A Richmond de Régio é Portalegre - a descrição e o espaço na sintagmática diegética de Davam grandes passeios aos domingos

 

Martim de Gouveia e Sousa *

 

"O espírito do lugar é-me dificílimo aprendê-lo porque justamente aprendi esse no espírito em que se me fez. Tudo mais só me deu o espírito do lugar na medida em que me foi o lugar do meu espírito..."

(Vergílio Ferreira, Um Escritor Apresenta-se )

 

A Keats, em evocação, na certeza de que a "beleza em cada ser é uma alegria eterna"

 

 

0.O fascínio que o espaço - um certo espaço , diríamos - exerce sobre os artistas da palavra é iniludível. Foi essa pulsão interior, essa adesão irreprimível que fez a nossa Sintra admirada de Byron, Beckford, Tennyson, Palgrave ou Fielding, para só citarmos literatos da Velha Albion.

Tal atracção constitui, em termos narratológicos, a prova "claramente vista" de que o espaço é uma fundante e primigénia categoria da narrativa, que, indutora de articulações funcionais profundas, permite, em matiz cumular, a existência do chamado e tantas vezes cultuado romance de espaço. Essa fisicidade, se desapensa da especificidade histórica, conduzir-nos-á, de forma translata, aos correlatos espaço social - e como ele refulge em Davam grandes passeios aos domingos, nomeadamente nos festejos de segunda-feira de Entrudo na casa da Serra de D.Alice Caldeira! - e espaço psicológico - não serão cumeadas da atmosfera psicológica os dilemas de Rosa Maria ?!

Parece-nos ainda inconfutável ser a escolha espacial - e falamos explicitamente dos componentes físicos - manifestativa de um sentido não despiciendo. E só assim se compreende que por via dessa centração não se possa falar de Camilo sem pensar no Porto, de Eça sem assomar Lisboa, de Sebastião da Gama sem emergir a Arrábida ou de Vergílio Ferreira sem os lugares do seu espírito Évora e Coimbra, se lhes desapegarmos a aldeia luminosa de brancura primeva e fundacional. Ora é sob o influxo vergiliano que instauraremos a tese segundo a qual Portalegre é o lugar do espírito de José Régio. Assim, na compulsão textual consentida num artigo desta tipologia, deter-nos-emos nas descrições - essas tradicionais ancillae narrationis que denegam a denominação vulgarizada, uma vez que quase sempre são elemento textual constitutivo e fundante da própria narrativa, sonegando assim um certo carácter autotélico e dimanando um pendor de legibilidade e coerência -, nos espaços mais elucidativos da technê regiana e, por natural defluência, nos informantes de Roland Barthes, que permitem nas palavras de que nos apropriamos "enraizar a ficção no real".

Aduza-se ainda, neste culminar teórico, que o entrevisto construtivismo de legibilidade da descrição nos leva a Philippe Hamon, o qual postula ser a descriptio um lugar de interrompimento da narrativa e simultaneamente o espaço onde cenário e personagens interagem através da consabida ginástica semântica propiciadora da supramencionada legibilidade.

Acabemos, pois, este intróito teorético, destacando também a usual emergência de certas características sígnicas da descrição, como a utilização do pretérito imperfeito e a predominância de adjectivos. Não obstante ser Davam grandes passeios aos domingos uma "short story" - de configuração de escassa materialidade, portanto -, com uma conatural inibição de pausas, não existe na obra em análise desvalorização descritiva, como, aliás, veremos de seguida.

1.Servirá ainda esta curta reflexão, assente declaradamente na edição última desta novela - falamos obviamente da "Brevíssima Portuguesa", esforço das editoras Bertrand, Civilização e Contexto e, em particular, do seu nš6 -, para chamar a atenção dos bibliófilos para esta colecção de encantamento que nos obriga a repetir obras pelo puro prazer de acedermos ao complexo de Alexandria e a salvar das chamas do esquecimento obras paradigmáticas e referenciais. Dado o esclarecimento, deverá qualquer citação ser compulsada com a edição mencionada.

O incipit de Davam grandes passeios aos domingos - "O comboio parara finalmente na estação de Portalegre", p.7 - traduz, em termos sociocríticos, a condição de legibilidade mais importante - a centração em Portalegre, num momento em que o leitor ainda só é indagador - e permite, conhecido o substrato teórico relativo em autores como Sollers, Perrone-Moisés, Bakhtine, Barthes, Goux, Kristeva ou Foucault, entrever na geologia textual desta novela relações de intertextualidade com o início de Aparição de Vergílio Ferreira - "Pelas nove horas da manhã desse dia de Setembro cheguei enfim à estação de Évora." Sabendo-se que a novela regiana foi publicada em 1941 e que o romance vergiliano o foi em 1959, não restarão dúvidas sobre a reutilização desse material textual de grande voga: a chegada de comboio. Esse carácter polifónico poder-nos-á levar, com valor acrescentado, a essa obra-prima de Italo Calvino intitulada Se una notte d'inverno un viaggiatore (Se numa noite de Inverno um viajante), datada de 1979, e em particular ao incipit propriamente dito: "O romance começa numa estação de caminho-de-ferro, uma locomotiva resfolga...". Não importa para o nosso caso maior discursividade sobre o assunto. Interessa, isso sim, salientar que a centração em espaços designados, ab initio, assegura condições de legibilidade e de decifração, podendo desde logo pensar-se em lugares do espírito sujeitos a confirmação. Quanto ao tema da viagem, tão caro aos humanistas renascentistas, mereceria um outro estudo. Pense-se que Vergílio Ferreira, em Manhã Submersa (1954), se bem que em vertente de partida, utilizou semelhante estratagema: "Tomei o comboio na estação de Castanheira..." Em conclusão, antes de se cair na tentação de procurar influências, conjugue-se placidamente que qualquer texto se situa na junção de vários textos e a eles deve o que tem em si.

