EPISTEMOLOGIA DAS CIÊNCIAS DA EDUCAÇÃO

 

A emergência de uma Ciência da Educação e o papel fundamental da Filosofia da Educação

 

DIOGO MARIA DE MATOS POLÓNIO*

Noção de Educação (o nascimento das Ciências da Educação)

É preciso reconhecer que reina grande desordem na terminologia e que as interferências e confusões entre ensino, educação e pedagogia são numerosas e complexas. Não vamos, aqui, reflectir sobre esta problemática, mas apenas referir brevemente a evolução do conceito de educação.

Assim sendo, a partir de 1690 ¾ altura em que se pode ler no dicionário de Antoine Furetiére que educar consiste em alimentar crianças e cultivar o seu espírito quer por meio da ciência, quer pelos bons costumes ¾ foram propostas centenas de definições de educação.

Vamos apontar apenas duas que ilustram perfeitamente que as diferenças de estilo e de conteúdo entre elas conduzem à impossibilidade de compreender as definições de educação sem ter em conta um contexto muito mais lato do que o da simples relação educador-educando.

Para Durkheim, educação é a acção exercida pelas gerações adultas sobre as que ainda não estão maduras para a vida social, tendo, por objectivo, suscitar na criança um determinado número de estados físicos, intelectuais e morais que a sociedade política, no seu conjunto, e o meio social , ao qual está particularmente destinada, reclamam.

Já a Liga Internacional da Educação Nova considera a educação como um conjunto de metodologias que visa favorecer o desenvolvimento tão completo quanto possível das aptidões de cada pessoa, simultaneamente como indivíduo e como membro de uma sociedade regida pela solidariedade. Para este movimento, a educação é inseparável da evolução social, constituindo uma das forças que a determinam.

Por volta dos anos sessenta, parece poder estabelecer-se uma distinção do seguinte tipo: enquanto que a educação se prende com o campo da acção, a pedagogia encontra-se completamente voltada para o campo da reflexão. É, no entanto, inviável a sua completa separação, uma vez que a acção e o pensamento constituem duas faces de um mesmo processo.

Esta última conclusão conduz a uma expressão aglutinadora dos dois conceitos que começa a espalhar-se: Ciências da Educação.

Esta denominação tem a sua génese no final do século passado, surgindo ainda de uma forma muito ténue, como um pressentimento. No entanto, os autores desta época hesitam, porque a noção de Ciências de Educação não estava ainda elaborada, não apresentando, ainda, fundamentos científicos específicos.

Nos últimos decénios, a noção de educação alargou-se, estabelecendo relações com as disciplinas científicas tradicionais. Tudo isto levará ao problema da autonomia das Ciências da Educação, como veremos mais adiante.

Perspectivas Epistemológicas Decorrentes da Crise da Ciência no Século XIX

Assiste-se, no final do século XIX, ao estalar de uma crise interna da ciência deflagrada pela crise da Matemática que surge com as teorias de Frege, Russel, Hilbert e sobretudo de Goëdel, que estendem até ao infinito o problema da fundamentação da Matemática.

A Matemática surgia como um edifício sólido, bem adaptado ao real, mas cuja fundamentação lógica era impossível. De facto, segundo Goëdel "toda a proposição que exprima a consistência de um sistema é precisamente uma das proposições impossiveis de provar no interior desse sistema".

Assim sendo, dentro de uma mesma teoria matemática não é possível provar a sua não contradição utilizando os seus próprios meios. Há, então, que fazer apelo a uma teoria que se encontre a um nível superior.

Esta crise interna da ciência, no entanto, não se justifica apenas por aspectos intrínsecos à ciência (como a impossibilidade de fundamentar o rigor e a objectividade do conhecimento científico, ou a aceitação dos limites deste conhecimento), mas também por um contexto mais geral que tem a ver com o questionamento das consequências sociais da ciência.

Com efeito, a "ciência moderna", ao permitir conhecer as relações entre os fenómenos e a sua aplicação na transformação do próprio mundo, vai proporcionar um poder tecnológico cada vez maior aos seres humanos para intervirem sobre a natureza e o próprio Homem.

Assim, quanto maiores os avanços da ciência, maior a consciência das limitações do Homem e da dificuldade em controlar os avanços da ciência e da tecnologia. Deste modo, o Homem vê-se obrigado a fazer opções de mudança, o que implica que se tenha consciência dos fundamentos teóricos e dos valores que orientam essa mudança.

Efectivamente, desde o final do século XIX , e especialmente neste século, a ciência parece ter frustrado muitas das esperanças nela depositadas. Tal facto levou a uma ruptura de valores e ao início de uma crise que, em várias vertentes, se prolonga até ao momento actual. É hoje mais do que evidente o choque entre a concepção positivista de ciência e a concepção actual, ou moderna, de ciência.

