A GRÉCIA MODERNA - UM EXERCÍCIO DE EQUILÍBRIO

ENTRE

O ORIENTE E O OCIDENTE

 

VASCO OLIVEIRA E CUNHA*

 

A localização da Grécia numa encruzilhada complexa de conflitos regionais e continentais fez do país um espaço de encontro de influências de leste e de oeste e criou para os helenos a necessidade constante da defesa da sua personalidade e da sua identidade cultural. Uma história repetida durante quase três milénios de confrontos com Persas, Romanos, Francos, Venezianos, Turcos, entre outros.

A história moderna do país é mesmo a narrativa da subjugação do povo grego por um outro invasor - o turco otomano -, consequência da queda de Constantinopla em 1453.

A ocupação turca não engendrou, contudo, súbditos resignados. As insurreições de exilados gregos, de prelados ortodoxos e do povo irromperam com a ajuda de nações que, em alguns casos, partilhavam com a Grécia apenas um interesse comum - a derrota otomana. As aspirações gregas à independência foram mesmo favorecidas por grandes potências, nomeadamente pela política da Rússia de Pedro, o Grande, e de Catarina II com a assinatura de alianças com prelados helénicos, com grupos civis influentes e com grupos armados, "jovens amantes de liberdade, proscritos de toda a espécie" que "entram e se mantêm na clandestinidade, de armas na mão, ...graças à sua bravura, mas graças, também, ao auxílio vigilante do povo" (in Kedros, "A Resistência Grega - 1942 - 1944", s/ data. p.11).

Uma outra estratégia de resistência aos otomanos invasores e ocupantes foi a da fundação de sociedades secretas que ramificaram a sua actividade conspiradora tanto no território nacional como no exterior, a mais célebre de todas tendo sido a Philiki Hétairia.

No início do século XIX os gregos conseguem algumas vitórias e em 1822 esmagam um exército de trinta mil turcos. Os notáveis da resistência, contudo, apoderam-se da direcção do movimento e constituem vários governos locais que, cedo, começam a degladiar-se fazendo perigar a revolução. Em apenas dois anos (1825 - 1826) os turcos voltam a apoderar-se do país.

No plano cultural, sobretudo na literatura, a epopeia dos heróis da causa da independência grega fez relembrar à humanidade as realizações épicas do passado helénico, uma evocação que se apoderou da imaginação romântica de homens como Hugo e Byron e que toca a sensibilidade de largar camadas do Ocidente que aproveitam essa onda de romantismo como arma contra a Santa Aliança.

Transcrevem-se aqui, como exemplo acabado dessa vivência romântica, a primeira e a última estrofes do poema de Byron "The Poet's Song to Don Juan and Haydee".

 

"The isles of Greece, the isles of Greece!

Where burning Sappho loved and sung,

Where grew the arts of war and peace,

Where Delos rose, and Phoebus sprung!

Eternal summer gilds them yet,

But all, except their sun, is set.

.................................................

'Place me on Sunium's marbled steep,

Where nothing, saving the waves and I,

May hear our mutual murmurs sweep;

There, swan-like, let me sing and die:

A land of slaves shall ne' er be mine -

Dash down yon cup of Samian wine!'

 

(in Harrison, G.B., 1957, pp 298 e 301).

 

Uma aliança tripla constituída pela França, Inglaterra e Rússia força, contudo, a Turquia a reconhecer a autonomia grega em 1829 com a assinatura do Tratado de Adrianópolis. O protocolo de Londres (1930) de reconhecimento do tratado declara a Grécia como estado independente.

As dificuldades que se colocaram ao país no período posterior a 1830 surgiram com a implantação do regime monárquico absolutista imposto pelas mesmas potências que tinham libertado a Grécia do poder turco sem sequer consultarem o seu povo. Exemplos dessas dificuldades foram a rejeição do trono por Leopoldo de Saxónia - Coburgo; o assassínio político de Capodistria, que não agradava à burguesia do país; a reivindicação liberal de 1843, exigindo o estabelecimento de uma Constituição e a sua aceitação por parte do rei Oton I que convocou uma Assembleia Nacional (1843 - 1844), órgão que viria a elaborar um texto muito moderado em que o poder legislativo estava repartido pelo monarca, por uma Câmara Baixa (voulis) eleita e pelo Senado (gerousia) com os seus membros nomeados vitaliciamente pelo soberano, e em que o poder executivo era exercido pelo rei e seus ministros. Tratava-se, no fundo, de um golpe de estado que significou o acesso ao poder de uma série de governantes preocupados fundamentalmente, não com a reorganização da Grécia, mas pela concretização da Grande Ideia (megali idea) da restauração do império bizantino. Um tal projecto atrairia a oposição da Inglaterra e o apoio da Rússia, interessada em não permitir a influência anglo-saxónica no Mediterrâneo oriental.

O posicionamento da Grécia ao lado do czar na Guerra da Crimeia (1854 - 1856) e a sua não admissão ao Congresso de Paris acabaram por determinar o reforço da oposição à postura anticonstitucional do monarca e a sua deposição, tendo sido empossado no trono um novo rei, Jorge I (1863), com o apoio inglês. A nova Constituição de 1864 limitava os direitos do soberano e estabelecia o sufrágio universal.

Durante os cinquenta anos do monarca no trono grego viveu-se uma época de estabilidade política que permitiu o desenvolvimento de uma economia muito debilitada, e o aparecimento de uma poderosa burguesia comercial e de um incipiente proletariado industrial. A construção de estradas e de vias férreas, a criação de condições para o investimento estrangeiro e o recurso a empréstimos internacionais foram as estratégias definidas para esse desenvolvimento.

