FINALIDADE TEÍSTICA E HUMANISMO NO PRIMITIVO IDEAL PEDAGÓGICO JESUÍTICO.

 

MIGUEL CORRÊA MONTEIRO *

 

O ideal pedagógico dos primeiros Jesuítas reflecte o estilo próprio de Inácio de Loiola, o fervor religioso que coloca Deus como figura central das suas propostas educativas e as dificuldades da sua própria aprendizagem.

A dimensão mística da Acção, dirigida para o serviço dos homens numa missão salvadora, é uma «mística de apostolado», patente não só no livro dos Exercícios Espirituais, no Diário Espiritual e nas Constituições da Companhia de Jesus, mas também nas diversas «ordenações de estudos» anteriores ao texto oficial e definitivo da Ratio Studiorum, fontes documentais importantes para a caracterização do ideal pedagógico dos jesuítas primitivos.

Pensamos que uma breve reflexão sobre a vida de Inácio de Loiola é necessária para conjugarmos o perfil do homem com a sua obra e para percebermos a sua caminhada espiritual.1

Nascido em 1491 no solar da sua família, os Loiola, no País Basco, Inácio como fidalgo que era, foi educado na corte. Na sua autobiografia, os primeiros vinte e seis anos da sua vida são resumidos por ele mesmo deste modo: «fue hombre dado a las vanidades del mundo, y principalmente se deleitaba en el ejercicio de armas, con un grande y vano deseo de ganar honra.»2

E foi desejoso de ganhar honra e fama que Inácio correu a participar na defesa da cidade fronteiriça de Pamplona, atacada pelos franceses, em Maio de 1521. Em luta travada durante o cerco, foi atingido por um tiro que lhe partiu uma perna e feriu com gravidade a outra. Tratado pelos franceses, foi enviado por eles a Loiola onde teve que passar por uma dolorosa convalescença.

Homem da sua época, Inácio pediu livros de cavalaria para passar o tempo da imobilização forçada, mas os únicos que havia em casa eram: um sobre a Vida de los Santos (Flos Sanctorum de Tiago de Voragine) e outro sobre a Vida de Cristo (Vita Christi) de Ludolfo de Saxónia.

Ou por influência das leituras feitas, ou por deixar desenvolver em si algum anterior desejo de honra e fama mudou. Homem do século XVI, mas certamente comungando ainda uma forte mentalidade medieval ( a que determina que se assista com o mesmo fervor ao sermão de um pregador ou ao martírio de um herege ( Inácio de Loiola trocou as honras do mundo pelo serviço de Deus. Agora era o desejo de entrega, purificado pela promessa de peregrinação a Jerusalém, que o movia.

Assim, Inácio de Loiola já não era o mesmo homem quando, terminada a convalescença, iniciou a sua viagem a Jerusalém, dez meses passados sobre o seu ferimento. Inácio tinha aprendido que aos homens não bastavam os feitos de cavalaria; de resto, a ironia de um projéctil de artilharia ferindo-o, como que lhe manifesta que o tempo é outro. É tempo de ser Homem e acreditar no Homem, ainda que buscando para isso a força de Deus. E esta viragem é também visível em Inácio ( ele avançará ao serviço do Homem integral. E, no entanto, a sua mentalidade aparece, muitas vezes, imbuida de sintomas medievais ( e não o dizemos numa perspectiva degradante do termo, mas sim no seu conceito valorativo, isto é, duma sociedade cristã por excelência onde é preciso identificar os homens com Deus.

De facto, na época dos grandes descobrimentos, na época das afirmações de poder, na época da força régia visível nos exércitos assalariados, numa época em que, enfim se assiste ao desenvolvimento de algumas das formas de capitalismo, Inácio de Loiola inicia uma caminhada de santificação à maneira de Francisco de Assis, sem dúvida o homem que mais marcou a fase final da Idade Média. Mas ainda com S. Bernardo poderíamos traçar um paralelo: é o deixar tudo, é a decisão de peregrinação, os castigos corporais, as duras penitências, mesmo a mendicidade; mas é mais que isso, o grito da denúncia e a vontade de mudança, tudo curiosamente misturado com a imposição da velada de armas ( característica intrinsecamente medieval.

