O Romance da Feiticeira Cotovia

e o ROMANCEIRO PORTUGUÊS

 

MANUEL JOSÉ MONTEIRO SÁ CORREIA *

 

"ó subalimentados do sonho!

a poesia é para comer."

Natália Correia

 

 

 

INTRODUÇÃO

 

O Auto da Feiticeira Cotovia de Natália Correia é para nós um desafio: tentar descobrir neste longo poema da sua autora marcas em que transpareçam, mesmo que seja para obter um efeito especial, temas ou formas populares. Isto é, a poesia, neste caso de Natália Correia, é sobretudo expressão de intuições do real, adivinhações, achados verbais, mais ou menos voluntários, emotividade de raiz obscura, efusão de lirismo puro que propicia um encontro com o popularizante e o aproveitamento consciente de termos ou formas populares tidas como tais.

Para este encontro escolhemos alguns romances recriados e reinventados por Almeida Garrett no seu Romanceiro , pois pensamos que existem semelhanças, quer temáticas, quer estilísticas com a obra de Natália Correia. Quer dizer por isso que vamos partir da premissa que as narrativas de tradição popular e tradicional, os rimances e as xácaras ecoam de alguma forma neste poema - COMUNICAÇÃO em "que se dá notícia duma cidade chamada vulgarmente Lusitânia através de alguns fragmentos dos OXYRHYNCAUS PAPYRI interpretados pela autora que desejando julgar o seu tempo ousou ler no passado a signa do presente" 1. Dissemos no início que não era uma tarefa fácil, mas também não o foi o da Feiticeira Cotovia, acreditando nos "Contos espantosos" que se teriam passado na sua cidade. Pelo menos temos a ideia de que mais do que uma análise simplista, vamos tentar mostrar que o que se pretende nas duas obras é a defesa da própria poesia, da magia das palavras, da arte de acreditar que tudo se pode reinventar porque um poeta "é um vestíbulo do impossível / um lápis de armazenado espanto" 2.

 

O AUTO DA FEITICEIRA COTOVIA: A LIBERDADE ETERNA

Em que é que consiste este Auto da Feiticeira Cotovia? "É o processo extraordinário da Feiticeira Cotovia / que diz que as roseiras ao contrário / é que dão rosas e é que há poesia" 3. Estamos perante um julgamento, um auto, um tribunal dirigido pela Inquisição e coadjuvado por uma solteirona (a moral), um padre (o clero) e um patriota (o poder e a morte) que decidem condenar quem diz que "a pátria que se chama vida é dar-se ferida de ser pouca / com séculos de carne decidida / à liberdade que é luz na boca"4. Podia muito bem ser uma narrativa popular com o seu tão característico "era uma vez" e ainda por cima interpretada por esta feiticeira que lembra sempre um tempo antigo, lendário, nebuloso como o tempo dos "Lais" de Marie de France, mas também a própria arte mágica de juntar as primeiras palavras, de se dedicar ao artesanato dos sons e das letras como se se tratasse das primeiras letras aprendidas por uma criança. Pode-se por isso dizer Feiticeira como artesã e cotovia como liberdade, porque se há coisa que estes jurados não lhes permitem é cantar e para eles "voar é um vício".

O que os inquiridores querem é que ela confesse (e daí a repetição dessa palavra ao longo da sua fala), que fale e verbalize que é uma "sibila com bico de rouxinol" e que a seguem dez cães de fila que são dez raios de sol. Este número não é inócuo. Representa segundo Jean Chevalier e Alain Cheerbrant a criação universal, a totalidade da vida em movimento.5

Estamos perante um acontecimento que vai ser escalpelizado pelos jurados, uma vida que é realmente as palavras da própria Feiticeira Poetisa e por isso não nos podemos esquecer de João David Pinto Correia quando afirma que "numa cultura primariamente oral, as palavras relevam do movimento natural do som, são acontecimentos no sentido do termo hebraico "DABAR" que significa simultaneamente "PALAVRA" e "ACONTECIMENTO" 6.

