TUDO O QUE DIGO CONTA

CURRÍCULOS FLEXÍVEIS, DIFERENCIADOS, ARTICULADOS HORIZONTAL E VERTICALMENTE.

 

ANÁLISE DAS RESPOSTAS DADAS AOS GUIÕES DO PROJECTO "REFLEXÃO PARTICIPADA SOBRE OS CURRÍCULOS DO ENSINO BÁSICO" PELAS ESCOLAS DO C.A.E. DE VISEU

 

Ana Maria Mouraz *

 

 

Ler respostas abertas a questionários e pretender tirar dessas respostas outras informações, que estão para lá das directrizes das perguntas é, simultaneamente, um risco e um desafio. Um risco porque se pode estar a ler coisas que não estavam na intenção de quem escreveu; um desafio , porque a escrita sempre foi um modo de expressão mais rico que o simples acto de colocar uma cruz no quadradinho das opções, que outros pensaram.

Ler as reflexões que as Escolas fizeram a propósito da análise do Projecto Reflexão Participada sobre os Currículos do Ensino Básico, foi uma oportunidade única (pelo volume de Escolas e professores envolvidos) para saber o que pensam os professores acerca do currículo, e dos modos da sua implementação. Permitiu-nos ainda saber como se organizaram as pessoas para reflectir, e até dar conta de algumas leituras que fizeram, para dar consistência às reflexões. O que, só por si, é sinónimo que a tarefa foi levada a sério.

Tomámos como preocupação inventariar o que pensam e dizem os professores acerca do currículo. Pode perguntar-se o que justifica a importância atribuída às representações dos professores ? É nossa convicção, e foi desse modo que lemos os textos produzidos nas Escolas (e agora damos conta do que lemos), que o modo como os professores entendem currículo , o que o constitui, como se estrutura, é determinante para as suas práticas de construtores ou de executores de currículo. Daí que qualquer intervenção /mudança curricular deva preocupar-se em conhecer e reorganizar as representações dos professores. Esta ideia é quase la palisseana, mas, talvez por isso, nem sempre seja levada a sério.1 Outra leitura possível seria a de tentar diferenciar o que é convicção individual do que é resposta do grupo disciplinar, ou dos orgãos de gestão da escola. No entanto o modo como os guiões apareceram nos estabelecimentos de ensino e o trabalho que foi pedido, não nos permite avaliar esta diferença. Intuímos a sua presença, aqui e ali nalgumas respostas discrepantes entre as dadas aos documentos 1 e 2 (quase sempre tratados pelos Conselhos Pedagógicos ou Escolares) e as afirmações que são produzidas depois, a propósito do documento 3 (muitas vezes objecto de análise em Conselho de Grupo Disciplinar e algumas vezes pelos Conselhos de Turma, nas Escolas com 2º e 3º ciclos).

Organizámos as respostas consoante o tipo de Escolas, na presunção que as práticas e as concepções curriculares dependem, não só dos destinatários dos currículos , mas sobretudo do modo como as escolas se organizam e do auto conceito que fazem acerca da sua posição relativa no Ensino Básico. Dessa forma constituímos os grupos que seguem: Escolas do 1º Ciclo, agrupadas nos respectivos Conselhos Escolares, num total de 29; Escolas Básicas Mediatizadas - 4; Escolas com o 2º Ciclo do Ensino Básico, embora tivessemos incluído neste grupo todas as EB 2/3, todas as Preparatórias ( 4); uma Escola EB 1/2 e outra EB1/2/3, e ainda, as sete C+S existentes na área do CAE Viseu. Este grupo perfazia um total de 26 escolas. Organizámos noutro grupo as 13 Escolas Secundárias que leccionam também o 3º ciclo do Ensino Básico, e tinham enviado o seu parecer. Analisámos ainda as respostas das duas equipas de Educação Especial, mas depois retirámo-las da maioria dos gráficos em virtude da distinção das suas preocupações, que não se enquadravam nas nossas categorias de análise de conteúdos.

 

Tipos de Escolas

 

Tomámos como linhas de análise a questão da flexibilização e diferenciação dos currículos e a sua articulação horizontal e vertical.2

1 - Flexibilizar e diferenciar os currículos

* Como é que as escolas pensam esta ideia ? Como a justificam ?

