PALESTINA PALESTINA

 

VASCO OLIVEIRA E CUNHA*

 

 

A minha memória da Palestina vem do fundo da História, vagas sucessivas e alterosas de multidões famintas fugindo da opressão escravizadora do latifúndio real da úbere Mesopotâmia varrendo as areias do deserto e das dunas mediterrânicas; arameus mestiçando-se com cananeus sedentários; hebreus, cumprindo a ordem dada a Moisés na planície de Moab, junto ao Jordão, exterminando as gentes de Canaan, destruindo padrões, reduzindo estátuas a pó, devastando "todos os lugares altos, purificando a terra" porque o Senhor lha dera "em possessão" (Nm XXXIII), Jeová responsabilizado pela pilhagem, pelo massacre e pelos escombros da Jericó "de trágicos destinos" e de tantos outros lugares, justificação torpe de pecados sem conto, raiz de um império que David ergueu do Eufrates ao Nilo catorze gerações depois de Abraão, sabiamente conduzido por Salomão, seu filho, o Templo magnífico no monte Moriá numa Jerusalém capital de esplendor, definhando depois em lutas fratricidas e submergido pelo poder assírio vindo de Acad, terra de conquistadores semitas, e pela força da Babilónia comerciante e legista, o povo judeu exilado e reexilado regressando do cativeiro para de novo ser submetido por persas, por Alexandre, o Templo paganizado, por romanos de Pompeu, invasores todos de outras latitudes e longitudes, o colaboracionismo sempre pronto de déspotas locais; Herodes coroado rei mas obedecendo à autoridade de Roma, o tempo em que Jesus Cristo nasceu em Belém, vinte e oito gerações depois de David (Mt I, 1-27).

Com o Nazareno nasceu a esperança nas ondulações suaves de Cafarnaum, à beira mar, nos confins de Zabulão da Galileia, no Tiberíades, na planura e na montanha, a palavra suspensa na mão erguida para o céu, fruto maduro de cores densas à espera de ser colhido, o perfume das ideias acariciando a pele das gentes e escorrendo pelas colinas fundindo-se com o odor forte da terra nua, dos bosques de robles e das searas de cevada e de trigo, "em verdade vos digo" que o céu de que Cristo falava era a terra palestina, cadinho de gerações mil, espaço sem sombra de opressão, liberto de pensamentos antigos, a fraternidade fraterna, base material dos direitos de todos os homens e de todas as mulheres do mundo.

Os fariseus que "limpam por fora o copo e o prato quando, por dentro, estão cheios de rapina e de cobiça" (Mt XXIII, 25), e os escribas, "que gostam de passear com vestidos roçagantes", que "cobiçam os primeiros lugares nos banquetes e as primeiras cadeiras nas sinagogas" e que "devoram as casas das viúvas, sob pretexto de longas orações" (Mt XXIII, 6 e 14), conjurados com os vendilhões e os cambistas do Templo e com todas as mentes sem mente paridas da miséria, julgaram e condenaram o perigo das ideias de Cristo, flagelando, injuriando, esbofeteando, escarrando, calvário ignóbil até ao Gólgota de Jerusalém, o corpo crucificado, ilusão ensandecida da redução do pensamento a pó e a nada, o sonho de Jesus adiado na sua própria pátria pelo seu próprio povo, não permitindo os judeus que o amanhã fosse um dia diferente dos que antes dele passaram no tempo, o sol deixando de girar em volta da terra da "púrpura roxa".

Massacrados pelo ocupante romano, só uma minoria reduzida de judeus permaneceu na Palestina, dispersando-se os que restaram pelo Mediterrâneo, ramificando-se depois pela Europa e pelos outros continentes.

Na Palestina, misturando religião e estado, a gendarmerie dos poderosos, fariseus de múltiplas origens "que pagam os dízimos da hortelã, do endro e dos cominhos" e deixam "o que é de maior importância na Lei - a justiça, a misericórdia e a fidelidade" (Mc XXIII, x23), pasta e repasta depois que Roma, enfraquecida, se dobrou ao poder bárbaro. Vieram Bizâncio e a yihad islâmica, o abássida e a saria, "a lei verdadeira", os grandes Seldjúcidas e a sua sunni, os cruzados da Europa cristã do românico, do gótico e das universidades, o turco otomano, o sabre sempre pronto a decepar, a matar.

No nosso século, os poderosos do mundo garantiram a presença permanente da injustiça, da insegurança, da guerra e da pobreza na Palestina: os britânicos, oferecendo um país que não era seu aos sionistas que nele nunca tinham vivido, milhares de judeus que a Europa não queria nas suas cidades e nos seus campos invadindo cada ano a terra palestiniana, cada palmo ocupado reduzindo a horta, a seara e a liberdade, a Palestina transformada em guardiã do petróleo da Mesopotâmia e da Arábia e do império das Índias; as Nações Unidas, legitimando uma partilha nunca respeitada pelos judeus, insulto à inteligência, campos de refugiados para os palestinianos erguidos na terra que os viu nascer, bordejados de arame farpado, a voz dos filhos e dos pais só podendo chegar trazida pelo vento, o mundo há mais de trinta anos esperando que a alta instância criada pelos homens e pelas mulheres faça cumprir as suas próprias decisões; outros, "quijotes" dos tempos modernos e que Cervantes não criou, cavalgando tanques alados vomitadores de morte, alimentando uma concepção perigosa da justiça, pesos e medidas de mercadores desonestos, balança desequilibrada, retórica inconsistente de labiais, dentais e guturais argamassadas com vogais rotundas, bafo quente e apodrecido lançado ao vento e logo se dissipando a que chamam "direitos humanos", a concepção de vida do Nazareno profundamente ferida.

Quando o ouro negro deixar de correr, os cavaleiros andantes do mundo vão por certo descobrir outras palestinas para oferecer e para dividir. Naquela de que a minha memória vos fala, os palestinianos e os judeus, sem a presença de estranhos, vão ter de encontrar juntos o caminho para a paz e para a justiça.

 

* Professor-Coordenador da ESEV

 

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