LUÍS ANTÓNIO VERNEY e o VERDADEIRO MÉTODO DE ESTUDAR:

UM PENSAMENTO INOVADOR ENTRE

PORTUGAL E A EUROPA

Luís Miguel Oliveira de Barros Cardoso

Escola Superior de Educação de Viseu

Instituto Superior Politécnico de Viseu

Portugal

O Iluminismo, esse era...uma perigosa aventura intelectual.

Hernâni Cidade

Na história da cultura da nossa pátria, o nome de Verney é de primeira grandeza; e o Verdadeiro Método, por alguns aspectos, a maior obra de pensamento que se escreveu em português.

António Sérgio

 

Em Portugal, o século XVIII apresenta uma dimensão multímoda relativamente a estilos de época que nos possibilita identificar uma estética barroca retardatária, um neoclassicismo arcádico, um estilo rococó e um pré-romantismo em germinação que se irá afirmar progressivamente. Esta riqueza eclética de valores constitui, por excelência, uma epifania da renovação mental que se operou neste século e que perdurará ad aeternum em conexão íntima com esse movimento úbere que foi o Iluminismo .

Quando a ideia iluminista assoma à nossa pena, instituímos desde logo uma visão tripartida desta corrente de pensamento no nosso país. Em primeiro lugar, devemos destacar o contributo de D. João V. No seu reinado, destacam-se vultos como os ministros Alexandre de Gusmão e D. Luís da Cunha e ilustres nobres como D. Francisco Xavier de Meneses, 4º Conde da Ericeira, que fundou as Conferências Discretas e Eruditas (1696-1739). Nesta assembleia magna levantou o Padre Rafael Bluteau a sua voz em defesa da supremacia dos modernos sobre os antigos e Manuel de Azevedo Fortes conheceu a notoriedade como apologeta da mecânica, da álgebra e da filosofia mecanicista de Descartes.

Neste período, destacam-se também Francisco Xavier de Oliveira, conhecido por Cavaleiro de Oliveira, dado que assinava os seus textos como Chevalier d'Oliveyra , autor , por exemplo, de Amusement Périodique (1751) e Discours Pathétique (1756), obras escritas em Londres e nas quais investia contra a Inquisição, e Jacob de Castro Sarmento, médico judeu que também conheceu o refúgio londrino e a quem o rei português pedira dados para reformar o ensino da Medicina.

Com o Marquês de Pombal, entramos na segunda fase iluminista pautada pelo despotismo esclarecido, pela reforma do ensino e pela figura de António Nunes Ribeiro Sanches. Este médico, licenciado por Coimbra e Salamanca, esteve em Londres e Leide para além de viajar pela Rússia cuidando das tropas imperiais até se radicar em Paris. Íntimo dos enciclopedistas, com os quais colaborou na sua obra monumental com um artigo sobre a sífilis, pugnou pela secularização do ensino, pela liberdade de pensamento, pela educação das mulheres, escrevendo a pedido de Pombal as Cartas sobre a Educação da Mocidade Nobre (1760), que serviria como contributo decisivo para o Colégio dos Nobres (1761), e um Método para aprender a estudar Medicina , utilizado na reforma da Faculdade de Medicina.

Com o reinado de D. Maria, o Iluminismo conhece a sua terceira fase marcada, acima de todos os outros acontecimentos, pela fundação da Academia Real das Ciências (1779).

Neste Século das Luzes , se nos for lícito eleger uma figura que se destacou pelo seu profundo empenho no combate mental pela reforma da cultura em Portugal, aclamamos por excelência o pensamento de Luís António Verney.

Filho de pai francês e de mãe portuguesa, Verney estudou no Colégio de Santo Antão e na reformadora Congregação do Oratório até se formar em Teologia em Évora, de onde parte para Roma, em demanda de saber, alcançando o doutoramento em Teologia e Jurisprudência. O nosso mais conhecido e activo estrangeirado colheu fora de Portugal os pensamentos de renovação que iluminavam a Europa enquanto o seu país vivia as trevas obscurantistas da intolerância da Inquisição.

