VIEIRA PREGADOR

MARIA LUCÍLIA GONÇALVES PIRES *

 

Recordando a vasta obra de Vieira e a forma como foi recebida e apreciada ao longo destes três séculos, facilmente se verifica que os Sermões são o título principal da sua glória literária. Os seus textos oratórios (cerca de 200 sermões) chegaram até nós, não na forma em que foram pronunciados, mas, quase todos, na forma que o seu autor lhes quis dar ao prepará-los para a impressão, tarefa a que dedicou os últimos vinte anos da sua longa vida. O primeiro dos volumes que assim prepara, recuperando o que da sua pregação restava no que chama os seus "borrões" (textos completos, fragmentos de sermões, planos, esboços, etc.) é publicado em 1679. Nos anos seguintes, primeiro em Lisboa, depois (a partir de 1681) na Baía, prossegue este trabalho, publicando sucessivamente mais onze volumes. O último (o 12) é enviado para Lisboa para ser impresso já depois da morte do seu autor.

O que é que faz deste conjunto de sermões uma obra-prima literária e do seu autor o mais afamado pregador português, gozando em vida de grande prestígio não só em Portugal, mas também em Espanha e Itália?

Em primeiro lugar destaque-se a profunda ligação entre o texto da maior parte dos sermões e as circunstâncias concretas, históricas, em que são pregados. O sermão é para Vieira não apenas uma forma de edificação moral e espiritual, mas também um instrumento de intervenção na vida política e social, uma arma que maneja com destreza em defesa das grandes causas a que se dedicou. Através dos sermões de Vieira podemos acompanhar o desenrolar dos principais acontecimentos e problemas da sociedade portuguesa (e brasileira) do século XVII: a guerra com a Holanda em terras do Brasil, em textos como o do "Sermão de Santo António, havendo os holandeses levantado o sítio posto à Baía" (1638) ou o "Sermão pelo bom sucesso das nossas armas contra as da Holanda" (1640); a Restauração e a subsequente guerra com a Espanha, no "Sermão dos Bons Anos" ou no "Sermão de Santo António tendo-se reunido cortes", pregados em 1642; a preocupação com a situação económica do país em guerra com a Espanha e as propostas para sanar essa situação no "Sermão de S. Roque" (1644); a dura e prolongada luta em defesa dos índios do Maranhão contra os colonos que pretendiam escravizá-los no chamado "Sermão das tentações" (1653) ou no "Sermão da Epifania" (1662).

Para fazer da sua palavra um meio eficaz de intervenção e actuação, Vieira recorre naturalmente às técnicas que a Retórica (disciplina fundamental no curriculum escolar e na formação intelectual dos homens da época) sistematizara e codificara. De um dos seus sermões (o "Sermão da Sexagésima", o mais conhecido, aquele que o autor escolheu para abrir o primeiro volume dos que publicou) fez Vieira uma espécie de sucinto tratado de Retórica, um sermão que pretende ensinar como pregar um sermão que seja de facto um discurso persuasivo, capaz de convencer e converter os ouvintes.

É certo que no domínio das técnicas retóricas Vieira não é propriamente um inovador: utiliza fundamentalmente os processos que a escola ensinava, na senda dos tratados clássicos de Aristóteles, Cícero e Quintiliano, tratados que alguns autores, nomeadamente no século XVI, tinham adaptado aos objectivos específicos da oratória cristã. Mas se as técnicas são comuns a quase todos os oradores da época, a forma de as pôr em prática, essa revela o génio inconfundível de Vieira, o seu inigualável talento de arquitectar argumentos, explorar conceitos, trabalhar as palavras. Palavras que são utilizadas não só nas suas capacidades semânticas (e Vieira é exímio na arte de tirar partido da polissemia das palavras), mas também na sua materialidade fónica e até mesmo no seu aspecto gráfico. Todos estes elementos são mobilizados na construção de um discurso engenhoso, construído segundo uma lógica que é, frequentemente, mais verbal que racional. Discurso que pretende captar e persuadir os destinatários, levando-os a tomar atitudes muito concretas. Mas um discurso que tem também, por vezes, uma clara e assumida função lúdica. O que não significa que Vieira caia no jogo de palavras gratuito e inconsequente: é que, tal como S. Francisco Xavier em honra de quem prega 15 sermões, também ele sabe "usar bem do jogo", fazendo dos artifícios retóricos tão apreciados no seu tempo uma utilização equilibrada ao serviço da função específica de cada um dos seus sermões.

Há nestes sermões um vigor, uma energia, que decorre da sua forte personalidade, sem dúvida, e do seu magistral domínio dos processos oratórios vigentes na época; mas que decorre sobretudo da sua capacidade de moldar a linguagem como um material plástico, fazendo-a construir os mais diversos efeitos pragmáticos, numa concretização perfeita do ideal retórico de "arte de bem dizer para persuadir".

