MILLENIUM n. 6 - Março de 1997

Histórias de Vida

 

O SUPERVISOR QUE EU TIVE

MARIA JOSÉ MOURA*

 

Este convite dos colegas da Área de Ciências da Educação para que registemos algumas "Histórias da vida académica ou profissional" traz-me à mente a minha experiência de formação para a docência para o Ensino Secundário. Sobre ela aqui ficam algumas notas que intitulei "O Supervisor que eu tive".

O meu estágio foi feito segundo o modelo muito clássico, pois decorreu antes de 1974, quando só era possível fazer-se estágio em escolas de Lisboa, Porto e Coimbra.

Caiu-me em sorte a então chamada Escola Industrial e Comercial Avelar Brotero, em Coimbra, onde fiquei sob a orientação do Metodólogo, como eram então designados os professores que exerciam as funções de supervisor, Dr. Rocha e Cunha.

Este docente era uma pessoa muito sabedora, segundo constava, e muito conceituada e respeitada na Escola Avelar Brotero. Por isso era corrente que, opinião emitida por ele, era tomada como uma ordem, não só pelo Director da Escola, como por toda a Escola.

Não fiquei traumatizada com esse ano, nem foi ano para esquecer, como vulgarmente se ouve dizer. Tenho dele algumas boas recordações.

Trabalhei muito e intensamente.

Trabalhei em quê? Pura e simplesmente a estudar os textos do manual, para fazer planos de aulas, para criar situações e poder executar as aulas.

1

Nas actividades do metodólogo, possso incluir as reuniões de orientação semanais que fazia com os estagiários (das 21 às 23 horas). Nessas horas dissertava sobre o que devia ser um bom plano de aula, enumerava as qualidades que um bom professor devia ter quer no relacionamento com os alunos, quer no relacionamento com os funcionários e explicava como as actas dessas reuniões deviam ser elaboradas.

Tive um grande treino na feitura de actas, sem dúvida. Nisso ele era muito exigente.

Assistia, semanalmente, sempre à mesma aula e na mesma turma, pois que o estagiário então só regia uma turma de cada disciplina. (Português e Inglês).

Parece-me que ainda o estou a ver, sempre impecavelmente vestido, muito educado, entrando na sala o mais discretamente possível.

Deu-me a oportunidade de assistir a uma sua aula, na turma que regia, na qual também me mandou dar uma aula.

2

Como estratégia usava no fim de cada aula assistida fazer a reflexão.

Apontava as falhas, os erros detectados na minha actuação, corrigia-os, dizia-me como poderia ter feito, sem referir qualquer suporte teórico justificativo.

É certo que era uma reflexão orientada mas não dava uma grande importância às perspectivas do estagiário.

Eu não conhecia bibliografia, não me era indicada e, portanto, eu desconhecia os fundamentos teóricos.

Havia um bom clima afectivo-relacional, havia boas relações, baseadas na confiança que ele me merecia.

Mas a sua preocupação e minha, permanentemente, era ser o mais imaginativa possível para criar uma motivação fora do usual, para elaborar o plano e executar a aula o mais correctamente possível.

3

Apesar do bom clima envolvente, da confiança merecida, da sua pretensão em não ser tradicional, o seu estilo era directivo:

- o metodólogo orientava,

- estabelecia critérios e

- condicionava as atitudes do estagiário.

Não posso deixar de referir que apesar de tudo o seu estilo tinha algo a ver com a perspectiva de Glickman que considerava como aspectos fundamentais o desenvolvimento dos processos cognitivos, desenvolvimento moral e pessoal.

4

Considero que a supervisão utilizada no meu estágio foi tipo inspecção, isto é, o metodólogo via se eu executava bem ou não (até no aspecto administrativo), em vez de ajudar a fazer bem.

5

Apesar do meu metodólogo ter em conta os meus conhecimentos, a minha experiência e o meu desenvolvimento pessoal e moral, contudo eu era o objecto de formação e não o sujeito da formação.

Só de 1980 a 1986 se pode considerar que o estagiário foi o sujeito de formação quando o modelo da profissionalização em exercício determinava que ele tinha de elaborar um PIT (Plano Individual de Trabalho).

Hoje estamos a dar grande relevância ao modelo da Profissionalização em Serviço, recomendando aos formandos que ao elaborarem o seu PFAP (Projecto de Formação de Acção Pedagógica) o considerem nos três vectores: aula, turma e escola, como um verdadeiro projecto pessoal e profissional, como um elemento de formação nas suas três dimensões: cognitiva, afectiva e sócio-moral.

6

A acção era centrada na sala de aula, numa perspectiva de pessoa crítica e interventiva, apenas com a preocupação da prática.

Como referência, era efectivamente a prática que lhe interessava, desligada da teoria e descontextualizada dos conhecimentos e teorias.

7

O meu metodólogo tinha muito de positivo.

Sempre que fazia uma crítica, ou a reflexão após a aula, começava por apontar as falhas e os erros, a parte negativa da aula, para terminar com um elogio.

Nunca foi derrotista, e o estagiário acabava por se sentir mais estimulado que desanimado, mesmo quando a aula era quase um fracasso.

Se eu disser, portanto, que ele era "um fiscal que não cobrava impostos muito pesados", creio que ele não ficaria zangado comigo.

Conclusão:

A uns anos de distância, penso no que foi esta experiência e confronto-a com as actuais práticas e teorias sobre "Supervisão".

É possível que o "cenário" em que me formei tivesse algo de "imitação artesã", para usar expressões de Isabel Alarcão. (1)

Não estavam tão em moda como hoje as ideias de "professor reflexivo", "de aluno autónomo", ou de "metacognição", mas nada me leva a rejeitar a situação que vivi, a não ser o natural e louvável dinamismo que este campo do saber profissional tem conseguido, ou as transformações que o mundo e a escola têm sofrido e que tornam hoje desadequado e pouco eficaz o modelo do "supervisor à moda antiga". (2)

 

  1. Alarcão, Isabel e Tavares, José - Supervisão da Prática Pedagógica - Uma perspectiva de desenvolvimento e aprendizagem

Livraria Almedina, Coimbra, 1987

  1. Vieira, Flávia - Supervisão - Uma prática reflexiva de formação de professores

Edições ASA, Porto 1993

* Prof. Coordenadora da ESEV

Vice-Presidente do Conselho Directivo

SUMÁRIO