Editorial

Criada na Europa no século XI como studium generale ou universitas magistorum et scholarum, a Universidade tem-se revelado como uma das instituições sociais mais sólidas deste milénio. Impressionante monumento da escolástica nos seus primeiros tempos; favorecida, especialmente nos séculos XIII e XIV, por doações e privilégios de papas, monarcas, e também de cidades, a obra nela desenvolvida elevou então a ciência à categoria de terceira potência, depois do Estado e da Igreja.

Uma reflexão breve sobre a vida desta instituição nos seus primeiros séculos permite-nos destacar dois factores decisivos na sua consolidação: o primeiro tem a ver com a omnipresença do latim como veículo da comunicação científica; o segundo, com a mobilidade dos académicos na busca do debate e de manuscritos espalhados pelas bibliotecas do continente.

O primeiro destes factores viria progressivamente a perder peso face à crescente afirmação dos dialectos nacionais. Não a mobilidade (tornada mais fácil pelo desenvolvimento das vias e dos meios de comunicação), instituída como instrumento de cooperação e de fertilização mútua de culturas. O facto de que na selecção de conteúdos curriculares os académicos detinham alguma margem de liberdade ajuda a compreender melhor a importância dessa mobilidade. Exemplos significativos da sua prática, entre tantos outros, Leonardo, Erasmo, Descartes.

A partir da Segunda metade do século XIX, e como consequência directa de uma postura mais centralizadora dos novos estados, a criação de diplomas nacionais e as restrições da liberdade individual dos académicos na definição curricular (algumas disciplinas adquirindo mesmo um crescente carácter nacional) foram factores limitadores de diálogo e de cooperação internacionais.

Também no nosso século, e já depois da reconstrução europeia, a conjugação de fenómenos como a massificação do ensino superior, as pressões exercidas pelo mercado de trabalho na formação, as fortes interferências governamentais traduzidas na implementação de sistemas de planeamento e de controle reduziu a capacidade de resposta da Universidade às novas necessidades criadas pelo desenvolvimento da economia regional e mundial obrigando os países europeus à criação de universidades novas e exigindo das instituições mais antigas um gradual ajustamento à nova realidade económica e social.

A diversificação do ensino superior, nomeadamente a criação e o desenvolvimento do Ensino Politécnico, com uma maior variedade de formação e com uma estruturação mais pragmática dos seus cursos foi outra das estratégias seguidas na Europa a partir dos anos sessenta para fazer face às exigências de uma competitividade até então desconhecida.

Contudo, o enriquecimento desta diversificação só poderá ser conseguido pelo investimento no capital humano, na investigação e, sobretudo, pelo retomar da atitude de fortalecimento da cooperação entre os diferentes países do continente através da mobilidade que durante séculos caracterizou uma parte da vida da Universidade.

Na última década, sobretudo pela via dos programas comunitários, " ramificações inesperadas do que significa adquirir uma educação ", tem-se assistido a uma recuperação dessa atitude privilegiadora do diálogo inter-nacional, tornado agora possível pelo Inglês, já não pelo latim, fomentador potencial do aprofundamento do saber e da aproximação entre as pessoas no respeito pelas suas culturas individuais.

Esta recuperação no tempo actual de uma prática nascida na Idade Média está na origem do nome escolhido para esta publicação. " Millenium " pretende constituir-se como um forum aberto à circulação de ideias sobre questões nacionais e estrangeiras de importância crucial para a cultura, a ciência e a educação, nomeadamente: o estreitamento das relações científicas e culturais a nível internacional, a construção curricular mais flexível e mais humanizada, a melhor adequação da educação a realidades cada vez mais provisórias. Para além de, muito naturalmente, passar a constituir um espaço de divulgação da actividade do I.S.P.V. e também dos acontecimentos mais relevantes que forem acontecendo no tempo, sobretudo no espaço europeu.

 

FONTES:

DHONDT, E. (1995) Reflections on internationalization in Extra University Sector in Europe. Journal of Business and Society, 1, Vol. 8, 20-27.

GRIMBERG, C. História Universal. Lisboa: Publicações Europa-América, 1967.

SUMÁRIO