De facto, à concepção, defendida durante grande parte do século XIX, de uma ciência considerada como um conhecimento objectivo permitindo previsões rigorosas, fundada no princípio do determinismo, defendendo um modelo mecanicista, segundo o qual o Universo é visto como uma máquina que trabalha segundo leis universais, e que demonstra um desejo de quantificar todas as leis da natureza (surgindo, assim, a Matemática como única linguagem capaz de decifrar a realidade, para além de fazer a apologia da existência de uma relação isométrica entre a máquina que é a natureza e a Matemática); opõe-se, claramente, a concepção moderna de ciência que defende que esta não é mais do que uma forma de conhecimento que tende para a objectividade , uma vez que a ciência ganha cada vez mais consciência de ser uma construção do espírito humano, logo, limitada e finita como este.

Segundo esta concepção, as leis científicas permanecem conjecturais, apresentando um carácter probabilístico. Defende-se, portanto, nesta concepção de ciência, que o objecto de estudo da ciência não é independente do cientista e também que a distinção entre ciências naturais, ciências exactas e ciências humanas deixa de fazer sentido.

Paralelamente à própria ciência, a educação viveu também um período de crise, uma etapa de indecisão e até de contradições. Esta crise surge enquadrada no contexto de uma crise social geral e científica em particular.

Deste modo, a crise na educação está directamente relacionada com alterações profundas a que estão sujeitas as sociedades modernas: por um lado, mudanças no plano científico e tecnológico, demográfico e económico, sócio-cultural e político; e, por outro, mudanças a um nível filosófico que passam pelo emergir de uma nova visão do Homem e da sociedade.

Esta revolução científica leva ao abandono do paradigma então vigente (positivista) e à sua substituição por um outro (vamos chamá-lo, com as devidas reservas, pós-modernista) implicando uma conversão súbita da comunidade investigadora acompanhada de uma reestruturação da sua visão do mundo.

Apresentando-se como teoria do conhecimento por excelência e como análise privilegiada do acto de conhecer, a reflexão epistemológica afigura-se como contributo imprescindível para a realização eficaz de um reenquadramento científico com a dimensão que a renovação de paradigmas exige.

Ao permitir, de igual modo, uma análise da relação sujeito-objecto, a reflexão epistemológica assegura um papel decisivo na redefinição do objecto formal das Ciências da Educação.

Indefinição do Objecto Formal das Ciências da Educação

A escolha da expressão Ciências da Educação não consiste em revestir de uma nova cobertura uma velha prática; não é nem o resultado de uma moda, nem a expressão de uma vã pretensão por parte dos professores. Trata-se, pelo contrário, de algo mais profundo e que corresponde a uma realidade nova.

Nenhum projecto, nenhum estudo científico, poderá ser realizado sem o conhecimento da realidade a que ele se refere; isto é, sem se conhecer o campo em que se pretende intervir.

As Ciências da Educação aparecem, portanto, como um conjunto de abordagens científicas de um real pedagógico. Aparentemente trata-se de um progresso; no entanto, esta passagem do singular (Pedagogia) ao plural (Ciências da Educação) não deixa de ser equívoca e, como nota Avanzini, levanta sérias interrogações de base que afectam o seu estatuto epistemológico.

O carácter discutível e quase arbitrário das tentativas de classificação das Ciências da Educação são a melhor prova da falta de definição do seu estatuto.

A necessidade de cientificação tem levado o interventor pedagógico a recorrer a conceitos e a métodos de ciências já constituidas, que poderão ter aplicação no campo específico da Educação. A Psicologia, a Psico-sociologia e a Economia têm representado as principais ciências de recurso.

Ora, quando se analisa o fenómeno educativo sob o ângulo de outras ciências já constituidas, são, na verdade, os objectos específicos dessas ciências que são detectados. Portanto, a especificidade do fenómeno educativo fica totalmente diluída, tanto ao nível da prática como ao nível da formulação teórica.

 

Unidade e Diversidade das Ciências da Educação

Assim sendo, podemos falar numa diversidade de Ciências da Educação, que vão da Sociologia à Filosofia. Tal diversidade permite pôr em dúvida a unidade, a autonomia e a especificidade destas Ciências da Educação.

Todas estas disciplinas que, em princípio, não passam de uma parte de uma disciplina mais geral (História da Educação pressupõe a existência prévia da História , a nivel geral) têm, no entanto, em comum, um objectivo muito preciso: o estudo das situações e dos factos em educação.

