A europa medieval: tempo de copistas,

iluminadores e miniaturistas.

 

MARIA TERESA G.O.A. BARROS *

 

 

A partir do séc. IX o latim torna-se uma língua morta, praticada exclusivamente por especialistas. Será, no entanto, o principal veículo do pensamento ocidental até ao século XVI, época em que começa o seu verdadeiro declínio. O acesso à cultura escrita da Cristandade no período românico era concedido unicamente àqueles que dominavam a língua erudita. Este acesso é reservado aos clérigos formados nas escolas conventuais ou nos cabidos, única via de promoção social num sistema em que o nascimento determinava com rigor o papel de cada um na sociedade.

As necessidades culturais dos laicos, nobres, plebeus ou servos, eram satisfeitas por uma iniciação oral rudimentar e por uma cultura imagética que estava na origem dos vastos programas decorativos das igrejas, verdadeiras escolas visuais. A récita através de imagens com o seu conteúdo mágico e narrativo cumpria uma função social importante: dar a qualquer um o sentimento de uma verdade e de um bem comuns.

A partir de meados do séc. XII, a função e o destino do livro mudam de forma considerável. Uma após outra, todas as diferentes regiões do Ocidente cristão ascendem a formas de vida social diferenciada, formas que exigem documentação escrita, livros mais numerosos e especializados.

A cidade desenvolve-se no interior das suas muralhas, aos pés da sua catedral, em redor do seu mercado, cruzamento de numerosas vias. Os seus bispos e aristocratas, os seus mercadores e homens de ofícios, são um bom público, mas um público móvel, versátil, multiforme. A cidade abre o seu mercado ao mais perecível mas, igualmente durável dos seus produtos, o livro. Local de produção e de troca, a cidade tem as suas cartas, as suas corporações, os seus técnicos qualificados, as suas contas, as suas mensagens, não podendo funcionar sem textos de variadas espécies.A cidade e o direito de cidâdania transformam o homem dando-lhe um lugar próprio e único no mundo que o rodeia. A promoção social depende agora da promoção escolar a todos os níveis. A cidade terá de criar múltiplas instituições pedagógicas à imagem do seu complexo corpo social. A memória, os costumes e a tradição são demasiado rudimentares, o ensino e a informação precisam de arquivos, de códigos e de livros.

 

 

PRODUÇÃO LAICA DE ILUMINADOS

A Miniatura gótica situa-se, cronologicamente, entre o séc.XIII e o início do séc. XVI. Aparecendo, originariamente, em França, é sobretudo a partir de 1230 que se realiza uma importante evolução sob a influência de uma das disciplinas artísticas mais difundidas na época, que utiliza o vidro como

suporte da pintura e que se torna uma referência constante nos programas de ornamentação arquitectónica do gótico- o vitral.

Um facto decisivo e excepcional tecerá os novos contornos da produção de livros iluminados. Os ateliers monásticos implantados durante séculos darão lugar a uma produção laica, organizada de modo profissional em oficinas bem apetrechadas, instaladas nas cidades mais importantes. Particularmente Paris, secundarizará durante dois séculos todos os centros tradicionais do livro.

Graças ao mecenato dos Valois, a ilustração parisiense do livro atingirá um perfeccionismo e um domínio incontestáveis, caracterizando-se por representações de tendência mais plástica e realista.

Em finais do séc. XIV, sob os reinados de Carlos V e Carlos VI, as cortes francesas atraíam artistas estrangeiros, oriundos na sua maioria das províncias setentrionais, que vão marcar profundamente a evolução própria da miniatura francesa criando um estilo que ficaria denominado por franco-flamengo.

No decurso do séc.XV, Paris abandonará a sua primazia em proveito da miniatura flamenga. Depois da ocupação inglesa, durante a Guerra dos Cem Anos (1328/1450), a última fase da iluminura francesa terá por quadro o Loire e como centro Tours, onde alguns iluminadores de renome residem na corte dos reis expulsos.

Durante o séc. XIII, o estilo românico sobrevive temporariamente na Alemanha, na Áustria e na Boémia. O gótico faz a sua primeira aparição na Renânia. As escolas de Viena e da Boémia estão em franco desenvolvimento no séc.XIV. É na corte de Praga que iremos encontrar um dos períodos mais brilhantes da produção lumínica desta época, graças ao mecenato de Carlos IV do Luxemburgo, com infuências francesas, italianas e bizantinas.

