MILLENIUN n. 7 - Julho de 1997

 

Editorial

Não é difícil antecipar, face ao alargamento constante do espaço em que se concretiza, que a cooperação internacional seja cada vez com mais frequência apresentada neste fim de milénio como um dos instrumentos mais poderosos de desenvolvimento dos povos. Indicadores objectivos em que esta previsão assenta são, entre outros, a exposição permanente das sociedades a pressões comerciais muito fortes e o impacto da comunicação electrónica à escala planetária.

No âmbito da educação e da formação, o enfoque político no apoio à sua internacionalização, por um lado, e a autonomia crescente das instituições de ensino superior, a que tem correspondido uma expansão rápida da mobilidade académica, pelo outro, são, porventura, os factos mais visíveis deste esforço de intercâmbio de conhecimento e de culturas.

Se os princípios da necessidade e da inevitabilidade da cooperação não estão, portanto, em causa, o mesmo se não poderá afirmar relativamente aos pressupostos, às finalidades e às formas que essa cooperação tem assumido, não sendo também difícil prever que com o seu quadro actual de referências (visão economicista, potenciadora do alargamento do fosso entre o norte e o sul, entre países que multiplicam exponencialmente a sua riqueza e os que, também exponencialmente, multiplicam a sua miséria; instrumento de expansão e de domínio cultural, ideológico e político, etc.) a cooperação corre sérios riscos de vir a constituir um fracasso rotundo.

Frequentemente, a esta estratégia de desenvolvimento tem faltado a perspectiva do papel central do homem e da profunda diversidade das culturas que ele tem sabido construir, e têm sobrado algumas práticas com contornos de neo-colonialismo cultural, ideológico e político. Está-se em presença de um caminho perigoso para a humanidade.

Na extensíssima lista dos países carenciados de novos padrões de cooperação situam-se os PALOP's. Portugal tem para com cada um deles o dever acrescido de uma cooperação assente em princípios de parceria, no respeito pelas suas próprias opções de desenvolvimento.

O ISPV tem uma política de cooperação internacional (ver Millenium n.4, pp 25-31). Nela se encontram definidos princípios, prioridades, estratégias e as regras pelas quais a instituição e as unidades orgânicas que a integram se deverão reger. Os países africanos constituem uma das prioridades desta política e o Instituto começou a planificar, e tem vindo a pôr em prática, um calendário de contactos e de acções que, espera-se, venham a corporizar muito em breve uma actividade de cooperação concertada e coerente no respeito pelos ritmos culturais distintos de cada um deles.

Este esforço de aproximação aos PALOP's teve início com Cabo Verde. As conversações preliminares tidas entre o ISPV e o Ministério da Educação deste país, em particular a Direcção-Geral do Ensino Superior, revelaram-se bastante frutíferas e puseram a descoberto a receptividade deste povo a futuras acções de cooperação educativa com a nossa instituição. Esta receptividade prende-se, sobretudo, com a coincidência de necessidades e visões educativas, embora estas na prática tomem contornos distintos, que apontam para a valorização da ligação ao mundo do trabalho e para o desenvolvimento da comunidade envolvente. Actualmente está em curso um primeiro projecto de cooperação, na área da formação de professores de Matemática e Ciências da Natureza, no entanto, prevê-se o alrgamento deste tipo de projectos às áreas científicas abrangidas pela Escola Superior de Tecnologia e pela Escola Superior Agrária.

Nesta calendarização segue-se S. Tomé e Príncipe. O mesmo esquema de aproximação está agora a ser seguido, pelo que no passado mês de Junho se deslocou a este país uma delegação do ISPV com o intuito de dar início a conversações exploratórias, que serão acompanhadas por uma série de visitas que proporcionarão um conhecimento mais real da situação e dos recursos ali existentes. Desta forma, será possível projectar uma cooperação mais realista, mais adequada às necessidades e objectivos dos envolvidos. Moçambique será o próximo passo, previsto para 1997/1998, e, por fim, virão Angola e a Guiné.

É intenção do ISPV "levar a bom porto" estas iniciativas, numa postura de estreita colaboração com as instituições africanas envolvidas, de forma a, com o máximo proveito mútuo, explorar as potencialidades das afinidades de raiz histórica com estas regiões, nomeadamente a língua.

 

Departamento Cultural

SUMÁRIO