"MAIS VALE MORRER CEDO, DE PÉ, DO QUE VIVER ATÉ TARDE, DE JOELHOS!"

 

Pensando no mito de Che (Ernesto Guevara de la Cerna) e na ilusão do Homem Novo.

 

LUIS CALHEIROS *

 

Reconheça-se no revolucionário radical a exigência ética, o espírito inquieto, inconformista, romântico; a determinação heróica, a frontalidade baseada nos princípios edificantes, nos valores solidários, no "evangelho" humanista; a íntegra coerência de atitudes na luta pelos seus ideais; o desprendimento do poder (e do conforto e bens materiais) na linha de uma genealogia do despojamento começada com Confúcio, Lao Tze, Buda, Sócrates, Diógenes e IHS Christo, e continuada com o "Povorello", Frncº de Assis; ou ainda com o seu contemporâneo Mohamadas Mahatma Gandhi.

Reconheça-se ainda, e sobretudo, a corajosa e destemida, desassombrada, luta pela "fé prática" na renovação ética da Humanidade. No "mudar a vida" para "transformar o mundo" (Jean-Arthur Rimbaud & Karl Marx).

Reconheça-se o seu voluntarismo generoso, extremado, o exaltante espírito de missão libertária, inspirado na Revolução Francesa e no desafio de Voltaire: "Será que deixaremos este mundo tolo e mau tal qual era quando cá entrámos?".

Reconheça-se a grandeza do Homem...

Mas, porém, não esqueçamos as sombras!

Conheça-se também a crueldade intolerante e implacável da sua efémera passagem pelo poder na Cuba "livre" - o primeiro e principal responsável por La Cabaña, fortaleza militar onde decorreram os primeiros julgamentos sumários e as primeiras execuções implacáveis na revolucionária ilha do Caribe (cerca de cinquenta alegados "contra-revolucionários").

Ou o Ministro da Indústria e o Administrador do Banco Central de Cuba, que concebeu e praticou um dos mais severos sistemas económicos de centralização e estatismo totalitários.

Conheça-se ainda a cega intolerância do criador de Guanacahabiles, campo de trabalhos forçados e de "lavagem ao cérebro", em tudo semelhante, nos métodos e função, ao Gulag soviético.

Valem estes factos como sombras para escurecer fatalmente a "aura" de santo/herói (semi-deus) da sua lenda - o Santo Ernesto de La Higuera? Não! (Ou talvez um pouco!).

De qualquer modo, o mais importante é compreender que o fervor revolucionário de Che Guevara tem como corolário inevitável o totalitarismo e a intolerância dogmática, a perversidade brutal e desumana, cruel, da "Ditadura Popular". Mesmo que ele não o previsse, no seu idealismo e boa-fé.

Não deve, nunca, em caso algum, haver ditadura; nem a das maiorias desprezadas, dos excluídos, dos espoliados, dos deserdados, dos sem-terra, dos "descamisados", dos sans-cullottes, dos patuleias, do Povo, dos miseráveis, do "Proletariado" (por interposta vanguarda de déspotas esclarecidos, assumidamente populistas, mas pseudo-democráticos).

Não deve haver, nunca, ditaduras, pela razão imperativa, ético-política de os fins (por melhor que sejam os seus ideais edificantes) não justificarem jamais, todos e quaisquer meios (sobretudo os mais bárbaros e desumanos, mais iníquos!).

O mais importante é, pois, compreender inteiramente que o ideal do "Comandante" - a criação do "Homem-Novo" - é a matriz fatal de todos os males políticos da sociedade concentracionária, baseada na tirania absoluta do colectivo sobre os direitos mais elementares do individual.

Porque construir dos caboucos uma sociedade "perfeita", tendo por base o objectivo de modificar radicalmente a natureza humana por via da acção voluntarista coerciva, autoritária e desumana do querer colectivo do Estado (ainda que por iludido e cego proselitismo), é abrir o caminho mais bárbaro à violentação grosseira, primária e cega, dos homens reais, que sofrem esse jugo real na sua própria e única vida, real.

