"CONHECE-TE A TI MESMO "

 

A dimensão da pessoalidade como percurso pedagógico

 

VITOR MANUEL TAVARES MARTINS*

 

A prática pedagógica centrada na pessoa do aluno em vez de na sapiência do professor foi designada por Antoine de Peretti como "inversão copérnica escolar". Hoje em dia pensa-se que esta "revolução" estará consumada, pelo menos teoricamente.

Esta renovada forma de perspectivar a prática pedagógica decorre de vários condicionalismos sociais, políticos, culturais e económicos do nosso tempo. E é neste nosso tempo que, à luz de semelhante alteração pedagógico-educativa, ganha renovado sentido a velha máxima socrática "conhece-te a ti mesmo". As implicações decorrentes desta máxima no acto educativo são claras: se eu quiser que os meus alunos se tornem verdadeiros aprendizes e sujeitos activos do/no acto pedagógico e do saber, tenho que me tornar num facilitador das suas aprendizagens. Ora para desempenhar esse papel de forma bem consciente, não posso deixar de ter aprendido claramente as motivações, formas, processos e resultados das minhas próprias aprendizagens. Só este caminho de mim até mim possibilita, depois, o caminho de mim até aos outros. O diálogo interpessoal de mim com os outros - no nosso caso, com os alunos - vai implicar que todo o trabalho que se vai projectando respeite a construção da pessoalidade e da identidade próprias, minha e dos alunos. Acima de tudo, o professor assumirá o compromisso de acompanhar a evolução pessoal e o projecto de vida dos alunos. Nesta perspectiva, ensinar consiste em aprender a conhecer quem é, o que necessita, o outro. Desta forma, o professor institui-se como aprendiz, de si e do outro, de si para o outro.

O domínio de tal competência - que é complexa e vasta, pois abrange diversas dimensões, como a pessoal e a crítica - obriga o professor a repensar a sua prática pedagógica e os conteúdos e estratégias a ter em conta e, ao mesmo tempo, constitui um movimentado processo de desenvolvimento de outras dimensões do seu percurso pedagógico, como sejam a clínica e a técnica. O caminho a seguir não será "encontrar as estratégias adequadas para transmitir conteúdos, mas os conteúdos adequados para concretizar estratégias de desenvolvimento individual" (MALIK, 1996). E será assim que cada um se fará Pessoa.

 

Nota de opinião escrita a partir de:

MALIK, Leonor (1996). "Saber" aprender para "saber" ensinar. De um percurso biográfico a um percurso pedagógico. In O Professor (1996), nš.51, III Série, Lisboa, Editorial Caminho.

 

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* Professor efectivo da Escola Básica 2,3 de Valongo do Vouga - Águeda

SUMÁRIO