As reivindicações fronteiriças do primeiro ministro conservador Deliyannis na viragem para o século XX com questão de Creta, e a revolução dos Jovens Turcos em Salónica, suscitando a questão da Macedónia, disputada pela Turquia, Bulgária, Sérvia e Grécia, desencadearam um movimento nacionalista e em 1909 Venizélos tornou-se o primeiro ministro grego. Em 1911 fez votar uma Constituição que assegurava as liberdades fundamentais e, com o apoio de técnicos estrangeiros, reorganizou a vida administrativa, militar e económica do país. Favoreceu, igualmente, os pequenos agricultores, anulou isenções de impostos, reconheceu a existência de sindicatos. No plano internacional, com a mediação da Rússia, a Grécia aliou-se à Bulgária, à Sérvia e ao Montenegro (Liga Balcânica de 1912) e declarou guerra à Turquia.

O assassinato do rei e a sua substituição por Constantino (1913), por um lado, e a complexa partilha da Macedónia, pelo outro, fizeram com que a Grécia se encontrasse dividida num momento difícil da História - o deflagrar da I Guerra Mundial: o monarca favorecia a aliança com as potências centrais; Venizélos propugnava a adesão à Entente. A ajuda ao primeiro ministro permitiu a vitória deste e a Grécia declarou guerra aos impérios centrais. O rei exilou-se sendo substituído no trono por Alexandre, o seu segundo filho.

A guerra constituiu para a Grécia uma fonte inesgotável de insucessos e a acumulação de dificuldades que haveriam de conduzir à proclamação da República em 1924, após a deposição de Jorge II, que sucedera ao irmão em 1922.

O novo regime, porém, revelou-se instável, tendo de fazer face a repetidas tentativas de golpe de estado e a um equilíbrio precário entre as forças ultra-direitistas monárquicas e os recém-formados quadros da esquerda socialista. Numa economia que novamente entrou em queda, a restauração monárquica foi concretizada em 1935, mas cedo resvalou para a ditadura imposta por Metaxas (1936) sob o pretexto de uma infiltração comunista e traindo, assim, as esperanças dos políticos liberais.

A II Guerra rebentou e Metaxas, embora manifestando-se a favor dos aliados, não se decidiu a intervir no conflito até à ocupação da França. Em 1940 e 1941 as tropas gregas combateram os italianos mas o país foi invadido pela Alemanha. O rei e o governo Papandreu fugiram para Londres e as tropas hitlerianas impuseram ao país o governo satélite de Tsolakos.

A organização do movimento de resistência nacional aos agressores fez nascer a Frente Nacional de Libertação (EAM), constituída por grupos socialistas e por defensores da democracia popular, que criou o Exército Popular Grego de libertação (ELAS). Numa tentativa de diminuir o peso dos comunistas no seio da EAM foram constituídos a Liga Nacional de Libertação (EKKA) e o Exército Grego Democrático Nacional (EDES) de tendência direitista.

Em Outubro de 1944 os alemães abandonaram a Grécia e os ingleses entraram no país. Apoiados pelas democracias ocidentais, os monárquicos ganharam as eleições gerais de 1946, facto que permitiu o regresso do rei, por um lado, e, pelo outro, a formação de um governo de extrema esquerda nas regiões montanhosas do norte do país. Este extremar de posições desencadeou uma guerra civil que só terminaria três anos volvidos.

A Grécia, segundo algumas fontes, soube aproveitar bem a sua situação estratégica de enclave democrático-liberal na Europa oriental graças à ajuda americana, sendo mais tarde admitida na NATO. Depois dos governos de centro-esquerda do general Plastiras e do general Papagos (1950 - 1955), o poder político passou para a União Nacional Radical (ERE) de Karamanlis até 1963. As eleições deste mesmo ano, ganhas por Georges Papandreu, abriram o caminho a um período conturbado e progressivamente antimonárquico depois da demissão do dirigente em 1965. Em 1967 o coronel Patakos, através de um golpe de estado, impôs a ditadura conhecida por "Regime dos Coronéis". O rei teve de exilar-se. As liberdades democráticas só foram restabelecidas sete anos depois.

Segundo Kedros, na Grécia a monarquia constituiu sempre um grande "peso político" já que os gregos, com as excepções dos tempos homéricos e do caso particular de Esparta, "estão isentos de qualquer tradição monárquica". Inventores da democracia, têm demonstrado ser altamente alérgicos à realeza, o que equivale a dizer que "o enxerto monárquico feito na Guerra pelas grandes Potências encontrou um terreno particularmente ingrato. A enxertia, como dizem os jardineiros, não era de qualidade de pegar." (in Kedros, op.cit.,p.13).

Será o futuro a determinar quais os rumos que o país irá seguir. A adesão à União Europeia parece, de momento, indicar que a Grécia está na rota de um desenvolvimento de tipo ocidental. O peso de uma tradição de instabilidade, contudo, não poderá ser menosprezado.

 

FONTES:

DUBY, G. (1944) Atlas Histórico Mundial. Madrid: Editorial Debate. Título original: "Atlas Historique". Paris: Librairie Larousse, 1987.

GRAND LAROUSSE ENCYCLOPÉDIQUE, Vol.5 . Paris: Librairie Larousse,1962

HARRISON, G.B. (col.) 1957. A Book of English Poetry - Chaucer to Rossetti. London:

Penguin Books.

KEDROS, A. (s/data) A Resistência Grega - 1940 - 1944. Porto: Editorial Inova. Título

original: "La Resistence Grecque - 1940 - 1944". Paris: Éditions Robert Laffont.

 

* Professor-Coordenador da ESEV

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