A pedido do rei D. João V, Verney inicia a sua colaboração com o processo de reforma pedagógica de Portugal, contributo inestimável para uma aproximação profícua com os ventos de progresso cultural que animavam os espíritos dos europeus mais progressistas. Da plêiade de mentes novas que o nosso século XVIII conheceu, Verney destaca-se pelas consequências da sua acção. Após a divulgação do seu programa de renovação, O Verdadeiro Método de Estudar, assistimos à ultrapassagem do reinado da escolástica dos jesuítas medievalizantes, expulsos por Pombal, e sua substituição no ensino pela empreendedora Congregação do Oratório, edificadora da modernidade científica no ensino superior.

O Verdadeiro Método de Estudar , verdadeiro manifesto da modernidade do pensamento de Verney, à luz da Europa iluminista, é uma obra em dois generosos volumes, publicada em 1746, reeditada em 1747, escrita por um enigmático religioso Barbadinho da Congregação de Itália, máscara onomástica do nosso renovador que sabiamente preferiu ocultar o seu nome devido à omnipresença e omnisciência de um clima cultural profundamente avesso a obras de ruptura. De facto, as suas páginas são de um progressismo notável que motivou fortíssimas reacções e acesa polémica devido às orientações pedagógicas defendidas, tributo às investigações desenvolvidas por Verney e aos seus contactos com as ideias basilares do Iluminismo .

A obra chave de Verney é constituída por dezasseis cartas que o autor Barbadinho italiano escreve a um doutor de Coimbra. Com efeito, quando pensamos na referência a Itália, urge focar os seus contactos com os iluministas italianos, principalmente com Muratori, com o qual se carteou sobre jurisprudência e ensino. Mais ainda, é relevante o seu contacto directo com a realidade italiana, as suas escolas, hospitais e tribunais regidos por directrizes modernas e eficazes.

Com o contacto italiano, Verney intelectualizou um plano de intervenção global que denota influências decisivas dos grandes pensadores da sua época. O conceito básico para as suas posições é a utilidade, grande força motriz de toda a obra. As suas páginas revelam um ideal filosófico recebido de John Locke, principalmente do seu Ensaio sobre o entendimento humano, logo resultando numa desvalorização da metafísica, um ideal científico inspirado na concepção experimentalista de Newton e no holandês Boerhaave, e um pensamento pedagógico que revela estudo de feição racionalista na linha dos Pensamentos sobre a Educação de Locke ou dos franceses Rollin, Fénelon ou Lamy.

A premissa principal de Verney é concernente à orientação das escolas portuguesas, base para as estruturas futuras do país. As dezasseis cartas do nosso autor visam, assim, apresentar um manifesto muito completo de áreas de intervenção prioritárias. Por este motivo, começa por continuar os estudos preparatórios de Gramática, Latinidade e Retórica, os estudos intermédios de Filosofia e os estudos superiores de Medicina, Direito Civil e Canónico, bem como de Teologia alterando acima de tudo o pensamento que os rege. As suas cartas prosseguem o esquema e a estrutura apresentada: I - Língua Portuguesa, II - Gramática Latina, III - Latinidade, IV - Grego e Hebraico (e línguas modernas), V e VI - Retórica, VII - Poesia, VIII - Lógica, IX - Metafísica, X - Física, XI - Ética, XII - Medicina, XIII - Direito Civil, XIV - Teologia, XV - Direito Canónico, XVI - Regulamentação geral dos estudos.

A caminhada de abordagem a cada área engloba uma primeira parte de crítica ao estado de coisas da altura, desmontando-se racionalmente todos os aspectos que carecem de mudança e de alteração e uma segunda parte de apresentação de soluções e propostas concretas de alternativa. Esta estratégia, apesar de bem intencionada, redundou numa sobrevalorização da primeira parte, quanto aos seus detractores, que a empunharam como testemunho de um iconoclasta de feição persecutória relativamente às forças religiosas que norteavam o ensino e governavam as instituições.

