COMENIUS E A INTERNACIONALIZAÇÃO DO ENSINO

Maria Fernanda Martins Gonçalves

Escola Superior de Educação de Viseu

Instituto Superior Politécnico de Viseu

Portugal

 

 

1. Introdução

O primeiro impulso ao iniciar este texto foi intitulá-lo: "Comenius – um cidadão da Europa". Tal título obrigaria a definir os conceitos envolvidos e a caracterizar a "Europa" em que o autor referido (que viveu entre 1592 e 1670) se moveu, se formou, e a qual lhe serviu de contexto e referência para a construção do seu sistema de pensamento. Mas, mesmo por outra via, a este assunto voltaremos no desenrolar deste trabalho.

O título escolhido serve no entanto dois outros objectivos. Permite justificar a inclusão de um autor do século XVII num número da Millenium dedicado à internacionalização do ensino e, por outro lado, obriga à análise do papel de tal conceito no pensamento do autor.

Aliás, se quiséssemos escolher títulos para atribuir a Jan Amos Comenius não nos faltariam fontes de inspiração. Bastaria fazer um ligeiro levantamento dos que já lhe foram atribuídos e seleccionar o mais adequado. Como meros exemplos, podemos citar os seguintes:

Nas diversas perspectivas em que a sua vida e a sua obra têm sido olhadas, diferentes autores e estudiosos põem em destaque as suas realizações enquanto filósofo, educacionalista, educador, reformador, professor, linguista, teólogo e didacta, mas quase todos realçam o facto de ele ter trabalhado pela cooperação, esclarecimento e compreensão educacional, científica e cultural.

Este facto, como veremos, decorre tanto da lógica intrínseca do seu sistema de pensamento, como da vida que ele viveu. Duas vias diferentes o terão levado a conclusões semelhantes.

Piaget (1957) diz expressamente que "podemos compreender porque é que Comenius se tornou o apóstolo da colaboração internacional em educação, uma vez que as lutas fratricidas que constantemente o forçavam a um trágico exílio e arruinaram a sua carreira tanto como teólogo como enquanto educador lhe deram razões para as suas convicções internacionalistas" (P. 15/16)

Será por estas mesmas razões que um dos programas criados pela União Europeia no âmbito da cooperação no ensino – e que corresponde à medida da acção "cooperação transnacional na educação escolar" – recebeu o nome deste pedagogo itinerante do século XVII. Esse programa tem como população alvo os filhos de emigrantes, trabalhadores migrantes ou itinerantes e grupos sem local fixo de residência.

O nosso intento, neste pequeno texto, é comprovar a justeza destes títulos e atribuições e questionar, a partir do nosso tempo, o essencial do pensamento de Comenius, nesta linha internacionalista, muito mais do que pôr em destaque aspectos pontuais nos quais nos revemos, ou dos quais divergimos; e muito menos ainda tentar reinterpretações de um autor que, depois de algum tempo de esquecimento, se tornou no século XX um objecto privilegiado de estudo.

2. A vida como justificação e contexto -1-

 

Os dados essenciais da vida de Comenius são bastante conhecidos. No entanto, não é inútil relembrá-los aqui, uma vez que eles estão vivamente relacionados com o tema que nos ocupa.

Deixaremos de parte algumas pequenas discrepâncias entre dados e fontes de informação, uma vez que não é nosso objectivo estabelecer, neste aspecto, o maior rigor dos factos. Limitamo-nos ao que está comprovado e dito, geralmente, pelo próprio autor e ao que é para nós mais significativo. É impressionante ver desenrolar, mesmo em traços largos, uma vida que se cumpriu, sob o signo da guerra, ao serviço da paz. Uma vida incansavelmente vivida contra a adversidade e na luta pelo valor do saber e pelo aperfeiçoamento humano, abrindo pelo pensamento e pela acção caminho à cooperação harmoniosa entre os homens, independentemente de religiões ou fronteiras nacionais.

Cremos que os dados objectivos desta biografia são determinantes para compreender algumas das propostas do autor, e até mesmo o essencial das suas concepções do mundo, e da filosofia da educação, que ele concebeu e consistentemente defendeu.

A construção desta "ciência a priori" não pode deixar de ser enquadrada no seu contexto de vida. A lógica deu forma ao seu pensamento; a experiência vivida deu-lhe alma e credibilidade. A razão trabalhou a favor de uma ciência universal e de um método potencialmente infalível; as suas razões aproximaram-no dos outros homens e tornaram-no um paladino dos ideais reformistas que passaram do domínio teórico à dinâmica da acção. Os projectos concebidos têm raiz nos problemas vividos.

Tracemos por isso, sumariamente, o quadro de dados que podem justificar tal asserção.

 

1592 – Comenius nasceu em 28 de Março de 1592 na Morávia (República Checa), bem cedo ficou órfão. Tinha 12 anos quando perdeu o pai, a mãe e duas irmãs, vitimados pela peste.

 

1608 – Os tios-tutores não terão cuidado especialmente da sua educação escolar, pois só aos 16 anos entrou para a escola latina, em Prerov.

Como muitos outros jovens do seu tempo e da sua terra, integra-se na comunidade protestante dos Irmãos da Morávia. Aliás, a escola que frequentou pertencia a essa comunidade.

Os seus estudos continuaram na Academia calvinista de Herbon (Nassau) onde foi aluno de Alsted e se familiarizou com a obra de Ratke sobre o ensino das Línguas. Terá começado nessa altura a elaboração de um Glossário Latino-Checo no qual trabalhou cerca de 40 anos e que perdeu ingloriamente quando Leszno, cidade em que então vivia (1656) foi invadida por um exército católico e incendiada.

1613 – Após uma viagem a Amsterdão, matricula-se em Heidelberg, onde passa um ano.

1618 – Com 26 anos de idade, regressa à Morávia. Foi professor na sua antiga escola e tornou-se pastor religioso em Fulnek. Assume então o encargo de dirigir as escolas do Norte da Morávia.

Mas a insurreição da Boémia, que praticamente dá início à guerra dos 30 anos, vai marcar em definitivo a sua vida.

A guerra político-religiosa que eclodiu, e que foi também uma guerra civil com brutal perseguição aos não católicos, obrigou Comenius a deixar a sua igreja e a entrar em clandestinidade. Começa um período em que incessantemente procura abrigo e protecção onde pode encontrá-los.

1619/20 – A peste que continua a grassar contribui para agravar a sua vida pessoal. Nos dois anos que se seguem morrem-lhe os três filhos e a esposa.

