«OS DEUSES DEVEM ESTAR LOUCOS»

ANA PAULA CARDOSO *

 

Neste espaço de diálogo, em que se fala da vida, ou de pequenas fracções dela, onde, com a espontaneidade e a natural fluência das conversas mais aprazíveis, podemos trocar pontos de vista, iremos procurar partilhar algumas reflexões à margem do filme «Os deuses devem estar loucos».

Este filme cómico não é, nem recente, nem um clássico detentor de recordes de bilheteira, mas, nem por isso, é menos aliciante e menos provido de matéria de reflexão - tal como em muitas ocasiões da vida, nem sempre as situações mais espectaculares, mais sofisticadas, são aquelas que mais satisfação nos proporcionam, ou aquelas que, realmente, nos fazem crescer mais: um breve olhar; uma palavra oportuna, um aceno espontâneo, um sorriso franco, são, por vezes, mais eloquentes do que um grande discurso.

Trata-se de um filme interessante por diversas razões, de que mencionaremos apenas algumas: por proporcionar um espaço de entretenimento e de prazer, conduzindo-nos às deslumbrantes paisagens africanas, para um contexto espacio-temporal totalmente diferente do nosso; pelo próprio enredo do filme, pelas situações caricatas com que nos confronta, a cada passo, e que são motivo de saudáveis gargalhadas; e, principal motivo desta nossa eleição, pelas ocasiões de reflexão que proporciona a respeito de nós, dos outros, e de como reagimos em relação aos imprevistos e às situações novas, à mudança, afinal.

O filme tem início no deserto do Kalahari, no Botswana, junto à Africa do Sul, numa pacata e semi-desértica paisagem, coberta por uma vegetação arbórea esparsa, mostrando uma cena da vida quotidiana de um grupo de bosquímanos(1) que decorre calmamente.

Sobrevoando esse local, uma avioneta, de onde um dos seus tripulantes lança, inadvertidamente, uma garrafa de Coca Cola - daquelas de vidro, bojudas no meio e estreitas no gargalo e com as letras da marca bem impressas - símbolo universal da moderna civilização de consumo deste final de século.

Por perto, brinca um grupo de crianças. Com a curiosidade que lhes é característica, deslocam-se, rapidamente, ao local, a fim de observarem e apanharem o estranho objecto. De início, a garrafa faz as delícias das crianças e dos adultos: apreciam-na, viram-na, reviram-na, inventam-lhe múltiplas e variadas utilidades para o seu uso, e divertem-se com a sua presença. No entanto, passado algum tempo, esta simples e inofensiva garrafa de Coca-Cola começa a ser disputada e a tornar-se alvo de sérias querelas no seio do grupo, despertando sentimentos de posse e invejas.

É, nesta altura, que entra em acção o chefe da tribo, homem sábio e diligente, movido por um genuíno interesse em resolver a discórdia criada pela introdução desse objecto estranho, meio natural/meio artificial, na vida sossegada desse grupo. Porque motivo teria sido este objecto lançado dos "céus"? Porventura, teria sido um acto não intencionado, um descuido por parte dos "deuses"! Só assim seria possível entender este facto inesperado. Haveria, pois, que tomar uma resolução que pusesse termo às discórdias e conflitos suscitados por esse mal-avindo objecto ou "Coisa má", como o designavam.

Num rasgo de intuição, o chefe decide ir, pessoalmente, entregar o objecto da discórdia aos "deuses" supremos - de onde com toda a certeza viera, não se sabe porquê, nem como - mesmo que para isso tenha que atravessar o deserto e arriscar a própria vida. Está, pois, tomada a decisão e criado o argumento que irá sustentar a acção do filme.

O filme narra, então, a epopeia dessa longa e conturbada viagem do chefe bosquímano, repleta de encontros com novas e inesperadas situações, que este procura entender à sua maneira, com os seus próprios "olhos culturais". Assim, fica muito surpreendido quando encontra seres de pele muito clara e, inclusivé, acha assustadora e desprovida de interesse, uma mulher loira e despida. Diverte-se também imenso ao contactar com as modernas tecnologias da Sociedade Ocidental e atribui-lhes poderes mágicos. A trama vai-se desdobrando na sucessão de um sem número de "novas" e hilariantes situações que este chefe enfrenta sempre com um sorriso e cândida expressão no rosto.

Rimo-nos muito deste ingénuo bosquímano, tão radicalmente diferente de nós a vários níveis: no seu aspecto físico; na linguagem que utiliza, caracterizada pela emissão de um certo número de sons semelhantes a «cliques»; na forma de "ver" o mundo que o rodeia, interpretando de uma maneira sui generis as situações mais triviais; nas suas convicções; nas suas atitudes e comportamentos.

