Maria Gil de Sousa *

 

Reencontro com Anne Frank - 20 anos mais tarde

 

1. Uma aula diferente.

Tinha onze anos e frequentava o 2 ano do Ciclo Preparatório na Escola Preparatória Ramalho Ortigão. Um dia, na disciplina de Português, houve uma aula diferente. A professora, Filomena Correia, tirou do saco um livro grosso de capa verde. E começou a falar: "Meus filhos, Hitler era maluco (...)". Fiquei surpreendida, pois, até então, nunca ouvira falar de semelhante espécime. Após uma breve introdução, passou à apresentação de Anne Frank e do seu diário. Depois desse dia, no final de cada aula, eram lidas algumas passagens do Diário, até à entrada da família Frank no esconderijo.

A partir daqui, como o ano lectivo estava quase no fim, e por se considerar que o desfecho da obra literária seria chocante para os jovens alunos, terminaram as sessões de leitura e concentrámo-nos no curriculum escolar. A minha curiosidade em saber mais sobre Anne e o seu diário não diminuíram e, na Feira do Livro, convenci o meu pai a comprar-me um exemplar. Este livro, o carácter de Anne Frank e a crueldade do Nacional-Socialismo marcaram a minha adolescência e o desenvolvimento da minha personalidade.

Tenho que confessar, com alguma vergonha, que inicialmente li o Diário como quem lê um livro de aventuras dos Famosos Cinco ou dos Sete 1 . Passei, depois, por uma fase em que concentrava as minhas leituras na narração do breve romance que surgiu entre Anne e Peter, até, numa fase mais adulta, entender toda a barbárie do Nacional-Socialismo, que vitimou a família Frank (e milhões de pessoas); e, em simultâneo, admirar a coragem dos amigos não judeus, que, arriscando a própria vida, nunca deixaram de os ajudar. Comovente é ainda a esperança que Anne mantém até ao final.

Uma coisa esteve sempre presente ao longo do meu crescimento: a vontade de, um dia, visitar a Casa de Anne Frank.

 

2. Anne Frank

Quando Anne Frank nasce (em Frankfurt sobre o Meno, a 12.06.1929), tinha já uma irmã, Margot, de três anos. As meninas são filhas de Edith e Otto Frank, ambos provenientes de famílias judaicas cultas e endinheiradas.

Em 1933, com a ascensão de Adolf Hitler ao poder, Otto Frank decide mudar-se com a família para a Holanda, onde funda a sua empresa de pectina OPEKTA. Entusiasma as suas filhas, dizendo-lhes que vão viver perto do mar.2 Com quatro e sete anos, as irmãs integram-se rapidamente na sua nova cidade, na Holanda, país liberal por tradição; inclusive, em breve falam neerlandês entre si. Até os Países Baixos serem invadidos pelos nazis (15 de Maio de 1940) tudo corre bem. Deixemos agora Anne narrar o desenrolar dos acontecimentos, após a ocupação: "A partir de 1940 foram-se acabando os bons tempos. Primeiro veio a guerra, depois a capitulação, em seguida a entrada dos alemães. E então começou a miséria. A uma lei ditatorial seguia-se outra, e, em especial para os judeus, as coisas começaram a ficar feias. Obrigaram-nos a usar a estrela e a entregar as bicicletas, não nos deixavam andar nos carros eléctricos e muito menos de automóvel.

Os judeus só podiam fazer compras das 3 às 5 horas e só em lojas judaicas. Não podiam sair à rua depois das oito da noite e nem sequer ficar no quintal ou na varanda. Não podiam ir ao teatro nem ao cinema, nem frequentar qualquer lugar de divertimento. Também não podiam nadar, nem jogar ténis ou hóquei, nem praticar qualquer desporto. Os judeus não podiam visitar os cristãos. As crianças judaicas eram obrigadas a frequentar escolas judaicas. Cada vez saíam mais decretos... Toda a nossa vida estava sujeita a enorme pressão. Jopie [uma amiga] dizia a cada passo: "Já nem tenho coragem para fazer seja o que for, porque tenho sempre medo de fazer qualquer coisa que seja proibida" (20.06.42). Este desabafo é escrito oito dias após o seu décimo terceiro aniversário. Nesse dia recebera, entre outras prendas, um diário, de capa de tecido axadrezado vermelho e branco. Para Anne, foi este o seu melhor presente e nele decide escrever cartas a uma amiga imaginária, à qual dá o nome de Kitty. Com a escrita deste diário, Anne não tem outro objectivo que não seja o de conversar sobre temas que tem dificuldade em debater com os seus amigos.

