COOPERAÇÃO DO ISPV

COM A

REPÚBLICA DE CABO VERDE

 

Uma delegação do ISPV deslocou-se em Abril último à República de Cabo Verde onde manteve contactos com o senhor Professor-doutor Luís Manuel Alves, Director-Geral do Ensino Superior e Ciência deste país, e com a senhora doutora Filomena Delgado, Secretária Geral do Ministério da Educação, Ciência e Cultura, em representação do senhor Ministro, tendo em vista o estudo de diferentes formas de cooperação numa base de parceria.

A visita foi retribuída pelo senhor Director-Geral no início do mês de Junho. Após uma visita aos Serviços Centrais do ISPV e às instalações das suas unidades orgânicas, realizou-se um jantar de trabalho que teve a presença de representantes dos departamentos das Escolas Superiores de Educação de Tecnologia e da Escola Superior Agrária, para além dos dirigentes do ISPV. No diálogo mantido, as realidades da educação e da formação do ISPV e da República de Cabo Verde puderam ser analisadas em profundidade.

De modo a poder construir uma cooperação eficaz o trabalho de consultas vai prosseguir num futuro próximo.

 

No País da MORABEZA

Visita de trabalho à República de Cabo Verde

 

 

Introdução

O território da República de Cabo Verde é constituído por um arquipélago de dez ilhas e vários ilhéus, situado na margem sul do Atlântico Norte e distribuído por dois grupos - Barlavento e Sotavento - designação esta que tem como referência o alíseo de Nordeste dominante. São ilhas de origem vulcânica, acidentadas e com um clima de tendência árida. Inicialmente, o arquipélago teve o nome de "Ilhas de Santiago", o que consolida a opinião da maior parte dos historiadores, segundo a qual a primeira ilha a ser descoberta, por Diogo Gomes em 1460, foi a de Santiago. Os escritos da época explicitam que todas as ilhas se encontravam desabitadas e já contêm referências aos singulares aspectos paisagísticos dessas terras.

As belezas naturais.

Portugal preencheu cerca de cinco séculos da sua história. Hoje, quem visita este jovem país, cujos atractivos começam a ter cartaz internacional, reconhece em todos os recantos e no contacto com o seu povo os laços fraternais que - é minha convicção - nada nem ninguém alguma vez conseguirá destruir. Mais, é visível que a ligação dos portugueses aos PALOP, em geral, e a Cabo Verde, em particular, construída de geração para geração ao longo dos séculos, atravessa, hoje, uma fase de franco robustecimento, sobretudo entre os jovens. O Projecto em que se insere esta visita de trabalho, iniciativa de um grupo de jovens estagiárias da Licenciatura em Ensino de Matemática / Ciências da Natureza do Ensino Básico, é uma prova disso.

 

O Projecto

A visita de trabalho à República de Cabo Verde, a que se refere este texto, insere-se num projecto de cooperação que privilegia regiões e países de expressão portuguesa. Visa essencialmente o intercâmbio cultural, de recursos e de experiências educativas, em termos de desenvolvimento da educação intercultural e da promoção da formação de professores. Trata-se de uma iniciativa das Áreas Científicas de Matemática e de Ciências da Natureza da Escola Superior de Educação de Viseu e consta de duas vertentes: uma que se desenvolve na própria Escola Superior de Educação; outra que se desenvolve nas escolas públicas onde os formandos estagiam e, portanto, envolve directamente escolas de Ensino Básico e os alunos das turmas onde decorre a Prática Pedagógica.

A presença de Portugal...

A vertente que se deseja desenvolver no âmbito mais específico da Escola Superior de Educação prevê o intercâmbio de experiências, de recursos educativos e humanos, relacionados com a formação de professores e com o desenvolvimento curricular, bem como a realização de investigação conjunta nestes campos.