Nos romances populares existe quase sempre um julgamento que leva à morte, pelo menos à morte física. Basta lembrarmo-nos dos romances "Rosalinda" e o "Bernal Francês" para ver que existe aqui também uma reciprocidade, uma comunhão que tem a ver também com a condenação da própria paixão, da própria vida. E é interessante reparar que quando a Feiticeira Cotovia responde à solteirona por ela lhe ter dado "o evangelho de todo o pecado / num ventre vermelho sensualizado", vá buscar algo que é bastante comum nos romances tradicionais - a eternidade. Se em "Rosalinda" isso é visível quando os dois amantes, mesmo depois de mortos, renascem em forma de árvore real e lindo rosal (ela em sangue real e ele em sangue vivo) e continuam a renascer sempre que decepados, a Feiticeira Cotovia só se defende dizendo que "passou um amante no voo directo / dum corpo para a sua constelação / com pena de ti roubei-lhe o trajecto / e pus-te uma pomba infinita na mão"7. É a eternidade que a poesia também permite, mas também a lembrança (e aqui teremos que lembrar toda a nossa história portuguesa) de que por vezes a morte traz consigo o remorso duma nação. No auto da Feiticeira Cotovia quando ela diz à solteirona que "pelos abismos do teu ventre orgíaco /errou a raça cobarde / que nos abortou no círio elegíaco / da nossa perdida sodoma que ardeu"8, no romance "Bernal Francês", quando Violante depois de morta avisa o cavaleiro / amante que "só da existência conservo meu amor e meu remorso"9 e que ele siga um outro caminho, mas mais constante do que foi a sua vida, também existe este elemento.

Aos ataques do frade que a condena por ter feito "com as cores dum arco-íris e uma cadela vadia ... uma harpa para Osíris (deus egípcio, deus do perpétuo renascimento) para me embruxar a freguesia"10 a Feiticeira Cotovia responde chamando até ela as cantigas de amigo - "Vai chegar o meu amigo / traz uma pinha na íris / se a pinha é vir ter comigo / tanto faz Baco ou Osíris"11. E de repente lembramo-nos de D. Dinis e das suas flores de verde pinho ou então duma cantiga de Amor intitulada "Senhor fremosa e de mui loução" do mesmo autor em que ele fala dos pares amorosos de Tristão e Isolda, Brancaflor e Flores, símbolos do amor eterno e da fidelidade amorosa que podemos encontrar, quer em "Rosalinda" quer no "Anjo e a Princesa". Mais uma vez aqui encontramos não só a noção de eternidade, de humanização do próprio Deus, como também a dum aperfeiçoamento moral.

Quando entra o patriota "fazendo meneios de mui doce cortesão" estamos diante duma retórica militarizada, dogmática, patrioteira pois a acusação que faz é que a Feiticeira Cotovia "era uma Inês de âmbar para sempre nos olhos de Pedro desenterrados / e nos painéis de São Vicente enlouqueciam avós pintados era, "o salão do manicómio de Mário de Sá Carneiro / e a feiticeira como um demónio dançava a pátria com o Junqueiro"12. A sua resposta leva-nos não só a autores que se inspiraram na tradição popular portuguesa como também às lendas que tanto inspiraram Almeida Garrett e Teófilo Braga - "É haver Camões como uma revolta, é haver Gil Vicente como um desafio", "é Vasco da Gama mas sem biografia que sem biografia a lenda é o impulso da raça ..."13.

A Feiticeira Cotovia é condenada porque os sete juízos e a Inquisição não podiam permitir a existência de alguém que proclamava que o "povo é a sede e a pátria é a fonte, trabalho de sangue que não mais acaba"14.