Apesar das restrições a que os Judeus são sujeitos, Anne Frank é uma rapariga feliz. No entanto, três semanas após o seu aniversário, o pai (por quem Anne nutre forte estima) confidencia-lhe que prepara, desde há algum tempo, um local para a família mergulhar.3

A 8 de Julho de 1942, a família Frank muda-se mais cedo que o previsto para o seu esconderijo, na Prinsengracht, n 263, que é a casa das traseiras do escritório da empresa OPEKTA.4 O esconderijo fora montado na parte traseira do edifício.

Esquema da casa/esconderijo de Anne Frank

Os Frank vivem nesse local em conjunto com a família van Pels e Fritz Pfeffer, até Agosto de 1944, quando a polícia toma de assalto o edifício, após denúncia, sem que, até hoje, tenha sido possível descobrir quem o fez.

A família é deportada, primeiro para um campo de trabalho em Westerbork, nos Países Baixos, depois para Auschwitz, onde morre Edith. Anne e Margot são, novamente, deportadas para Bergen-Belsen, onde vêm a falecer em Março de 1945. O pai, Otto Frank, foi o único sobrevivente da família. Após tentar saber do paradeiro das suas filhas e ter sido informado da sua morte, é-lhe entregue, por Miep Gies, o diário de Anne, que ele decide publicar no intuito de satisfazer o desejo da filha: ser escritora.

Anne desabafou em 4 de Abril de 1944: "Quero vir a ser alguém. (...) Quero continuar a viver depois da minha morte. E por isso estou tão grata a Deus que me deu a possibilidade de desenvolver o meu espírito e de poder escrever para exprimir o que em mim vive. Quando escrevo sinto um alívio, a minha dor desaparece, a coragem volta. Mas pergunto-me: escreverei alguma vez coisa de importância? Virei a ser jornalista ou escritora? Espero que sim, espero-o de todo o coração!". A escritora nunca imaginaria que o seu diário, escrito sem intenções de publicação (pelo menos, inicialmente) viria a ser lido por todo o mundo5, a sua vida adaptada ao Ballet, ao Cinema e ao Teatro; que o seu esconderijo seria visitado por cerca de um milhão de pessoas por ano.

Rua Anne Frank, no centro de Amsterdão

Afirma Ernst Schnabel que "Miep e Elli, naquela altura [da deportação], não leram os papéis de Anne. Apenas folhearam os cadernos e, como viram que eram de Anne, fecharam-nos no cofre forte. Foi assim que se guardou esta voz, uma de entre os milhões de vozes que se calaram para sempre... E talvez tenha ela sido a mais subtil de todas. Conta-nos como milhões de seres viveram, falaram, comeram. Sobreviveu aos gritos dos assassinos e superou as vozes do tempo". (Schnabel, s/d : 220).

 

3. O Diário

Como já foi referido, Anne escreveu o seu diário sem pensar em publicá-lo, no fundo, escrevia por necessidade de comunicar.

Página do Diário de Anne Frank

Inicialmente, o diário começa por ser uma descrição de eventos normais na vida de qualquer adolescente, descrevendo mais tarde as suas condições de vida após mergulhar: a angústia permanente o medo de serem descobertos, a comida escassa, a nova rotina, a que tiveram que se submeter6 (entre as horas de expediente no escritório apenas podiam comunicar por sussurros, nunca podiam utilizar o W.C.) ...; e contudo, está sempre presente o reconhecimento da coragem dos amigos não - judeus (antigos empregados do pai), que não hesitam em ajudá-los, mesmo arriscando a vida: "Nunca deixam transparecer que somos um fardo - e não há dúvida que somos - nunca se queixam das maçadas que estamos a causar. Todos os dias sobem até aqui, falam com os homens sobre o negócio e a política, com as senhoras sobre as dificuldades do governo da casa e connosco, os jovens, sobre livros e jornais. Entram sempre de cara satisfeita, não se esquecem, nos dias de festa das flores e das prendas e estão sempre prontos a ajudar. Não devemos esquecer nunca, apesar de todas as heroicidades dos campos de batalha e de toda a luta contra os opressores, os sacrifícios dos nossos amigos, aqui, junto de nós, as provas diárias de simpatia e amor!"(28.01.44)

Durante o tempo em que se podem manifestar, Anne, Margot e Peter, filho dos van Pels, com quem Anne viverá um breve romance, estudam, acreditando poder voltar à escola em breve.

