Maria da Conceição Duarte Pereira *

 

Sob os Escombros do Passal

 

 

Há muito planeávamos esta visita! Também há muito a devíamos já ter efectuado. Calhou agora, 30 de Março de 2001, Sábado à tarde. Apesar de conscientes do crime de invasão de propriedade privada que estávamos prestes a cometer, não quisemos deixar de lá ir. Queríamos ver, com os próprios olhos, até onde pode chegar a mesquinhez e incúria humanas. Também não nos coibimos de levar a máquina fotográfica, testemunha silenciosa que registaria, para a posteridade, o tétrico espectáculo que nos aguardava. Sem ela, não teriam sido possíveis as fotografias que ilustram esta crónica.

O sol primaveril, inclemente sem ser abrasador, toldava-nos a vista. Por volta das três da tarde, eis que nos surge pela frente a granítica estátua do senhor das beiras, Viriato de seu nome, a quem, um qualquer energúmeno, resolveu pintar de verde as órbitas oculares. Estávamos em Cabanas de Viriato. Como não sabíamos onde era, pedimos à primeira transeunte que se nos deparou pela frente que nos indicasse onde ficava a casa do Dr Aristides de Sousa Mendes. Pronta e decidida, respondeu-nos que não sabia (?!). Aconselhou-nos, inclusive, a perguntar no café mais próximo. Entreolhámo-nos, pasmados. Como era possível não saber onde ficava a casa de tão ilustre cabanense? Chegámos à conclusão que, afinal, a culpa foi nossa. Não soubemos formular a pergunta. Se tivéssemos perguntado pela Casa do Senhor Cônsul, aí, certamente, a resposta teria sido outra. Conformados, dirigimo-nos ao tal café. De forma instantânea, ficámos a saber o seu exacto local. Para lá fomos e, de imediato, avistámos o cimo da estátua do Cristo Rei. Não podíamos estar longe. E não estávamos, de facto. Estamos agora no largo onde está implantada a monumental estátua do Todo Poderoso, sobranceira à propriedade que a envolve. Imponente e majestoso, olhar meigo, como que aconchega a casa defronte. A expensas suas, Aristides mandou fazê-la em Louvainne. Para a colocar no local onde ainda hoje se encontra, pode imaginar-se um ror de dificuldades. Não esqueçamos que, à data, 1933, a existirem tecnologias inovadoras, não seria, certamente, naquele lugarejo (...) do trabalho que teve para encontrar a imagem, que estava, dividida em três partes, na estação de caminhos-de-ferro, para a meter num camião e transportar até Cabanas de Viriato e, por fim, com a ajuda de cordas, para a colocar sobre o pedestal1 (...).

 

Já na Casa do Passal, a emoção desce sobre nós. Os nossos olhos percorrem, lenta e pausadamente, a fachada do ruinoso solar, agora quase reduzido a escombros. O som do silêncio, entrecortado pelo gorjeio das aves, é ensurdecedor. A degradação choca e a ruína fere. Mas magoa muito mais o estado lastimoso a que o homens, tidos por racionais, de forma torpe e cobarde deixaram chegar a vetusta edificação. Um muro de pedras sobrepostas (agora à mostra mas, outrora, certamente cobertas), encimado, em parte, por grades de ferro, ainda percorre quase toda a frente da casa. Ladeando o portão da entrada, também ainda lá estão dois candeeiros, de ferro forjado, encimados por dois pares daquilo que, noutros tempos, terão sido globos de vidro. O que resta do muro, descompõe o cenário.

Sob a direita, em gaveto, está um monumental crucifixo. Surpreendentemente, em óptimo estado de conservação, ao invés da casa, apenas denegrido face à inexorável passagem do tempo. A seus pés, certamente lá colocadas por devotas mãos, jazem dois ramos de flores. No rés-do-chão, seis janelas com umbrais em arco ladeiam a porta da entrada, também ela rematada por um arco. No primeiro andar, três portas, flanqueadas por duas janelas, dão para uma varanda circundada por uma balaustrada de ferro. Estes dois pisos, em tempos que já lá vão, estariam(?) pintados de branco. O seu estado de degradação não permite decifrar a original tonalidade. Mas seria algo entre o branco e o beije. No segundo andar, as janelas são já sete. Três delas centrais, com rebordos salientes rematados em arco e, as restantes quatro, estão duas de cada lado. Também com orlas proeminentes, contudo mais simples. Este piso está revestido por uma espécie de placas negras, de pedra arredondada, à laia de escamas. Pareceu-nos ser xisto.