Objecto de uma pergunta explícita acerca da sua pertinência e efeitos, a flexibilidade e a diferenciação dos currículos não é uma ideia consensual entre os professores. Se, por um lado , toda a gente diz estar convencida que o uniformismo curricular ("pronto a vestir tamanho único") é pedagógica e socialmente desadequado, uma parte significativa dos respondentes assinalou a necessidade de existirem conteúdos, aprendizagens, temas, iguais para todos os alunos de cada ano de escolaridade . As razões invocadas prendem-se, sobretudo, com a ideia de igualdade de oportunidades, entendida a partir da validação externa (visibilidade social) das competências adquiridas na escola e, mesmo, com uma certa concorrência /comparação entre estas. Um dos Conselhos Pedagógicos escreveu a propósito que "este conjunto de aprendizagens nacionais não deve ser nivelado por baixo". Um outro grupo de razões, para reclamar cuidado na flexibilização , prende-se com a maior dificuldade que será a articulação vertical dos currículos, prestados nos diversos segmentos do Ensino Básico, e com a dificuldade acrescida à mobilidade dos estudantes.

 

Flexibilizar currículos:razões negativas

 

A razão, mais vezes invocada para justificar a flexibilização, é a concordância e a relevância das aprendizagens escolares com e para o meio envolvente . A adequação do que se ensina e aprende aos interesses dos alunos, ou às suas necessidades de base, são as duas outras razões positivas para a flexibilidade. " A flexibilidade curricular serve para quem tem dificuldade e para quem quer aprofundar", resume uma E B 2/3. A ideia de universalidade do Ensino Básico como significando universalidade do sucesso dos alunos, só parece poder ser operacionalizada através da flexibilidade curricular para seis escolas (um Conselho Escolar do 1º ciclo; duas Escolas do grupo do 2º ciclo e três Escolas do 3º ciclo). Finalmente a concepção de flexibilização curricular como factor de identidade de uma escola, que corporiza o modelo mais actual de conceber a escola "como unidade básica organizativa do sistema educativo e o local da intervenção pedagógica e da mudança" (Clímaco, 1995 ), só parece ser relevante para quatro delas : três do 2º ciclo e uma do 3º ciclo. Estas quatro escolas argumentam a flexibilidade curricular como sendo função do Projecto Educativo e/ou do Plano Anual de Actividades.

A integração de saberes de disciplinas várias só constitui motivo para flexibilizar em três escolas do 2º ciclo e duas do 3º. Finalmente, e no que concerne ao argumento "flexibilizar currículos é /deve ser factor de integração na vida activa", aparece referido por dois Conselhos Escolares do 1º ciclo e uma Escola do 2º ciclo, curiosamente os segmentos de ensino que estão mais longe do términus da escolaridade básica.

 

Razões positivas para flexibilizar currículos

 

* Do rol dos constrangimentos sentidos pelos professores e que obstaculizam a flexibilização dos currículos, aparece em primeiro lugar a falta de autonomia das escolas para o fazer. Considerando que essa razão é evidenciada por cinco Conselhos Escolares que congregam professores e escolas mais isolados, e cruzando esta informação com as queixas omnipresentes de falta de material e de condições , parece-nos poder entender esta falta de autonomia como sendo de cariz, sobretudo, económico.

Uma segunda ordem de razões, dificultante da flexibilidade, diz respeito à extensão dos programas, como referem sete escolas preparatórias e EB 23.

A falta de formação de professores para a flexibilidade curricular só preocupa duas escolas, embora noutro momento do questionário, acerca da análise da situação, os professores tenham sugerido uma formação mais adequada.

 

Dificuldades da flexibilização

 

* O que pode e deve flexibilizar-se ?

Quisemos saber também que componentes do currículo devem ser objecto de flexibilização. Os resultados constantes no quadro seguinte permitiram-nos identificar seis categorias de respostas, que não sendo todas componentes do currículo, são sobretudo perspectivas diferentes dessas componentes. Relativamente aos objectivos, apenas quatro Conselhos Escolares do 1º ciclo os referenciaram. Os conteúdos não essenciais (que entendemos como não nacionais) aparecem em todos os grupos considerados, embora seja ainda o 1º ciclo a assinalá-lo mais frequentemente. No entanto a sequência dos conteúdos (que às vezes se pode confundir com uma opção estratégica da articulação horizontal dos currículos) não parece fazer muito sentido para as Escolas consideradas .

