muito antes do Santo Ofício, ordenou que se queimassem obras de Wicleff e de Huss, bem como a proibição da divulgação de obras que difundissem as ideias de Lutero, levada a cabo por D. Manuel I, a pedido do papa.

D. Sebastião, que reinava quando Sanches era secretário, determinou em 1577 que sem licença do Desembargo do Paço não poderia vender-se qualquer livro, independentemente do Santo Ofício e do Ordinário, sob pena de perda de bens, desterro para o Brasil ou Africa e mesmo a morte.

A censura estendera a sua teia.

Quanto a Erasmo de Roterdão, a Inquisição sempre teve as suas obras sob a sua alçada, mas a sua proibição aumentou em 1551 com D.João III até à sua erradicação total em 1559 e 1561 com D. Sebastião, decrescendo mais tarde. Assim o atesta o quadro sinóptico elaborado por Artur Moreira de Sá 33:

 

 

 

Ano

Obras proibidas

Obras emendadas

1. Rol

2. Rol

3. Index

4. Rol

5. Index

6. Rol

7. Index

8.Catálogo

9. Index

1547

1551

1559

1561

1564

1564

1581

1581

1597

4

13

todas

todas

7

7

7

7

7

 

 

 

 

 

 

 

várias

várias

 

A proibição, contudo, não impedia que certos textos circulassem, extirpados do «mal», como os Colloquia de Juan Fernandez ou João Fernandes, utilizados com fins didácticos.

Sanches, que outrora poderia ter discutido as ideias do Roterdamês com o seu círculo de amigos, vê-os, um a um, sofrendo as malhas tecidas pelo império da ortodoxia: D. Miguel da Silva divorcia-se do monarca; António Luís condena Erasmo; Jorge Coelho não integra os nomes dos que choram Erasmo com a voz das Musas - apesar de ter sido convidado -; Luís Pires é cauteloso na Conuersio Miranda; Resende abandona o Encomium no «altar»; Diogo de Teive é preso...

Pedro Sanches, imagem do Humanista em Portugal, sob um coro multímodo de cânticos de desencorajamento, soçobra no seu cálamo desvelado. A Musa de Roterdão silencia-se. O cálamo está velado ad aeternum. Para sempre, o manuscrito é a calada testemunha da Musa de Erasmo, o derradeiro sortilégio das Musas...

  

BIBLIOGRAFIA

 

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 REBELO, Luís de Sousa, A tradição clássica na literatura portuguesa, Lisboa, Horizonte Universitário, 1982.

¾ ¾ ¾

* Equiparado a Professor-Adjunto da ESEV

 

NOTAS:

1 Vd. Estudos sobre o Século XVI, op. cit., pp. 237-250.

2 Vd. História da Literatura Portuguesa, op. cit., p. 163.

3 Vd. «Erasmismo» in Dicionário da Literatura, direcção de Jacinto do Prado Coelho, p. 300.

4 Vd. Luís de Sousa Rebelo, A tradição clássica na literatura portuguesa, op. cit., p. 35.

5 Vd. Jorge Alves Osório, O Humanismo português e Erasmo, op. cit., p. 64.

6 Idem, ibidem, p. 66.

7 Como nos diz J. Silva Dias:

«Tinham saído dos prelos parisienses os Adagia (1500), os De duplici copia verborum ac rerum commentarii duo (1510 e 1512), o Moriae encomium (1512), as Laurentii Vallensis in Latinam Novi Testamenti interpretationem adnotationes (1505); dos de Basileia, os Adagia (1513); dos de Colónia, o Moriae encomium (1511 e 1512); dos de Antuérpia, o Enchiridion militis christiani (1503), as Lucubratiunculae aliquot (1503 e 1509) e o Moriae encomium (1511 e 1512). Por outro lado, é conhecido o interesse que, no período em causa, os livros e o pensamento de Erasmo mereceram a Robert Gaguin, Guillaume Budé, Josse Bade».

Vd. A política cultural na época de D. João III, op. cit., p. 80.

8 Idem, ibidem, p. 243.

9 Guilherme Henriques, Inéditos Goiseanos, vol. 2º, pp. 245-248; Joaquim de Vasconcelos, Epistolae Damiani a Goes et aliorum virorum illustrium, pp. 44-46 e 57; Erasmo, Opus Epistolarum, t. 11º, pp. 206-207; Pietro Bembo, Opere del Cardinale, t. 4º, p.255.

10 Vd. Prefácio de A. Costa Ramalho a Roland H. Bainton, Erasmo da Cristandade, tradução de Regina S. Costa Ramalho, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, p. XI.

11 Vd. Latim Renascentista em Portugal, op. cit., pp. 202-203.

12 Idem, ibidem, p. 507.

13 Vd. A Política Cultural da Época de D. João III, op. cit., p. 388.

14 Cf. Maria Augusta Alves Barbosa, Vincentius Lusitanus, Lissabon, 1977, p. 369.

15 Vd. Humanisme et Renaissance..., op. cit., pp. 456-457.

16 Vd. A Política Cultural ..., op. cit., p. 889.

17 Vd. Au Portugal dans le sillage d' Erasme, op. cit., p. 164-165.

18 A carta foi publicada no Epistolarum familiarum libellus, fls. 50 vo-51vo.

19 Vd. Latim Renascentista em Portugal, op. cit., pp. 202-203.

20 Como nos diz Aires P. do Couto, op. cit., p. 280:

«Na carta dirigida a Frei Brás de Braga, Inácio de Morais utiliza três dessas expressões proverbiais: Oleum et operam perdidisse (II, 171 E)5; Cimmeriae tenebrae (II, 593 D); Clauus trabalis (II, 351 E). Na carta dirigida a D. Sancho, aparece a seguinte: Meo indicio peream (II, 137 C). Na carta que dirige a Jerónimo Cardoso (publicada no Epistolarum Familiarum Libellus, fls. 53-54vo) aparecem mais duas dessas expressões proverbiais: Extra chorum saltare (II, 605 B); Sus Mineruam (docet) (II, 43 A). Na Oratio panegyrica, Inácio de Morais recorre a um provérbio que faz parte dos Adágios de Erasmo: In magnis et uoluisse sat est (II, 652 A)».

21 Vd. Estudos sobre o Século XVI, op. cit., pp. 237-250.

22 Idem, ibidem, p. 246. Desiderii Erasmi Roterodami Opera Omnia in Decem Tomos distincta. Georg. Olms Verlagsbuchhandlung, Hildesheim, 1961, I, 700D, citado pelo Senhor Professor Costa Ramalho.

23 Idem, ibidem, p. 246.

24 Vd. Correspondence d' Érasme, pp. 379-380.

25 Citação de Jorge Alves Osório, O Humanismo Português e Erasmo, op. cit., p. 24.

26 Idem, ibidem, p. 171, nota 12.

27 Idem, ibidem, p. 136.

28 Idem, ibidem, p. 200.

29 Idem, ibidem, p. 200.

30 Vd. Latim Renascentista em Portugal, p. 203.

31 Vd. Leitão Ferreira, Notícias, in A. H. P., 7, p. 412.

32 Para a História do Humanismo em Portugal, op. cit., p. 192.

33 Vd. Artur Moreira de Sá, De Re Erasmiana, op. cit., p. 328.

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