Em Abril de 1944, Anne ouve na rádio que a Rainha Guilhermina deseja que, no final de guerra sejam escrita crónicas sobre este período histórico. Entusiasmada, decide rescrever o diário, desejando publicar parte dele. Pretende contar a sua vida no esconderijo e dar-lhe o título A casa das traseiras (Het Achterhuis).

Vista actual das traseiras da casa

Estudiosos decidiram chamar à versão original do diário, versão A, a esta rescrita, Versão B.

Otto Frank publica o diário da sua filha quase na totalidade, reservando certas passagens que se prendem com a descoberta da sexualidade e outras relativas a discussões que Anne teve com os pais, assim como algumas reflexões sobre o casamento deles.

Antes de falecer, em Agosto de 1980, o pai entregou as folhas não editadas à Fundação Anne Frank, pedindo que estas últimas nunca fossem publicadas. O seu pedido não foi satisfeito. Com interesses lucrativos, quanto a mim, foi recentemente editada uma terceira versão incluindo todo o diário, a qual foi denominada Versão C.

Vários estudos têm surgido, como o de Mirjam Pressler, que se debruça, entre outros assuntos, sobre a possibilidade de Anne ter tido um orgasmo num dos seus encontros com Peter (!!!), ou o de Melissa Müller, cuja tese foca o relacionamento do casal Frank.

Parece-me que estes trabalhos, para além de incidirem sobre aspectos da vida privada da família Frank, se desviam do essencial: o facto de o Diário de Anne Frank ser um documento sobre o Holocausto, a perseguição, a clandestinidade e uma crónica de guerra7; acima de tudo, a possibilidade que dá ao leitor de conhecer a admirável personalidade de Anne (uma entre seis milhões), que, aos quinze anos, possui uma mentalidade extremamente avançada para a sua idade. De entre todas as emoções que o Diário desperta, destaco, ainda dois pontos fulcrais: a consciência de pertencer ao povo judaico8 e, apesar de todo o sofrimento que vive, motivado pelo absurdo da discriminação racial, a crença na natureza boa do ser humano.9

 

4. A visita

8 de Agosto de 2001. Het regent pijpenstelen10. Está frio. Recordo-me das primeiras impressões causadas pelos Países Baixos nos Judeus Sefarditas, que fugiam à Inquisição e que os levava a descrever a Holanda como "aquela fria e alagada terra". Apesar de só ter levado roupa de Verão, não foi o mau tempo que me fez demover de concretizar o meu objectivo de há vinte anos. Caminhei cerca de 20 minutos sob chuva e vento - e o que é isso comparando com tudo o que Anne teve de suportar? - até chegar ao antigo escritório da OPEKTA, agora conhecido como Anne Frank Huis. Fiquei, desde logo, surpreendida com o tamanho da fila que já se tinha formado. Eram 8:30 da manhã e a casa só abria ao público às nove.

Fachada da Anne Frank Huis

Estavam à minha frente uma família japonesa, outra inglesa e um casal norte - americano. Assim se apresentou o senhor: "My name is Richard Stark. So, if you add an e and a y, you can call me Ringo". O ambiente é informal e divertido.

Logo a seguir a mim chegam dois grupos de estudantes bastante numerosos (o que me fez pensar que tinha tido boa ideia em me levantar cedo e ir imediatamente para a casa de Anne Frank): um de Israel e outro dos Estados Unidos da América.

Pouco antes das nove horas, um funcionário verifica o número de pessoas que estão na fila e distribui folhetos elucidativos da visita, em várias línguas. (Achou-me com cara de israelita e entregou-me um em hebraico.) Pedi um em inglês, vindo a saber mais tarde que existem também folhetos em português (falado em Portugal, numa tradução bastante correcta). Fui então informada que seria a última pessoa do segundo grupo, que entrou às 9:20.

Depois da passagem obrigatória pela bilheteira, assiste-se a um filme introdutório, onde se apresenta Anne e a sua família, os van Pels (a quem Anne chama no seu diário van Daan) e fotos tiradas durante o período do Nacional - Socialismo.

Em seguida, dirigimo-nos ao "falso" armário, que escondia as escadas conducentes o esconderijo, na casa traseira. Expressar por palavras o que senti ao passar a porta com a estante giratória é tarefa difícil. Senti algo rebentar dentro de mim, gritei em silêncio, chamei por Anne, perguntei o porquê de tanta maldade...; tudo isto em simultâneo e em silêncio; enquanto subíamos lentamente as escadas. Creio que todas as pessoas foram acometidas das mesmas sensações. Durante a visita, ninguém consegue falar.