Reparemos como a palavra pátria é repetida bastantes vezes ao longo deste texto como se o objectivo da autora fosse o de ressuscitar essa pátria, como ressuscitam os amantes dos cantos tradicionais. E não é por acaso que este texto termina quando "um desejado de lua nova / noivo da pátria vem finalmente / buscar a noiva para a sua cova / e dá-lhe a morte como presente"15. Não a morte das labaredas do Santo Ofício, mas a morte que devolve à terra a semente de uma nova vida /duma nova pátria para nascer.

É evidente que estamos no reino do Maravilhoso, "l'emprunt à une autre tradition permet de sortir des normes morales, sociales ou scientifiques. L'etrangeté du désir saisi dans la prófection imaginaire du merveilleux se confond avec la figure de l'autre, de l'etránger, de l'autre monde. Car le merveilleux ne se donne pas tout à fait comme crédible, mais nous renvoie à un passé ou un ailleurs, oú ce qui se donne à voir aurait été cru"16, e esse maravilhoso é uma constante nos romances tradicionais e populares. Maravilhoso são os amantes que renascem constantemente em "Rosalinda", as letras que aparecem no peito da Princesa quando morta no "Anjo e na Princesa", a luz que pede perdão ao longo dos tempos em "Adozinda". É bom que esclareçamos que o fantástico não é o maravilhoso, que o primeiro situa-se entre o maravilhoso e a realidade, sendo as suas fronteiras susceptíveis de mudança à medida que a ciência e a técnica avançam.

Nestas duas obras há também um elemento comum que é por vezes a alavanca da própria história. Referimo-nos ao segredo e à sua ligação com o proibido. No auto de Natália Correia querem que a Feiticeira confesse os seus supostos pecados, as suas ideias do "poente dum país que não existe / e que andas muito contente quando deves andar triste"17. Nos romances tradicionais o segredo é também o leit - motiv para o desenrolar da história, quer se trate de "Rosalinda", do "Bernal Francês" ou até mesmo de "Adozinda". E este segredo pode mesmo nunca ser revelado totalmente, como acontece em "O Anjo e a Princesa", mesmo que sete sábios (simbolizando os sete planetas ou sete degraus de perfeição) o tentem desvendar.

E quanto ao estilo?

Como diz Paula Guimarães, "os ritmos, as simetrias, as antíteses, as aliterações, (no Romanceiro Português) funcionam como pilares de transmissão e não como ornamento ou enfeites de qualquer ordem"18. Ora este mesmo estilo encontramos nós em Natália Correia já que, como também nos diz Gastão Cruz acerca da poesia desta autora, "as regularidades rítmicas, as repetições, os paralelismos, as antíteses e assonâncias desempenham papel de relevo"19. Reparemos nestes dois exemplos do "Auto da Feiticeira Cotovia" e do romance "Rosalinda". No princípio, o uso das repetições e das aliterações - "Ficaram todos muito decentes / ficaram lentes à moda antiga / ficaram cara de dor de dentes / nunca atitude dor de barriga"20. No segundo, o uso de repetições e de simetrias - "Era por manhã de Maio quando as aves a piar / as árvores e as flores tudo se anda a namorar / Era por manhã de Maio, à fresca riba de mar / quando a Infanta Rosalinda ali se estava a toucar"21. Mas o uso de quadras e inclusive de refrão é comum também. Basta atentar no romance "O Chapin d'el rei ou parras verdes" e na estrutura do texto de Natália Correia, onde a existência dum coro funciona não só como refrão acompanhando toda a história, como também uma espécie de coro de tragédia grega que prenuncia e indica o fim "trágico" da Feiticeira Cotovia. Esta existência duma premonição ocorre por exemplo no romance "Adozinda" e funciona aí como na obra de Natália Correia como o eco duma fatalidade, o indício que vai ritmando todo o desenrolar da história.