Acompanharemos agora a peregrinação de Inácio de Loiola: fez a sua primeira paragem no Santuário de Nossa Senhora das Vascongadas, partindo seguidamente para a Catalunha onde, no mosteiro de Monserrate, a 24 de Março de 1522, ofereceu à Virgem as suas armas (espada e punhal), «delante el altar de Nuestra Señora de Monserrate, adonde tenía determinado dejar sus vestidos y vestirse las armas de Cristo.»3 É um despojamento à maneira de S. Francisco de Assis, é um compromisso solene com Deus por intermédio de Nossa Senhora. É o símbolo da troca das armas da guerra pelas armas da fé.

Em Monserrate, abadia beneditina reformada pelo abade tio do Cardeal Cisneros, Garcia Jiménez de Cisneros, Inácio é influenciado pela devotio moderna, corrente espiritual que animava a Europa no século XVI. Tratou-se de uma abertura espiritual para fora do claustro, mas que mantinha dentro uma grande exigência na prática religiosa.

Esta devoção não era contra a aplicação da inteligência na experiência espiritual individual, nem contra a prática da leitura e da escrita personalizadas. Foi publicada como prática de espiritualidade monástica no livro de García de Cisneros Ejercitatorio de la Vida Espiritual e não se destinava apenas à leitura dos monges. O Ejercitatorio serviu para Inácio estruturar melhor as suas próprias anotações iniciadas em Loiola, sobre a vida de Cristo e dos santos, e que viriam a dar origem aos Exercícios Espirituais a que nos referiremos mais adiante.

Partiu seguidamente para a cidade de Manresa, onde permaneceu quase um ano, vivendo de esmolas e vestindo como um mendigo. Em Manresa Inácio passava quase todo o tempo em oração, lutando entre os desejos mundanos que o atormentavam e o impulso de fé que o aproximava de Deus. Em Monserrate encontrara Inácio a tradição monástica Beneditina, a influência da espiritualidade afectiva e metódica Franciscana e a tradição pedagógica da devotio moderna. A tradição Dominicana no compromisso da inteligência e na dimensão intelectual da experiência espiritual, recebia-a ele agora no convento dominicano de Manresa.4

Foi aqui que Inácio de Loiola aprendeu a responder a Deus utilizando a sua liberdade como pessoa e a medir as consequências da sua resposta. Em Manresa passou de peregrino a apóstolo e este sentido de vocação influenciou toda a acção posterior da Companhia de Jesus. Por conseguinte, pensamos que são acertadas as palavras do Professor Padre Miguel Bertrán-Quera S. J., quando defende que: «la primacía del objetivo espiritual-religioso en la pedagogía de los jesuitas, no es más que la expresión inequívoca del sentir y pensar de su proprio fundador. Um objetivo espiritual concretado y personalizado en la figura histórica de Jesu Cristo, al que el maestro y el discípulo siguen y sirven por amor a su persona, a su programa y a su vida. Y todo ello por la vía del conocimiento experiencial y del diálogo o comunicación educativa, entre el maestro divino y los maestros o discípulos humanos.»5

Segundo a sua Autobiografia, foi na margem do rio Cardoner perto da cidade de Manresa, que Inácio recebeu a visão divina que o iluminou, abrindo-lhe «os olhos do entendimento» e dando-lhe a perceber os desígnios de Deus; foi essa visão que o levou no futuro a afirmar que a experiência espiritual de Manresa foi a mais importante e aquela que orientou toda a sua actividade posterior.

As suas experências eram anotadas num pequeno livro, prática a que se habituara desde os tempos em que esteve convalescente no solar familiar. Sendo no início notas puramente pessoais, foram transformadas e acrescentadas para possibilitarem a outros a descoberta de Deus tal como lhe tinha sucedido. Assim, com o tempo, as notas foram estruturadas de tal modo que serviram de base a um livro chamado Exercícios Espirituais, que não é um simples livro de leitura, mas um guia para uma experiência espiritual, um compromisso assumido em total liberdade por aqueles que os praticam.

Produto da sua própria vivência, das horas passadas em oração (cerca de sete horas diárias) e das duras penitências auto-impostas, os Exercícios Espirituais foram tendo sucessivas redacções ao longo da sua vida e o seu título expressa bem a finalidade com que foi escrito: «Exercícios Espirituais para se vencer a pessoa a si mesma e ordenar a sua vida sem se determinar por afeição alguma desordenada».