Todavia, é essencialmente na segunda vertente que se insere a iniciativa de um grupo de quatro estagiárias, finalistas da Licenciatura em Ensino de Matemática/Ciências da Natureza - 2 Ciclo do Ensino Básico, de orientar o seu "Projecto de Intervenção nas Escolas" - uma componente da formação designada por Prática Pedagógica III - para um intercâmbio multifacetado com a República de Cabo Verde e com a Região Autónoma dos Açores.

A proposta de trabalho elaborada pelas referidas estagiárias, e que mereceu a aprovação do Grupo de Supervisores das respectivas áreas científicas e dos Conselhos Pedagógicos das escolas onde foi realizado, tinha subjacente o desenvolvimento da educação intercultural, tendo como suporte um conjunto de actividades, a desenvolver pelos professores e alunos das escolas, e cujo produto se destinava a um intercâmbio com os colegas açoreanos e caboverdianos. Para consolidação e promoção destas intenções, o projecto previa também o intercâmbio de visitas de trabalho, a nível de professores.

Neste texto iremos falar apenas da cooperação com a República de Cabo Verde. Dos contactos então iniciados, resultou um protocolo de cooperação com o Instituto Pedagógico do Mindelo, na Ilha de S. Vicente, e com o Instituto Pedagógico da Praia, na Ilha de Santiago. Talvez seja interessante conhecer algumas das intenções específicas que presidiram ao projecto de intervenção das formandas.

Assim, no respectivo texto, pode verificar-se que os objectivos específicos foram definidos a nível de alunos, a nível de escola e a nível de professores. Como objectivos a nível de alunos foram definidos os seguintes:

- O reconhecimento da importância de estabelecer laços científicos com outras culturas.

- Proporcionar um bilinguismo cultural.

- Incentivar iniciativas e opções no domínio de actividades escolares e recreativas.

- Promover o trabalho de grupo, nomeadamente a comunicação e o espírito de entre ajuda.

- Desenvolver o pensamento científico.

- O reconhecimento e a utilização da Matemática e das Ciências da Natureza como um saber partilhável.

- O reconhecimento da Matemática e das Ciências da Natureza como um instrumento de comunicação universal.

- Proporcionar o acesso a bens de outra cultura, sobretudo nos domínios da Matemática e das Ciências da Natureza.

- Adoptar na vida comportamentos de defesa do equilíbrio ecológico e de preservação do património natural.

- Proporcionar uma Educação Matemática e uma educação no âmbito das Ciências da Natureza mais diversificadas.

- Alargar os horizontes Matemáticos e os horizontes das Ciências da Natureza.

- Permitir a cada um conhecer-se melhor e conhecer melhor os outros através da Educação Matemática e da Educação Ambiental.

- Desenvolver a criatividade através da Educação Matemática e da Educação em Ciências da Natureza.

A nível de Escola , propõe-se:

- Salientar o enriquecimento que pode advir da interacção entre as diversas características das culturas - educação intercultural.

- Proporcionar interacções e confrontos entre diferentes histórias, vivências e valores.

- Desafiar as atitudes comparativas que realçam as diferenças e reforçam os estereótipos.

- Estabelecer um intercâmbio de recursos materiais e humanos.

- Valorizar a Educação Matemática.

- Valorizar a Educação Ambiental.

- Promover o intercâmbio de visitas de trabalho.

Quanto a objectivos a nível de professores, destaca-se :

- Motivar para uma Educação Matemática diversificada.

- Desenvolver uma formação mútua, proveniente de uma conviviabilidade reflectida.

- Promover a troca de experiências e de materiais de formação.

- Estimular a reflexão sobre a contextualização de questões das didáctica da Matemática e da Didáctica das Ciências da Natureza.

- Sensibilizar para a Etnomatemática.

- Promover o intercâmbio de visitas de trabalho.