O campo mais vasto e consensual de flexibilidade é constituído pelas actividades e estratégias a utilizar na prossecução curricular. De igual modo, também as aplicações aparecem catorze vezes referenciadas, embora, em rigor, não sejam uma componente do currículo, porque fazem parte das actividades ou dos conteúdos - consoante o ângulo de utilização. Curiosamente, nenhuma escola considerou explicitamente os modos de avaliação como uma componente de currículo, que possa ser flexibilizada.

 

Flexibilizar que componentes de currículo?

 

* Quem deve ter essa responsabilidade ?

Dentre os vários agentes possíveis da flexibilidade curricular é interessante notar que o professor aparece apenas referenciado no 1º ciclo, do mesmo modo que os técnicos especialistas, muito embora, noutro local do questionário, as pessoas tivessem reivindicado mais técnicos para desenvolvimento da actividade lectiva. Dessa forma, são os orgãos de gestão das escolas que parecem ser, consensualmente, os agentes da flexibilização curricular. Se atendermos ao facto da existência, no questionário, de uma pergunta explícita acerca do papel dos orgãos intermédios na promoção da flexibilidade, talvez possamos considerar como de interesse a referência discriminada dos diferentes orgãos. Ser-nos-á legítimo dizer que no 2º ciclo se atribui mais importância ao Conselho de Turma, em desprimor do Conselho de Grupo Disciplinar, como espaço de flexibilidade, só pela diferença de duas respostas assinaladas? Consideramos que esta questão é ainda um tema que interessa trabalhar mais.3 As duas Escolas do 2º ciclo e os dois Conselhos Escolares que assinalaram que a flexibilidade deve ficar a cargo de grupos de escolas, têm uma pequena dimensão.

 

Quem faz a flexibilidade

 

* De que modos curriculares pode fazer-se a flexibilização ?

Considerando agora os diferentes tipos de estrutura curricular que são possíveis numa escola portuguesa, quisemos ver como pode fazer-se a flexibilização curricular.

Assim a área - escola é a opção que adquire quase unanimidade dos respondentes. No entanto, uma parte significativa considera que é preciso reorganizar melhor essa novidade da Reforma Curricular. O currículo informal é também espaço de flexibilidade para cinco escolas e apenas três consideram poder fazê-lo nas disciplinas constantes dos planos curriculares.

 

Modos de operar a flexibilidade dos currículos

 

A existência de componentes locais do currículo vem sendo incluída, paulatinamente desde há 5 anos, nos projectos educativos das escolas, na sua maior parte por influência do programa PEPT2000. Lugar privilegiado da diferenciação curricular, as CCRL (componentes curriculares regionais e locais) supõem uma lógica de intervenção social, subjacente ao currículo. Até agora, as CCRL têm, sobretudo, incluído os trabalhos da área-escola e as actividades de complemento curricular. Ora, quando se pede aos professores "exemplos de temas relevantes que possam integrar a oferta da Escola ao nível de uma disciplina ou com carácter transversal", está a pedir-se-lhes que culturalizem ou socializem a sua disciplina. Foi desse modo que os professores e as escolas entenderam a tarefa? Não sabemos responder com certeza. Daí que também não possamos distinguir quais destes temas devem integrar o currículo formal dos alunos e quais serão apenas substância do currículo informal.

 

TEMAS RELEVANTES PARA INTEGRAR O CURRÍCULO DA ESCOLA

(Oferta da Escola)

TEMAS

EB

Esc. Sec

Formação cívica, Educação para a cidadania

19

12

Património

10

5

Problemas e recursos sociais e económicos da região

2

3

Educação para os media

 

1

Educação do consumidor

3

1

Equilíbrio ecológico e ambiente

15

9

Higiene , Saúde e Ed. Sexual

16

7

Novas Tecnologias da Informação

12

2

História das Instituições

 

1

Educação Família e Escola

3

1

Romanização

 

1

Educação para o trabalho

 

2

Educação para a prevenção rodoviária

3

1

Relação Pais Filhos

2

 

Identidade nacional

 

3

Educação artística , Formação estética

1

3

Ed. Musical

 

2

História Local

1

3

Artes Dramáticas

3

3

Técnicas e métodos de trabalho e investigação

1

2

Agricultura biológica

1

 

Primeiros Socorros

1

 

Práticas Administrativas

1

 

Mecânica

1

 

Culinária / Actividades domésticas

2

 

Reparações electrónicas

1

 

Pintura

1

 

"Bricolage"

1

 

 

Quais destes temas podem articular saberes de várias disciplinas já existentes no currículo ?