Para Bertrán-Quera, o livro dos Exercícios Espirituais, é testemunho da experiência ascética e mística de Loiola, e do diálogo entre Deus e o homem. «Sin tener en cuenta este magisterio divino, continuado y fundamental en la vida de Ignacio, no es posible comprender la íntima y profunda convicción teística de todas sus actividades y obras, singularmente la fundación de la Compañía de Jesús y dentro de ella la de los colegios o formación de la juventud». 6

Inácio de Loiola partiu de Manresa em Fevereiro de 1523, para prosseguir a sua longa caminhada até Jerusalém. Foram imensas as dificuldades que encontrou, pois sobrevivia com esmolas que lhe davam e que mesmo assim repartia com outros. Esteve cerca de mês e meio na Palestina, mas não lhe foi permitido permanecer em Jerusalém devido ao clima de insegurança em que se vivia, aceitando o seu destino com resignação, como se pode ver na Autobiografía : «Después que el dicho peregrino entendió que era voluntad de Dios que no estuviese en Jerusalén, siempre vino consigo pensando qué haría, y al final se inclinaba más a estudiar algún tiempo para poder ayudar a las ánimas, y se determinaba ir a Barcelona». 7

Mas não menos fundamental que a sua peregrinação, foi a sua opção pelo estudo; esta foi uma decisão extraordinária. Aceitar aprofundar matérias aos 30 anos não era fácil, mas entra ainda na perspectiva da caminhada assumida. Não será a fé esclarecida a mais responsável? Estudando com jovens alunos, Inácio terminou a sua formação elementar como latinista em Barcelona no ano de 1526. Foi em seguida frequentar em Alcalá o curso de Filosofia, exercitando-se na orientação de Exercícios Espirituais. Tendo escrito o seu livro para aquele que dá os exercícios e não propriamente para o que os realiza, Inácio pretende que o conteúdo do livro seja adaptado em função da necessidade individual. Há, assim, uma restauração da tradição oral no meio do mundo da escrita, estabelecendo-se uma sólida relação mestre-discípulo. 8

Os Exercícios Espirituais são em si mesmos uma pedagogia, uma autêntica escola de decisões livres e de oração. Os Exercícios refletem a espiritualidade inaciana e são ainda hoje importantes na actualização do mistério de Cristo nas suas diversas etapas. São uma pedagogia activa, fonte de mudança e de crescimento espiritual e por isso adequados ao homem «contemplativo na acção».9 Os Exercícios Espirituais irão servir a pedagogia dos futuros Colégios de Jesuítas. Existe uma interacção estreita que é mesmo anterior à fundação da Companhia de Jesus, uma vez que o modus parisiensis aproveitado e desenvolvido pelos jesuítas está em sintonia com a forte influência da devotio moderna na elaboração dos Exercícios. Inácio de Loiola dava os seus Exercícios em Alcalá, verificando com surpresa que as sua «conversas familiares» e catequese davam bons resultados. «En Alcalá se ejercitaba en dar ejercicios espirituales y en declarar la doctrina cristiana: y con esto se hacá fruto, a gloria de Dios. Y muchas personas hubo que vinieron en harta noticia y gusto de cosas espirituales». 10

No entanto, a Inquisição ( em plena actividade na época ( estava atenta e não aceitou que Inácio e outros companheiros ensinassem a doutrina cristã sem a necessária habilitação teológica. A sua insistência chegou a valer-lhe a prisão. Partiu então para Salamanca em Julho de 1527; mas também aí seria preso, acusado de ensinar doutrina. Decidiu-se então partir para frequentar a Universidade de Paris, deixando a Espanha em 1528.

Em Barcelona, Alcalá e Salamanca Inácio reunira já alguns companheiros que o acompanharam durante um certo tempo, mas foi na Universidade de Paris que se formou o grupo a que chamou de «amigos do Senhor». O ideal espiritual de Inácio de Loiola, o seu carisma pessoal e os Exercícios Espirituais atraíram os seus companheiros de quarto Pedro Fabro e Francisco Xavier. Em breve outros se lhe juntaram constituindo-se assim um pequeno núcleo de sete homens dispostos a consagrar as suas vidas a Deus, o que aconteceu em 1534 num mosteiro em Montmartre, durante a missa celebrada por Pedro Fabro, que na altura era o único sacerdote. Os restantes foram ordenados em Veneza.