Para atingir os referidos objectivos, as formandas organizaram um conjunto de actividades, umas com carácter de continuidade, como, por exemplo, o problema mensal, a recolha de curiosidades matemáticas e de elementos de História da Matemática (privilegiando investigações de âmbito regional) e outras calendarizáveis, por semanas. Por outro lado, motivaram a formação de um grupo de alunos - o Grupo de Trabalho Vai-Vem dos Saberes - e, em espaço próprio, montaram um pequeno laboratório onde se centrariam as referidas actividades, nomeadamente, a construção e testagem de materiais recreativos e de apoio à aprendizagem da Matemática e das Ciências da Natureza, bem como a compilação e organização dos materiais destinados ao intercâmbio com os colegas açoreanos e caboverdianos.

A visita de trabalho a Cabo Verde foi agendada para o mês de Abril; mais propriamente, de 12 a 19 de Abril. No documento/proposta enviado ao Instituto Pedagógico pode ler-se:

"O grupo de trabalho, constituído pelas quatro estagiárias do núcleo n1 da Escola 2/3 do Mundão e por um docente da Escola Superior de Educação, propõe-se oferecer às instituições caboverdianas anfitriãs o programa de actividades que a seguir se descrimina.

Actividades a desenvolver pelas estagiárias:

- Sessões de vídeo organizadas para os alunos, visando a apresentação dos alunos portugueses que constituem o Grupo "Vai-Vem dos Saberes", de mensagens gravadas para os seus colegas caboverdianos, de actividades desenvolvidas pelo grupo, das escolas onde decorre o Projecto, da cidade de Viseu e das principais vertentes da cultura regional. Distribuição de pequenas surpresas enviadas pelos colegas portugueses.

- Aulas de Matemática e de Ciências da Natureza, demonstrativas das potencialidades dos recursos didácticos seleccionados para intercâmbio. Estas aulas destinam-se a alunos da escolaridade obrigatória.

- Demonstrações de materiais manipulativos e outros recursos didácticos, para professores e formandos.

O sarau recreativo: A actuação de um grupo português.

 

Actividades a desenvolver pela docente acompanhante:

- Estabelecimento de contactos com vista ao alargamento do Projecto a outras áreas científicas da Escola Superior de Educação, eventualmente interessadas.

- Coordenação das actividades a desenvolver pelas estagiárias.

- Uma sessão de apresentação do Sistema Educativo Português, da Escola Superior de Educação de Viseu, nomeadamente das suas funções, dos planos de estudos e da filosofia que, nesta Escola, preside à formação de professores de Matemática/Ciências do Ensino Básico.

- Outras sessões sobre temas a indicar pelas instituições a visitar.

Exposição de materiais recolhidos e/ou produzidos no âmbito do Projecto "Vai-Vem dos Saberes":

Testes, fichas de trabalho, textos informativos, manuais escolares, jogos, colecções de problemas e de curiosidades, postais, gravações audio e vídeo, software educativo, uma colecção de números da revista de educação Millenium, ...

Estes materiais constituirão uma oferta do grupo visitante às escolas caboverdianas."

A exposição de recursos didácticos e de materiais ilustrativos da região de Viseu e da ESEV.

 

A visita de trabalho

A visita de trabalho decorreu nas cidades do Mindelo e da Praia, entre 12 e 25 de Abril de 1997. Inicialmente, como refere a proposta, a visita foi programada para uma semana. Todavia, face ao programa de actividades sugerido, os Senhores Directores dos dois pólos do Instituto Pedagógico solicitaram que se prolongasse a estadia para duas semanas, de modo a que o mesmo se realizasse no pólo do Mindelo e, depois, no pólo da Praia. Nos parágrafos seguintes apresenta-se uma descrição sucinta do que foi realizado e sentido ao longo da estadia nas referidas cidades.