A redenção dos homens numa solidariedade jubilante não pode ser feita, em fase alegadamente temporária, contra os direitos humanos (direitos dos homens enquanto seres individuais, na sua condição existencial; que são direitos de recorte natural e não dependem de circunstância temporal ou geográfica), no quadro de um período de uma violência política incontrolada, executada pelo arbítrio irresponsável do Estado, que não respeita a Lei Natural e a Justiça, ironicamente de maneira oposta, mas igualmente grotesca de desumanidade, das anteriores odiosas ditaduras derrotadas.

A "reeducação" pretendida nunca pode resultar da violência coerciva do desumano despotismo da "vanguarda", cruzada com todas as perversidades hierárquicas e as arbitrariedades mais impunes e desejáveis.

Dirá o povo: Quem nos protege dos nossos "protectores"? Quem nos salva dos nossos "salvadores"? Quem nos liberta dos nossos "libertadores"?

Porque o poder que trazem todos os revolucionários "libertadores" é prepotente, arbitrário, discricionário e brutal, a suscitar severas reservas democráticas e libertárias.

As revoluções "puras e duras" têm sido sempre geradoras dos mais terríveis genocídios, das mais insuportáveis crueldades, executados em nome das mais puras e exaltantes causas, sem concessões, sem contemplações, sem tolerâncias piedosas, sem clemência generosa, sem humana compaixão.

Che não foi o "Grande Irmão", timoneiro férreo e vil genocista, porque não teve tempo, era instável pela asma, e não juntou exército ganhador. "As massas ainda não estavam preparadas para a luta de classes"!

Essa é a sua tragédia absurda - morrer por estar antes (e fora) do seu próprio tempo!

Apesar da sua vontade determinada, "el Che" não quis cavalgar o cavalo do poder. Não pôs o poder (duro e absoluto) no centro do seu projecto político, como o fizeram Mao, Ho-Chi-Minh, Fidel ou Lenine (e Estaline), ou muito antes Robespierre.

Não teve oportunidade de ter, de modo duradouro, o seu período de "terror de estado". Che não foi até às últimas consequências da doutrina que pregava, e pela qual lutava com coerência (mesmo se iludido na sua mansamente perversa ideia de emancipação), e por isso caminhou de derrota em derrota até à "porta mitológica" da perenidade imorredoura.

O destino da sua aventurosa vida não fez dele, felizmente, um cinzento e burocrático ditador de um poder desumano e cruel.

Na Bolívia, onde decorreram os seus derradeiros combates internacionalistas, e onde foi morto cobardemente, mas intocado na sua dignidade de herói mítico, não conseguiu recrutar um só dos camponeses miseráveis que se propôs libertar. Suprema ironia! Os camponeses não quiseram receber a generosa oferta do "guerrilheiro das utopias". Na sua sabedoria ancestral, tiveram receio da liberdade "doada" pelos libertadores esclarecidos, "iluminados". O mesmo já tinha acontecido no Congo, de modo igualmente patético!

O destino da História, na sua imprevisibilidade sensata, não quis ver o Che levar até ao fim, até à fatal desilusão e desencanto do dia "dois" da Revolução, da ressaca amarga da véspera eufórica da liberdade, o desengano da fé prática na redenção humana, feita "irmandade" impossível, e por isso nasceu o mito - um cordeiro sacrificado (tal redentor justiceiro), morto no ponto mais alto da sua dignidade de romântico libertário - o perdedor das causas justas.

Ficou a sua imagem mitológica, de edificante exemplo - um romântico obstinado que não envelheceu, que não se degradou pelo declínio da velhice nem pelo abandono dos princípios.

Um perdedor que, paradoxalmente, ganha mais e mais consciências para a razão da sua causa perdida. Tal como numa tragédia grega - a compaixão, misto de temor e piedade, que nos irmana com o herói derrotado e com as suas exaltantes causas e ideais.