O seu desejo de servir a Igreja, levou o grupo dos «amigos do Senhor» a partir para Roma, onde se colocou ao serviço do Papa. A caminho desta cidade, no povoado de La Storta, Inácio teve uma nova experiência espiritual, quando se encontrava em oração numa capela, juntamente com os companheiros. «(...) sintió tal mutación en su alma y vio tan claramente que Dios Padre le ponía con Cristo su Hijo, que no tendría ánimo para dudar de esto, sino que Dios Padre le ponía con su Hijo». 11 E daqui partiu a conversão do grupo nos Companheiros de Jesus. Os "peregrinos" estavam prontos para aceitar os sacrifícios da Igreja na sua missão redentora, porque viam «Deus em todas as coisas» como dizia de si o próprio Inácio de loiola, e a ser «contemplativos na acção» como afirmava Jerónimo Nadal, um dos seus primeiros companheiros.

Apresentados ao Papa Paulo III em 1539, passaram, a partir de então, a dedicar-se à pregação e à caridade em Roma. No entanto, a sua disponibilidade trazia ao grupo um problema sério: a dispersão. Combinaram, por isso, que deviam continuar unidos mesmo que estivessem dispersos, fazendo votos de pobreza, castidade e obediência ao Papa e a um Superior Geral que seria eleito para toda a vida.

Depois de ultrapassados diversos problemas entre os quais o voto de particular obediência e lealdade ao Papa, a Companhia de Jesus foi formalmente fundada a 27 de Setembro de 1540 através da bula Regimini militantis Ecclesiae. Apesar da sua humilde recusa inicial, Inácio de Loiola foi eleito por unanimidade o seu primeiro Superior Geral.

É interessante verificar que a aprovação da Companhia de Jesus lhes atribuía a responsabilidade da propagação da fé através da palavra e do exemplo, com autorização para a realização de Exercícios Espirituais e para a prática da confissão. A Educação, em termos de ensino, não aparece inicialmente como uma finalidade da Companhia por medo do imobilismo a que a instituição educativa obrigaria os Jesuítas, retirando-lhes a liberdade de movimentos e a disponibilidade para se deslocarem a qualquer lugar onde o Papa os enviasse. De facto, alguns companheiros de Inácio já estavam a desempenhar diversas missões como Francisco Xavier e Simão Rodrigues, que se encontravam ao serviço de D.João III de Portugal.

Se o ensino como ministério apostólico da Companhia de Jesus está em sintonia com o carisma original Inaciano, facto repetidamente afirmado pelas Congregações Gerais, não podemos dizer que esse fosse o pensamento primordial de Inácio de Loiola, que inclusivamente pretendia que todos aqueles que entrassem na Ordem tivessem já formação académica. No entanto, compreendeu rapidamente o alcance e os benefícios da educação, não só para a formação global da pessoa como também para defesa da fé. É que o esclarecimento intelectual conduzia a uma adesão mais consciente aos valores do espírito. Prova disso foram os pedidos para que os estudantes não Jesuítas frequentassem as classes que a Companhia iniciara. Atento a este sintoma surgiu a consciência da necessidade de se caminhar também para a via do ensino.

E uma nova era se abria na Companhia de Jesus. Os Jesuítas não quiseram ficar reduzidos a uma Ordem com critérios de entrada demasiado exigentes, o que a tornaria pouco numerosa e demasiado elitista. Não se tinha pensado inicialmente em tornar os Colégios centros de ensino. Eram locais que, gozando de rendas fixas, davam alojamento e alimentação a estudantes destinados a seguir estudos universitários. É a manutenção da tradição da época e obedece ao sentido formulado nas Constituições.12 Mas a Companhia de Jesus sentiu que era chamada a criar aquilo que não existia praticamente no seu tempo: Colégios que assegurassem todas as condições de vida apropriadas à formação de futuros mestres, com a condição de os mesmos ensinarem posteriormente de uma forma gratuita. Os Colégios tornaram-se a espinha dorsal da Ordem, tendo a Companhia ajudado a sociedade europeia a criar um instrumento de promoção cultural: o ensino gratuito orientado por mestres bem formados. Este facto, ao fazer baixar os níveis de selecção, levava à realização do ideal a que a sociedade medieval aspirou sem nunca o ter conseguido. A Companhia consegue assim, da sociedade, a mobilização dos fundos necessários para estabelecer um ensino orgânico e gratuito e esta obteve a criação de um instrumento social de formação cultural. 13

