OS MIL PERFIS DE GRANADA

VASCO OLIVEIRA E CUNHA*

Vaga remota da grande inundação árabe, as areias do ocidente varridas pelos ventos da tormenta soprando do sul e do nascente, só o vasto oceano impediu Oqba Ben Nasi de oferecer a Alá as longínquas regiões que poderiam esconder-se por detrás das suas ondas. E o Islão, recentemente revelado, não necessitava ainda de branqueamentos colonais, de "purificações ultramarinas".

Na maré alta de oito séculos, estabelecidos os fundamentos do poder, os muçulmanos criaram em Espanha um império sem par na terra cristã e ergueram no sopé da Sierra Nevada, na Colina Roja, ou Cerro de la Sabika, barca altiva e eterna rumando a oeste, a cidadela aristocrática de Madina al Hamra, muralhas altaneiras, fortalezas inexpugnáveis, fronteiras de sensualidade e de opulência, palácios e jardins perfeitos de califas, de sultanas e de odaliscas, convergência de artistas do Norte e dos amantes da poesia e da música do Oriente, assimetria harmoniosa, alternância de luz e de sombras, perspectivas amplas do céu, da serra e da planura, "contemplação de um ambiente de vozes difíceis numa atmosfera que é quase pensamento, onde a poesia da meseta de San Juan de la Cruz se povoa de cedros e de fontes, e se torna possível na mística espanhola esse ar oriental, cervo vulnerado que assoma, ferido de amor, pelo outeiro".

Na veiga, o velho bairro muçulmano de Hara Alchama apertando-se de encontro à Mezquita Mayor e subindo a colina suave do Albayzín, Granada emergente, mundo de vidas duras de suor, de esterco e de miséria, amanhando a terra dos outros, os olhos sempre postos no chão. Em reverência nascida do medo.

Fronteira avançada do Islão, mas isolada da grande nação árabe por montanhas, mares e desertos, a Granada muçulmana sossobrou ao antiquíssimo projecto cristão de reconquista da terra ao crescente ímpio, fortalecido pela ideia renascentista de que ser mais poderoso é o único método para um povo se proteger face à razão de outro Estado.

Isabel e Fernando, os Católicos, vertebraram a Espanha, unificando-a, a partilha do mar oceano, a raia vaticana de Tordesilhas, tornando possível o périplo do mundo perfeito, o Paraíso das Américas ficando a um passo dali. O reino onde o sol nunca iria esconder-se assumia-se como a maior potência da Terra, e Granada, símbolo da vitória cristã sobre Mafoma, aceitou ser a sua cabeça, a cidade enchendo-se de artistas de toda a parte, levantando obras grandiosas, produto da troca espúria da fé dos conquistadores pelo ouro e pela prata dos índios do paraíso a catedral massiva, feita quase fortaleza, a Capilla Real, sepulcro belíssimo de suas magestades, os templos de Santa Ana, São Mateus, São Miguel, a Universidade, entre mais, marcas do domínio do hemisfério, mensagens de força expressiva aprofundando o poder do poder.

Belos, mas mortais, os dois mundos de Granada, ideologias invioláveis, a religião construindo molduras imóveis de comportamentos, o alfanje e a fogueira sempre à mão, não curaram da prepotência, da arbitrariedade, da injustiça e do profundo desequilíbrio do ter. De tanto orarem a deus, perderam a dimensão da vida, e a cidade, desaparecido o fausto muçulmano e emurchecido o fanatismo católico, permaneceu encerrada, "túmulo de neve e mortalha ao sol, esqueleto gigante de sultana gloriosa", entre a veiga searas e vergéis, olivais de prata, álamos chorosos e lânguidos, ciprestes negros e esguios que se agitam docemente na brisa, a névoa apagando os fundos indefinidos e sonolentos, o dorso de réptil dos montes no horizonte e os cumes da Sierra, turquesa imensa beijada pela lua, com alma de inverno eterno que uma névoa quase transparente agiganta, "procissões de pinheiros despenhando-se no abismo", as folhas bailando ao sopro de um vento forte de lendas e de contos de lobos; rios de neve, infância descuidada, juventude inquieta, rugindo nos precipícios, corrida de vertigem em busca da horizontalidade da planura, tristezas antigas do Darro mourisco "onde remam os suspiros", águas que já não ouvem as harmonias árabes do Allahu akbar do muecin chamando à oração e da guzla dos pátios da Alhambra contorcendo-se ao compasso da flauta, rio de romance, de lírios e de violetas que agora chora no túnel absurdo em que o esconderam, águas do Genil, guardadas por choupos, "rio cristão e trabalhador", valente e guerreiro, corrente de sangue, a alma hoje parada para regar as rosas, os cravos e os jasmins.

Na curva tranquila de um seio enorme que a Sierra desprendeu dos cumes nevados, a cidade mourisca, morena e quente, a cidade das fontes, magnífica, Albayzín, casario branco aconchegando-se como se um remoinho o tivesse aspirado assim; ruas de "conventos de clausura perpétua", brancos e ingénuos, torres e cúpulas estriadas, verticais, campanários chãos, cármenes orientais, casa, horta e jardim; vielas tenebrosas, "aqui e ali os ecos de lendas de defuntos e de fantasmas invernais", o Albayzín fantástico da superstição, dos amuletos, dos signos cabalísticos, das almas penadas, de nigromantes e de bruxas, de prostitutas velhas em maus olhados entendidas, braços caídos, cabelos desgrenhados, abandono à sorte, "crença antiga num destino verdadeiramente muçulmano"; ruas de serenatas e de procissões que sentem as melodias prateadas do Darro e da folhagem sussurrante dos bosques distantes da Alhambra, e sempre ... sempre, o ar prenhe de ritmos ciganos, canções desesperadas, gargantas e guitarras dolentes, blasfémias eternas, orações permanentes.