Inicialmente, a casa estava mobilada, de acordo com as instruções de Miep Gies, uma vez que os móveis originais foram confiscados pelos nazis. Era permitido fotografar, no entanto, tal como referiu Rachel van Amerongen - Frankfoorder, que partilhou com Anne a mesma caserna em Bergen - Belsen; o que se passava durante a visita, distava bastante do objectivo da abertura da casa ao público: "Os visitantes fotografavam cada canto, cada móvel, em particular os japoneses (...) Voltei a ver a jovem Anne em Bergen- Belsen, macilenta, esquelética, doente (...). À saída, escrevi no livro de ouro: "Anne não teria gostado disto" (apud Lindwer, 1992 : 120 - 121).

Quarto de Anne Frank, mobilado segundo indicações de Miep Gies

Agora está tudo vazio e é essa a sensação transmitida. No quarto de Anne (muito mais pequeno do que aparenta ser nas fotos), fotografias das suas "estrelas", coladas nas paredes. Temos também a oportunidade de ver, de uma das janelas, a torre da igreja de Westerkerk, com o sino, cujas badaladas, em conjunto com o castanheiro, que também se avista, simbolizavam para Anne a liberdade e a esperança.

Torre de Westerkerk

À saída, um anexo que serve de apoio à casa. Num escaparate o diário original, noutros várias edições, traduções em várias línguas e projecções de documentários sobre Anne e filmes/peças de teatro baseados na sua vida.

Descemos para a loja. Estão à venda postais com a imagem da casa, páginas do diário, livros e vídeos/documentários sobre Anne. A maior simplicidade e dignidade.

O silêncio reina ainda, apenas quebrado pela voz da funcionária que, na caixa, anuncia com voz suave o preço dos artigos comprados e pede o passaporte para conferir a assinatura. Olhei para a loja mais uma vez, antes de sair. Uma mãe afagava o cabelo do filho, enquanto este escolhia postais, um casal entrava de mão dada. Famílias permaneciam juntas, ainda sem conseguir articular palavra. A escolha de souvenirs fazia-se por um aceno de cabeça, ou simplesmente, por uma troca de olhares.

Saí e fiquei admirada com o tamanho da fila (que crescera consideravelmente) de pessoas que queriam visitar a casa de Anne Frank. Lembrei-me que Anne queria continuar a viver depois da sua morte. Foi-lhe feita a justiça possível e merecida!

Parte de fila de visitantes que desejam visitar a Casa de Anne Frank, cerca das 10 horas da manhã

5. Considerações finais

A visita à casa de Anne Frank constituiu uma experiência emocionante. Sente-se a presença de Anne e parece-me ser uma homenagem justa à escritora. Logo após o choque inicial há um surto de coragem para lutar contra o facto de uma barbárie semelhante voltar a repetir-se no futuro.11

O Diário, sendo um marco das injustiças da Segunda Guerra Mundial, continua - infelizmente - actual pelos vários episódios de discriminação racial, intolerância e violência a que vamos assistindo, pelo que é imprescindível a sua leitura e análise, assim como dos Contos de Anne Frank nos estabelecimentos de ensino (e não só). Parece-me, contudo, que o excesso de zelo de alguns estudiosos possa ser prejudicial, por se desviar do fundamental: homenagear a memória (individual e colectiva) de Anne e - em simultâneo - promover ideais de liberdade, democracia, tolerância e luta pelos direitos humanos.

Afinal, a própria Anne acreditava que o ser humano é naturalmente bom.

Monumento a Anne Frank, situado junto à casa onde se escondeu dos nazis durante mais de dois anos

FONTES

 

a) Bibliografia:

Frank, Anne, Diário de Anne Frank (Trad. de Ilse Losa) (s/d), Lisboa, Livros do Brasil

Frank, Anne, The Diary of a Young Girl (1995),New York, Doubleday

Anne Frank House, Anne Frank, uma história para hoje (1996), Amesterdão, Anne Frank Stichting

Bouhuys, Mies, Anne, Kitty und die beiden Paulas (1995), München, dtv junior

Lindwer, Willy, Os últimos sete meses de Anne Frank (1992), Lisboa, Livros do Brasil

Losa, Ilse, "Prefácio" in Diário de Anne Frank, (s/d), Lisboa, Livros do Brasil

Pressler, Mirjam, Ich sehne mich so - Die Lebensgeschichte der Anne Frank, (1998), Weinheim und Basel, Beltz und Gelberg

Schnabel, Ernst, No rasto de Anne Frank (s/d), Lisboa, Livros do Brasil

Van der Rol, Rudi, Verhoeven, Rian, Anne Frank - Uma vida (1995), Amesterdão, Fundação Anne Frank

b) Cd - Rom: Anne Frank House - A House with a Story, 2000, Anne Frank House

c) Documentários:

Blair, Jon, Anne Frank Remembered (1985), Anne Frank House, Jon Blair Film Company, BBC/Disney Chanel

Dateline Productions, Anne Frank, (1998), TV Matters, D Cultur BV

Lindwer, Willy (1988), Os últimos sete meses de Anne Frank

Notas:

* Equiparada a Professora - Adjunta no ISCAP.