O aspecto da gratuitidade da educação Jesuítica está de acordo com o pensamento de Inácio de Loiola e da noção de serviço, sobretudo em relação aos pobres que não podiam pagar a instrução. Mas não só. Inácio recomendava na abertura de novos Colégios, que a educação dos Jesuítas devia superar o nível médio da que era oferecida na época, apostando numa formação integral dos alunos, que os distinguisse posteriormente na vida activa como cidadãos íntegros.

No Colégio fundado em Gandia, na Espanha, permitiu-se a entrada de jovens leigos a partir de 1546. No ano seguinte, foi fundado o primeiro Colégio destinado somente a não Jesuítas, em Messina na Sicília. A "máquina" estava em movimento e em 1556, ano da morte de Inácio, funcionavam 35 colégios dos 40 aprovados.

Adaptando o que havia de melhor da tradição pedagógica seguida na Universidade de Paris, a Companhia vai experimentar, durante várias dezenas de anos, métodos de ensino respeitando o ideal do seu fundador. Segundo Carmen Labrador, «La génesis de la pedagogía ignaciana coincide con la etapa de consolidación del Humanismo como movimiento renovador, que desde el siglo XV frutifica en Instituiciones y Pensadores que encarnan los nuevos ideales de vida y de educación. La corriente del Humanismo clásico del Renacimiento significa progreso y renovación de toda la cultura europea. La búsqueda de nuevas experiencias de vida, de nuevas conquistas científicas, de nuevos ideales, producen una orientación diversa y más rica en contrastes en la nueva civilización.Civilización cristiana y civilización pagana que se interpelan entre sí para encontrar al hombre». 14

Numerosos Humanistas eram crentes e influenciaram a busca de uma educação personalizada, com interesses morais e religiosos, conciliadores das tradições clássicas com a visão cristã do Homem. Os valores inspiradores dos movimentos pedagógicos que se baseavam na dignidade do Homem, configuraram o ideal humano do Renascimento. Assim, a imitação dos clássicos foi uma imitação criadora e o recurso à observação e à experiência conferiu aos homens do século XVI um espírito crítico contrário ao dogmatismo medieval, à submissão total do pensamento à revelação. Os Jesuítas compreenderam-no, e a sua pedagogia procurou realizar dentro de um espírito humanista cristão, o compromisso entre o teocentrismo medieval e o cosmocentrismo renascentista, tendo em vista uma educação individualizada com sólidas bases morais e religiosas, na realização plena da característica corrente humanística.

A grande estima de Inácio e dos primeiros Jesuítas pelo Modus Parisiensis tão influente na pedagogia dos Exercícios Espirituais e na pedagogia dos Colégios, advém de um conjunto de factores que devem ser considerados no seu todo, integrando a «ciência e os bons costumes».

O Modus Parisiensis ao situar-se a meio caminho da Idade Média e do Renascimento, estabeleceu a «via intermédia», o compromisso entre a atitude conservadora dos teólogos da Sorbonne e os inovadores ao nível das ciências e das letras. As tentativas de síntese entre as riquezas dos autores modernos e os valores tradicionais dos autores antigos, estavam a ser implementadas no colégio de Santa Bárbara de Paris na época em que Inácio o frequentava. É, no fundo, a integração entre o humanismo e a cultura literária com a cultura teológica ao serviço do homem integral para a realização do seu desígnio sobrenatural. 15

Assim, a acção de Inácio de Loiola consistiu em fundir as tendências do seu tempo no que diz respeito ao movimento de ideias da Renascença e da Reforma, com tudo aquilo que, consciente ou inconscientemente pretendia manter da formação medieval. Segundo Carmen Labrador, «en este contexto se situán las primeras experiencias educativas de los jesuitas. La Compañia de Jesús entró, apenas nacida, en la palestra de la cultura, persuadida de que solamente iluminando al hombre desde sus proprias raíces, se libera su libertad y se le constituye en liberador. Y entró generosamente ofreciendo a los demás el sistema de formación humana, la Ratio Studiorum, encarnado críticamente en cánones renascentistas, que ella se había ideado, y había probado, para sus proprios miembros.» 16

Inácio esteve sempre aberto a ideias diferentes das suas, mas a adaptação que sempre fez quer de elementos pedagógicos da época, quer de elementos espirituais, ficou marcada pelo seu cunho pessoal, criando-se, assim, uma síntese mais rica, que se pode dizer determinada pela sua experiência pessoal.