Na Cidade do Mindelo

A cidade do Mindelo é a capital do concelho de S. Vicente e sede do distrito e da comarca de Barlavento. Fica situada na costa norte da Ilha de S. Vicente e na parte sudeste da grande baía que forma o Porto Grande, antigamente um importante ponto de escala para a navegação e comércio do Atlântico. Esta localidade surgiu em 1794 com o nome de Aldeia de Nossa Senhora da Luz, mas, posteriormente, conheceu outras designações. O nome "Mindelo" foi-lhe atribuído em 1838, por D. Pedro V, em homenagem aos combatentes liberais que desembarcaram na praia do Mindelo, próximo da cidade do Porto. Hoje, continua a ser conhecida pelo seu porto de grande tradição e conserva o ar cosmopolita dos velhos tempos. Todavia, é a sua faceta de cidade amante do lado divertido da vida que lhe conferiu o rótulo de capital da diversão do país: bons restaurantes, frequentes animações com música típica ao vivo - as melodiosas noites caboverdianas - e, sobretudo, uma agradável convivência que esta gente procura, cultiva e acarinha. Nesta cidade, o visitante é também surpreendido pelo arranjo cuidado dos lugares públicos, pelo seu património histórico e por um movimento cultural permanente. É talvez este multiplicar-se em manifestações de vivacidade que levam a considerá-la a cidade mais acolhedora e atraente do país. Há quem diga que aí nasceu a morabeza e aí continua a ser a sua sede.

Chegámos ao Mindelo no Sábado, dia 12 de Abril. Aguardava-nos no aeroporto a Senhora Directora do Pólo e os restantes elementos da Direcção da Instituição. Além das cordiais boas vindas, proporcionaram-nos transporte e todo o apoio inerente ao alojamento e a uma primeira ambientação. Nesse mesmo dia, ofereceram ao grupo um jantar de trabalho para ajustarmos pormenores da agenda a cumprir ao longo da semana, nas suas duas vertentes: actividades das formandas e actividades da formadora. Relativamente às quatro acções de formação temáticas agendadas, foi solicitado que cada uma delas fosse repetida (uma sessão de manhã e outra de tarde), para assim abranger o maior número possível de professores participantes.

No dia seguinte, Domingo, foi-nos oferecido um passeio em que tivemos a oportunidade de conhecer os mais diversos e deslumbrantes recantos da Ilha, as suas maravilhosas praias (como a Baía das Gatas e a praia do Calhau), a sua gastronomia e, sobretudo, vivenciar a simpatia e o calor humano das gentes de S. Vicente.

Na segunda-feira, iniciámos o dia com uma visita às instalações do Instituto e, depois, conforme o combinado, a manhã destinou-se a montar a exposição de materiais interculturais e didácticos. Esta exposição/laboratório esteve patente ao público durante toda a semana, entre as 9 e as 18 horas. Em paralelo, realizou-se um encontro preambular da formadora com o corpo docente do Instituto. De tarde, as formandas procederam à sua apresentação nas escolas onde iriam decorrer as suas actividades lectivas, recolheram as informações necessárias sobre as turmas a leccionar e tiveram um primeiro contacto com os alunos.

A formadora deu início ao ciclo de sessões com o tema: "O Sistema Educativo Português / A Educação de Professores na Escola Superior de Educação de Viseu". Nesta actividade, além do sistema educativo português, tivemos oportunidade de apresentar e comparar os modelos de formação de professores vigentes em Portugal e, com mais pormenor, o trabalho desenvolvido na ESEV, quer a nível de formação inicial, quer a nível de formação contínua, quer a nível de formação especializada.

Instituto Pedagógico - Mindelo

 

Durante os três dias da semana que se seguiram, era suposto as formandas cumprirem o seu horário lectivo e, em articulação com este, prestarem o devido apoio à exposição/laboratório, em termos de resposta às solicitações dos visitantes e da realização de demonstrações das potencialidades dos materiais expostos. Assim aconteceu; mas, como tiveram solicitações dos professores para repetirem as aulas com outras turmas, a sua actividade foi intensificada relativamente ao previsto. Segundo a sua opinião, esse facto traduziu-se num prazer, dada a boa relação que estabeleceram com os professores e com os alunos. A formadora realizou, em duplicado, as acções de formação subordinadas aos temas: "Didáctica dos números racionais", "Didáctica da Geometria" e "Ensinar a pensar".