Sob a esquerda de quem olha para a fachada da casa, um outro edifício está acoplado. No primeiro piso, exibe uma porta e duas janelas. No segundo, apenas três janelas. Quanto ao telhado, ainda se lá vê um belíssimo cata-vento, encimado por um galo, encarrapitado no pino de uma chaminé a lembrar um minarete.

Aprestamo-nos a entrar, quando, uma voz juvenil, alertou para o facto de a entrada principal estar barrada, por assim dizer, com o entulho caído do tecto, entretanto já desabado. Também o chão se encontra em estado lastimoso, pútrido e decrépito. Entrámos por uma porta lateral e, por um corredor estreito e esburacado, acedemos ao salão da entrada.

Acima das nossas cabeças, pintado no tecto e ainda bem visível, está o brasão da família - duas águias e duas espadas pelos Abranches, um leão pelos Castelo Branco, folhas de figueira pelos Figueiredo e cinco asas pelos Abreu2 (...)

Quando baixámos os olhos e em frente olhámos, ficámos aturdidos com o que vimos. Nada mais nada menos do que três macas. Pelo menos, foram-nos assim descritas pelas nossas irrepreensíveis guias. Eram brancas, todavia imundas e estavam, duas delas, a um canto. A terceira jazia, abandonada, no meio do caminho. Com uma espécie de escadas e uma reentrância para o paciente colocar a cabeça. Ao que tudo indica, terão sido usadas por Sousa Mendes no fim da vida, já minado pela doença.

À nossa frente, temos agora uma ainda majestosa escada de madeira, que se divide em duas para o primeiro piso. Defronte, um painel de vitrais coloridos. Infelizmente, são mais os pedaços de vidro pelo chão das escadas do que nos locais de origem. Ainda no piso térreo, visitámos o compartimento onde, em tempos, terá sido a biblioteca. O chão ainda estava repleto de restos de papéis. Folhas de livros, ou revistas, algumas em português arcaico. Também aquilo que nos pareceu serem fotografias ou postais. Amarelecidos, uns, bolorentos, outros. Tocámos-lhes. Se a cada um deles fosse dada voz, teriam, decerto, uma história para contar. Por respeito e pudor voltámos a colocá-los onde estavam.

Dali passámos a mais um ou dois compartimentos, eventualmente quartos. Seguiu-se a cozinha, com o seu enorme forno enegrecido. Não resistimos à tentação de o abrir e por ele espreitar. Ironia das ironias, só nos fez lembrar os hediondos fornos crematórios, de onde tantos foram salvos pelo proprietário da casa que, sub-repticiamente, estávamos a coscuvilhar.

Retornámos à escadaria que dá acesso ao segundo piso. A medo, iniciamos a subida. Temos um primeiro patamar, onde, na parede de madeira, agora nua, parece faltar algo (...) havia uma primeira vitrina, com as bandeiras de todos os países onde esteve colocado e onde os filhos nasceram3 (...). Olhando para cima, pudemos apreciar os frisos pintados no tecto. Alguns deles, assemelham-se a barras de rosas coloridas.

Percorremos demoradamente todos os aposentos, quartos ou as salas, sem que nada houvesse que nos permitisse fazer uma correcta identificação do que, em tempos, terão sido.

Entre os quais, a capela, ou o que dela resta. Como um velho estrado de madeira esventrada. Só Deus sabe quantas alegrias e tristezas estas paredes terão testemunhado. Delas perecem escorrer ocultas lágrimas de comiseração. Os soalhos pedem clemência, tal a podridão que os invade.

Algumas paredes ainda exibem, orgulhosas, restos do papel com que estavam revestidas. Bonito, por sinal. Grandes flores, semelhantes a hortenses, em tons de cinza prateado.

Na bandeira das portas de alguns compartimentos, ainda há painéis de vidro com motivos desenhados. Quanto às propriamente ditas, algumas são, na sua parte inferior, de madeira e, no cimo, têm vidro encastoado. As paredes, até meia altura, estão, também, revestidas de madeira. Quanto aos tectos, são de madeira colocada em espinha.