1621 – A cidade de Fulnek foi saqueada e queimada e Comenius perdeu toda a sua biblioteca e muitos manuscritos.

1623 – Escreve O labirinto do mundo e o paraíso da alma que, sob forma alegórica, constitui uma crítica da sociedade humana tal como ele a via. Serve-se, literariamente, da figura de um peregrino que percorre o mundo para se decidir quanto à sua vocação e escolha de vida. A obra espelha um forte pessimismo, ou as circunstâncias vividas, pois termina com a derrota dos justos. Mas o peregrino atinge uma cidade "utópica" onde se desenrolam as suas reflexões e um diálogo com Jesus Cristo.

1624 – Vai à Polónia pedir asilo para a sua Fraternidade.

Depois de uma deslocação a Berlim e a Francfort-sobre-o-Oder, junta-se aos seus irmãos nas montanhas da Boémia.

1626 – Volta a Berlim e, depois, regressa à Boémia.

Dedica-se à obra da reforma pedagógica pela qual se vinha interessando desde o tempo em que era estudante em Herbon.

As perseguições religiosas acentuam-se e Comenius trabalha para ajudar os seus Irmãos na fé.

1628 – Expulso da Boémia, refugiou-se em Leszno, na Polónia. A partir daí, e durante 42 anos, percorre a Europa (não católica) trabalhando sem descanso pelo seu país e pelos projectos científicos e educacionais que o movem. Alimenta e divulga o seu sonho reformista de, por meio da Pansophia, promover a harmonia entre os indivíduos e as nações. Desenvolve então o principal das suas ideias sobre educação e aprofunda um dos grandes problemas epistemológicos do seu tempo – que era o do método.

1633/38 – Escreveu a Janua Linguarum Reserata e a Didactica Magna, sempre na prossecução dos seus objectivos fundamentais "de uma reforma radical do conhecimento humano e da educação" – unidos e sistematizados numa ciência universal.

Mas, uma vez que estava envolvido nos problemas e sofrimentos de uma guerra religiosa (para além de política), a reconciliação das igrejas era para ele um objectivo fundamental. Tinha amigos de outras nacionalidades irmanados no mesmo objectivo e deles recebeu inestimável apoio. Alguns deles tentaram fazê-lo sair de Leszno e fizeram chegar o seu trabalho ao conhecimento de Luis de Geer, filantropo sueco de origem alemã. Foram esses mesmos amigos que publicaram uma obra sua, com o título Prodomus Pansophiae, livro esse que mereceu a atenção do próprio Descartes.

1641 – A convite de Hartlib, e do Parlamento inglês, vai para Londres com a missão de estabelecer algum entendimento entre o Rei e o Parlamento, e fundar um círculo de colaboração pansófica. Aí permaneceu durante um ano. A Universidade de Cambridge comemorou, em 1941, o 3.º centenário deste acontecimento.

1642 – Entretanto, Comenius recebe mais três convites:

- um de Richelieu (que tinha fundado a Academia Francesa em 1635) para fundar um Colégio Pansófico em França;

- outro da Universidade de Harvard (fundada em 1636) para ser seu reitor;

- um terceiro de Luís de Geer e do governo de Estocolmo para promover a reforma do sistema escolar da Suécia.

Decide-se por este último, e permaneceu naquele país durante seis anos.

Nesta viagem encontrou Descartes, Locke e outros homens ilustres do seu tempo, mas o seu objectivo de criar um círculo internacional de pesquisa pansófica não terá sido bem sucedido.

De um modo geral, a sua missão na Suécia não foi coroada de êxito. Apesar de bem recebido, as suas ideias, particularmente as ideias religiosas, não foram bem aceites pelos luteranos suecos.

1648 – Estabelece-se em Elbing, na Prússia oriental, (então território sueco) e escreve o Novissima Linguarum Methodus, publicado em Leszno. Por esta altura, entrou em choque com os políticos suecos e teve ainda que resistir às seduções do partido católico que tentava instrumentalizá-lo. Assumiu digna e consistentemente as suas convicções e encetou novo trabalho com vista à reforma universal da sociedade.

Esse trabalho, de grande envergadura, e que o autor não chegou a concluir, era o De rerum humanorum emendatione Consultatio catholica.

Na opinião de Piaget (1957), esta obra inacabada é talvez a que mostra mais claramente a profunda consistência entre o seu pensamento filosófico, educacional e social.

1650 – Comenius é convidado para a Hungria e é publicada em húngaro a sua obra Schola Pansophica.

Mas entretanto foi feito Bispo da Morávia e voltou a Leszno. Logo de seguida foi para a Transilvânia, onde esperava fundar um colégio pansófico e aí escreveu o Orbis Pictus, talvez o primeiro manual ilustrado para crianças, que fez grande sucesso.

1654 – Regressa a Leszno.

1656 – A cidade de Leszno é saqueada e incendiada durante a invasão sueca da Polónia. Comenius terá escondido alguns dos seus livros e manuscritos, e fugiu para as montanhas, sem poder salvar mais nada do que era seu.

1957 – Cromwell convida Comenius para se estabelecer na Irlanda, mas o convite não foi aceite.

Depois de um período de grandes privações, o autor encontra abrigo e refúgio em Amesterdão, junto de Laurenz de Geer, irmão do seu anterior patrono e aí passou os seus últimos e notáveis catorze anos de vida.

1667 – Através da obra Angelus Pacis apela à paz e à tolerância entre as nações europeias e insiste na criação de instituições internacionais com esse fim.

Este apelo foi redigido em Inglês e em Alemão e enviado à Conferência de Breda, reunida em Maio de 1667.

1668 – É publicado o Via Lucis, escrito durante a estada em Inglaterra. Esta obra contém um plano para uma língua auxiliar internacional, como forma de tornar mais fácil aos académicos comunicarem as suas descobertas para além das fronteiras nacionais.

1670 – No dia 15 de Novembro, Comenius morre em Amesterdão.

As suas obras, onde conseguem referenciar-se cerca de 200 títulos, tinham já numerosas traduções e os seus textos usavam-se nas escolas de quase toda a Europa.

Impressiona como pôde ser tão frutuosa uma vida passada em quase constante itinerância, em geral forçada e penosa.

3. Ideias centrais e recorrentes no pensamento de Comenius -2-

Das notas biográficas de Comenius que deixámos registadas, e para além do que já evidenciámos, podemos retirar mais duas observações que podem servir-nos de motivo de reflexão e fio condutor do trabalho que aqui apresentamos.