Esta é uma pergunta que cada disciplina, cada professor , deve fazer-se.

2 - Articular horizontal e verticalmente os currículos

A preocupação da coerência interna dos currículos, pensada a partir da lógica da inclusão vertical e horizontal dos saberes, é um tema normalmente revisitado a propósito dos currículos. Não se põe em causa , por isso, a sua necessidade , mas as razões que a tornam legítima e os modos da sua operacionalização. Foi isso que tentámos averiguar numa segunda linha de análise das reflexões escritas. Uma vez que não havia uma pergunta explícita organizámos as representações /ideias acerca da articulação curricular pelas afirmações que as escolas foram fazendo de modos dispersos nos documentos 1 e 2.

Uma primeira análise processual permitiu-nos verificar que há alguma incoerência entre a necessidade da articulação curricular , que parece ser uma ideia sem oposição, e o modo como as escolas organizaram o processo de reflexão sobre o projecto em epígrafe, que solicitava a todos os professores se debruçassem sobre todos os documentos. Algumas escolas dividiram a análise de documentos por grupos, enquanto outras não analisaram alguns deles, quase sempre os que eram relativos aos ciclos de escolaridade que não lhes diziam directamente respeito - no seu entender. Esta prática torna a ideia da articulação curricular vertical um pouco demagógica. Por outro lado, ao responder aos documentos 3 B e 3C, a maioria das escolas seguiu o princípio de colocar cada grupo disciplinar a trabalhar apenas as aprendizagens nucleares das suas respectivas disciplinas. Apenas 3 escolas secundárias e 4, do grupo com 2º ciclo, constituiram excepção a esta regra.

As Escolas consideram estar presente nos documentos a preocupação de articular horizontal e verticalmente os currículos ? Como se manifesta essa preocupação ? E como se justifica a sua necessidade ?

Se uma boa parte das escolas considerou que a ideia da articulação curricular está prevista no projecto agora em discussão, outras pensam que isso não acontece porque as aprendizagens nucleares previstas continuam a ser extensas , dificultando ou mesmo inviabilizando a ideia . Acrescente-se ainda que especificamente no que concerne à articulação horizontal dos currículos , seis escolas consideraram que a ideia não estava prevista no projecto e é difícil articular programas depois das aprendizagens nucleares definidas.

A razão principal para justificar a articulação vertical é a sua função essencial no desenvolvimento de competências e aprendizagens nucleares, que merece a menção explícita de 27 Escolas e Conselhos Escolares. A aproximação entre professores de diferentes ciclos (causa ou consequência da articulação vertical?) e o colmatar de falhas anteriores da escolaridade, são outras razões bastantes, indicadas pelas escolas.

 

ARTICULAR OS CURRÍCULOS HORIZONTAL E VERTICALMENTE

- representações-

tipo de escolas

1ºciclo

2ºciclo

EBM

2ºciclo

(+1/3)

3ºciclo

Equipas Ed..Especial

Ideia / nºescolas

29

4

26

13

2

Prevista no Documento

12

3

6

3

 

Não prevista no documento, porque os currículos são extensos e desajustados

3

1

6

2

 

Horizontal - Não previsto no documento: é difícil articular programas

1

 

4

1

 

Vertical - Essencial para o desenvolvimento de competências e aprendizagens nucleares

7

 

16

4

 

Vertical - Permite aproximar os professores dos diferentes ciclos

 

 

1

1

 

Vertical - para suprir falhas anteriores

1

1

 

 

 

 

* Que exigências coloca a articulação horizontal e vertical dos currículos ?

