LORCA NASCEU HÁ CEM ANOS

VASCO OLIVEIRA E CUNHA*

 

Federico García Lorca foi assassinado em 1936, no alvorecer da Guerra Civil de Espanha, num barranco ermo de Víznar, um pequeno povoado nos arredores de Granada. Nascera ali bem perto, em Fuente Vaqueros, apenas trinta e oito anos antes. O seu corpo nunca foi encontrado.

Poeta dos abismos, do temor à morte, da angústia insondável da vida, uma grande parte da obra que legou à humanidade é um clamor a favor dos humilhados, das vítimas do poder (mouriscos de Granada, ciganos da Andaluzia, perseguidos políticos, negros de New York) e da marginalização social (amantes malditos, noivas e casados infiéis, maridos adúlteros, homossexuais angustiados). Entre tantas outras.

Para Lorca, o fim último da arte é a revelação da realidade profunda, das causas essenciais, não se encontrando a sua origem na musa, que é inteligência, nem no anjo, que é inspiração, muitas vezes inimigo da poesia "porque voa alto sobre a terra, derrama a sua graça, e o homem, sem esforço, realiza a sua obra". Produtos culturais, são ambos exteriores ao fenómeno poético, cuja origem tem de procurar-se no "duende obscuro e estremecido que há em cada um de nós, havendo que despertá-lo nas últimas células do sangue". Poder misterioso que todos sentem e nenhum filósofo explica, o duende descende daquele alegre/triste demónio de Sócrates, "mármore e sal", que o arranhou indignado até ao dia em que bebeu a cicuta; do maquiavélico senhor das profundidades dos grandes abismos cósmicos, expoente último da litania da agitação política e da psicologia das multidões, que em Southwark segredou a Shakespeare toda a estratégia de avanços e de recuos do discurso de Marco António ao povo de Roma, o cadáver mil vezes apunhalado de César a seus pés, metamorfose complexa de falcões em pombas e de pombas em falcões para levar a água ao seu moinho, isto é, para tomar o poder; "do melancólico demoniozito de Descartes, pequeno como uma amêndoa verde", que, farto de círculos e de linhas, saía pelos canais para ouvir cantar os marinheiros destemidos; daquele outro demónio... .

A fidelidade aos princípios sempre colocou Lorca de costas para o poder, e na absurda lógica do mundo ele foi laboratorialmente catalogado como pertencendo à "raça dos acusados". Quem o matou sabia perfeitamente o que fazia. O totalitarismo desconhece a discordância, a diferença, a heterodoxia. Lorca discordava, era diferente, era heterodoxo. Os herdeiros da Inquisição actuaram em consonância, cortando cerce uma voz poderosa e fraterna, uma voz multiforme de verso clássico e de verso livre, de odes, canções e elegias, de farsas, de dramas e de tragédias.

Ainda que de forma apenas simbólica, MILLENIUM associa-se às celebrações do 1. centenário do nascimento do poeta e dramaturgo andaluz. Um texto sobre a Granada de Lorca, dois rios, cinquenta fontes, oitenta campanários, mil arroios, mil e um repuxos e cem mil habitantes, uma cidade carregada de angústias, por onde se passeiam os fantasmas dos palácios vazios de La Alhambra e de Carlos V, perdido o esplendor nazarí, esbanjados o ouro e a prata renascentistas. Uma perspectiva em que as imagens e as palavras que as vestem são, em grande parte, pedidas emprestadas ao grande "multiplicador de formosura", como dele disse um dia Pablo Neruda, seu enorme amigo, e a muitos outros, enfeitiçados pela beleza perene da arte da romã (granada) árabe, do Albayzín e da urbe cristã de Isabel e Fernando, os Católicos, da Sierra Nevada e da veiga rica regada pelo Darro e o Genil. A las cinco de la tarde, verso inicial de La cogida de la muerte, poema primeiro da elegia Llanto por Ignacio Sánchez Mejías (1934), lido por Lorca em público em 12 de Março de 1935 na representação número cem de Yerma, inspira a segunda perspectiva, igualmente breve, da autoria de Manuel José Sá Correia.

(Expresso o meu agradecimento à senhora doutora Maria de Jesus Fonseca pela leitura deste texto e pelas sugestões de natureza filosófica).

SUMÁRIO