Por um lado, é evidente que o essencial do seu sistema de pensamento é consubstanciado no ideal "pansophico" e na "pansophia" como ciência universal.

Por outro lado, merece reflexão que, apesar do prestígio que o autor alcançou, do reconhecimento público que mereceu dos seus contemporâneos, e da vasta divulgação e utilização de muitos dos seus trabalhos e textos didácticos, a sua missão, quando pretendia organizar comunidades alargadas sob a égide do seu próprio pensamento, ou quando empreendeu a reforma global de sistemas escolares em países vários, não terá conseguido o êxito pretendido.

Ninguém acusou lacunas nas suas concepções teóricas. É posta em relevo a consistência da articulação entre as diversas dimensões do seu projecto – do filosófico ao religioso, passando sempre pela organização e divulgação do saber, pelo processo educativo de todos, e pela reforma da sociedade. Mesmo admitindo uma natureza humana comum a todos os homens e imutável na sua essência; mesmo partindo da universalidade da graça divina e da crença da imagem de Deus como matriz da humanidade; mesmo derivando com rigor formal as implicações das premissas adoptadas e com isso construindo um projecto consistente e teoricamente aceitável, tal não garantiu o seu sucesso real por aplicação uniforme. Leva-nos isto a pensar na força determinante dos contextos reais e na diversidade de factores condicionantes que marcarão, de forma específica, as realizações concretas e delimitadas. Poderá ser este um dos limites dos planos "globais" e das orientações internacionais. A força das realidades locais provocará, na melhor das hipóteses, fenómenos de apropriação cultural, transformações e realizações contextualizadas. É uma linha de reflexão possível para explicar alguns "desacertos" entre a expansão do pensamento e a eficácia da acção deste teórico da escola pública e democrática e "profeta e projectista de um mundo melhor" que foi Comenius no século XVII.

Ideal pansophico

O sistema filosófico e educacional que este autor concebeu congrega várias linhas de pensamento, sem prejuízo dos seus aspectos inovadores. Partilha o paradigma cosmológico do seu tempo, assume a ambição de uma ciência universal – ou sistematização dos saberes reconduzidos metodicamente aos seus princípios essenciais (apesar do nascimento de novas ciências); retoma a tradição humanista na educação e concilia uma filosofia com a possibilidade de união política, de reconciliação religiosa e de cooperação educacional.

O "ideal pansófico", na sua vertente educacional, traduz-se no desejo e possibilidade de "ensinar tudo e todos". Isto é necessário, porque sem educação o Homem não se realiza como ser racional e bom, feito à imagem de Deus; não pode sem isso cumprir o seu destino na Terra, onde foi posto "não só como espectador mas como actor" para o serviço de si, do próximo e de Deus. Isto é possível, porque em todos "a educação apropriada dá bons frutos" e a graça divina (fonte de luz e do bem) é universal, a todos é dada.

A Pansophia constitui uma forma de organização do saber, um projecto educativo e um ideal de vida. É um ideal algo iluminista, na medida em que admite que a felicidade vem ao Homem pela razão, mas é sobretudo um ideal de felicidade evangélica, sem rigores ascéticos, uma vez que a razão não é autónoma; a fonte da verdade e do bem é Deus – alfa e omega de todos os seres e destinos históricos da humanidade. "O fim último do Homem está fora desta vida" (DM. II).

Para conseguir este ideal, que vai dos indivíduos aos Estados, o processo estratégico é a Pampaedia, ou educação universal, através da qual se conseguirá a reforma global das "coisas humanas" e um mundo perfeito ou Panorthosia. Neste propósito, o autor intenta a reforma da eruditio (que é a base de toda a construção) da politia e da religio. A cada um destes domínios nos referiremos mais detalhadamente.

Alguns suportes teóricos

A fundamentação essencial do pensamento de Comenius é de ordem teológica cristã, envolvida em princípios filosóficos de natureza essencialista e racionalista (sem prejuízo de o autor vir a assumir atitudes "naturalísticas" e posturas baconianas na ciência).

Dedica a 1.ª parte da Didáctica Magna (capítulos I a VI) aos fundamentos teológicos e filosóficos da educação e diz expressamente:

"O Homem é imagem de Deus" e daqui tira as consequências para a instrução, como sendo-lhe devido o conhecimento de todas as coisas; para a moral, como sendo capaz de dominar as coisas e a si mesmo, de atingir nos costumes urbanidade externa e formação interior dos movimentos da alma (virtude); para a religião, pela qual o homem se dirige a si mesmo e a todas as coisas para Deus, atinge a piedade e por ela se liga e prende ao ser supremo.

Isto é essencial e tudo o resto é acessório. (DM. IV:5-7).

A crença essencial é a de que "todo o Homem nasce apto para adquirir conhecimento das coisas, porque é imagem de Deus" (DM. V:4), ou de que "todos os homens são vivificados pelo mesmo espírito". (DM. XXXI).

É sobre estes princípios, e numa visão optimista do Homem, que Comenius vai basear a sua defesa da universalidade da educação.

Educação Universal

Inevitavelmente, de acordo com os princípios assumidos, as finalidades da educação são para Comenius a promoção da "instrução ou erudição, nas ciências, nas artes e nas línguas; da virtude ou formação moral; e da devoção religiosa que liga o Homem ao Eterno" (DM. X:1). É através desta educação universal de todo o género humano (Pampaedeia) que se realizará em pleno o homem, de acordo com a sua natureza, se conseguirá a correcção dos males do mundo, e se atingirá o fim supremo na felicidade eterna.

Nas palavras do próprio autor "a pampaedia é o caminho aplanado através do qual a luz pansófica se difunde pelas mentes, pelas palavras e pelas acções dos homens. É a arte de transplantar a sabedoria nas mentes, nas línguas, nos corações e nas mãos de todos os homens". (PP. I:15).

Poder-se-á dizer que este processo é afinal a própria educação, quer ela se realize informalmente através da vida que se vive (ideia que o autor apoia), quer se realize formalmente em sistemas escolares organizados. É a este procedimento que o autor dá especial atenção nas suas obras, propondo e defendendo sistemas de organização escolar, planos de estudos, escolas específicas por níveis e idades, e escrevendo tratados pedagogico-didácticos, como é o caso da Didáctica Magna.

O autor entende que a educação não dá ao Homem o que ele não tem, porque tudo provém do que está inscrito na sua natureza que pela sua acção divina contém "as sementes" da verdade e do bem e todas as potencialidades que lhe compete desenvolver.