No prólogo do primeiro volume dos seus Sermões Vieira lamenta que os textos escritos que assim chegam aos leitores sejam textos sem vida, uma vez que lhes falta a voz que os animou no momento da pregação: "sem a voz que os animou, ainda ressuscitados são cadáveres". Mas creio que os leitores dos sermões de Vieira não podem deixar de discordar desta afirmação do autor. Os seus sermões apresentam-se-nos como textos plenos de vida.

Basta recordarmos a veemência com que no chamado "Sermão das tentações" (1. Dominga da Quaresma de 1653) verbera os colonos do Maranhão por escravizarem os índios. Depois de ter citado um versículo de Isaías que traduz assim: "Brada, pregador, e não cesses; levanta a tua voz como trombeta, desengana o meu povo, anuncia-lhe os seus pecados e dize-lhe o estado em que estão", continua: "Cristãos, Deus me manda desenganar-vos, e eu vos desengano da parte de Deus. Todos estais em pecado mortal; todos viveis e morreis em estado de condenação, e todos vos ides direitos ao inferno. Já lá estão muitos, e vós também estareis cedo com eles, se não mudardes de vida."

E a desumana exploração de que os índios eram vítimas exprime-a nesta exclamação de impressionante visualismo: "Ah fazendas do Maranhão, que se esses mantos e essas capas se torceram, haviam de lançar sangue!"

Recordo outro exemplo: o "Sermão pelo bom sucesso das nossas armas contra as da Holanda", um sermão em que Vieira resolve pregar a Deus para o convencer a proteger os portugueses da Baía, sitiados pelos hereges holandeses. Ao longo de todo o texto o orador assume a atitude de quem exige de Deus aquilo a que tem direito, recorrendo à súplica, à ameaça, e até mesmo à ironia e ao sarcasmo, numa pseudo-aceitação do que demonstra ser uma injustiça divina:

"Mas pois vós, Senhor, o quereis e ordenais assim, fazei o que fordes servido. Entregai aos holandeses o Brasil, entregai-lhes as Índias, entregai-lhes as Espanhas (que não são menos perigosas as consequências do Brasil perdido), entregai-lhes quanto temos e possuímos (como já lhes entregastes tanta parte), ponde em suas mãos o mundo; e a nós, aos portugueses e espanhóis, deixai-nos, repudiai-nos, desfazei-nos, acabai-nos. Mas só digo e lembro a Vossa Majestade, Senhor, que estes mesmos que agora desfavoreceis e lançais de vós, pode ser que os queirais algum dia e que os não tenhais (...) Abrasai, destruí, consumi-nos a todos; mas pode ser que algum dia queirais espanhóis e portugueses e que os não acheis. Holanda vos dará os apostólicos conquistadores que levem pelo mundo os estandartes da cruz; Holanda vos dará os pregadores evangélicos que semeiem nas terras dos bárbaros a doutrina católica e a reguem com o próprio sangue; Holanda defenderá a verdade de vossos sacramentos e a autoridade da Igreja Romana; Holanda edificará templos, Holanda levantará altares, Holanda consagrará sacerdotes e oferecerá o sacrifício de vosso santíssimo Corpo; Holanda, enfim, vos servirá e venerará tão religiosamente como em Amsterdão, Meldeburbo e Flisinga e em todas as outras colónias daquele frio e alagado inferno se está fazendo todos os dias."

Através destes sermões continua a fazer-se ouvir a voz veemente e harmoniosa do seu autor: nas suas diversas tonalidades, nas suas alterações rítmicas, na sua organização melódica, no seu ritmo encantatório que prende tanto pela musicalidade da frase como pelos argumentos expendidos.

Em muitos dos seus sermões Vieira desenhou o modelo ideal do pregador e apontou figuras que personificam esse ideal. O protótipo do pregador segundo Vieira encarna em pessoas como S. Paulo, S. João Batista ou Santo António - homens que usaram a palavra para converterem os homens para Deus. Com estas figuras prototípicas se identificou Vieira: nos seus sermões apresenta-se como apóstolo dos gentios, tal como S. Paulo; à imitação de Santo António, também ele resolve pregar aos peixes para dar lições aos homens; tal como S. João Batista, define-se como "voz que clama". A motivação profunda deste clamor é de natureza espiritual e política: dois vectores que, longe de se oporem, se combinam na sua mundividência, se associam na sua actuação, se harmonizam na sua ideologia messiânica. Uma vida e uma obra unificadas na sua diversidade pelo ideal de construção do reino de Deus na terra, esse glorioso Quinto Império que persistentemente esperou e anunciou até ao fim dos seus dias.

 

* Professora Catedrática da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

 

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