Quando inventariámos as exigências que as Escolas sentem existir no desenvolvimento articulado dos currículos, demos conta que só são referenciadas as que dizem respeito à integração horizontal dos programas. Dentre essas campeia o recurso obrigatório a novas metodologias, porventura distintas das que são utilizadas nas rotinas diárias. A interdisciplinaridade aparece como a segunda exigência referida por três Escolas do grupo com o 2º ciclo e um Conselho Escolar.

 

ARTICULAR OS CURRÍCULOS HORIZONTAL E VERTICALMENTE

- exigências-

tipo de escolas

1ºciclo

2ºciclo

EBM

2ºciclo

(+1/3)

3ºciclo

Equipas Ed..Especial

Exigências/nºescolas

29

4

26

13

2

Horizontal - exige a participação dos alunos

 

1

 

1

 

Horizontal- implica novas metodologias

3

 

7

4

 

Horizontal - exige a interdisciplinaridade

1

 

3

 

 

 

* Que dificuldades se interpõem a esse objectivo ?

As razões que dificultam , no entender das Escolas, a articulação curricular distribuem-se pelos materiais pedagógicos, pelas condicionantes organizacionais e pela formação de professores. Encontrámos ainda cinco Escolas e Conselhos Escolares que consideram que o que se pretende é demasiadamente ambicioso. Com um número de referências igual, aparece a inadequada formação de professores, tendo em vista o objectivo da integração, ou o seu desconhecimento dos programas das outras disciplinas ou dos outros níveis.

 

ARTICULAR OS CURRÍCULOS HORIZONTAL E VERTICALMENTE

-dificuldades-

tipo de escolas

1ºciclo

2ºciclo

EBM

2ºciclo

(+1/3)

3ºciclo

Equipas Ed..Especial

Dificuldades/nºescolas

29

4

26

13

2

Horizontal - falta material

1

 

 

 

 

Horizontal- estrutura organizacional (espaço /tempo) não adequado

 

 

2

 

 

Vertical - excessivamente ambicioso

2

 

1

1

1

falta de formação de professores e/ou desconhecimento dos programas

2

 

1

2

 

 

* A quem deve caber a tarefa de promover esses dois tipos de articulação ?

As escolas, que explicitamente atribuem a responsabilidade da articulação horizontal e vertical dos currículos, dividiram-se entre uma postura centralizadora e uma outra, de maior autonomia dos orgãos educativos locais. Parece-nos que a articulação vertical cabe , no entender das Escolas , em 1ª instância ao Ministério e aos autores dos programas. Faz algum sentido cruzar esta ideia com aqueloutra, já citada, da preocupação das escolas em não flexibilizar excessivamente, para não pôr em causa uma certa igualdade de oportunidades dos alunos, no final da Escola Básica.

 

ARTICULAR OS CURRÍCULOS HORIZONTAL E VERTICALMENTE

- da responsabilidade de quem-

tipo de escolas

1ºciclo

2ºciclo

EBM

2ºciclo

(+1/3)

3ºciclo

Equipas Ed..Especial

Quem /nºescolas

29

4

26

13

2

Vertical- os órgãos das escolas

1

 

 

1

 

Vertical - O Ministério ou os autores dos programas

1

1

5

3

 

Vertical - Agrupamento de Escolas

2

 

 

 

 

Vertical - A escola em articulação com as famílias

1

 

 

 

 

Horizontal - os órgãos das escolas

 

 

4

4

 

Horizontal - O Ministério ou os autores dos programas

 

 

8

 

 

Horizontal - A escola em articulação com as famílias

2

 

 

 

 

 

Responsabilidade da articulação curricular

 

 

* De que modos curriculares poderá ser adequado implementar essa articulação ?

Finalmente, interrogámos os pareceres dos professores acerca dos modos curriculares adequados para implementar a integração. Uma parte significativa das Escolas e Conselhos Escolares atribui à Área- Escola essa tarefa. Não deixa de ser curioso esta referência à Área-Escola, porquanto uma parte significativa das Escolas considera que a novidade da Reforma colide com o cumprimento dos programas e constitui uma parte curricular, que não deve ter impacto na avaliação (leia-se classificação) dos alunos. A ser assim, a tarefa integradora que lhe é atribuída seria também coisa de menor importância...