Mas nem por isso a educação explícita e formal e o ensino são menos necessários. O autor insiste nesta ideia: "Embora a natureza dê as sementes do saber, da honestidade e da religião, não dá propriamente o saber, a virtude e a religião. Estas adquirem-se orando, aprendendo e agindo. Por isso, não sem razão, alguém definiu o Homem como animal educável, pois não pode tornar-se Homem a não ser que se eduque" (DM. VI:1). E ainda mais expressamente reafirma na Pampaedia: "Nem todos sabem, a não ser que sejam ensinados, utilizar aquilo que todos têm" (PP. II:6).

A educação é a arte de fazer "germinar as sementes interiores as quais não se desenvolverão a não ser que sejam solicitadas por oportunas experiências, variadas e ricas".

Este processo desenvolve-se ao longo de toda a vida. Já na Didáctica Magna Comenius escrevia: "Durante toda a vida o Homem deve conhecer, experimentar e executar muitas coisas" (DM. VII:3). Mas esta ideia é mais avançada e mais desenvolvida na Pampaedia que tem como temas centrais a educação para todos e a educação permanente. O seu objectivo fundamental é provar a necessidade, a possibilidade e a facilidade de todos os homens serem educados em todas as coisas e de uma forma total. O autor apresenta planos para "dar a todos aqueles que nasceram homens uma instrução geral capaz de educar todas as faculdades humanas" (PP. XXIX).

Ensinar tudo a todos

A educação universal consiste, antes de mais, em preparar todos para a plenitude humana, em assegurar "tudo o que é possível para maior esplendor do Homem, imagem de Deus" (PP: 5). O objectivo é "iluminar todos os homens com a verdadeira sabedoria, para os organizar numa perfeita administração civil, e para os unir a Deus pela verdadeira religião, de modo que ninguém se desvie do objectivo para que foi enviado ao mundo" (PP: 9).

A acentuar o sentido da globalidade e da universalidade o prefixo "PAM" é muito utilizado em títulos de obras de Comenius, nomeadamente nos que constituem as diversas partes da Consultatio Catholica.

Por outro lado, é insistentemente repetida a trilogia: omnes, omnia, omnino "– educar todos, em todas as coisas, de uma forma total".

Estas "palavras de ordem" e leit-motif precisam de algum esclarecimento. Piaget (1957) chama-lhes "desconcertante pretensão".

Em primeiro lugar deve notar-se que o autor pretendia uma sistematização e organização unitária do saber humano. É natural portanto que, ao referir-se a qualquer parcela desse saber, a não isole da globalidade de que faz parte.

Por outro lado, isto pode significar que "todo o real é racional" e, portanto cognoscível. Nada no mundo está vedado à inteligência humana. Aliás, falando de fontes de saber que Deus pôs à disposição do Homem, Comenius refere explicitamente o mundo, a mente e a Sagrada Escritura.

Deve acentuar-se ainda que a educação visada abarca todas as dimensões humanas, e portanto todos os domínios (todas as coisas) em que o Homem deve desenvolver-se harmoniosamente.

Mas isto não quer dizer que, tratando-se da organização escolar e dos planos de estudos, este filósofo educador não forneça critérios de selecção e de organização das matérias a incluir. Relativiza o que é possível aprender durante uma vida e defende o que hoje chamamos "currículos em espiral": iniciar os assuntos e retomá-los em formas cada vez mais alargadas e profundas. Algumas citações do autor podem ajudar-nos a comprovar e esclarecer o seu pensamento sobre tal questão:

"Importa demonstrar que nas escolas se deve ensinar tudo a todos. Isto não quer dizer todavia que exijamos a todos o conhecimento de todas as ciências e de todas as artes (sobretudo se se trata de um conhecimento exacto e profundo). Com efeito, isso nem de sua natureza é útil, nem pela brevidade da nossa vida é possível a qualquer homem" (PP. X) ou (DM. X:1).

"Pretendemos apenas que se ensine a todos a conhecer os fundamentos, as razões e os objectivos de todas as coisas principais, das que existem na natureza e das que os homens fabricam, pois não fomos colocados no mundo só para sermos espectadores, mas também actores" (DM . X:1).

E nem sequer é esquecido o critério da utilidade:

"Deve ensinar-se a todos aquelas coisas que dizem respeito ao Homem, embora mais tarde umas venham a ser mais úteis a uns e outras a outros" (DM. X) – ou "Tudo o que se ensina, ensine-se como coisa do mundo de hoje e de utilidade certa" (DM. XX:16).

Sobretudo, o autor refere muitas vezes:

"Todas as coisas que aperfeiçoam a natureza humana" ou "todas as coisas em que a natureza humana exige ser educada" (PP. II:10,12); ou ainda "todas as coisas que podem tornar o Homem sábio e feliz" (PP. 12).

Os saberes seleccionados devem poder: "tornar todos os homens o mais possível semelhantes à imagem de Deus, segundo a qual foram criados, isto é, torná-los verdadeiramente racionais e sábios, verdadeiramente activos e ágeis, verdadeiramente íntegros e honestos, verdadeiramente piedosos e santos" (PP. I:8).

Mas nem todas as coisas são igualmente válidas para esse fim. "São coisas não necessárias aquelas que não favorecem nem a moral nem a piedade, e sem as quais a instrução não sofre qualquer dano" (DM. XIX:52).

"Não se trate senão daquelas coisas que são solidamente úteis para a vida presente e para a vida futura" (vida extra terrena) (DM. XVIII:8).

Já dissemos que a Pampaedia estava ao serviço da Pansophia e visava a Panorthosia, ou o mundo perfeito. Na Introdução do livro intitulado Pampaedia o autor afirma: "Desejamos que todos os homens se tornem pansofos, isto é, que todos:

Se todos fossem doutos em tudo isto, tornariam todos universalmente sábios; o mundo ficaria então cheio de ordem, de luz e de paz.

Democratização do ensino

Dada a identidade universal da natureza humana, e assumidos os pontos de partida já referidos, a educação para todos, ou o acesso de todos à Escola é uma consequência lógica inevitável. Porém, as formas como o autor trata este assunto, a sensibilidade revelada em alguns pormenores e a coragem de contrariar alguns constrangimentos culturais da sua época, não deixam de nos impressionar.