O principal mérito da obra de Verney, segundo o que os autores contemporâneos defendem, como o professor Jacinto do Prado Coelho, não se encontra no conjunto de ideias apresentadas, que não primam pela total originalidade, principalmente no momento actual que oferece possibilidade de identificação de fontes e influências, mas sim no modo singular como o nosso autor conseguiu conjugar todo um caudal de informações de origem variada, criando a estrutura interna do Método por conformação de sinergias criadoras. Jacinto do Prado Coelho sintetiza deste modo as vertentes reformadoras das dezasseis cartas: "necessidade de tornar centro de estudos linguísticos, em vez do Latim, a própria língua materna; inclusão, ao lado das línguas clássicas já consideradas, algumas das línguas modernas (para o caso, e conforme as necessidades do tempo, o Francês e o italiano); a substituição da Retórica de ornato, sem finalidade persuasiva, por certos princípios mínimos conducentes ao discurso em perspectiva de razão; a inclusão, no quadro das necessidades da cultura geral, dos estudos históricos e geográficos; a importância a conceder aos estudos experimentais de Física como preparação científica dos estudos superiores de natureza técnica, a consideração a ter pelo nascente Direito das Gentes como fundamentação dos estudos jurídicos; a importância a dar à Teologia Positiva na preparação do teólogo, que se destina, na maioria dos casos, a pôr-se em contacto com almas e não a preencher qualquer cátedra especulativa" 1. Podemos ainda acrescentar a defesa de criação de gabinetes de Física experimental com aparelhagem específica e a construção de hospitais bem equipados, medidas essencialmente práticas.

Ainda que profundamente polémico, o autor do Método usufruiu do apoio régio numa etapa inicial. O pedagogo é convidado pelo rei a trazer para Portugal os ventos de renovação para além dos Pirinéus, principalmente quanto ao ensino, ele que nutria uma profunda antipatia pelos Jesuítas. O rei apoiava gradualmente uma nova ordem progressista, os Oratorianos, o que concorreu para a renovação do espírito do ensino.

As posições de Verney não deixam dúvidas: contra a Companhia de Jesus, contra a entrega aos frades do ensino da ciência, contra a Inquisição, invenção de Maomé, contra os processos do Tribunal do Santo Ofício, o iluminista não é uma figura grata aos detentores das rédeas do ensino em Portugal.

O Verdadeiro Método de Estudar é, por tudo isto, uma proposta pedagógica de reforma marcada pela ruptura. Composto por dezasseis cartas de profunda erudição, vivas, enérgicas e com um perfume de graça, abordam, como já dissemos, temas muito variados. Defende a simplificação da ortografia, a substituição da vetusta e pesada arca de preceitos latinos do P. Manuel Álvares (que tinha 247 regras só para a sintaxe dos substantivos !) em prol da gramática latina, o ensino da língua portuguesa (recordemos que a Ortografia Portuguesa de padre Bento Pereira estava escrita em Latim !), o ensino da História, da Cronologia, da Geografia, da língua grega, do Hebraico, da Retórica, da Filosofia, da Filosofia e da Metafísica (deixando no olvido os métodos peripatéticos), a Ética, a Teologia, o Direito Canónico e Civil e a Medicina (recusa pactuar com o ensino desta área que preferia a especulação à experimentação, estudando anatomia humana em... carneiros !).

Como filósofo, o autor do Método tem ideias claras e distintas. Defende a superioridade dos modernos em relação aos antigos :

"Qualquer pobre mulher católica é infinitamente mais alumiada do que não era Platão, e sabe mais verdades importantes do que ele não sabia Metafísica".

Se a superioridade da Fé Católica lhe valeu aplausos generosos, a superioridade dos tempos modernos em relação à Física trouxe-lhe respostas acres. Acima de tudo, defende o primado da observação e da experiência. É certo que tanto Demócrito como Aristóteles observaram mas não conseguiram explicar. Mais ainda, quando tentamos explicar, devamos preferir um discurso simples e rigoroso evitando o rebuscamento e o burilado de explanações grandiosas mas sem conteúdo. Verney, com a recusa do método peripatético, do discurso tradicional, da reflexão sem apoio da experiência e da observação directa, questiona toda a arquitectura de pensamento que caracteriza o seu tempo.

A pena crítica deste iluminista de formação europeia aponta ainda o notório ensimesmamento que caracteriza a cultura portuguesa. Não se coíbe, por isso, de criticar abertamente alguns dos nossos autores mais conceituados e apontar os seus pecados e pecadilhos de todo distantes da nova filosofia das luzes.

No campo da Retórica, Verney condena todo o discurso que se revele obscuro pois a razão deve sobrepor-se a todos os ornatos e figuras que decoram a arte de bem falar. Assim, levanta o seu dedo acusatório contra o Padre António Vieira, apontando as suas acrobáticas manobras verbais, o barroquismo exacerbado, a falta de rigor teológico e as interpretações que fogem às Escrituras. Esta posição revela , mais uma vez, um fervoroso adepto da verdade, da exactidão, da razão, do evitar dos excessos na linguagem e dos recursos de estilo em cascata de efeitos.