Os outros dois modos de articulação referidos pelos professores, o curriculo informal e as disciplinas, variam inversamente de relevo nas escolas do 1º ciclo e nas restantes escolas - o que evidencia bem a diferença de funcionamento entre elas.

 

ARTICULAR OS CURRÍCULOS HORIZONTAL E VERTICALMENTE

-modos curriculares de fazer-

tipo de escolas

1ºciclo

2ºciclo

EBM

2ºciclo

(+1/3)

3ºciclo

Equipas Ed..Especial

Modos/nºescolas

29

4

26

13

2

área escola

9

1

8

5

 

Projecto educativo ou Plano Anual de Actividades

 

 

1

1

 

Disciplinas/ áreas disciplinares

6

1

3

 

1

Currículo informal

4

1

10

5

 

 

Pareceu-nos lógico pensar a flexibilidade e a diferenciação curricular em estreita correlação com o jogo vertical e horizontal dos saberes, não só porque seria mais relevante para o desenvolvimento do sujeito que aprende, mas também porque ficará mais perto de uma epistemologia da complexidade , que pensa os saberes da escola como arquipélagos de sentido. Como pode promover-se essa transversalidade no currículo ? Eis algumas das ideias soltas que os pareceres contêm e que é sinónimo que as Escolas já andam a pensar nisso.

 

IDEIAS SOLTAS PARA PROMOVER A FLEXIBILIDADE DE MODO ARTICULADO, HORIZONTAL E VERTICALMENTE.

 

Horário de serviço docente com tempo conjunto para quem tem turmas comuns.

Reuniões interciclos para articulação vertical dos currículos.

Formação de professores no desenvolvimento de currículos flexíveis.

Equipas multidisciplinares.

 

CONCLUSÃO

Curricular ainda não é um verbo conjugado por todas as pessoas. Curricular é mais um adjectivo que se tem aplicado sobretudo aos programas formais .

O objectivo desta leitura das reflexões das Escolas era demonstrar que há ainda uma tarefa a fazer para que os professores se apropriem da sua função de construtores de currículo : é consciencializá-los desse seu poder.

Ser construtor de currículo não é empresa fácil: a um tempo porque remete constantemente para a pré-ocupação de perguntar sempre: que competências estou a providenciar que os alunos adquiram com as experiências de aprendizagem proporcionadas? Por outro lado, porque exige a criatividade e o desafio de produzir novas ligações entre o saber das disciplinas e a realidade, que se metamorfoseia aos olhos dos alunos. 4

Ser construtor de currículo também não é fácil, porque há muitos outros construtores , com quem é preciso partilhar os planos. Fazer articulação horizontal e vertical dos currículos supõe exactamente essa apropriação do desejo de "ser um dia o teu olhar"5, a saber, o olhar das outras disciplinas , num gesto de entrecruzar saberes.6

Ser construtor de currículo é, finalmente, ousar ser um operário de currículos, mas um operário em construção.

BIBLIOGRAFIA

CLÍMACO, Maria do Carmo (1995).- Observatório da qualidade da Escola : guião organizativo.2ªed.- Lisboa: Ministério da Educação- PEPT2000.

FÉLIX ANGULO, J. y NIEVES BLANCO (1994).- Teoría y desarrollo del Curriculum. Málaga: Aljibe.

LIMA, Maria de Jesus (1993).- As componentes reginais e locais dos currículos. Cadernos PEPT2000, 4, 7-16.

LIMA, Maria de Jesus (1994).- Integração curricular no ensino básico. in PIRES, E.L. (org).- Educação básica: reflexões e propostas.- Porto:SPCE, 1994, 125- 172.

MACHADO, F.A.& GONÇALVES, M.F. (1991).- Currículo e desenvolvimento curricular. Porto: Asa.

PACHECO, José Augusto (1995).- Da Componente Nacional às Componentes Curriculares Regionais e locais. Cadernos PEPT2000. 7.

PACHECO, José Augusto (1996).- Currículo: teoria e prática. Porto: Porto Editora.

SANTOMÉ, Jurjo Torres (1994).- Globalización e interdisciplinariedad: el curriculum integrado. Madrid: Ed. Morata.