As suas afirmações são categóricas e fundamentais:

"Onde Deus não fez discriminação, ninguém a deve fazer, para que não procure parecer mais sábio que o próprio Deus, dispondo as coisas de modo diferente daquilo que Ele fez. Deus não estabeleceu nenhuma discriminação entre os homens em razão daquilo que constitui a natureza humana, pois a todos fez:

- Do mesmo sangue (matéria)

- Participantes da mesma imagem divina (forma)

- Do mesmo Criador (causa eficiente)

- Herdeiros da mesma eternidade (o mesmo fim)

- Todos enviados à mesma escola do mundo, para que todos nos preparemos para a outra vida".

Tudo nos é naturalmente comum. (PP. II:11).

"Os instrumentos da cultura são dados a todos os homens, e não apenas em uma determinada nação, mas em todo o mundo. Entendo por instrumento de cultura: os sentidos (externos e internos), a mente, o coração, a língua, as mãos e a lentidão do crescimento". (PP. II:18)

Neste sentido, critica a realidade e as escolas do seu tempo:

"Não existem as escolas necessárias. E onde existem não são para todos, mas apenas para alguns, porque sendo dispendiosas nelas não são admitidos os mais pobres, salvo se alguém fizer uma obra de misericórdia. Assim se perdem inteligência, com grave prejuízo para a Igreja e para o Estado". (DM. XI:5,6)

E recomenda com veemência:

"Toda a juventude, de ambos os sexos, deve ser enviada às escolas. Não apenas os filhos dos ricos ou dos cidadãos importantes, mas todos por igual: nobres e plebeus, e em todas as cidades, aldeias ou casais isolados. Perante Deus não há pessoas privilegiadas". (DM. IX)

"Os filhos dos ricos, dos nobres ou dos que exercem uma magistratura não são os únicos nascidos para ocupar situações semelhantes. Porque se abre só para eles a escola latina, pondo outros de parte como gente de quem se não espera nada?

O espírito sopra onde quer e quando quer". (DM. XXIX)

E insiste ainda:

"Se alguém perguntar: aonde vamos nós parar se os operários, os agricultores, os moços de fretes, e até as mulheres se entregam aos estudos? Eu respondo: acontecerá que esta instrução e esta educação, feitas segundo o bom método, fornecerão a cada um o que lhe é necessário para bem pensar e agir. Além disso, no meio das fadigas do trabalho, poderão organizar de uma maneira inteligente os tempos livres, que são actualmente uma fonte de perdição". (DM. IX:8)

Retomando Lutero, reafirma:

"Mesmo aqueles que se dedicam à agricultura e às profissões manuais devem frequentar a escola (...) para que sejam instruídos nas letras, na moral e na religião". (DM. XI:1)

Mas outros aspectos se apresentam como implicações intensamente democráticas da filosofia educativa e do sistema escolar preconizados.

Por exemplo, defende um período alargado, ou tronco escolar comum, de modo que se não discriminem e determinem profissões cedo demais, ou por outras razões que não as disposições naturais de cada um.

"Querer determinar muito cedo a vocação de cada um para os trabalhos científicos e literários, ou para os trabalhos manuais, é um acto de precipitação, porque antes da idade de 13/14 anos não se manifestaram nitidamente nem as forças da inteligência, nem as inclinações da alma". (DM. XXIX:2)

Defende que a prossecução nos estudos seja determinada apenas pela capacidade dos candidatos:

"Seria de aconselhar que no final da Escola Clássica fosse feito pelos Directores das Escolas um exame público às capacidades dos alunos para que pudessem deliberar quais os jovens que deviam ser enviados para a Universidade e quais os que deviam destinar-se a outros géneros de vida". (DM. XXXI:5)

Também defende o respeito pela heterogeneidade dos alunos e pela diversidade de ritmos de aprendizagem de cada um:

"Há naturalmente diferença entre os intelectos. Alguns são agudos e outros lentos; uns suaves e outros difíceis; uns ansiosos por conhecimentos e outros mais ansiosos por aptidões mecânicas". (DM)

"Nem todas as crianças se desenvolvem ao mesmo tempo. Umas começam a falar com um ano de idade, outras com dois, e algumas com três. O espírito não sopra num momento determinado" (DM). Ou ainda: "O mesmo método não pode ser aplicado a todos da mesma forma".

E nesse respeito pela heterogeneidade, e na defesa intransigente da universalidade da educação, não esquece os menos favorecidos ou que têm algumas deficiências naturais:

"Porque é que no jardim das letras apenas queremos tolerar as inteligências de uma só espécie, isto é, as precoces e ágeis?"

"Não deve ser obstáculo o facto de vermos que alguns são rudes e estúpidos por natureza, pois isso ainda mais recomenda e torna mais urgente esta universal cultura dos espíritos. Quanto mais alguém é de natureza lenta e rude, tanto mais necessidade tem de ser ajudado para que, na medida do possível, se liberte da sua debilidade e estupidez brutal. Não é possível encontrar um espírito tão infeliz que a cultura lhe não possa trazer alguma melhoria". (DM. VIII:4)

"Haver inteligências fracas obriga a mais esforços, porque mais precisam de nós. Não se deve excluir ninguém dos benefícios da educação e da instrução". (DM. IX)

Orientações didácticas

Perdoem-nos os leitores que, num artigo sobre Comenius, não desenvolvamos os aspectos pedagógico didácticos da sua obra e não realcemos os pontos de união que temos com esse trabalho, ou as limitações que lhe reconhecemos, em virtude de termos mudado muitas das nossas perspectivas em relação ao mundo e ao pensamento dos autores do séc. XVII.

Porque a sua obra é nesse domínio extremamente vasta e profunda, só merece ser adequadamente tratada. Mas enveredar por esse caminho, desviar-nos-ia do objectivo fundamental do nosso trabalho, a menos que evidenciássemos a coerência de todas as partes e a sua ligação ao mundo cultural da época, de modo a detectar continuidades e inovações. Tal empreendimento seria útil e intelectualmente gratificante. Porém, obriga a ultrapassar as dimensões pretendidas para este artigo que, apesar de tudo, não pode ser de extensão muito reduzida.

Anotemos apenas que Comenius faz um mau juízo das escolas e do ensino do seu tempo, contrapõe-lhe planos bem fundamentados de acção, que julga eficazes, e advoga sempre e continuadamente a acção benéfica e fundamental da educação.

