Maria Elisa Pinheiro *
Jarrinha
Parecia uma boneca. Rosto de porcelana mate e translúcida, emoldurado por cabelo farto e negro. Chorava, vomitava, torcia as mãos angustiada, no seu primeiro dia, um dia de muita gente...
Os pais, tensíssimos, não conseguiam acalmá-la.
- Anda cá minha jarrinha – disse-lhe eu! Olha como ficas bem! E içava-a para cima de uma mesa.
Descontracção geral. Pais tranquilos. Batalha ganha.
Creio nunca ter agradecido capazmente a Quem, lá do alto, me oferecia gratuitamente inspirações do género, que tanto me ajudavam.
Foi jarrinha enquanto perduraram os receios e os vómitos.
Foi uma aluna razoável até emigrar com os pais.
Foi também o ponto de partida para uma vivência curiosa e enriquecedora.
Era gente laboriosa e humilde. Testemunhas de Jeová.
Quando os consultei sobre a assistência de sua filha às aulas de Moral e Religião quiseram ser informados dos moldes em que se processariam. Recusaram comprar as fichas de trabalho mas não se opuseram a que a menina assistisse às aulas. Propuseram-me então, delicadamente, a leitura de duas pequenas brochuras que expunham a sua interpretação das Escrituras. Concordei. Li. Não os desgostei. Quando devolvi os livros usei gentilmente as palavras do Padre Chisholm em As Chaves do Reino, de Cronin:
- O Céu tem muitas entradas. Entrareis pela vossa. Eu tentarei entrar pela minha.
Ficámos amigos.
Quando regressaram da Suíça, trouxeram-me uma bela recordação e muita, muita simpatia.
Não voltei a vê-los. Espero que estejam bem e que a vida lhes sorria.
Houve um caso parecido com um criança que pertencia à Igreja Evangélica. A pequena assistiu às aulas e pôde comprar e fazer as fichas.
O pai, uma vez ou duas, apontou-me os meus erros, os nossos erros. Sabia muito mais do que eu, que o ouvia atentamente e argumentava às vezes.
Mantivemos óptimas relações que subsistem, embora mais distantes.
* Professora reformada do Ensino Básico