Não pudemos deixar de reparar, por uma das janelas desfeitas, que o Cristo Rei parecia atento às nossas clandestinas movimentações. Ainda vimos o que restava de uma casa de banho à moda antiga. A caminho do último piso, a paisagem beirã a descoberto por uma das janelas escancaradas deixou-nos estarrecidos. Era uma das janelas preferidas da Penucha, disse-nos uma das miúdas que nos acompanhava. Achámos graça ao epíteto. Quando perguntámos quem era, ficámos a saber que se tratava da segunda mulher de Sousa Mendes, a gaulesa Renée, que assim era destratada pelos cabanenses. Não consta que a senhora fosse persona gratta por aquelas paragens!... Porquanto o telhado se encontrava desmoronado, não nos foi possível ir mais além. Nomeadamente ao sótão. Dali descemos ao piso térreo. Melhor dizendo, à cave, ou ao que terá sido a adega.

Munida de uma lanterna, uma das garotas indicou-nos o caminho a seguir, por entre escadas carcomidas. Face ao breu, não sabemos dizer se eram de madeira ou de pedra. Era aqui que escondia os judeus, sussurrou-nos uma das garotas. Sem nada vermos por diante, mas porque a curiosidade foi mais forte, tirámos uma fotografia que, pasme-se, ficou muito boa. Assente em pilares e grandes pedras de granito que, por sua vez, sustentam colossais traves de madeira, está dividida em duas grandes divisões. Foi-nos dito, ainda, que se presume existir um túnel subterrâneo que liga a cave à estátua do Cristo Rei. Realidade ou ficção? Nunca o saberemos!

Subimos à superfície e ainda tivemos tempo para percorrer o enorme terreno atrás da casa, agora devoluto.

Já cá fora, depois de circundarmos a velha mansão, percorremos, a pé, a avenida Aristides de Sousa Mendes e dirigimo-nos à Igreja de São Sebastião, que dali dista pouco mais de uma centena de metros.

Para o fim, ficou o cemitério. Sabíamos que a sua última morada era o jazigo da família. Depois de o procurarmos - uma vez que a única identificação consistia no brasão da família - lá o encontrámos. De pedra, simples, está encimado por uma cruz e ladeado por duas colunas. As portas são de metal, negro, com uma fina cruz branca embutida na parte inferior de cada uma delas. No cimo são recortadas, em jeito de hexágono ou favo gigante, alongado na vertical e cobertas de vidro. Através destes, pudemos identificar cinco ataúdes. Haviam-nos dito que o de Sousa Mendes era preto. À esquerda vimos dois, sobrepostos. Ao centro estava um outro, acastanhado. Em virtude do calor que já se fazia sentir, servia de abrigo a uma pequena e malhada víbora. À direita havia outro castanho, onde podia claramente ler-se Dr José de Sousa Mendes. Por fim, à nossa frente, lá estava o negro. Grande, bojudo, com um crucifixo metálico ao cimo. Embora bastante desbotadas e quase ilegíveis, ainda identificámos algumas pálidas letras que, soletradas a compasso, permitiam decifrar o nome de Aristides de Sousa Mendes.

Demos por finda tão perturbadora visita. O que vimos, apesar de quase inacreditável, estava à nossa frente. Não era virtual nem se tratava de nenhuma demoníaca miragem. Pergunta-se, antes, como foi possível deixar chegar a este estado um lugar que, antes de mais, deveria ser de reflexão. De respeito para com um homem que tudo imolou em prol dos outros. Nada do que fez foi em proveito próprio. Muito pelo contrário! Aqui reside a sua grande envergadura. Nos conturbados tempos que correm, de assoberbado e quase selvático materialismo, quem abdicaria de todas as mordomias para acorrer o seu semelhante? Para salvar os que, desesperadamente, necessitam de auxílio imediato e incondicional? Sempre é mais confortável o refúgio na obediência cega, surda e muda!

   

Já refeitos do baque causado por tão deprimente visita, aguardamos agora que, finalmente, Portugal - na pessoa dos seus dirigentes - presentes e futuros, já que os passados pouco ou nada fizeram, saiba, antes de mais e acima de tudo, honrar a sua memória, dignificar o seu gesto e perpetuar o seu nome na galeria dos audazes.

Às vezes, mais vale tarde do que nunca!...

 

* Assistente Administrativa Principal do Instituto Superior Politécnico de Viseu.

1 Fralon, José-Alain, Aristides de Sousa Mendes um Herói Português, pág. 32. Lisboa, Editorial Presença, Julho de 1999.

2 Idem, pág. 33.

3 Ibidem.

sumário