A semana de trabalho encerrou-se com um sarau recreativo onde, num ambiente transbordante de alegria e de amizade, actuaram as formandas portuguesas e um grupo de formandos caboverdianos. Uma pequena e modesta amostra da música popular portuguesa, aliás bem conseguida, fez eclodir momentos bonitos, plenos da magia da música e da poesia caboverdianas - algo que nos enche a alma.

Para os jovens, certamente que o convívio não terminou ali. A despedida foi longa e estou convicta de que as promessas de um reencontro e as saudades vão ultrapassar este último dia na linda cidade do Mindelo.

A Direcção do Instituto obsequiou-nos (e surpreendeu-nos), ainda, com uma visita à Ilha de Santo Antão. Partimos na 6 feira de manhã, em "ferry-boat", com destino à povoação de Porto Novo. Aí, iniciámos a descoberta desta ilha verdadeiramente maravilhosa. Santo Antão, a ilha mais acidentada do arquipélago, devido ao relevo excepcional do seu solo, surpreende-nos em cada curva da estrada: as paisagens espectaculares revelam-nos as ribeiras, os planaltos, as montanhas e as neblinas multicolores desta ilha única, onde o silêncio apenas é quebrado pelas aves e pela parca população residente. Li algures e constatei que, nesta ilha, a pessoa sente-se como nunca absorvido pela Natureza em estado puro. E não poderia deixar passar este momento sem mencionar a querida D. Idalete - de uma simpática família caboverdiana que nos acolheu e onde comemos a melhor cachupa, a melhor fruta, os melhores doces, etc., etc., ..., enfim, onde passámos momentos inesquecíveis. No dia seguinte partimos para a cidade da Praia.

Na Cidade da Praia

A cidade da Praia é a capital da República de Cabo Verde e também a sede do distrito e da comarca de Sotavento. Fica situada na costa sul da Ilha de Santiago, numa plataforma sobre o mar, envolvida pelos vales da Ribeira Grande e da Várzea. Esta ilha foi descoberta em 1460 e, em breve, se tornou o principal porto de escala nas rotas para a África, América e Oriente, antes do desenvolvimento do Mindelo. Inicialmente, a capital do arquipélago de Cabo Verde foi a cidade da Ribeira Grande, hoje denominada Cidade Velha - local histórico, situado a cerca de 12 km da actual capital, associado ao facto de ter sido a primeira cidade ultramarina dos trópicos. A ilha de Santiago é considerada a maior e mais importante ilha do arquipélago: desde sempre foi o centro político do arquipélago e, nos últimos anos, é notório o desenvolvimento dos seus centros urbanos. O Tarrafal, por exemplo, é, hoje, o polo turístico mais importante de todo o Sotavento. A cidade da Praia duplicou em poucos anos e é, presentemente, centro de vários eventos de carácter político, económico e cultural, quer de âmbito nacional, quer de âmbito internacional. Os seus mercados típicos, nomeadamente o mercado municipal, situado no "plateau", e o mercado da "Sucupira", na Fazenda, bem como a Esplanada, na "pracinha", constituem um dos melhores meios de conhecer como se vive e convive nesta cidade.

