TRANSUMÂNCIA

UMA FORMA DE PASTOREIO EM VIAS DE EXTINÇÃO

AMÉRICO OLIVEIRA*

FILOMENO SILVA**

 

O pastoreio funde as suas raízes em tempos imemoriais. Desde o Neolítico, uma vez conseguida a domesticação, o género humano orienta a guarda, criação e reprodução dos animais recorrendo a técnicas adequadas, aproveitando os pastos ao ar livre com o objectivo de obter do gado apascentado diversos produtos.

Na Península Ibérica pôde observar-se desde tempos recuados movimentos naturais e sazonais de gados herbívoros que abandonam o território de origem para se alimentarem de pastos frescos em solos de outras zonas. Esta forma de pastoreio, conhecida por Transumância, consiste fundamentalmente no deslocamento periódico de gados entre dois regimes determinados de clima diferente.

As características oro-climáticas da Península permitem aos gados utilizar os pastos de forma alternativa e sazonal. Aliás, a elevada altitude média e os contrastes entre as regiões atlânticas, continentais e mediterrâneas favorecem mais o pastoreio migratório do que o sedentário.

Sabe-se pouco da história, evolução, culturas e géneros de vida ligados a esta forma de relação do homem com o meio. Supõe-se que as mais primitivas deslocações remontem à época pré-romana, pela descoberta de vestígios de trilhos através dos quais circulavam os rebanhos.

Há quem pretenda demonstrar que a Transumância dos tempos modernos é, simplesmente, um prolongamento daqueles pretéritos e incipientes movimentos que não passariam de deslocamentos precários de curto alcance.

Durante o processo de romanização, as leis reconheciam a Transumância e protegiam as vias pastoris, as quais incluíam lugares convenientes para alimentar os rebanhos. Na época visigótica foram, também, tomadas medidas de protecção.

Foi na Idade Média que assumiu maior importância devido à difusão que atingiu. O séc. XII foi um período chave na história da Transumância, caracterizado pelo notável incremento do número de cabeças de gado.

Porém, é no séc. XVIII que se vive a época mais brilhante, devido à procura de lã de qualidade nos mercados internacionais.

Até finais do século passado, o fenómeno mantém-se pujante em toda a Península. A partir de então, assiste-se ao seu declínio generalizado, ainda que de uma forma muito desigual, consoante as regiões.

De acordo com estatísticas recentes, regista-se em Espanha uma forte diminuição dos efectivos pecuários envolvidos em movimentos transumantes desde há três décadas. Em certas montanhas, a prática foi totalmente abandonada, enquanto noutras a decadência é notória cada ano que passa.

Como causas desde declínio podem apontar-se as seguintes: envelhecimento da população activa, dificuldade de recrutamento de pastores, diminuição do número de cabeças de gado, modernos sistemas de estabulação, um certo individualismo dos criadores, os elevados custos e a nova orientação da P.A.C.

As longas viagens do gado transumante, que em Espanha chegavam a atingir largas centenas de quilómetros, passaram a fazer-se de camião ou de comboio, em virtude das vantagens de ordem económica e comodidade que estes meios de transporte oferecem. São escassos os rebanhos que na actualidade se deslocam a pé através das antigas canadas, cujo estado de conservação é muito deficiente, tendo até desaparecido em certos troços.

Estas antigas vias pecuárias constituem um valioso património histórico-cultural, a merecer revitalização.

Em Portugal, a Transumância conheceu, em tempos recuados, certa pujança. No Verão, praticava-se das terras baixas da bacia do Mondego para as serras da Estrela e de Montemuro. No Inverno, fazia-se das terras altas da Estrela para regiões mais quentes. Eram as "invernadas", que levavam os rebanhos para os campos do Mondego, para a Idanha e para o vale do Douro onde a folha da vinha servia como alimento.

Praticavam-se assim dois tipos de Transumância: a estival, ou ascendente, caracterizada pela deslocação dos rebanhos até aos planaltos serranos onde abundam pastos verdejantes durante o Verão; por sua vez, no Inverno, face à escassez de pastos motivada pelas condições desfavoráveis do clima, os rebanhos desciam da serra para pastos em regiões temperadas. Era a Transumância invernal, ou descendente.

Na actualidade, apenas um rebanho que não atinge o milhar de cabeças, na sua maioria constituído por ovinos, mantém viva a tradição de, anualmente, por alturas do S. João, iniciar uma caminhada desde Barbeita, nos arredores de Viseu, localidade de reunião dos efectivos, até à serra de Montemuro, onde permanece até meados de Agosto.

Ainda há pouco mais de trinta anos, cifravam-se em 12 o número de rebanhos que subiam ao Montemuro em busca das pastagens viçosas que a serra oferece por alturas do estio.

Desde então, a decadência acentuou-se, restando apenas um rebanho que, graças à persistência de três homens, faz com que uma antiquíssima prática, com origem nos tempos de Viriato ( segundo a crença popular ), ainda não se tenha extinto.

Cremos que, se forem tomadas medidas que visem a revitalização desta forma de pastoreio, será possível manter viva uma tradição arcaica cuja origem se perde nos tempos.

Nesse sentido, e graças ao apoio do Pronorte - Sub-Programa C, a Associação para a Defesa da Cultura Arouquense, em parceria com o Instituto Politécnico de Viseu, vai realizar no ano que se avizinha, em data a anunciar oportunamente, um colóquio, para debate de todas as grandes questões quer sejam as do passado, quer as do presente da Transumância.

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* Licenciado em Geografia. Investigador. Ambientalista.

** Licenciado em História. Investigador. Coordenador de Acções de Sensibilização Ambientalista.

SUMÁRIO