1 Da autora Enid Blyton (1869 - 1968).

2 Cf. Bauhuys, 1995 : 17.

3 "(...) designação que se dava ao desaparecimento de pessoas perseguidas (...) que passavam a ter uma existência ilegal ou clandestina" (Losa, Ilse, in "Prefácio", s/d : 7).

4 Segundo explicação de um guia, na Holanda as casas são tradicionalmente estreitas e longas (pagavam-se mais impostos, quanto mais largas fossem as casas). Assim, todas as casas tinham a casa "da frente" e "a das traseiras". Estas podiam ser independentes, ou não.

5 Para além do Diário, Anne deixa também contos, ensaios e peças de teatro, cuja edição em Português é traduzida por Margarida Losa.

6 Escreve Anne a 1 de Maio de 1943: "Se me ponho a pensar na nossa vida aqui, chego sempre à mesma conclusão: nós, em comparação com os judeus que não conseguiram esconder-se, ainda estamos como que no paraíso. Mas, mais tarde, quando tudo estiver normalizado e eu me puser a pensar naquilo que vivi, ficarei, decerto, admirada dos limites a que nós chegámos (...) Usamos, por exemplo, desde que aqui entrámos, a mesma toalha de oleado na mesa e, deves calcular que ela não fica mais bonita pelo uso (...) O pai anda com as calças no fio e a gravata já está muito gasta. A cinta da mãe rasgou-se hoje, de velha, e a Margot usa um soutien que lhe é apertado demais. A mãe e a Margot, durante o Inverno, remediaram-se com três camisas, e as minhas estão-me curtas, dão-me pela anca".

7 Retrata Anne a vida em guerra a 13 de Janeiro de 1943: "As notícias lá de fora são horríveis. Dia e noite arrastam a pobre gente das suas casas. Só deixam levar o que cabe na mochila e algum dinheiro (mas este tiram-lho mais tarde). Separam as pessoas em três grupos: homens, mulheres e crianças. É vulgar voltarem as crianças de escola e já não encontrarem os pais, ou voltarem as mulheres das compras e darem com a casa selada. O resto da família já foi deportada. (...) Há crianças cá no quarteirão, que andam de blusinhas leves, de socos e sem meias, sem sobretudos, bóinas ou luvas. Têm o estômago vazio, mastigam cenouras, fogem das casas frias para as ruas ventosas, e estudam em escolas sem aquecimento. Mais: as crianças pedem pão às pessoas que passam! Chegaram até este ponto as coisas na Holanda!" Já em 28 de Janeiro de 1944, escreveria: "mergulhar" e desaparecer são agora coisas tão correntes como eram antigamente os chinelos do pai à espera, no Inverno, diante do fogão".

8 Ela própria afirma revoltada: "Quem foi que nos impôs este destino? Quem decidiu excluir deste modo os judeus do convívio dos outros povos? Quem nos fez sofrer tanto até agora? Foi Deus que nos trouxe o sofrimento e será Deus que nos libertará. Se apesar de tudo isto que suportamos ainda sobreviverem judeus, estes servirão a todos os condenados como exemplo. Quem sabe, talvez ainda venha o dia em que o Mundo se aperceba do bem através da nossa fé, e talvez seja por isso que temos que sofrer tanto. Nunca poderemos ser só holandeses, ingleses ou súbditos de qualquer país. Seremos sempre, além disso, judeus. E queremos sê-lo." (11.04.44).

9 É por milagre que eu ainda não renunciei a todas as minhas esperanças, na verdade tão absurdas e irrealizáveis. Mas eu agarro-me a elas, apesar de todos e de tudo, porque tenho fé no que há de bom no homem", justifica Anne em 15 de Julho de 1944.

10 Expressão idiomática holandesa que significa "chovem canos de água". (Agradeço a Erik Rijnbout pela tradução).

11 É de salientar que o Diário de Anne Frank foi uma fonte de alento para o ex-líder do ANC e presidente da África do Sul Nelson Mandela.

 

sumário