ZABALZA, Miguel A. (1995).- Planificação e Desenvolvimento Curricular na Escola. Porto: Asa.

Projecto "Reflexão Participada sobre os Currículos do Ensino Básico". Doc.1,2,3A ,3B,3C, e 4. Lisboa: DEB,1996- 1997.

 

Entre) cruzar ideias e práticas

 

TUDO O QUE DIGO CONTA

CURRÍCULOS FLEXÍVEIS, DIFERENCIADOS, ARTICULADOS HORIZONTAL E VERTICALMENTE.

 

IDEIA CENTRAL:

O modo como os professores entendem currículo, a sua estrutura e o papel que lhes cabe nesse processo, é determinante para a realização das suas práticas curriculares.

 

2 linhas de análise:

1 - Flexibilizar e diferenciar os currículos

* Como é que as escolas pensam esta ideia ? Como a justificam ?

* O que pode e deve flexibilizar-se ?

* Como pensam poder fazê-lo ?

* Quem deve ter essa responsabilidade ?

 

2 - Articular horizontal e verticalmente os currículos

* Como se articulam os saberes, competências e atitudes que compõem o currículo ?

* Como se promove a sequência lógica desses saberes, competências e atitudes ao longo da escolaridade ?

* Como é que as Escolas consideram exequível a articulação horizontal e vertical dos currículos ?

* A quem deve caber a tarefa de promover esses dois tipos de articulação ?

* Que dificuldades se interpõem a esse objectivo ?

* De que modos curriculares poderá ser adequado implementar essa articulação ?

 

" NÃO BASTA DAR ÀS ESCOLAS E AOS PROFESSORES A POSSIBILIDADE DE GERIR / ADAPTAR OS CURRÍCULOS.

QUEM TEM FORMAÇÃO PARA O FAZER ?

COM QUE APOIOS ?

QUANDO (...)?

QUE ESPAÇOS FÍSICOS E TEMPORAIS EXISTIRÃO ?"

(Extracto do parecer da Escola Básica 2/3 Grão Vasco - Viseu)

 

IDEIAS SOLTAS PARA PROMOVER A FLEXIBILIDADE DE MODO ARTICULADO, HORIZONTAL E VERTICALMENTE.

* Horário de serviço docente com tempo conjunto para quem tem turmas comuns.

* Reuniões interciclos para articulação vertical dos currículos.

* Formação de professores no desenvolvimento de currículos flexíveis.

* Equipas multidisciplinares.

 

¾ ¾ ¾ ¾ ¾

* Equip. a Prof.-Adjunto da ESEV

¾ ¾ ¾ ¾ ¾ ¾ ¾ ¾ ¾

1 Não deixa de ser interessante que exista um manancial imenso de literatura pedagógica e didáctica para tratar das aprendizagens como mudança conceptual dos alunos, e não se enfatize / trabalhe a necessária e prévia mudança conceptual dos professores, pelo menos no que diz respeito ao currículo.

2 Os valores constantes dos gráficos são valores absolutos, não são percentagens. Como o nº de escolas em cada categoria não é igual não seria legítimo fazer comparações simplistas. Além disso, não nos move qualquer intuito de generalização.

3 Algumas escolas, poucas, colocaram diferenciadamente o papel que deveria caber aos diversos orgãos intermédios de gestão, como por exemplo: ao Conselho Pedagógico caberia a elaboração do Projecto Educativo (1º nível de flexibilidade); ao Conselho de Grupo Disciplinar pertenceria a adaptação dos programas nacionais às potencialidades do meio; e o Conselho de Turma trataria da execução flexível, entendida como a promoção da interdisciplinaridade

4 O que justifica esta metamorfose ? As mudanças que se operam no desenvolvimento dos alunos, e lhes permitem apropriar-se da realidade de modos diferentes, mas também a própria irreversibilidade do devir histórico.

5 Apropriámo-nos do verso do Pedro Abrunhosa "se eu fosse um dia o teu olhar", para tentar demonstrar que a articulação curricular supõe essa condição realizada.

6 Entre(cruzar) ideias e práticas era o título dos encontros, realizados em Viseu em 28/5/97 e organizados pelo IIE, onde apresentámos algumas destas conclusões.

 

SUMÁRIO