Por outro lado, um estudo completo do fenómeno educativo deve fazer apelo a todas as disciplinas susceptíveis de apreender este fenómeno em todas as suas dimensões e sob todos os seus aspectos.

É, portanto, em relação ao seu objecto que as Ciências da Educação vão encontrar o seu princípio de reagrupamento numa família de contornos bem definidos.

Torna-se, neste ponto, relevante a apresentação resumida de uma clarificação sobre o enquadramento multidisciplinar do objecto educativo. Assim, por pluridisciplinaridade externa (segundo Mialaret), ou multidisciplinaridade (como defende Adalberto Dias de Carvalho) entende-se o conjunto dos contributos das várias disciplinas no âmbito de uma pesquisa determinada, tratando-se de uma colaboração extremamente localizada e de alcance limitado: os métodos e os objectos particulares das disciplinas implicadas conservam-se sem qualquer alteração.

Já no domínio da interdisciplinaridade existe uma coordenação mais acentuada de carácter contínuo, entre os vários investigadores envolvidos num determinado projecto. Como consequência, torna-se necessário proceder a adaptações nos métodos das várias disciplinas envolvidas, tornando-se o objectivo comum, um sub-objecto para todas elas.

A intradisciplinaridade permite identificar as particularizações de que um objecto de uma determinada ciência é alvo, aquando da sua participação no estudo de um problema específico dando origem a uma sub-disciplina que não chega a deter um objecto ou um método autónomo.

No âmbito da pluridisciplinaridade interna (mais uma vez, segundo Mialaret), ou da transdisciplinaridade (no léxico de Adalberto Dias de Carvalho) procura-se já um método comum a todas as disciplinas envolvidas no projecto, que procura satisfazer as exigências de um novo objecto. Realiza-se, afinal, a emergência de uma nova ciência, sem aniquilar as várias constituintes do mosaico funcional que lhe dá origem.

 

Transdisciplinaridade da Ciência da Educação (o papel fundamental das ciências de reflexão)

A transdisciplinaridade da Ciência da Educação consagra a unidade multidimensional de uma construção praxiológica que, através de distintas abordagens científicas e filosóficas, visa a constituição e a prossecução de objectos educativos.

Esta transdisciplinaridade característica da Ciência da Educação abre perspectivas de resolução para os impasses que têm assaltado a problemática geral das relações entre a filosofia e as ciências.

Não podemos perder de vista o facto de que o carácter multifacetado do objecto "educação" põe de parte qualquer absorção de pendor reducionista, conduzindo a uma indagação científica multidimensional.

À Filosofia da Educação cabe, deste modo, um papel de importância tridimensional: em primeiro lugar, deverá pesquisar incessantemente o sentido dos conceitos de Homem e de sociedade veiculados pelas diferentes correntes pedagógicas, impulsionando, desde logo, a reformulação crítica e, eventualmente, a superação dos mesmos.

Por outro lado, deve a Filosofia da Educação contribuir para a não ideologização geral da investigação científica e para a passagem das filosofias implícitas para a área das filosofias explicitas, ou seja, para a área das filosofias que, conscientemente, apostam na prossecução de um determinado conjunto de valores e de uma determinada visão do mundo, com uma maior independência possível em relação à ideologia política.

Finalmente, cabe à Filosofia da Educação assegurar a dialética sujeito-objecto assumida pelos vários sectores da investigação científica contemporânea. Aliás, o carácter antropológico e epistemológico da Filosofia da Educação é originário dessa mesma dialéctica, ao mesmo tempo que a implementa, no âmbito do movimento da investigação-acção.

Será bom nunca esquecer que a Ciência da Educação não pode estar ao serviço apenas de uma certa e determinada visão do mundo que lhe atrofie o seu objecto de estudo: os investigadores da Ciência da Educação deverão procurar sempre racionalizar o paradigma, colocando-se em posição de constante abertura relativamente à introdução de novos paradigmas.

A Ciência da Educação privilegiará, desta forma, o confronto entre paradigmas, sendo a unanimidade sobre o conceito de educação impossível de se concretizar, sem o recurso às ideologias filosóficas e científicas aliadas a ideologias políticas e éticas.

¾ ¾ ¾

* Licenciado em Estudos Portugueses na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra

 

Bibliografia:

Carvalho, Adalberto Dias de ¾ Epistemologia Das Ciências Da Educação; Edições Afrontamento; 2ª edição; 1988

Mialaret, Gaston ¾ As Ciências Da Educação; Moraes Editores; 2ª edição; 1980

Santos, Boaventura de Sousa ¾ Introdução A Uma Ciência Pós-Moderna; Edições Afrontamento; 2ª edição; 1989

SUMÁRIO