UM desCONTO DE NATAL

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PAULO MEDEIROS *

 

Era uma vez uma aldeia, uma aldeia igual a tantas outras, bonita e onde tudo tinha um toque de magia e de cor, bem patente nos espaços arquitectónicos que albergavam os seus ilustres habitantes.

Todos os dias eram dias de festa, onde qualquer insignificância era motivo para o povo sair à rua e comemorar. Ele foi o europeu de futebol, ele foi a universidade, enfim, um sem número de razões sem a mínima importância que deixava este povo quase à beira da exaustão de tanta alegria.

Mas era pelo Natal que na aldeia os festejos atingiam os seu ponto alto nomeadamente com a decoração das muitas rotundas que a circundavam. Umas, maiores, outras, nem por isso, ficavam engalanadas para receber os milhares de visitantes que por esta altura ali se deslocavam.

Mas este ano havia um acréscimo de responsabilidade, a televisão iria estar presente, coisa que nunca tinha acontecido antes, para fazer a cobertura deste acontecimento tão importante para a aldeia, o que levou os seus habitantes a atingir um estado de entusiasmo e ansiedade que os dias pareciam não passar. E a comissão de festas, dessa nem se fala.

Pondo de lado todo este clima de ansiedade, um facto é que os dias iam passando e o grande momento estava ali à porta. Era tempo de acelerar as coisas. Falaram com os "decoradores" das rotundas, principalmente com os "abrilhantadores" da rotunda principal , aquela por onde entravam os visitantes que vinham da capital, tudo gente letrada e com um sentido estético acima da média, para no dia das filmagens terem a sua rotunda pronta mas, devido aos factores atrás referidos, havia que ter cuidado.

Depressa chegou o tão esperado dia, notava-se um movimento fora do normal, muita gente, só crianças eram mais de 700, e das vinte e tal rotundas que a aldeia tinha, apenas duas estavam prontas no dia marcado, a principal e outra, e toda a aldeia estava radiante.

Os carros do canal televisivo tinham vindo no dia anterior, à noite, e logo fizeram as filmagens. Das rotundas, nem sinal. "Se as filmagens são hoje vamos ter isto pronto amanhã". Normalíssimo.

Ainda bem, pois a jóia da coroa da aldeia tinha sido enfeitada com uns embrulhos horríveis, umas prendas com mais de três metros de altura e, pior do que isso, coloridas e com laços enormes a piscar. Estavam todas metidas no saco do Pai Natal que estava sorridente à beira da rotunda a ver os carros a passar.

 

Foi logo eleita a pior rotunda da aldeia por um júri credível e conceituado. Era justo, mais sabendo que nenhuma das outras estava pronta. A aldeia estava envergonhada e as reclamações não paravam de chegar à comissão de festas.

Envergonhado e farto de ser maltratado por todos que por ali passavam, o Pai Natal resolveu muito discretamente pôr-se à boleia. Estava farto de ali estar.

Bem, ao Pai Natal deram boleia, mas teria que ir de mãos a abanar porque aquelas prendas além de serem horríveis, eram demasiado pesadas para serem transportadas. Nunca mais foi visto por estas paragens.

Tudo acalmou, porém, quando as outras rotundas começaram a ficar prontas, coisas lindas de morrer, natalícias, frescas e com muita imaginação. Planetas, estrelas, coisas.... Tudo estava a ficar como o previsto, se não fossem aquelas prendas horríveis...

Havia que fazer qualquer coisa. Reuniu-se de emergência a comissão de festas e passadas quatro horas houve fumo branco.

Desviar o trânsito que vem da capital, foi solução encontrada, ficando a entrada principal da aldeia destinada a outra rotunda que não aquela. Brilhante, assim já não haveria tantos automóveis a circular por ali, quem sabe, sujeitos a acidentes.

E assim foi.

Apenas por ali andavam pessoas a pé ultimando as suas compras de Natal, e eis que, do meio de tantas pernas, sacos e embrulhos que por ali andavam de um lado para o outro, surge um pequenito, não tinha mais de 11 anos, muito sujo e meio descalço. O único brilho nos seus olhos vinha do reflexo das luzes a piscar nos laços das prendas horríveis e ia sonhando: como eu gostava de um dia receber uma prenda daquele tamanho.

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* Técnico Superior do ISPV

SUMÁRIO