Apenas duas referências neste sentido:

"As lamentações de muitos, e os próprios factos, atestam que são poucos os que trazem da escola uma instrução sólida, e numerosos são os que de lá saem apenas com um verniz ou uma sombra de instrução". (DM. XVIII:1)

Mas a boa educação é um direito de todos e uma obrigação para os responsáveis pelos jovens e crianças:

"Não está nas mãos de ninguém que os seus filhos nasçam com estas ou aquelas qualidades; mas que se tornem bons por meio de uma boa educação está em nosso poder". (DM. XII:24)

Estudos superiores

Ao planear o sistema escolar, Comenius propõe escolas por níveis etários e com funções específicas. Nesse sentido, as Escolas Superiores, ou Academias, destinam-se particularmente à preparação de pessoas para ocuparem cargos superiores na administração da sociedade, do Estado e da Igreja. O autor defende, como já vimos, que o acesso a estas escolas se faça por mérito próprio e se não vede aos que têm possibilidades intelectuais, mas a quem faltam mais materiais.

"Os trabalhos da Academia prosseguirão mais facilmente e com maior sucesso se, em primeiro lugar, só para lá forem enviados os engenhos mais selectos, a flor dos homens. Em 2.º lugar, se cada um se aplicar ao estudo daquela disciplina para a qual, segundo certos indícios mostram, a natureza o destinou". (PP. 4)

Para que seja possível esta selecção meritocrática, o autor propõe:

"Para este efeito importa que o Estado providencie para os estudantes bem dotados, das classes pobres, a ajuda material necessária". (SM. XXXIII)

Mas diz também que: "As Academias não devem tolerar a presença de falsos estudantes que desperdiçam o seu tempo e o dinheiro na ociosidade e no prazer, e dão aos outros maus exemplos". (DM. XXI)

Falando dos métodos e processos de trabalho a usar na Academia, Comenius refere: as investigações, as demonstrações pansóficas e a diacrítica. Propõe experiências e ensaios sobre o modo de administrar a família, a Escola e o Estado e defende que a mesma se compõe de três partes igualmente importantes: A Academia propriamente dita; a Apodemia, ou seja, as viagens; e a Polytropia ou possibilidade de conviver com muitas pessoas e escolher a sua profissão.

Bastava esta defesa do conhecimento alargado do mundo para vermos quanto os programas e meios de colaboração internacional são necessários. Mas essa cooperação tem no pensamento de Comenius outros fundamentos, como veremos.

O seu universalismo concretiza-se na defesa incansável da educação para todos, na proposta de organização universal da promoção da ciência e da paz e na defesa de instrumentos culturais comuns, como seriam: os saberes fundamentais, as línguas como veículo de comunicação e os livros como materiais privilegiados.

Para a consecução de tudo isto advogou a cooperação e coordenação internacionais. Mostrou como estas tarefas, nomeadamente a produção de livros "pansóficos" exigiam o contributo de muitos, dos melhores e mais eruditos dos homens, onde quer que eles se encontrem. Foi com vista à realização desses fins que defendeu um "Collegium Didacticum" ou Sociedade Didáctica "a fundar em qualquer parte, ou (se isso não fosse possível) ao menos entre os eruditos interessados em promover desse modo a glória de Deus. Os trabalhos dessa Sociedade deviam tender descobrir cada vez mais os fundamentos das ciências, para depurar e difundir pelo género humano, com melhor sucesso, a luz da sabedoria, e para fazer sempre prosperar os interesses humanos com novas e utilíssimas invenções.

"Se não queremos estar sempre agarrados ao mesmo caminho, ou até andar para trás, temos que pensar em fazer progredir os bons empreendimentos. Mas como para isso não basta um só homem e uma só vida, é necessário que muitos homens, conjunta e sucessivamente, continuem a obra começada". (PP. 15)

4. Dimensão internacional da Educação

Já vimos que no pensamento e nos projectos de Comenius, a reforma universal da sociedade passava pela:

"a) Unificação do saber e a sua divulgação por um melhor sistema escolar sob a supervisão de uma espécie de Academia Internacional;

  1. Coordenação política – através de instituições internacionais que visassem a manutenção da paz;
  2. Reconciliação das Igrejas numa reforma tolerante do Cristianismo". (Piaget, 1957)

Conjugam-se assim os três corpos estruturais da sociedade cuja interligação no pensamento deste autor é essencial. O "colégio universal" permitiria aos académicos fazer livremente experiências e trocar descobertas, para além das fronteiras nacionais. Seria a forma de coordenação e cooperação entre todos os estudiosos e investigadores. As instituições internacionais para a manutenção da paz seriam o elo de ligação entre os estados. O consistório universal faria a ligação entre as igrejas. Mas quando fala de cada uma destas Organizações e define a sua composição e os seus fins, o autor inclui sempre entre as funções específicas de cada órgão ou corpo o cuidar da relação com os dois outros corpos.

É assim que, referindo-se ao "Conselho da Luz", traço de união entre a gente letrada, refere expressamente:

"Os membros deste Conselho devem (...) dirigir a pansophia humana para que ela não ultrapasse a medida, não se atrase ou desvie (...). É preciso que contribuam para estender o domínio do espírito humano sobre as coisas e para difundir a luz da sabedoria a todos os povos e espíritos para atingir um estado cada vez mais elevado e melhor.

(...)

Os membros deste Conselho devem prestar atenção:

  1. A si mesmos
  2. À luz
  3. Às escolas que são os ateliers da luz
  4. Aos mestre-escola
  5. Ao método de ensino
  6. Aos livros
  7. Aos impressores
  8. À nova língua, o mais excelente veículo da nova luz
  9. Aos dois outros corpos
  10. A Cristo – fonte da luz. (Pages Choisies: 179)

Depois de fazer a apologia da difusão da Luz "que não é propriedade de um só ou de alguns povos, mas deve percorrer o orbe inteiro e todo o género humano", o autor dedica particular atenção às escolas e aos agentes de educação, nomeadamente professores e outros membros da organização escolar, mas também aos impressores e editores.

Quanto às escolas, insiste no que já havia dito noutros escritos, mormente na Didactica Magna: elas têm que ser universais, isto é, existirem em toda a parte e para todos.

É referido como função específica do "Conselho da Luz" que promova a criação delas "junto de todos os povos e em todas as esferas da comunidade humana".