A causa de Che pode descrever-se como a reivindicação radical do direito à indignação, como uma obstinada revolta ética, de confronto edificante e de imperativa necessidade ética, contra a iniquidade real do mundo, das sociedades estabelecidas, cruéis na sua injustiça, na sua desigualdade gritante, na sua submissão a poderes discricionários e a comportamentos venais, por meio de uma desejada mas nunca cumprida "revolução feita com ternura, num tempo amadurecido para tal".

Uma irmandade fraterna e solidária conseguida por meios pacíficos, não violentos, de desobediência civil, ... que é mais próxima dos ensinamentos e sobretudo do exemplo de Christo ou de Gandhi, ambos como ele assassinados.

"El Hombre" não é, então, o puro herói/santo que está exaltado por trás da sua lenda, a sua imagem efabulada e tornada imaculada pela beleza romântica eternizada na perenidade do instante - o ícone que é a foto de Alberto Korda -, e pela morte digna, despojada e engrandecida, na sua jovem maturidade de trinta e nove anos.

"Os heróis são levados cedo para o seio dos deuses por quem são mais amados", diziam os clássicos latinos.

Disse também premonitoriamente James Dean, outro ícone juvenil, ceifada a sua vida precocemente: "Viver depressa, morrer cedo e deixar um cadáver bonito de se ver".

Che morto parece um Christo sereno (a foto dos matadores bolivianos é um ícone em tudo semelhante à pintura de Christo morto de Mantegna).

Che morreu cedo, para renascer, mais perfeito ainda, porque esquecida a sua violência, no nosso imaginário cada vez mais deserto de personagens exemplares, edificantes.

Apesar dos equívocos e de algum desencanto, nascidos da consciência lúcida de que não há guerras justas, guerras santas, e que justa e santa é apenas só e unicamente a paz, a paz feita encontro jubilante entre homens irmanados na boa vontade e no autêntico desejo de harmonia que promova uma verdadeira, porque inteira, igualdade na diferença. Como o confirma eloquentemente Boaventura de Sousa Santos: "temos o direito de ser iguais, quando a diferença nos inferioriza; e a ser diferentes quando a igualdade nos descaracteriza". Todos diferentes, mas todos iguais! E iguais nas oportunidades e na dignidade!

Apesar de todos os desencantos pela violência, porém não gratuita(!), do guerrilheiro das utopias, (um Christo armado, de metralhadora nas mãos) viva contudo na nossa memória o "Comandante", e o seu exaltante exemplo de doação à sua causa... até ao despojamento derradeiro da morte com "hombridad", da entrega generosa da própria vida!

Hasta siempre, comandante!

1997, 30 anos depois da morte de Ernesto Guevara de la Cerna.

 

ALGUMAS BIOGRAFIAS DO CHE, E OUTROS TEXTOS

BIBLIOGRAFIA

 

ALLPORT, David, Che Guevara. Da Cuba al Terzo Mondo. La Prima Autentica Biografia del "Che", Ed. Mondari, 1968. (nota: David Allport foi o pseudónimo do diplomata e escritor José Fernandes Fafe).

ALEGRE, Manuel, Che, Ed. Caminho, Lxª, 1997.

ANDERSON, Yon Lee, Che Guevara - A Revolutionary Life. Ed. Grove Press, London, 1997.

CASTAÑEDA, Jorge G., La Vida en Rojo - Uma Biografia del Che Guevara, Ed. Alfagara, Cuba, 1997.

ERNESTO "CHE" GUEVARA, Hasta Siempre - Obras escolhidas, Ed. Hugin, Lx.ª, 1997.

FERNANDES FAFE, José, Ernesto "Che" Guevara - o Homem do Século XIX ou do Século XXI?, Ed. Dividendo, Lx.ª, 1997.

KALFON, Pierre, "Che" - Ernesto Guevara, uma Lenda do Século, Ed. Terramar, Lx.ª, 1997.

LOVINY, Christophe, Che. A Fotobiografia, Editora Livros do Brasil, Lx.ª, 1997.

TAIBO II, Paco Ignácio, Ernesto Guevara, También Conocido Como el Che, Ed. Planeta, Madrid, 1997.

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* Pintor, Professor e Investigador de Teoria da Arte

SUMÁRIO