TUDO O QUE DIGO, CONTA

Mª de Jesus Fonseca *

 

APRESENTAÇÃO

Os artigos que a seguir se apresentam resultaram de comunicações apresentadas oralmente no dia 28 de Maio de 1997 no Ciclo de Encontros, subordinado ao tema geral (Entre)cruzar Ideias e Práticas, promovido e organizado pelo Instituto de Inovação Educacional (IIE) - Núcleo Regional do Centro e pela Escola E.B. 1, 2 de Marzovelos. Na preparação desta efeméride foi solicitada a colaboração da Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico de Viseu. Nesse sentido, fomos contactados e convidados pelo Presidente do Núcleo Regional do Centro do IIE a apresentar uma proposta de programa para este ciclo de encontros, tendo ficado acordado entre as partes que a temática versaria o currículo. Várias foram as razões que pesaram nesta escolha: por um lado, a conciliação dos interesses e dos objectivos do Encontro, quer na perspectiva do IIE, quer na perspectiva de ESEV; por outro lado, adequar a temática ao interesse dos destinatários do Encontro, a saber, professores de todos os níveis de ensino; por outro lado ainda, possibilitar a resposta imediata da ESEV a este convite, uma vez que algumas das suas Áreas Científicas, designadamente as que foram envolvidas neste projecto - Ciências da Educação, Psicologia e Matemática - têm estudado este tema, têm-se envolvido, até em colaboração com outras instituições, em estudos sobre o tema, ou, até mesmo, têm realizados investigação recente sobre o mesmo tema. Finalmente, a todos nos pareceu oportuna e actual tal temática, uma vez que as escolas e os professores se encontravam, neste momento, e a convite do Departamento de Educação Básica (DEB) do Ministério da Educação (ME), num processo de Reflexão Participada sobre os Curriculos do Ensino Básico.

Propusémos, por isso, como título genérico do Encontro E se "currículo" fosse um verbo conjugado em todas as pessoas.... Por outro lado, e como se depreende do que já afirmámos até agora, o programa deste Ciclo de Encontros era mais vasto, de modo que o que agora se apresenta nos textos subsequentes não corresponde senão a uma parte desse programa. Intitulamos esta Secção com o mesmo título que, então, lhe demos: Tudo o que digo"conta": análise dos relatórios enviados pelas escolas da área de Viseu no âmbito do projecto "Reflexão Participada dos Currículos do Ensino Básico."

Como se sabe, e disso já demos conta noutros textos1, o referido projecto, da iniciativa do DEB, pretendia promover uma alargada discussão pública, com toda a comunidade educativa e, sobretudo, com os principais protagonistas intervenientes no currículo, isto é os professores e as escolas, no sentido de estabelecer amplos consensos nacionais sobre algumas questões curriculares essenciais, designadamente Que Perfil de Competências à Saída do Ensino Básico? e Que Aprendizagens/Aquisições Nucleares?

A par dos documentos que o DEB apresentou às escolas como propostas para servirem de base a esse debate, vinham, igualmente, Propostas de Guiões Para Reflexão, enunciando um conjunto de questões a que se esperava que os professores respondessem, e que permitiriam conhecer as conclusões a que tinham chegado e qual o seu "sentir". Tais respostas deviam ser enviadas às Coordenações de Área Educativa (CAEs), aí analisada e categorizadas segundo uma grelha, também enviada pelo DEB, e posteriormente remetidas ao Ministério da Educação.

Foram as respostas dadas pelos professores nas escolas abrangidas pela CAE de Viseu, que constituíram o material que trabalhámos, e que, agora, apresentamos dando, assim, conta aos professores dos resultados globais do seu próprio esforço de reflexão.

Se a explicação que antecede serve para justificar o título da nossa comunicação, serve também, por outro lado, para contextualizar os textos que agora vêm a lume.