Quanto à poesia, o nosso corajoso iluminista ousou criticar nomes sagrados da literatura portuguesa desde Jerónimo Baía até Camões. Os versos lusos seriam absolutamente contrários ao espírito dos modelos da Antiguidade e principalmente contrários à boa razão.

Nas suas apreciações poéticas, diante de uma composição que elogiava uns pés delicados e que o poeta transformara em átomos de açucena, suspeitas de cristal e instantes de jasmim afirma : "Desafio todos estes poetas portugueses para que me digam se houvissem um homem falar em prosa daquela sorte, se o entenderiam. Pois é bem claro que o que nada significa em prosa muito menos significa em verso".

Verney, com a defesa da simplicidade e da razão, vê no embelezamento da mitologia uma verdadeira ofensa, ultrapassando o próprio Boileau, amante de excepção da propriedade, da natureza e do bom senso que via na harmonia do maravilhoso greco-latino um gosto superior ao maravilhoso pagão sem se tornar incompatível com a verdade da Fé:

D'ornements égayés ne sont point susceptibles

De la foi d'un chrétien les mystères terribles

Art Poétique

 

A mitologia para Verney só deve ser utilizada num poema burlesco dado que em poesia séria é um atentado. Se um Chateaubriand ou um Garrett ou um Herculano poderia afastar-se da mitologia clássica devido à mundividência romântica que advoga, o nosso iluminista só a tolera numa comparação simples ou numa breve alusão pois prefere o critério da verdade ao critério da beleza. Por este motivo, critica Camões:

"...introduzi-los (os deuses pagãos) em todo o corpo do poema, como fez Camões na Lusíada , que introduz Vénus e Baco por toda a parte, sem discrição nenhuma ou também o Chagas e o comum deste reino, isto é mostrar que não têm juízo ou discernimento na aplicação dos ornamentos poéticos..."

A ofensa é contra a religião e contra a boa razão. Com este espírito, ataca também a lírica do vate luso, principalmente os sonetos fazendo "a maior parte deles sem graça alguma", tomando como exemplo Sete anos de pastor Jacob servia e Alma minha gentil que te partiste , que não tinham "o concluir por um conceito que agrade e arrebate com a novidade e deixe entender mais do que não diz" enquanto epigramas (assim os classificava).

Devemos compreender que as posições do Barbadinho se justificam pelo combate à poesia de salão do século XVIII, geométrica, de sibaritismo intelectual como nos diz Hernâni Cidade 2, de conceitos escondidos, de jogos de escol, e, por essa razão, profundamente artificiais para Verney.

No que concerne à pedagogia, a área que mais revela a modernidade e europeísmo das suas opiniões é o ensino do Latim e do vernáculo. Como sabemos, Verney defende o estudo das línguas clássicas mas também da língua portuguesa. O seu pensamento cosmopolita leva-o a invocar a sua experiência italiana para afirmar a sua contemporaneidade de ideias, como acontece com a filosofia moderna, que em Roma florescia sob a protecção do Papa, ao contrário do que acontecia em Portugal. De facto, Cardoso da Silveira, autor da Iluminação apologética, chega a afirmar que doutrinas erradas encontram em Roma um bom acolhimento pelo que "Creio tudo o que ensina a santa Igreja Romana, mas não creio tudo o que em Roma se ensina". Como muito bem opina Hernâni Cidade, podemos adaptar as palavras de Ortega y Gasset:

"El catolicismo español paga las culpas que no son suyas, sino del catolicismo español"

O Barbadinho, que se revolta contra as 247 regras do Padre Manuel Álvares, ergue igualmente a sua voz contra o excesso de zelo dos mestres em relação aos seus alunos. Não aceita que se apliquem castigos corporais, ao contrário do que defendiam todos os seus críticos, afirmando que devido a eles vão os rapazes comummente para as classes como penitenciários para a forca. Pina e Melo também se revolta contra a gramática alvarística pois "se não devem declarar as coisas com outras mais escuras; devemos contentar-nos com as regras gerais, omitindo-se quanto possa trazer confusão aos principiantes" ou como diria Sainte-Beuve, d'avoir à l'inintelligible pour se diriger vers l'inconnu 3.

