PROJECTO DE INVESTIGAÇÃO EM CURSO NO

DEPARTAMENTO DE CIÊNCIAS DA EDUCAÇÃO

 

Fernando Andrade Amaro *

 

1. INTRODUÇÃO

 

Se na opinião de Daniel Goleman, na sua obra Emotional Intelligence, as crianças aprendem o que experimentam - Children learn what they experiment - o que, aliás, mais não é do que o reconhecimento da sabedoria de há quase cem anos de John Dewey - Learning by doing - e como foi demonstrado em experiências recentes desenvolvidas em conjunto pelas Universidades de Aveiro e do Minho, apresentadas em Setembro de 1996, em Castelo Branco, na conferência "Culturas de Aprendizagem - Cultures for Learning", numa comunicação com o título de "Aprender construindo", também nós, adultos, aprendemos da mesma maneira e somos o resultado dessas nossas experiências.

Na minha idade, posso orgulhar-me de uma vasta esperiência no campo educacional e da qual, no âmbito do projecto que a área científica das Ciências da Educação da nossa Escola iniciou em 1996, após a tomada de posse do Conselho Directivo, a 26 de Março, gostaria de partilhar convosco alguns aspectos, convidando-vos a reflectir sobre experiências que me marcaram vivamente.

Numa sala de aulas de uma pequena cidade de Rhode Island, EUA, onde fui, durante cinco anos, director dos programas bilingue e de ESL (English as a Second Language), uma professora repreende uma criança, sua aluna, de origem açoreana. A criança, ao ser repreendida, baixa os olhos. A professora exalta-se, exasperada, e grita:

- Look at me! I’m talking to you! (Olha para mim! Estou a falar contigo!)

Confrange-me a atitude da professora. Na primeira oportunidade, converso com ela. A criança, na sua cultura, aprendera que, quando os mais velhos a repreendessem, deveria baixar os olhos, em sinal de respeito, de acatar o que lhe estava a ser dito. Olhar para a professora seria considerado um desafio. Culturas diferentes, comportamentos diferentes. Um mesmo comportamento, interpretações diferentes. Tudo isto exige dos professores uma sensibilidade extraordinária.

Na vida de uma instituição creio que se passará algo de semelhante. Uma instituição é também o resultado das nossas experiências. Vamos aprendendo e consequentemente transformando ao longo dos anos. Na ESEV já vamos no terceiro currículo. E já estaríamos no quarto se não tivesse surgido o projecto de habilitações para a docência de Manuela Ferreira Leite. Aguardamos, agora, a próxima portaria.

Mas nem sempre as mudanças que fazemos serão percepcionadas do mesmo modo por todos os interessados. Por exemplo, nós professores pensamos que estamos a fazer o melhor possível pelos nossos alunos e eles - mal agradecidos! - não apreciam os nossos esforços. Um dia, dois alunos contactaram-me no meu gabinete, queixando-se da avaliação feita por determinado professor. Por um lado, institucionalmente, nós professores defendemos a avaliação contínua; mas, ao longo do ano, na opinião dos alunos, o professor nunca lhes chamara a atenção para os defeitos ou qualidades do seu trabalho e a classificação final da cadeira, de que dependia a passagem de ano dos referidos alunos, era baseada nos resultados de um único teste ou exame. Por outro lado, na opinião do professor, como se tratava de uma cadeira eminentemente prática, os alunos não deveriam poder fazer o exame de recurso em Setembro, porque ele, professor, praticava a avaliação contínua.

Como já desconfiava destas contradições e de outras, naturalmente - o que nós pensamos que estamos a fazer não é exactamente o que os alunos percepcionam, os nossos comportamentos enviam mensagens diferentes do que dizemos que defendemos - tomei a inciativa de contactar os docentes da área das Ciências da Educação, incitando-os a iniciarmos um trabalho de reflexão junto dos nossos alunos e ex-alunos, subordinado ao tema: Que Escola temos? Que Escola queremos?

Devo realçar que se trata de um trabalho exploratório, uma primeira tentativa de algo que se deseja mais amplo. É o primeiro bloco na construção de um projecto comum, iniciado nas Ciências da Educação, mas no qual esperamos envolver outras áreas científicas da ESEV.

Gostaria de terminar com uma citação de uma ode chinesa, da dinastia Sung:

 

Que seja possível vivermos por muitos anos,

de maneira que,

embora separados por milhares de quilómetros,

possamos juntos contemplar a Lua!

 

* Presidente do Conselho Directivo da ESEV

SUMÁRIO