Chegámos à cidade da Praia no Sábado, dia 17 de Abril, em cujo aeroporto nos aguardava um numeroso grupo, constituído por formandos e elementos da Direcção do Polo do Instituto Pedagógico. Além das cordiais boas vindas, proporcionaram-nos transporte e todo o apoio inerente ao alojamento e a uma primeira ambientação. Nesse mesmo dia, tal como no Mindelo, tivemos um jantar de trabalho onde ajustámos pormenores da agenda a implementar ao longo da semana, nas suas duas vertentes: actividades das formandas e actividades da formadora. Como, em Cabo Verde, o dia 23 de Abril é o dia nacional do professor, as instituições escolares não funcionam, pelo que a agenda previamente definida teve de ser reajustada. A programação da formadora processou-se segundo os moldes adoptados no Mindelo, isto é, não teve alterações significativas. Porém, questões relacionadas com a distribuição dos estagiários locais levaram a que as formandas tivessem de reajustar as suas planificações e, nalguns casos, elaborá-las de raíz. Abro um parêntesis para louvar a sua disponibilidade, boa vontade e indiferença pelas horas de sono perdidas para obviarem esta situação imprevista e cumprirem bem as responsabilidades assumidas.

No dia seguinte, Domingo, foi-nos oferecido um interessante passeio na companhia do corpo docente do Instituto e de um grupo numeroso de formandos, incansáveis na animação e boa disposição que proporcionaram. Tivemos então a oportunidade de conhecer os mais diversos e deslumbrantes recantos da Ilha, as suas maravilhosas praias e a sua gastronomia. Face à impossibilidade de caracterizar todos os pontos visitados que nos impressionaram pelos mais variados motivos, referirei apenas a Cidade Velha e o Tarrafal.

A Cidade Velha é o berço histórico do arquipélago, onde o Padre António Vieira pregou aos escravos que por aí passavam, a caminho da América. Pena é que o esquecimento dos responsáveis pelo património histórico do país e alguns actos de vandalismo, aliás altamente contestados pela população local, mais do que a erosão natural dos tempos, estejam a contribuir para a destruição desta relíquia - o berço da história, da cultura e da identidade nacional desta nação.

A povoação do Tarrafal, cujo topónimo tem a ver com a actividade piscatória local, fica situada numa linda baía tropical, defendida de ventos e marés, onde os coqueiros e as acácias convivem com a areia fina e as águas calmas e transparentes do mar. Estas características, a par das tradições culturais, onde se destacam as batucadeiras, transformaram este local num polo turístico importante. Mas, é óbvio que na memória colectiva dos portugueses esta povoação está ligada ao seu presídio, no qual tantos presos políticos padeceram e deixaram a vida. Esta vertente faz parte do seu passado negro; hoje, o povo do Tarrafal tem motivos para se orgulhar daquilo que pode oferecer a quem os visita - e são muitos os que procuram um repouso tranquilo, longe da agitação, nos seus "bungallows", implantados na orla do areal.

Na segunda-feira, iniciámos o trabalho com uma visita às instalações do Instituto e, neste dia, tal como nos restantes, seguimos o programa agendado e implementado no Mindelo.

Instituto Pedagógico - Praia.

 

A semana de trabalho encerrou-se com um sarau recreativo onde, num ambiente transbordante de alegria e de amizade, actuaram as formandas portuguesas e um vasto grupo de formandos caboverdianos. Foi um momento impressionante de música, dança e poesia, onde estiveram presentes o folclore e o que há de mais genuíno em cada uma das ilhas. Penso que, só ao vivo, é possível captar e apreciar a real dimensão da riqueza e beleza das manifestações da cultura caboverdiana.

Em continuidade do momento anterior, a Direcção do Instituto obsequiou-nos (e surpreendeu-nos), ainda, com uma magnífica ceia, onde estava representada a cozinha característica das diferentes ilhas - pratos regionais, doçaria, bebidas - a par de um artesanato cheio de arte. Parece-me que, para os jovens, a noite caboverdiana de despedida da cidade da Praia não acabou aqui e, mais uma vez, afirmo: estou convicta de que as promessas de um reencontro e as saudades vão sobreviver a este último dia passado na linda cidade da Praia.

Para dar a conhecer o que foi esta visita de trabalho e, ao mesmo tempo, encerrar esta página da sua formação, o grupo de estágio apresentou, em sessão realizada no Auditório da Escola Superior de Educação, no dia 11 de Junho, o seu testemunho da estadia em Cabo Verde. Em paralelo, organizou uma exposição de recordações desta visita, que esteve patente ao público de 11 a 14 de Junho.