Para além da ausência de castigos corporais, Verney defende ainda que a gramática da língua materna deve ser ensinada com um conjunto de requisitos sendo:

"curta e clara, a voz do mestre fazendo mais que os preceitos; no ensino dela, nem pancadas nem maus modos, mas grande paciência; e, sobretudo, o ensino prático, mostrando-lhe nos seus mesmos discursos, num livro vulgar ou carta bem escrita e fácil, o exercício e a razão de todos esses preceitos."

Esta pedagogia admirável e ainda hoje perfeitamente actual, constituía uma ruptura total com as concepções tradicionais dos pedagogos nacionais da época. O Barbadinho voltava a seguir o exemplo das ideias inovadoras da Europa iluminada e, em particular da Itália, onde se estudavam gramáticas em língua vulgar dos jesuítas Rogacci e Rainaldi. Em Portugal, a ortodoxia pedagógica respondia pela voz condenatória do P. Arsénio que aceitava que na Grécia se ensinasse grego e em Roma o latim pois são duas línguas difíceis mas "a nossa língua não é morta para que os naturais precisem de tal diligência"4 .

Luís António Verney defendeu ainda ideias absolutamente revolucionárias para o seu tempo como atribuir possibilidades de estudos a todos os que não se enquadravam na estrutura institucional, nomeadamente aos nobres que deveriam ter os seus próprios colégios, e acima de tudo advogou que as mulheres também deveriam ter acesso à cultura.

A modernidade do pensamento de Verney reflecte, em primeiro lugar, a sua adesão ao primado iluminado da razão, princípio da filosofia que defendeu, juntamente com os ideais clássicos que abraçou, especialmente a revisitação dos grandes autores da Literatura Latina, aos quais acedia sem dificuldade dado o seu conhecimento da língua do Lácio.

No tocante à pedagogia setecentista, Verney conhece as linhas orientadoras da Gramática, de Sciopio e Sanchez o que o leva a compor as suas próprias gramáticas em grego e hebraico, infelizmente desaparecidas.

É, no entanto, na filosofia que o nosso iluminista explora o seu gosto pela inovação. Para trás ficam as influências perniciosas da filosofia Árabe e escolástica, à luz de Aristóteles, absolutamente incompatíveis com o ideal científico e claro das novas correntes. Verney ultrapassa mesmo o cartesianismo e o atomismo gassendista, que dominaram o início do século, seguindo de perto o experimentalismo mais vivo e a razão como primado básico, pilares em Locke, Condillac, Helvécio e Holbach.

Apesar de moderno, não se aproxima dos enciclopedistas franceses que se revelam deístas ou ateus, não segue as opiniões de Vico (principalmente a sua distância de Locke e as suas ideias de ângulo platónico-agostiniano) e não se identificou plenamente com Kant.

Todas estas posições causaram uma acesa polémica. As ordens religiosas e, em especial, a Companhia de Jesus, alvo de críticas no ensino, os poetas e os pregadores, criticados pela excessiva agudeza de engenho e os universitários em geral, donos de um saber superior, de verborreia desmedida e balofa, todos se levantaram contra Verney. As reacções foram tão violentas que o padre espanhol António Codorniu, no seu Desagravio de los Autores y Facultades que ofende el Barbadino en su Obra (Barcelona, 1764), dezassete (!) anos mais tarde ainda responde ao português. No nosso país acusam Verney pela ousadia de criticar vultos como Camões, Vieira, Fr. António das Chagas e o conde da Ericeira, em Espanha atacam-no por negar que Santiago viesse a este país e em ambos o criticam pela sua ciência, pelo seu nascimento e até pela sua qualidade de católico. Alguns polemistas chegam a afirmar que em casos de semelhante audácia Já muitos têm sido chicoteados e apunhalados...

A influência deste iluminista é, sem margem para quaisquer dúvidas, um dado incontornável. Todavia, as ideias de Verney só viriam a revelar toda a sua sabedoria no futuro reinado de D. José que marca um novo e decisivo tempo para o ensino em Portugal.