De facto, os artigos que ora se publicam, já estão escritos desde essa altura. Convém também referir, desde já, que as conclusões nacionais, resultantes do trabalho de reflexão e do debate acontecido nas escolas, já foram publicadas pelo ME.2

Pode, portanto, parecer que tais textos se apresentam agora extemporanemante e que, a serem publicados, deveriam surgir na secção Arquivos desta revista. Contudo, não é esta a nossa opinião e daí a decisão de os iincluirmos neste espaço. Sem negarmos a sua contextualização temporal, consideramos que um processo de reflexão (participada ou não) sobre os currículos é um processo contínuo, permanente e permanentemente inacabado como processo que é; Por outro lado, também porque enquanto professores, necessariamente nos encontramos sempre dentro desse processo, que caracteriza o nosso destino como professores. Por outro lado, as conclusões a que, naquele momento, se chegou, não constituem conclusões passadas e até ultrapassadas, mas presentes, e traduziram-se em subsequentes medidas do Ministério da Educação, designadamente no reforço efectivo da autonomia curricular das escolas e na implementação de um sistema de gestão curricular flexível nas escolas do Ensino Básico. Gerir autónoma e localmente o currículo, trabalhá-lo plasticamente, e não como se de um instrumento rígido e dogmático se tratasse, de flexibilizá-lo no sentido de o adequar aos diferentes contextos em que é desenvolvido e aos diferentes públicos que serve, para, em última análise, melhorar a eficácia das práticas educativas. É este o processo que actualmente se encontra em curso nas nossas escolas básicas, processo para o qual continuamos a ser solicitadas e no qual continuamos a trabalhar. Eis porque ainda vemos actualidade e pertinência nos textos que a seguir se apresentam.

AGRADECIMENTOS

Os nossos públicos agradecimentos à Coordenação da Área Educativa de Viseu (CAEV), pela colaboração prestada, uma vez que, sem hesitações, nos disponibilizou as respostas dos professores e das escolas ao Projecto Reflexão Participada Sobre os Currículos do Ensino Básico. Sem essa prestimosa colaboração institucional, este trabalho não teria sido possível.

Igualmente agradecemos, em termos institucionais e, mais ainda, em termos pessoais, a total disponibilidade e colaboração que a Drª Alexandra Ferreira, Maria de Fátima Ferreira e Dr Alcídio Faustino, todos da CAEV, sempre nos dispensaram, aquando da realização deste trabalho.

Os nossos reiterados agradecimentos, neste momento, ao Coordenador da Área Educativa de Viseu, Dr Carlos Jorge Morgado Gomes, pela sua anuência à publicação dos textos que se seguem.

* Prof.-Adjunto da ESEV

 

1CF. MJF, Algumas considerações a propósito do Projecto "Reflexão Participada Sobre os Currículos do Ensino Básico, in: Millenium, nº 6, 1997, pp. 55-65.

2AAVV, Relatório do Projecto "Reflexão Participada Sobre os Currículos do Ensino Básico", Lisboa, Ministério da Educação, Departamento de Educação Básica, 1997.

A este propósito, não podemos deixar de manifestar o nosso regozijo pela publicação deste Relatório, que inverte uma prática tradicional do ME, nunca dando feedback aos professores das opiniões que lhes eram pedidas (nas raras situações em que isso acontecia). Esta foi, aliás, uma das lamentações que insistentemente ouvimos, "a nossa opinião não conta para nada", "nem vão ler", "não vale a pena o empenho porque tudo vai ficar na gaveta", "mesmo que leiam nada vai mudar". Também já fizemos eco destas preocupações num artigo publicado na Millenium, nº 6, 1997, p. 67. Tranquilizámos os professores, tentando convencê-los daquilo que nós próprias estávamos convencidas: que, desta vez, ia ser diferente. De qualquer forma não esperávamos esta resposta tão rápida do ME: o Relatório é publicado em Setembro de 1997, o mesmo ano em que decorreu o processo.

Ainda bem que assim foi e que se possa, desta forma, restaurar a esperança perdida dos professores, transformar a sua desilusão e desalento, num agir futuro cada vez mais empenhado, porque agora sabem que vale a pena.

SUMÁRIO