A miniatura italiana do séc. XIII sofre uma metamorfose. Em Nápoles e na Sicília cruzam-se as influências ocidental, francesa, e a de Bizâncio. A actividade de pintores famosos manifesta-se na miniatura florentina e na lombarda e alguns centros destacam-se na confecção e decoração do livro, como Bolonha, Ferrara, Veneza ou Perusa. Nos primeiros anos do séc. XV, manuscritos humanistas fazem a sua entrada. Neles se reconhece uma nova concepção artística do livro que irá romper com a tradição gótica.

Depois da conquista normanda em 1066 a Inglaterra sofre uma influência continental.O desenvolvimento da literatura anglo-saxónica pára, o latim, a língua culta torna-se igualmente, língua administrativa e o francês do conquistador é falado pela classe dirigente. Só com o séc.XIV será consumada a fusão entre o francês e a língua popular e o inglês produzirá uma nova literatura que realçará um estilo intensamente decorativo e rico de fantasia. A Guerra das Rosas (1455/1485) e a política anti-romana de Henrique VI e Henrique VIII produzem uma destruição massiva de livros, sobretudo após a secularização dos mosteiros. As bibliotecas de Canterbury, Oxford e Durham foram declaradas papistas e esvaziadas as suas prateleiras, as suas mesas e cadeiras e tudo queimado, vendido ou exportado.

A partir de 1450 o papel director na história da miniatura será assumido pelos Países Baixos. O apogeu da miniatura flamenga está estreitamente ligado ao mecenato de Filipe o Bom e à sua entourage. Um grande número de ateliers situados em cidades flamengas e do Brabante executam trabalhos notáveis. Cerca de 1480 uma nova concepção da decoração marginal, a perspectiva, inundará os fólios produzidos pelos grandes mestres iluminadores flamengos. Esta característica originou o nascimento da escola denominada ganto-brugense, escola esta que ultrapassará fronteiras, chegando mesmo à Península Ibérica onde suplantará a influência muçulmana.As inovações trazidas pela escola ganto-brugense marcam, todavia, a derradeira e mais importante transformação da miniatura.O luxo que ostenta será o pronúncio da decadência da própria arte.O Renascimento, como em Itália cerca de 1400, fará a sua entrada além dos Alpes na ornamentação e decoração dos fólios. O manuscrito e a miniatura tendem, gradualmente a ser ultrapassados pelo livro impresso e pela gravura, apesar de em circunstâncias excepcionais, o livro manuscrito e iluminado manter todo o seu prestígio.

 

CARACTERÍSTICAS FUNDAMENTAIS DO GÉNERO ARTÍSTICO E PROBLEMAS DE CRÍTICA.

 

Como foi já mencionado, o suporte da miniatura é o pergaminho ou o papel, materiais utilizados no fabrico de rolex (volumina ou rotuli ) ou de livros ( codices).Depois do séc.IV, época em que substitui os rolex, os codices serão a forma habitual do livro.

Será importante realçar, no entanto, a utilização com objectivos diversificados de folhas isoladas, as chamadas folhas volantes, em pergaminho e em papel. Estes fólios poderiam ser iluminados, à semelhança dos livros.Existe toda uma série de documentos de arquivo como cartas e diplomas universitários, ordenações e cartas de privilégio, concessão de títulos, cartas de indulgências, epitáfios e genealogias, escudos, insígnias de peregrinação, cartas de jogar ou cartas geográficas.1 Parecem ter coexistido igualmente, a partir do séc. VIII, miniaturas que se poderão classificar como miniaturas ornamentais, pois terão sido aplicadas e destinadas à decoração de móveis, relicários, crucifixos o outros objectos litúrgicos. Os pequenos quadros em miniatura, utilizados a partir de finais da Idade Média, como peças da decoração de interiores2 irão agregar motivos profanos (os retratos) com motivos religiosos.

 

I. A MINIATURA, UMA ETAPA NA CONFECÇÃO DO LIVRO.

Na confecção de um livro, as miniaturas não são introduzidas arbitrariamente. O processo de fabrico de um códice na Idade Média é habitualmente determinado de forma precisa e lógica. A codicologia1, que estuda o livro enquanto objecto material poderá fornecer-nos algumas noções precisas a par de textos de arquivos, fontes narrativas ou através dos próprios manuscritos.