Esquecemo-nos, assim, por alguns momentos, de que nós próprios temos, também, dificuldades em compreender realmente os outros, ou seja, aqueles que não partilham a nossa maneira de estar, que não têm a mesma visão do mundo, nem semelhantes aspirações e expectativas. Afinal, também nós, olhamos o mundo tomando como ponto de referência a nossa própria cultura; atribuímos, de igual modo, aos fenómenos significados que nos são familiares; formulamos, a respeito dos outros, intenções e objectivos, projectamos fantasias que, afinal, só fazem parte do nosso imaginário.

No final de um conjunto de peripécias, o filme termina, como não poderia deixar de ser, com um final feliz. O chefe bosquímano alcança, por fim, o lugar aonde vivem os "deuses": o cimo de um montanha, do alto da qual se avista um imenso manto, fino e branco, de nuvens, a perder-se no horizonte, num cenário verdadeiramente singular.

Tem, finalmente, a oportunidade de lançar para bem longe o objecto da discórdia. Satisfeito por ter cumprido o seu objectivo, pode agora regressar, convencido que a vida do seu grupo irá voltar à tranquilidade do que era antes. Na convicção da sua limitada percepção, acredita que tudo se resolveu. Não lhe ocorre que como essa simples e pequena garrafa de vidro existem tantos outros objectos oriundos de uma civilização que vive ali mesmo às portas do deserto do Kalahari, cuja influência na vida desse grupo irá certamente continuar a fazer-se sentir, a um ritmo cada vez maior.

Talvez pensemos - Que ridículo! Que falta de lógica! Mas é, no entanto, isso mesmo que nos leva a rir do filme. Não nos apercebemos, se calhar, que nos estamos a rir de nós próprios, da imperfeição dos nossos raciocínios, das nossas opiniões pouco fundamentadas, das nossas prioridades quantas vezes invertidas, sem nos preocuparmos, por um momento apenas, em questionar a sua validade e pertinência.

Mas, afinal, isto conduz-nos também a uma outra questão que tem a ver com a forma como encaramos as situações "novas" e os inevitáveis efeitos que estas provocam em nós e nos outros. A garrafa de Coca-Cola é a este título sugestiva, pois representa um elemento novo, introduzido artificialmente na vida de um grupo, que vai implicar alterações na vida social e suscitar as mais diversas reacções.

O chefe bosquímano procura resolver os conflitos resultantes dessa nova e inesperada situação seguindo os seus próprios ditames e os seus esquemas conceptuais de compreensão da realidade. Procura, antes de mais, eliminar o elemento causador dessa perturbação, deixando antever a sua crença na ajuda dos "deuses" para a resolução dos problemas. No fundo, face a um estímulo de mudança, ele reaje de uma forma algo exagerada, procurando negar a existência desse estímulo e desejando que tudo permaneça como dantes.

Porém, se reflectirmos um pouco, não é isto que fazemos muitos de nós na nossa cultura quando somos confrontados com situações de mudança e procuramos a todo o custo ignorá-las, permanecendo tal como somos, numa tentativa desesperada de evitar esses imperativos de mudança? Não temos, também nós, dificuldades em lidar com essas mudanças, cada vez mais frequentes e imprevistas, que a cada passo se sucedem na sociedade? Não manifestaremos semelhante atitude de rejeição face a elementos que, de alguma forma, podem abalar as nossas crenças, as nossas certezas e alterar o rumo das nossas vidas?

Com efeito, rir é muito salutar! Mas pode ser ainda mais, se for também ocasião de reflexão e crescimento pessoal. E crescer significa, aqui, perceber as nossas fraquezas, os nossos limites, e despertar para a necessidade de aceitação do(s) outro(s), aprendendo, também, a tolerar as suas imperfeições.

Assim, a fruição deste momento lúdico, poderia tornar-se numa ocasião de superação pessoal e de consciencialização da unidade que constituímos enquanto seres da mesma espécie, apesar das diferenças. Esta atitude daria, com certeza, um colorido muito especial à nossa existência e ajudar-nos-ia a enfrentar os inquietantes desafios do futuro.

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* Professora Adjunta da ESEV

1 Boximanes, ou Bosquímanos, é a designação atribuída pelos holandeses aos membros da cultura Koisan ou San da África Meridional, significando originariamente "homens do mato" ou bosjesmannen (Cf. CAMPBELL, B. - Ecologia Humana, Lisboa: Ed. 70, 1983, pp.160 e ss).

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