Os membros do Conselho devem insistir "junto das autoridades eclesiásticas e seculares para que não tolerem que nenhuma casa, aldeia, cidade ou região seja privada da possibilidade de aprender as ciências e a sabedoria. Deve existir uma escola elementar para um número determinado de habitantes e em cada aldeia. Deve haver uma escola de latim em cada cidade e uma escola superior em cada estado". (Pages Choisies: 181)

Uma outra referência pode ter lugar aqui, quando se pensa nos modos como Comenius previa a organização ideal do mundo e esboçava para isso planos de concretização que lhe pareciam viáveis e funcionais. É a sua insistência na língua comum como meio de comunicação.

O autor é considerado um marco importante na valorização das línguas como instrumento cultural, a diversos títulos.

Em primeiro lugar, pelos estudos que realizou e trabalhos que divulgou, em segundo lugar, por ter considerado a língua materna como base e meio fundamental para toda a aprendizagem escolar, o que era inovador no seu tempo. Por fim, sempre defendeu a aprendizagem de uma Segunda língua como meio de entendimento e comunicação entre os povos, e muito em particular, entre as comunidades académicas. Estando o Latim, no século XVII, a perder esse papel, o autor preconizou a criação de uma nova língua e bastante trabalhou nesse sentido. A isto acresce a sua defesa e prática das traduções em línguas vivas/vulgares.

"Que em nenhum país e em nenhuma língua faltem livros", recomendava. (Panorthosia)

Difunda-se uma língua universal "para que toda a luz que se produza, não importa em que canto do mundo, sobre as novas ciências, artes, indústrias ou descobertas, se torne bem comum de todos os povos e tribos". (Pages Choisies: 185) -3-

Esta é uma forma de empenho na educação para todos, na mudança da sociedade e construção do mundo melhor "emendatio rerum humanarum".

Um homem que fez sempre parte de minorias, para mais de minorias perseguidas, que passou a maior parte da sua vida envolto em guerras, que se sacrificou na produção e defesa de trabalhos eruditos, que via na educação a base da reforma social, que tinha na visão cristã do Homem e do mundo a explicação da natureza humana e do sentido da História, não podia deixar de ser um paladino da paz universal e da organização internacional na sua promoção.

O ideal da paz universal e do mundo perfeito foi perseguido por muitos espíritos empenhados em alimentar essa esperança e convictos de que tal era possível, se não como corolário lógico das suas construções conceptuais, pelo menos como farol e meta a guiar a história dos homens, ou então como arquétipo e explicação deste mundo imperfeito.

Comenius é justamente invocado a tal propósito.

Mas mais do que remate lógico do seu sistema de pensamento, a organização internacional com vista à paz, à união das igrejas e à educação universal como caminho necessário àqueles objectivos, é em Comenius uma definição estratégica cuja operacionalidade e fins se demonstram. Não é, por isso, fundamental concluir se este educador é ou não um utopista. A utopia como sonho e ideal é um ideia bastante pragmática.

A Comissão Internacional sobre Educação para o século XXI (1996) inclui nas suas "pistas e recomendações" a apresentar à UNESCO: "Devemos cultivar, como utopia orientadora, o propósito de encaminhar o mundo para uma maior compreensão mútua, mais sentido de responsabilidade e mais solidariedade, na aceitação das nossas diferenças espirituais e culturais" (p. 44)

Na mesma obra, Myong Won Suhr afirma: "vivermos juntos em harmonia deve ser o fim último da educação no século XXI" (p. 225)

E para concluir com referência aos mesmos autores citaremos Zhou Nanzhao, da Coreia do Sul: "Desde Confúcio até aos pensadores contemporâneos, os orientais sempre acarinharam e perseguiram o ideal de um mundo unido e harmonioso e de uma sociedade humana coerente, baseada na paz universal". (p. 237)

Esta ideia não é contraditória com a afirmação de que "a cooperação internacional em matéria de educação é uma realidade recente" (M’Bow, 1981). Este autor, ao falar do contributo das organizações internacionais para a educação contemporânea, não deixa de invocar os "ideais utópicos" e de fazer justiça a Comenius citando a Panorthosia e o Conselho da Luz como "colégio didáctico universal" que devia "examinar as diversas descobertas científicas e recomendar os meios de as difundir e de as fazer aplicar, da maneira mais eficaz, em proveito de todos os homens".

Temos hoje instituições que satisfazem estes objectivos com a vantagem de que não são, em princípio, ideologicamente impositivas, não fazem o "controlo da verdade" e tentam conjugar a internacionalização e globalização mundial com a especificidade das culturas e a identidade dos grupos, dos povos e das realidades "locais". É esse um dos desafios do nosso tempo.

5. Comenius e o tempo presente (em jeito de conclusão...)

Segundo palavras de J. Piaget (1957), Comenius "está entre os autores que não precisam de ser corrigidos ou contraditados quando se pretende fazer a sua actualização". Basta traduzi-los (em linguagem actual) e desenvolver as suas ideias. (p. 32)

Significa isto, possivelmente, que as suas ideias fundamentais podem ter releituras e contextualizações em que se descubram afinidades com ideias e questionamentos do nosso tempo. Pode também significar que encontramos nesse autor a formulação de problemas que continuam a pôr-se e a ter significado e relevância para o tempo presente, embora possamos encontrar para eles novas e diversas respostas. Significará ainda que aspectos estruturantes ou secundários no pensamento desse autor vieram a ter desenvolvimentos posteriores com os quais nos sentimos comprometidos, ou que continuamos a ter como válidos.

Qualquer uma destas situações pode encontrar comprovação numa reflexão actual sobre Comenius. Dessas possibilidades destacamos apenas duas referências. Uma delas pode ser designada como "democratização da escola e do ensino". Encontramo-nos plenamente com o grande pedagogo checo na defesa do direito de todos à educação, do acesso à escola e a outras oportunidades de formação cultural como concretização privilegiada desse direito; na ideia da vida em geral como "escola" e da educação permanente ao longo de toda a vida.

A segunda ideia que queremos aqui destacar é a da necessidade das organizações internacionais na pesquisa, na divulgação, e na multiplicação das oportunidades na educação.

Esta é também uma ideia a que o século XX, sobretudo depois da 2.ª Grande Guerra, deu grande incremento em moldes que não podem ter, naturalmente, a mesma forma, nem rigorosamente a mesma fundamentação, que as propostas de um autor do século XVII.

Põem-se hoje outros problemas que, para além de reclamarem uma coordenação consensual global, exigem também atenção ao reverso e consequências da "mundialização".

A justiça relativa tem que ser vista à escala planetária e os problemas educacionais cada vez estão mais envolvidos e implicados na complexidade das questões económicas, de desenvolvimento, e de estratégias e poderes políticos.