Verney é o principal agitador mental do nosso país, segundo Frei Fortunato de S. Boaventura e o Padre Severiano Tavares (que o acusa de traição à própria Latinidade) . Mais ainda, muitos autores o consideram como verdadeiro messias cultural, como Fr. Bernardo de S. Boaventura, Teófilo Braga, António Sérgio ou Joaquim Ferreira. Outros críticos, como Cabral de Moncada, Joaquim de Carvalho, Hernâni Cidade, Salgado Júnior e Silva Dias, reconhecendo o seu valor, não deixam de lhe apontar alguns aspectos menos virtuosos. Porém, a sua tentativa de trazer a Portugal as novas luzes que transformavam a Europa merece o profundo comentário de Óscar Lopes e António José Saraiva que aqui transcrevemos, ainda que incorramos no pecadilho da extensão:

"No seu conjunto, o Verdadeiro Método de Estudar apresenta um certo número de características notáveis. Em primeiro lugar, a linguagem é franca, objectiva, sem rodeios nem incidências de humor: chama «parvoíce», «rapaziada», «ignorância», «idiota» ao que lhe parece. Depois, mede todas as questões pedagógicas segundo o critério da utilidade prática, o rendimento social efectivo dos estudos. Não tem qualquer preconceito exclusivista de superioridade, nem do trabalho intelectual relativamente ao manual, nem da inteligência masculina relativamente à feminina, e por várias vezes exprime a convicção de que, nas mesmas condições de vida e de escolaridade, negros ou ameríndios valeriam como brancos.

A sua preocupação de pôr os problemas de um modo impessoal, sem ferir susceptibilidades particulares, de expor com clareza, de ministrar indicações úteis (por exemplo, a bibliografia crítica como remate de cada assunto), autenticam uma profunda sociedade de propósitos."5

É inegável que Verney foi um perfeito embaixador do Iluminismo em Portugal, apreendendo as suas ideias reformadoras na Itália, que o formou superiormente e que lhe transmitiu as influências de um Muratori e de um Genovesi nas cortes de Módena e de Nápoles, respectivamente. As suas ideias progressistas agitaram as consciências esclerosadas do medievalismo escolástico que os Jesuítas impunham na sua concepção de filosofia e de ensino, contribuindo para a reforma inovadora do rei D. José.

Luís António Verney, entre Portugal e a Europa e, principalmente, entre Portugal e a Itália, na sua defesa da modernidade e da razão libertadora, revelou a coragem das suas convicções iluministas. De igual modo se exprimiu Kant, que evocamos numa saudação final plena de actualidade, concernente `a mensagem do Iluminismo :

"O que são as Luzes? A saída do homem da sua menoridade, de que ele próprio é responsável. Menoridade, isto é, incapacidade de se servir do seu entendimento sem a direcção de outrem, menoridade de que ele próprio é responsável, dado que a sua causa reside não numa falha de entendimento mas numa falta de decisão e de coragem de se servir dele...Sapere aude! Tem a coragem de te servir do teu próprio entendimento. Eis a divisa das luzes." 6

NOTAS

1 Vide Jacinto do Prado Coelho, Dicionário de Literatura, op.cit, volume IV, p.1139.

2 Vide Hernâni Cidade, Lições de Cultura e Literatura Portuguesas,op. cit.,p. 120.

3 Idem , ibidem, p. 137.

4 Idem, ibidem, p. 139

5 Vide Óscar Lopes e António José Saraiva, História da Literatura Portuguesa, op. cit., p.572.

6 Citado por Raymond Vancourt, Kant, op. cit., p.15.

 

BIBLIOGRAFIA

Andrade, António Alberto de, Verney e a Filosofia Portuguesa, Braga, 1947__ , Verney e a cultura do seu tempo, Coimbra, 1966

Cidade, Hernâni, Lições de Cultura e Literatura Portuguesas, Coimbra, Coimbra Editora, 1984

Coelho, Jacinto do Prado, Dicionário de Literatura, Porto, Livraria Figueirinhas, 1985

Dias, José Sebastião da Silva, Portugal e a Cultura Europeia (Séculos XVI a XVIII), Coimbra, 1953

Júnior, António Salgado, Luís António Verney/Verdadeiro Método de Estudar/Prefácio, Lisboa, Ed. Sá da Costa, 1949

Lopes, Óscar e Saraiva, António José, História da Literatura Portuguesa, Porto, Porto Editora, 4ª Edição.

Pimpão, Álvaro J. da Costa, História da Literatura Portuguesa, Coimbra, Quadrante, 1950

Serrão, Joel, Dicionário de História de Portugal, Porto, Livraria Figueirinhas, 1989

Vancourt, Raymond, Kant, Lisboa, edições 70, 1989

SUMÁRIO