Parece-nos também importante realçar que no Romanceiro Tradicional Português existe, viçosamente, a conotação. Basta atentar no romance "O Chapin d'el rei ou parras verdes", para perceber o sentido erótico, sensual, chamativo dos vários quadros que se referem às verdes parras. Peguemos apenas em dois exemplos - "verdes parras tem a vinha: uvas que lhe vira el-rei / tão maduras, tão coradas, estão dizendo comei!" e "A vinha tem parras verdes, madura a uva lhe achei / e tão madura, tão bela, que está dizendo comei!"22. Aqui a vinha e as uvas são uma alegoria da mulher que o rei deseja.

No texto de Natália Correia a conotação está sempre presente, desde o nome da personagem principal até versos que são eles próprios a denúncia, para não dizer o sado-masoquismo da Inquisição - "Em catedrais de mil archotes / numa luxúria de extrema-unção / um frenesim de sacerdotes tem um orgasmo de Inquisição"23.

CONCLUSÃO

Pensamos que este nosso texto tentou mostrar como numa obra dum autor culto se encontram temas ou formas populares, como Natália Correia (ela própria autora duma colectânea dos Cantares Galego-Portugueses) soube também fazer uma viagem pela nossa literatura e daí que se refira a Fernão Mendes Pinto, a D. Dinis ou a Bernardim Ribeiro para provar que a literatura popular e tradicional é como uma Penélope que desfia e fia o seu novelo sem nunca o acabar - "Pela Peregrinação dos nervos de Fernão Pinto / vou partir no galeão que falta no nosso instinto / vou pelos campos de linho do poeta D. Dinis / atirar a flor de pinho que onde cai é um país / vou por tardes de alecrim / unir em saltos de corça / a abelha Bernardim / com a rosa menina e moça"24.

E se Natália Correia fez esta travessia, é justo realçar o papel de Almeida Garrett que afirmava em 1843 que "por baixo dessa aristocracia de poetas, (Sá de Miranda, Ferreira, Filinto Elísio) que nem a viam talvez, andava, cantava e nem com o desprezo morria, outra literatura que era a verdadeira nacional, a popular, a vencida, a tiranizada por esses invasores gregos e romanos, e que a todos os esforços deles para lhe obliterarem e confundirem o carácter primitivo, resistia na servidão com aquela força de inércia como que uma raça vencida, com que a população aborígene de um país resiste a igual empenho dos seus conquistadores ..."25.

É também esta literatura popular que defendemos ao fazer esta comparação e que acreditamos que Natália Correia também defendia quando escrevia "Senhores Professores que pusestes a prémio minha rara edição / de raptar-me em crianças que salvo do incêncio da vossa lição"26.

BIBLIOGRAFIA

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LEMOS, Ester - "Dicionário de Literatura". Porto, Ed. Figueirinhas, 1978.

* Equiparado a Assistente do 1. Triénio da ESEV

1 N. Correia - "Poemas a Rebate" - "O Auto da Feiticeira Cotovia".

2 N. Correia - "Poemas a Rebate" - Ibidem

3 Ibidem

4 Ibidem

5 Jean Chevalier et Alain Cheerbrant,, "Dictionnaire des Symboles".

6 João David Pinto Correia - "Romanceiro Tradicional Português"

7 N. Correia - "Poemas a Rebate"

8 Ibidem

9 Almeida Garrett - Romanceiro

10 N. Correia - Poemas a Rebate

11 Ibidem

12 Ibidem

13 Ibidem

14 Ibidem

15 Ibidem

16 Daniel Poirión - "Le Merveilleux dans la litterature Française du Moyen âge"

17 N. Correia - "Poemas a Rebate"

18 P. Guimarães - Jornal de Letras - Ano IV, n.138.

19 Gastão cruz - "Apoesia Portuguesa Hoje"

20 N. Correia - "Poemas a Rebate"

21 A. Garrett - Romanceiro

22 Ibidem

23 N. Correia

24 Ibidem

25 Almeida Garrett - "Romanceiro"

26 N. Correia - "Poemas a Rebate"

SUMÁRIO