Agradecimentos

Esta visita de trabalho aconteceu, e assumimos que foi um momento extraordinariamente feliz na nossa vida profissional e pessoal, graças ao apoio, simpatia e mesmo carinho de muitas pessoas com que contactámos ao longo do "percurso". Todavia, limitar-me-ei a citar instituições e não pessoas, não só porque a lista seria longa, mas também porque correria o risco de esquecer alguém. Assim, em Cabo Verde, desejo agradecer a colaboração da nossa agente de ligação, Doutora Maria das Dores Morais, bem como a colaboração do Instituto Pedagógico - Pólo do Mindelo e do Instituto Pedagógico - Pólo da Praia. Em Viseu, desejo agradecer a colaboração do Instituto Superior Politécnico, da Escola Superior de Educação, da Escola EB 2/3 do Mundão, da Escola EB 2/3 de Abraveses, do Governo Civil, da Câmara Municipal, da Região de Turismo Dão-Lafões, do Instituto da Juventude e da Associação dos Pauliteiritos de Abraveses.

O futuro

A Direcção da Escola Superior de Educação, ciente da importância que representa para a Instituição estender a sua acção aos PALOP, credenciou-me para efectuar todos os contactos conducentes a um Projecto alargado a outras áreas científicas e a outros objectivos.

Nesse sentido, ao longo das duas semanas, decorreram conversações com os órgãos directivos do Instituto Pedagógico - Senhora Presidente do Instituto Pedagógico, Senhora Directora do Polo do Mindelo e Senhor Director do Polo da Praia - onde, a par de uma análise avaliativa das actividades que estavam em curso, se listaram as áreas de interesse mais imediato e se perspectivaram modos de continuar e robustecer a cooperação agora iniciada.

Na sequência, e em resposta aos interesses manifestados durante as conversações acima referidas, as Áreas Científicas de Matemática e de Ciências da Natureza já elaboraram e apresentaram às entidades competentes uma proposta de um Complemento de Formação em Matemática/Ciências da Natureza, para professores, conducente ao grau de licenciatura. As Áreas Científicas de Matemática e de Inglês elaboraram e apresentaram uma proposta de um Curso de Estudos Especializados em Supervisão.

A terminar ...

Os caboverdianos dizem que a palavra "MORABEZA" não tem tradução, nem se explica, ... sente-se. Nós sentimo-la ...

Mas, quem é este povo, que aqui homenageamos?

A esta pergunta, responde-nos um dos seus poetas:

 

FLAGELADOS DO VENTO-LESTE

 

Nós somos os flagelados do Vento-Leste!

 

A nosso favor

não houve campanhas de solidariedade

não se abriram os lares para nos abrigar

e não houve braços estendidos fraternamente para nós

 

Somos os flagelados do Vento-Leste!

 

O mar transmitiu-nos a sua perseverança

Aprendemos com o vento o bailar na desgraça

As cabras ensinaram-nos a comer pedras para não perecermos

 

Somos os flagelados do Vento-Leste!

 

Morremos e ressuscitamos todos os anos

para desespero dos que nos impedem a caminhada

Teimosamente continuamos de pé

num desafio aos deuses e aos homens

 

E as estiagens já não nos metem medo

porque descobrimos a origem das coisas

(quando pudermos!...)

 

Somos os flagelados do Vento-Leste!

 

Os homens esqueceram-se de nos chamar irmãos

E as vozes solidárias que temos sempre escutado

São apenas

as vozes do mar

que nos salgou o sangue

as vozes do vento

que nos entranhou o ritmo do equilíbrio

e as vozes das nossas montanhas

estranha e silenciosamente musicais

 

Nós somos os flagelados do Vento-Leste!

 

 

OVIDIO MARTINS

SUMÁRIO