O CONVIDADO QUE FALTOU

ÁREA CIENTÍFICA DE CIÊNCIAS DA EDUCAÇÃO

 

 

No início do corrente ano lectivo foi feito pelos responsáveis da Revista Millenium o planeamento dos números a saírem até final do ano. Coube à Área de Ciências da Educação organizar e produzir o número que agora se apresenta. Começámos esta tarefa no mês de Novembro e desde então delineámos a rúbrica "Os nossos convidados". Por causa dos assuntos a tratar, pelo perfil académico e científico do Senhor Professor Mariano Gago e pela especificidade do Ministério que lidera, decidimos incluí-lo no grupo de entidades convidadas e solicitámos-lhe uma entrevista. Encetámos imediatamente as diligências necessárias, em diálogo com o seu Gabinete.

É quase indescritível a saga de cartas, de telefonemas que fizemos a diversíssimas horas, da ESEV e de nossas casas. Foi uma "via sacra" de intermediários, mas a partir de certa altura passámos a tratar exclusivamente com a Assessora de Imprensa do Senhor Ministro.

Parecerá impossível, mas durante quase 5 meses , não conseguimos obter uma resposta, nem que fosse, pelo menos, uma amável recusa.

Durante este tempo o Senhor Ministro deslocou-se a Viseu, mas não houve oportunidade de a sua Assessora conseguir um momento de atendimento para este fim.

Não sabemos de quem é a responsabilidade, mas a situação merece o nosso repúdio e viva indignação. Como cidadão, contribuintes, docentes do Ensino Superior e representantes de uma Instituição pública de formação, cultura e ciência julgamos merecer, no mínimo, algum respeito.

Na sequência do sucedido, resolvemos deixar aqui registadas algumas das perguntas que desejávamos fazer ao Senhor Ministro. Pode ser que algum dia obtenhamos as respostas, de preferência dentro do tempo em que o Senhor Ministro Mariano Gago, pessoa por quem temos muita consideração, ocupar um lugar de governante.

A -Políticas da Investigação Científica em Portugal

1 - Marx e Engells escreveram um Manifesto do Partido Comunista; André Breton escreveu um Manifesto surrealista; Almada Negreiros fez um Manifesto Anti - Dantas. Cada um a seu modo e no seu campo quis refundar um olhar, romper com uma situação que não se quer mais, operar os alicerces de uma nova construção. O Professor Mariano Gago escreveu um Manifesto para a Ciência em Portugal, em 1990. Devemos entendê-lo como o "gesto do semeador "?

2 -Porque é que recusou ficar com a tutela do Ministério da Educação para o Ensino Superior, quando tinha advogado essa tese no seu "Manifesto para a Ciência "?

3 - Comente a aparente elitização (em Portugal) dos trabalhadores científicos.

4 - Como pensa poder modificar-se a mentalidade das pessoas que se tiverem algum dinheiro para investir em ciência, escolhem construir um parque tecnológico em vez de mandar fazer formação ?

5 -Quais os bloqueios mais fundamentais que considera dificultarem a prossecução de uma estratégia de desenvolvimento da investigação científica?

6 -Quais são as práticas sociais necessárias à construção de decisões coerentes de política científica ?

7 -Parece-lhe necessário existir uma avaliação externa (por exemplo governamental) de projectos científicos e dos cientistas?

8 -Considera importante que a Investigação científica continue a fazer-se preferencialmente no âmbito Universitário ou na sua órbita ?

9 -Qual o grau de importância que atribui à tese da necessidade de aproximação do público, das preocupações e modus faciendi da ciência. Como pode processar-se essa aproximação?

10 -A iniciativa do Ministério da Ciência "A Ciência tal qual se faz" corresponde a esta necessidade ?

B - Promoção da Educação em Ciência

1 -Que relação entrevê entre os cientistas e os "fazedores de opinião" ou os indivíduos mais ligados às decisões práticas que dizem respeito à promoção da cidadania ( ecologistas, autarcas, associações de jovens, comunicação social, etc.) ?

2 -Como assegurar a mudança da mentalidade transmissiva que se instalou no ensino das ciências ?

3 -O que considera necessário para criar cultura científica?

4 - Considera adequados (para a promoção científica) os programas do ensino secundário que têm listagens de conteúdos muito ecléticas e extensas?

C - Investigação em Ciências da Educação

1 - Houve um tempo em que foi negado apoio, através do PRODEP, à investigação em Educação. Que argumentos utilizavam os que o negavam?

Como conseguiu alterar essa disposição?

2 - Acredita que, neste campo, a investigação fundamenta novas políticas e práticas ?

3 - A investigação feita na vida académica tem uma avaliação dentro deste quadro. Por que outros modos pode ser avaliada a validade de uma investigação ?

Podem-se avaliar projectos e processos ou somente os resultados ? O que é um projecto de qualidade num suposto " concurso de projectos científicos"?

4 - Tem-se manifestado contra o estabelecimento de prioridades nacionais nos projectos de investigação . Essa atitude também está implícita na política de selecção dos projectos a apoiar ?

5 - "A Investigação em Educação ainda não constitui objectivo político claro " (Bártolo Paiva Campos, 1995)

Subscreveria esta afirmação hoje ?

6 - A investigação em Educação é, segundo Albert Tuijmman (1993), fragmentária, irrelevante, de baixa qualidade e eficiência e de pouca utilidade. Concorda com o diagnóstico ?

7 - "Em geral o nível de investimento em Investigação e desenvolvimento em Educação é mais baixo do que qualquer outro sector de tamanho comparável". Isto foi dito pelos Ministros da Educação dos Países da OCDE em 1990. Pensa que a situação então diagnosticada se mantém ?

8 -Qual o papel que desempenha na investigação científica educacional a existência de uma comunidade muito grande de destinatários ? Quais lhe parecem ser os modos de interacção com esse público específico que são os professores de todos os graus de ensino ?

9 - Segundo a "voz corrente" a Educação é a paixão do Senhor Primeiro Ministro. A Ciência é a paixão do Senhor Ministro Mariano Gago.

E as Ciências da Educação não têm apaixonados neste Governo ?

 

Professor Doutor Mariano Gago

Ministro da Ciência e Tecnologia

 

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SUMÁRIO