Por outro lado, fala-se dos perigos da "uniformização cultural programada", do mercado cultural massificado" e das consequências da acção poderosa de redes de produção e distribuição de bens culturais. Significa isto que novos problemas se põem aos organismos interventores no estabelecimento de uma nova "ordem mundial". Significa também que a formação, pela acção cultural e pela educação formal, tem que assumir novas dimensões, e é claramente essencial à salvação do Homem enquanto ser individual e singular, mas também enquanto ser em construção na interacção com o mundo e os outros homens, num âmbito de realidades cada vez mais vastas e complexas.

O que significa, neste quadro de preocupações, a "internacionalização do ensino"?

Significa a preparação necessária para este mundo que rompe quase todas as fronteiras? Significa o conhecimento necessário do mundo que se tornou de facto uma "aldeia global"? Significa a necessidades de dominar instrumentos culturais comuns que nos possibilitem o conhecimento alargado de gentes e realidades que já não são só "de alguém e de algum lugar", mas de todos e de todo o mundo? É antes a predisposição e capacidade de aceitar e saber viver com essas realidades multifacetadas? É encontrar políticas e modos de organização transnacionais que nos ponham de acordo sobre as metas educacionais e nos permitam realizá-las? É encontrar plataformas comuns, pela via da educação escolar, para valorização e salvaguarda do que de "mais humano" a comunidade mundial tem a preservar e a recriar? É construir redes institucionais educativas sem fronteiras? É sobretudo intercâmbio de gentes e ideias? É construir e partilhar uma cultura comum?

Sejam quais forem as alternativas que correspondam às nossas opções actuais, é possível encontrar na obra de Comenius (em modos muito próprios do seu tempo, ou com algumas inovações) alguma preocupação simétrica destas e a valorização da acção concertada entre nações e entre poderes como estratégia de consecução das grandes e últimas finalidades da realização humana.

Não foi sem razão que a UNESCO, na Conferência Geral de Nova Deli (1956), decidiu publicar um volume de excertos da obra de J. A. Comenius para celebrar o 3.º centenário da publicação (em Amesterdão) da sua Opera Didactica Omnia. O desejo expresso pelo plenário era do de manifestar reconhecimento a "um dos primeiros homens a propagar as ideias que a UNESCO tomou para sua referência quando foi criada". Ora, uma das referências programáticas da UNESCO é a ideia de que "as guerras nascem no espírito dos homens e é aí que devem ser construídas as defesas para a paz". (M’Bow, 1981)

Para além de todas as outras razões, ou factores condicionantes, estas referências destacam o papel determinante da educação na organização pacífica do mundo.

Tal ideia recebe plena justificação nos escritos de Comenius: a Pampaedia ou educação universal é condição essencial para a Panorthosia, ou reforma do mundo.

Este ideal, seja ou não utópico, é, entre outros, o nosso traço de união com o autor em causa.

Quando Comenius morreu, Leibniz, em elogio fúnebre escreveu: "Há-de chegar o dia em que a multidão dos homens de bem te honrará e honrará, não só as tuas obras, mas também as tuas esperanças e os teus desejos" (Piobetta, 123)

É inegável que esse tempo já chegou. As celebrações que referimos, e a pequena homenagem que a Millenium lhe presta, são disso possíveis exemplos.

As organizações e os projectos transnacionais em que estamos envolvidos continuam a tentar tornar reais algumas utopias, que alimentam "esperanças" e "desejos" de épocas e de contextos históricos tão diferentes como aqueles que nos distanciam, mas que também nos unem, a um Homem "democrata e ecuménico" do século XVII.

Bibliografia:

AA VV (1996). Educação - um tesouro a descobrir. Relatório para a UNESCO da Comissão Internacional sobre a Educação para o século XXI. Edições ASA, Porto.

ABBAGNANO, Nicolau (s/d.). História da Pedagogia. Livros Horizonte, Lisboa.

COMENIO, J. A. (1966). Didáctica Magna - Tratado da Arte Universal de Ensinar tudo a todos. Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa.

—, (1971). Pampaedia (Educação Universal), Introdução, Tradução e Notas por J. Ferreira Gomes, Coimbra, Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.

COMENIUS (1957). Pages Choisies. UNESCO. Paris.

GOMES, J. Ferreira (1971). Introdução a PAMPAEDIA. Edição da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.

—, (1977). Dez Estudos Pedagógicos. Livraria Almedina, Coimbra.

HAWKINS, Eric (1994). "Jan Komensky - The Teacher of Nations" Occasional papers, 18. Southampton Univ. (England). Centre for Language Education.

LASCARIDES, U. Celia (1990). "J. A. Comenius: Reflections in the New World". (Paper presented at the International Conference for the History of Education. Praga/Agosto, 1990).

M’BOW, A. (1981). "L’apport des organisations internationales à l’Éducation contemporaine" in

MIALARET, G. e VIAL, J. (Dirs.), Histoire Mondiale de l’Éducation, vol. 4 (De 1945 à nous jours), Paris, PUF.

PIAGET, Jean (1957). "The significance of John Amos Comenius at the present time". (Introdução a uma colectânea de textos de Comenius publicada pela UNESCO em 1957).

PIOBETTA, J. B. (1972). "Jean Amos Comenius" in J. CHATEAU (Dir.), Les Grands Pédagogues, Paris, PUF.

ROCHA, Filipe (1998). Correntes Pedagógicas Contemporâneas. Livraria Estante Editora, Aveiro.

SUHR, Myong Won (1996). "Abertura de Espírito para uma vida melhor" in Educação-um tesouro a descobrir. Edições ASA, Porto.

¾ ¾ ¾

-1-Os dados aqui reproduzidos têm como fonte a bibliografia referida no final do trabalho. Por se não julgar adequado, não se fazem citações pontuais.

-2-As referências às obras de Comenius serão identificadas aqui do seguinte modo:

Didáctica Magna: D.M. seguida do capítulo em numeração romana e parte deste em numeração árabe.

Pampaedia: PP (com indicação de números do mesmo modo da DM). Quando não há indicação de capítulo, trata-se de citação do texto introdutório.

-3- A este propósito, e para confirmar o reconhecimento de Comenius no campo linguístico, lembraremos que, em Dezembro de 1993, a Universidade de Southampton e o Saint Union College of Higher Education inauguraram o Southampton Comenius Centre. Esse foi o 11.º Centro Comenius aberto no Reino Unido, integrado no CILT (Centre for Information on Language Teaching and Research).

SUMÁRIO