A MOBILIDADE CULTURAL E MENTAL AO LONGO DOS TEMPOS:

PORTUGAL QUINHENTISTA NA VANGUARDA DA EUROPA DE ENTÃO.

 

No Portugal de hoje, com a actual configuração geográfica, continental e insular, não deixa de ser oportuno referir que importa ter em consideração um legado cultural que a cada instante nos recorda a necessidade de procedermos a uma adequada utilização e a uma correcta reconstrução do nosso património.

O sentido ecuménico da cultura portuguesa manifesta-se um pouco por toda a Humanidade. No Ocidente Europeu, como em África, no Brasil e na Ásia existem testemunhos dos encontros de outrora, das potencialidades dos nossos mares e reconhece-se a obra levada a efeito noutras épocas, noutros séculos. É uma realidade indiscutível que faz vibrar todo o sentimento Lusíada.

Por tudo isto é oportuno relevar datas e acontecimentos, evocar caminhos e rotas, bem como enaltecer figuras históricas de relevância nacional, hoje já pertencentes ao património mundial. O confronto com as novas realidades ocorrido no século XV, e a consequente valorização deste facto, geraram uma reflexão justa acerca da mudança civilizacional.

Portugal projecta um trajecto inicial para depois se lançar à feitura de uma História fecunda, sedimentando um quotidiano aprendizado na Epopeia dos Descobrimentos.

Não podemos negar que um dos factores mais subjectivos e mais polémicos que identificam o povo português, mesmo quando este se encontra disperso pelo Mundo, é a projecção da sua cultura, a grandiosidade da sua História ecuménica de índole espiritual, com destaque para os Descobrimentos, que constituem motivo de engrandecimento nacional na medida em que a Europa se projecta sobre o Mundo exercendo sobre ele uma significativa influência. É a interligarão cultural e mental que aflora dessa epopeia, desses contactos, dessa mundividência. É o misticismo relacionam dos povos que se encontraram. São os gostos, as sensibilidades, as reciprocidades das diferentes gentes em conjunção, em oposição, em choque. Enfim, é uma realidade multífacetada que implica uma reflexão sobre o tempo e o espaço. É a preocupação com a conciliação do passado com a mudança do futuro.

Na cultura dos Descobrimentos tem especial interesse a abordagem de figuras fascinantes, invulgares, como D.João de Castro, assim como a estruturação do juramento e linguagem científicos e, ainda, o avanço das explorações nos continentes desconhecidos que foi acompanhado pelo desenvolvimento da Geografia.

Ainda hoje é possível encontrar vestígios acentuados da mobilidade cultural de então, patente nas múltiplas formas que foram tomando as expressões urbanísticas e arquitectónicas nos territórios povoados pelos portugueses, quer seja nas inóspitas e atraentes Américas, quer seja nas exóticas África e Ásia, onde surgem diferentes estilos de vida e formas de pensar e onde se fazem sentir influências convergentes.

A nova capacidade colectiva tem um dos seus maiores impulsos nos Descobrimentos e é no século XV que a cultura portuguesa atinge um dos seus mais pungentes momentos de nível europeu. Para além da Literatura de viagens, assumem relevância a Botânica, a Geografia, entre outros. O Mundo descobre-se, a Cosmografia evolui O Mundo questiona-se, projecta-se mas interliga-se. É o momento da afirmação Lusíada. É a realidade que se sobrepõe à fantasia, ao exagero, A valorização dos novos dados é, então, efectuada à luz do princípio da reflexão .sobre si mesmo perante a outra realidade. O contacto com outras gentes, outras posturas, dá origem no séc.XVI a uma descoberta protagonizada por 'aquele que observa', que se envolve num processo gradual de aprendizagem tornado possível pelos erros cometidos e pelo reforço das virtudes acumuladas.

A própria Cristandade tem a sua maior realização nesta época, semeando a palavra do Criador em terras diferentes, em situações novas, dando a conhecer aos mundos que se abrem o realismo cristão indo-europeu. Trata-se da abertura do Cristianismo ao Mundo.

A reconstrução de uma nova imagem da Terra surge nos séculos XV e XVI e com ela um clima propício ao debate e à troca de informação entre os povos. A mobilidade cultural e mental neste período foi possível graças ao grandioso empenho português.

 

A.V.B.

SUMÁRIO