Diz Trithemo, abade de Spanheim no séc. XV:

Uma pessoa corrige o livro que outra escreveu, uma terceira ornamenta com tinta vermelha, outra encarrega-se da pontuação, outra das pinturas, como outra cola as folhas e encaderna. Ainda outras que preparam o couro e as laminas de metal que devem ornar a encadernação.Uma outra corta as folhas de pergaminho e outras as vão polindo, uma outra traça, a lápis, as linhas que devem guiar o escrevente. Enfim outros cortavam as penas e preparavam a tinta.3

O livro apresentado a um iluminador para receber a sua decoração ou ilustração é portador de uma forma previamente definida, ou seja, de um programa orientador do processo de execução levada a cabo por um ou mais artistas O livro sofre operações sucessivas desde a preparação do pergaminho e do papel, à escolha do formato e corte do tipo de suporte, à definição dos cadernos, à determinação da superfície a ocupar pelas iluminuras e pelas letras capitulares e a sua disposição no fólio.O espaço do ornato é calculado de acordo com o módulo da unidade de regramento e a hierarquização dos assuntos, sendo definido previamente em todos os seus limites pelo copista em linhas a sépia, tanto para as iniciais como para as cercaduras ou ainda a transcrição do texto. Esta última etapa compreende a escolha da dimensão das letras, a repartição dos espaços, as subdivisões do texto e as indicações precisas dos locais para títulos, rubricas, iniciais, capitulares e ilustração. O scriptor poderia, no entanto, e em códices de menor importância, pintar ele próprio iniciais e capitulares. Nos outros casos o miniaturista não poderia dar início ao seu trabalho, sem todas as outras tarefas estarem concluídas. O Miniaturista executa então a pintura das iniciais decoradas e das cenas ilustradas (narrativas) nos locais previstos e decora as margens. A ilustração de margens e a introdução de outros elementos decorativos parece ter, quase sempre, precedido a pintura das cenas.Os ornatos podem ser dos mais variados: Iniciais filigranadas, iniciais fitomórficas, floreadas, historiadas, vinhetas, cercaduras, desenhos no interior das letras do texto e nas margens e, ainda, por iluminuras de página.

A última fase na produção de um livro consistia em reunir o diferentes cadernos e encadernar o livro. Esta operação não era habitual, conhecem-se alguns manuscritos sem encadernação.

É de assinalar, que só alguns códices, hoje conservados, mantém o seu aspecto material de origem.Páginas iluminadas, partes inteiras de texto podem ter sido perdidas ao longo dos tempos. Fólios iluminados independentes ou novas partes de texto foram frequentemente inseridas. Uma encadernação posterior ou o restauro de uma antiga, podem alterar a ordem inicial dos cadernos. Todas estas modificações podem ter a sua importância no estudo das iluminuras e só uma análise codicológica minuciosa poderá pôr em relevo o caracter único de cada códice e do seu respectivo programa iconográfico.

 

Bibliografia

Dogaer, Georges; Miniature Flamande vers 1475-1485, in Scriptorium, T. XXVI, 1972.

Durrieu, P.; La Miniature Flamande au temps de la Cour de Bourgogne (1415-1530), Bruxelles/Paris, 1921.

Martin, H.J., Le Livre et la Civilization Écrite, T. I, Paris 1968. A Iluminura em Portugal, in Catálogo da Exposição Inaugural do Arquivos Nacional da Torre do Tombo, Editora Figueirinhas, Porto/Lisboa, 1990.

Porcher, J.; L' Enluminure Française, Paris, 1998.

 

* Assistente do 2 Triénio da ESEV

 

1 Existiam diversos iluminadores ao serviço de geógrafos.

2 O exemplo mais notável é o trono do rei de França, João o Bom, executado em 1353 por Guillaume Chastaingne e decorado de 42 minituras, aplicadas sob cristais.

1 A codicologia é uma disciplina que será posteriormente abordada.

3 PEREIRA, F.M. Esteves, Os Manuscritos Iluminados, in A Iluminura em Portugal, Catálogo da Exposição Inaugural do Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Ed. Figueirinhas / Porto Lisboa,1990

 

SUMÁRIO