Permite-nos ainda a primeira página, em dobragem para a segunda (p.8), provar o que anteriormente dissemos em relação ao espaço psicológico:"Vêem uma rapariga só... - pensava ela com a sua psicologia de pouco afeita aos caminhos de ferro e aos desembaraços da mulher moderna... Se a mãe fora viva, não andara ela por aí sozinha, já de noite, assim carregada, exposta a estas pequenas humilhações que todavia abatem uma rapariga tímida". Mas não é esse aspecto que nos prenderá muito, uma vez que importa, em consonância com o título que escolhemos, justicar o porquê de Portalegre a Richmond de Régio ou, em palavras não menos olímpicas, ser tal cidade o lugar do espírito do escritor de Fado . Ainda assim, não deixa de ser oportuno, e até porque apusemos ao título a pretensão de abordagem da descrição, referirmos ser usual em José Régio a dupla ("estação deserta e lúgubre " ),tripla ("vento seco e álgido, violento") ou quintupla adjectivação ("paisagem árida, escalavrada, monótona, queimada e escurecida ); ou, referirmos, sem delongas, a notação de um espaço social vivo a partir da afirmação de que a tia Vitória tinha "muito boas relações entre as famílias mais distintas de Portalegre ou arredores." (p.13).

Mas, para que o excurso não se alongue, será a partir da p.12, com a tirada "Este vento soão é um castigo para as pessoas nervosas...", que o espaço se vai tornando mais afectivo e condensado, por um lado, e criador de ligações placentárias com Toada de Portalegre, por outro. Efectivamente, essa alusão ao vento soão instaura um clima de paragramatismo ou intertextualidade com o poema referido: <<Lá vem o vento soão!, / Que enche o sono de pavores, / Faz febre, esfarela os ossos...>> Pense-se também que Davam grandes passeios aos domingos e Fado são de 1941 e que a obra narrativa precede um pouco o livro de poemas, não sendo por isso de estranhar interpenetrações ou paralelos. Apresentando-se Toada de Portalegre como o manifesto de adesão ao espírito do lugar, fácil é, sem grande extrapolação, através das lexias vento soão , inferir-se o pulsar do cuore regiano.

Em conclusão, poderá ser encontrada em Régio como em Eça uma certa disforia em relação à cidade-espaço - lembremos, em Davam grandes passeios aos domingos..., tiradas como "marasmo da trôpega cidade"(p.17), a existência de quem "por vacuidade interior e ausência de qualquer ocupação séria, continuamente vasculhasse na vida alheia" (p.19) ou a criticável "reverência à fortuna do Chico Paleiros"(p.37) -, mas será desse queixume que nascerá, por imbrincância congenial do espírito do lugar ao lugar do espírito, um espaço de envolvência que nos permitiu apodar Portalegre de Richmond de José Régio. E assim, a partir de uma novela configurada por um plafond de materialidade, não faltarão alusões a espaços como o cinema, a missa, o bridge no Grémio, o Bonfim, a Rua do Comércio, "O Distrito de Portalegre", o Governo Civil, o Café do Rasquilha, os jornalecos locais, as ruas, o mercado, a loja de alfarrábios do Silvino, o "assalto" no Entrudo, os perfis da Sé e das Torres e da Casa Amarela, os ciprestes da Boavista, os eucaliptos do Bonfim, a Rua dos Canastreiros, o Monte da Penha, as estradas da Serra, de Alpalhão, de Castelo de Vide e outros que omitimos neste rol sem ligação; nem tão pouco faltarão personagens e figurantes a demonstrarem, se dúvidas existissem, sobre a minudência interessada de Régio na explanação de atmosferas sorvidas e transformadas pelo poder criador: Rosa Maria, D.Alice Caldeira, Tia Vitória, Dr.Adelino Caldeira, Nando, Lá-Lá, Rita Carrajola, D.Cecília Fortes, D. Piedade Passos, Dr.Neves, Dr.Botilheiro Mendes, Silvino, D. Lourdes Malcato, Chico Paleiros, Zé Santa, Saraivinha, Bina, Dr.Salústio, as Senhoras Limas de Paiva, Dr.Pires de Sousa e Vasconcelos são exemplo bastante. Desta interacção se infere a Richmond regiana e até a comovente conclusão de Rosa Maria no sentido de "ir passear com os filhos de Nando aos domingos..." funciona como símbolo dessa adesão.

Pelo poder da palavra seja feliz a família portalegrense nos seus passeios dominicais, enquanto nós, leitores viseenses, pelo poder de Régio tornamos o nosso tempo mais lento com este passeio sempre renovado.

* Orientador Pedagógico do Ensino Secundário (E.S.Viriato) e Ensaista

SUMÁRIO