Os Jesuítas foram fieis ao ideal do seu fundador,«o maior serviço de Deus e bem das almas», e comprenderam com ele e depois dele, que a Ordem podia prestar um serviço relevante à Igreja e aos povos, através do apostolado educacional. O seu êxito foi tão grande que bastou um século para serem apelidados de «Mestres da Europa». Exercendo uma dupla missão que consistiu no reforço das posições papais e na defesa da fé católica frente à influência protestante ( em franco desenvolvimento depois de Lutero ( e ao desafio das seitas heréticas, a Companhia de Jesus contribuiu decisivamente para a formação da juventude na linha das exortações do Concílio de Trento. Essa capacidade e correcção de serviço foi muito bem resumida por Bertrán-Quera: «Ignacio de Loyola pretendía la fusión de un ideal de formación ( fin educativo ( centrado en la invariabilidad, perfectibilidad y libertad del elemento humano objeto de educación. De ahí que su pedagogía aparezca por un extremo ( el de la finalidad teística ( inflexible y radical, mientras que por el otro extremo ( el de los intrumentos humanos ( sea adaptable y dinámico, según sean las diversas circunstancias de personas, lugares y tiempos.» 17

 

* Assistente do Departamento de História da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

1 Utilizaremos nesta abordagem a Autobiografía, um texto que foi ditado por Inácio de Loiola a um dos seus companheiros três anos antes da sua morte e que está publicado em Obras Completas de San Ignacio de Loyola, Biblioteca de Autores Cristianos, Madrid,1963.

2 Autobiografía, n.1.

3 Autobiografía, n.17.

4 Adrien Demoustier, "Valor Pedagogico de Los Ejercicios Espirituales En La Compañia En Los Siglos XVI y XVII", CIS, nº41, 1982, p.14.

5 Miguel Bertrán-Quera, S. J., La Ratio Studiorum de los Jesuitas, UPC, Madrid, 1986, p. 19. (Trad. de A. Diez Escanciano).

6 Bertrán-Quera, op. cit., p.19.

7 Autobiografía, n. 50.

8 Adrien Demoustier, op. cit., p. 18.

9 Cf. Exercícios Espirituais, n.1.

10 Autobiografía, n. 57.

11 Autobiografía, n. 96.

12 Segundo J. Abranches, «Enquanto Santo Inácio e os seus companheiros discutiam se deveriam ou não receber na Companhia jovens não formados, Laynez sugeriu a ideia de colégios que fossem seminários, isto é, residências com rendas fixas onde os escolásticos pudessem viver e ser sustentados enquanto frequentavam as aulas de alguma universidade pública. Era coisa inteiramente nova na vida religiosa receber jovens com votos simples de pobreza, conservando a propriedade dos seus bens mas não o usufruto, até depois da ordenação. Estes colégios ou lares de Escolásticos-estudantes, com rendas fixas resolveriam o problema da pobreza. E por isso foram aprovados pela bula Regimini. Santo Inácio de Loiola, Constituições da Companhia de Jesus, trad. e notas de J. Abranches, Imprimatur, Braga,1975, pp. 126-127.

13 Adrien Demoustier, op. cit., pp. 22-23.

14 Carmen Labrador, "El Sistema Educativo de la Compañía de Jesús. Continuidad y innovación", Lição inaugural do Curso 1987-88, UPC, Madrid, 1987, pp.10-11.

15 Maurizio Costa, "Notas sobre Las Lineas Fundamentales de La Pedagogia de La Compañía de Jesús", CIS, nº55, 1987, pp. 113-114.

16 Carmen Labrador, op. cit., p.11.

17 Miguel Bertrán-Quera, op. cit., pp. 20-21.

SUMÁRIO