Vindo não se sabe donde, procela urgente de Maio bético, "um grito que divide a paisagem em dois hemisférios ideais, mais fundo que todos os mares que rodeiam o mundo e que o coração que o cria e a voz que o canta, trino quase de pássaro e de galo na madrugada". Depois ... o silêncio, impressionante e medido, de onde, quase imperceptível, brota uma melodia tímida e frágil, balbuceio perfeito, ondulação de encanto que se adensa e se perde na linearidade do tempo, que se escapa das mãos e se afasta "até um ponto de aspiração comum e paixão perfeita onde a alma mais dionisíaca não logra desembarcar", siguiriya gitana, de cor espiritual, poemas de amor e morte, sem paisagem, nascidos da noite, melodia de povos orientais, a pureza primitiva na boca da Pena, a cantadeira, tez morena, que quer e não quer porque pode querer," sapatos verdes que lhe apertam o coração", e na guitarra, madeira de barca grega e crinas de mula africana que à noite se transforma em manancial, acordes de fundo comentando a lírica das coplas.

Solitária e pura, Granada não pode sair da sua casa como as cidades do mar e dos grandes rios que viajam e regressam enriquecidas com o que viram. E os ecos da voz que mantém erecto o tronco do cantaor do flamenco, "um falar de coisas de gente espigada e morena, da vida que se abre e se esgota num momento", só podem erguer-se livres no seu porto natural de estrelas, com eles levando a imagem de fogo da bailadora, "carne toda em carne viva, floresta densa de gestos que são vida e agonia, os dedos pisando a terra com muscular inteireza", o silêncio da guitarra subitamente devolvendo-a à imobilidade de estátua. Como começara.

 

NOTA Na elaboração desta perspectiva foi fundamental a leitura dos seguintes textos:

De Federico García Lorca

 

Obras Completas I (Poesía):

  . Introducción, pp. 9-28

. Prólogo, pp. 29-51

. Poema del cante jondo (Agosto Novembro 1921)

. Poema de la siguiriya gitana, p.305

. Paisaje, p.306

. El grito, p.307

. El silencio, p.308

. El paso de la siguiriya, p.308

. Después de pasar, p.309

. Y después, p.309

. Primer romancero gitano (1924 1927)

. La casada infiel, p.424

. San Miguel. Granada, p.427

. Canciones (1921 1924)

. Granada y 1850, p.403

Obras Completas III (Prosa):

. Conferencias

. Arquitectura del cante jondo (versão definitiva lida em 1930, em La Habana, Cuba), pp.33-57.

. Paraíso cerrado para muchos, jardines abiertos para pocos. Un poeta gongórico del siglo XVII (lida pela primeira vez em Granada, em 17 de Outubro 1926), pp.78-87.

. Como canta una ciudad de noviembre a noviembre (Buenos Aires, 26 de outubro 1933), pp. 137-149.

. Juego e teoría del duende (Buenos Aires, 20 de Outubro 1993), pp. 150-162

. Alocuciones

. Alocuciones argentinas (Buenos Aires, 1935), pp. 260-268

. Semana Santa en Granada (Abril 1936), pp. 271-274

Obras Completas IV Primeros escritos

. Elegías

. Granada: elegía humilde (1919), pp. 37-38

. Prosa

. La montaña (1918), pp. 85-88

. Amanecer de verano (1918), pp. 121-122

. Albayzín (1918), pp. 122-126

. Canéfora de pesadilla (1918), pp. 126

. Sonidos (1918), pp. 128-131

. Puestas de sol verano (1918), pp. 131-132

. Puestas de sol invierno (1918), pp. 132-133

. Poesía

. El Dauro y el Genil (Junho 1918)pp. 394-399

De João Cabral de Melo Neto

. Estudios para una bailadora andaluza, pp. 147-154

. Habitar el flamenco, pp. 231

. A Antonio Mairena, cantador de flamenco, pp.264

BIBLIOGRAFIA

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. EUTÍMIO MARTÍN (Ed.). Federico García Lorca Antología Comentada (I Poesia). Madrid: Ediciones de la Torre, 1988.

. EUTÍMIO MARTIN (Ed.). Federico García Lorca Antología Comentada (II Teatro e Prosa). Madrid: Ediciones de la Torre, 1989.

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. LORCA, F. G.. Poesia Obras Completas I. Barcelona: Círculo de Lectores, 1996.

. LORCA, F. G.. Prosa Obras Completas III. Barcelona: Círculo de Lectores, 1997.

. LORCA, F. G.. Primeros Escritos Obras Completas IV.Barcelona: Círculo

de Lectores, 1997.

. MAZAHÉRI, A.. A Vida Quotidiana dos Muçulmanos na Idade Média (Séc.X

- Séc. XIII). Lisboa: Edição "Livros do Brasil", s/ data.

. MELO NETO, J.C.. A la Medida de la Mano. Salamanca: Ediciones

Universidad de Salamanca, 1994.

. REMESAL, A .. 1494 La Raya de Tordesillas. Junta de Castilla y León -

- Consejería de Cultura y Turismo, 1994.

. TUBERVILLE, A.S.. A Inquisição Espanhola. Lisboa: Portugália Editora -

- Colecção "O Livro de Bolso", 22. S/ data.

*Professor - Coordenador da ESEV

SUMÁRIO